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Acta Amazonica

versão impressa ISSN 0044-5967

Acta Amaz. vol.45 no.2 Manaus abr./jun. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/1809-4392201400974 

Articles

Parasitismo em tambatinga (Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus, Characidae) cultivados na Amazônia, Brasil

Parasitism in tambatinga (Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus, Characidae) farmed in the Amazon, Brazil

Márcia Kelly Reis DIAS 1  

Ligia Rigôr NEVES 2  

Renata das Graças Barbosa MARINHO 1  

Douglas Anadias PINHEIRO 3  

Marcos TAVARES-DIAS 1   2   * 

1 Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Tropical, Rodovia Juscelino Kubitschek, km 5, 2600, Universidade, 68903-419, Macapá, AP, Brasil.

2 Embrapa Amapá, Laboratório de Sanidade de Organismos Aquáticos, Rodovia Juscelino Kubitschek, km 5, 2600, Universidade, 68903-419, Macapá, AP, Brasil.

3 Universidade Estadual de Maringá (UEM), Programa de Pós-Graduação em Zootecnia (PPZ), Avenida Colombo, 5.790, Campus Universitário, 87020-900, Maringá, PR, Brasil.

RESUMO

Os estudos sobre os parasitos e doenças parasitárias são de grande interesse para a piscicultura, uma vez que podem afetar o crescimento dos peixes. O objetivo deste estudo foi investigar a fauna parasitária e relação parasito-hospedeiro em Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus (tambatinga) de 10 pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia. Dos 503 peixes examinados, 63,1% estavam parasitados e 49.299.189 parasitos foram coletados, tais como Ichthyophthirius multifiliis, Piscinoodinium pillulare, Trichodina sp., Tetrahymena sp., Anacanthorus spathulatus, Linguadactyloides brinkmanni, Mymarothecium boegeri, Notozothecium janauachensis, Procamallanus (Spirocamallanus) inopinatus, Neoechinorhynchus buttnerae e Perulernaea gamitanae. Porém, a dominância foi de I. multifiliis, seguida de P. pillulare e monogenoideas, parasitos que apresentaram padrão de dispersão agregado juntamente com P. gamitanae. Houve correlação positiva do comprimento dos hospedeiros com a prevalência parasitária total, bem como do tamanho dos peixes com a abundância de I. multiliis, P. pillulare, monogenoideas e P. gamitanae, mas os níveis infecção não influenciaram o fator de condição relativo dos hospedeiros. A ocorrência de ectoparasitos foi favorecida pelo manejo e pobre condição sanitária das pisciculturas, mas a presença de espécies de endoparasitos foi devido ao abastecimento dos viveiros com água provenientes de corpos de água naturais. Este foi primeiro relato de I. multiliis, P. pillulare, Trichodina sp., Tetrahymena sp., A. spathulatus, N. janauachensis, N. buttnerae e P. (S.) inopinatus para tambatinga no Brasil.

Palavras-Chave: Agregação; cultivo; parasitos; peixe; sanidade

ABSTRACT

The studies on parasites and parasitic diseases are of great interest to fish farms, because both can affect the performance of the fish. The aim of study was to investigate the parasitic fauna and parasite-host relationship in Colossoma macropomum x Piaractus brachypomus (tambatinga) of 10 fish farms from the Amapá State, in the Amazon. Of the 503 fish examined 63.1% were parasitized, and a total of 49,299,189 parasites were collected, including Ichthyophthirius multifiliis, Piscinoodinium pillulare, Trichodina sp., Tetrahymena sp., Anacanthorus spathulatus, Linguadactyloides brinkmanni, Mymarothecium boegeri, Notozothecium janauachensis, Procamallanus (Spirocamallanus) inopinatus, Neoechinorhynchus buttnerae and Perulernaea gamitanae. Ichthyophthirius multifiliis was the dominant species, followed by P. pillulare and monogenoideans; these two parasites and P. gamitanae showed an aggregated dispersion pattern. We found a positive correlation between host length and the overall parasitic prevalence, as well as between fish size and the abundance of I. multiliis, P. pillulare, monogenoideans and P. gamitanae, but infection levels did not affect the relative condition factor of hosts. Management, low environmental quality and poor sanitary conditions of the fish farms favored the occurrence of ectoparasites, but the presence of endoparasites was due to supplying the ponds directly with water of natural water bodies. This is first report of I. multiliis, P. pillulare, Trichodina sp., Tetrahymena sp., A. spathulatus, N. janauachensis, N. buttnerae and P. (S.) inopinatus for tambatinga in Brazil.

Key words: Aggregation; culture; parasites; fish; sanity

INTRODUÇÃO

A aquicultura é o setor produtivo que mais cresce no mundo, em torno de 6,5% ao ano (Leung e Beates 2012). No Brasil, a aquicultura teve incremento de 31,1% em 2011 (MPA 2013), principalmente influenciada pela produção da piscicultura. Apesar da rica diversidade de espécies nativas brasileiras e domínio da reprodução de algumas dessas espécies de importância zootécnica, o cultivo de peixes híbridos tem espaço garantido nas pisciculturas de diversas regiões, influenciado por fatores zootécnicos mais favoráveis para a criação intensiva (Pinheiro et al. 1991; Hashimoto et al. 2012). Entre esses peixes estão o híbrido produzido a partir do cruzamento de Colossoma macropomum (tambaqui) com Piaractus brachypomus (pirapitinga), conhecido popularmente como tambatinga, que tem superioridade em relação às suas espécies parentais quanto a produtividade (Hashimoto et al. 2012). Pois esse híbrido apresenta crescimento rápido, rusticidade, tolerância às variações de temperatura e níveis de oxigênio (Silva-Acuña e Guevara 2002; Dias et al. 2012; Hashimoto et al. 2012). Além disso, como tem melhor rendimento de carcaça despertou grande interesse das indústrias de pescado. Consequentemente, a produção desse peixe híbrido vem crescendo, pois foi de 4.915,6 toneladas em 2010 e 14.326,4 toneladas em 2011, representando aumento de mais de 190% (MPA 2013).

No estado do Amapá, a tambatinga é o segundo peixe mais cultivado, depois do tambaqui, mas seu manejo inadequado ocorre em boa parte das pisciculturas, devido a pouca experiência dos piscicultores e falta de assistência técnica, levando ao baixo crescimento dos peixes e a perdas econômicas na produção (Tavares-Dias 2011; Silva et al. 2013).

Países tropicais sofrem proporcionalmente as maiores perdas na aquicultura devido ao rápido surgimento de doenças causadas por parasitos, quando em situações sanitárias precárias. Isso proporciona um menor tempo para mitigar as perdas se comparados aos países de clima temperado (Leung e Beates 2012). No Brasil, padrões epidemiológicos das doenças parasitárias em peixes cultivados são ainda desconhecidos, pois há poucos estudos sobre parasitoses, incluindo de tambatinga. Na Venezuela, Centeno et al. (2004) registraram infecções por Anacanthorus spatulatus (Monogenoidea), Trichodina sp., Epistylis sp. (Protozoa), Myxobolus sp. (Myxosporea) e Ergasilus sp. (Crustacea) para esse híbrido cultivado. No Brasil, Cohen e Kohn (2009) relataram a ocorrência de Mymarothecium boegeri (Monogenoidea) em dois indivíduos de tambatinga cultivados em Sobral (CE). Recentemente, Dias et al. (2012) registraram pela primeira vez a ocorrência de Linguadactyloides brinkmanni em tambatingas cultivados em Macapá, estado do Amapá. O objetivo deste estudo foi investigar a fauna parasitária e relação parasito- hospedeiro em híbridos tambatinga de 10 pisciculturas do estado do Amapá, região da Amazônia brasileira.

MATERIAL E MÉTODOS

No período de setembro de 2009 a abril de 2011, 503 espécimes de tambatinga C. macropomum x P. brachypomus (Characidae), sendo 208 alevinos e 295 peixes de engorda, foram coletados para análise parasitológica em 10 pisciculturas do município de Macapá, estado do Amapá. Essas pisciculturas apresentavam características e manejo diferenciados. Durante o período desse estudo, também foi acompanhado a mortalidade de peixes em cada piscicultura.

De cada peixe necropsiado foram examinados a boca, opérculos, brânquias e trato digestório. As brânquias foram removidas, fixadas em formol 5% e analisadas com auxílio de estereomicroscópio (SMZ 800N, Nikon, Tóquio, Japão) e microscópio (Eclipse E100, Nikon, Tóquio, Japão). O trato digestório removido foi examinado imediatamente em estereomicroscópio e os endoparasitos coletados e fixados. A metodologia empregada para coleta, fixação e preparação dos parasitos para identificação seguiu recomendações prévias (Eiras et al. 2006; Thatcher 2006). A quantificação dos protozoários e metazoários foi de acordo com Tavares-Dias et al. (2001a,b).

Os descritores parasitários usados foram os recomendados por Rohde et al. (1995) e Bush et al. (1997). Foi usado o índice de dispersão (ID) para detectar o padrão de distribuição (agregado, uniforme ou aleatório) de cada infracomunidade de parasito (Rózsa et al. 2000) com prevalência ≥10%. A significância do ID, para cada infracomunidade de parasito, foi testada pelo estatístico d (Ludwig e Reynolds 1988). O índice de discrepância (D), uma estimativa da disparidade existente entre a distribuição observada e uma distribuição uniforme do número de indivíduos das infracomunidades parasitárias foi calculado usando o software Quantitative Parasitology 3.0 (Rózsa et al. 2000).

Os dados de peso (g) e comprimento total (cm) foram usados para calcular a equação da relação peso-comprimento e fator de condição relativo (Kn) de peixes parasitados e não parasitados. Kn = Po/Pe, onde Po= peso observado e Pe= peso esperado obtido da relação peso-comprimento (Le-Cren 1951). A diferença nos valores do fator de condição relativo, entre peixes parasitados e não parasitados, foi comparada pelo teste de Mann-Whitney (U). O coeficiente de Pearson (r) foi usado para determinar possíveis correlações da abundância das infracomunidades de parasitos com comprimento, peso e Kn dos hospedeiros, bem como entre a abundância de monogenoideas com a abundância de I. multifiliis e P. pillulare (Zar 1999). A existência de correlação entre o comprimento total dos hospedeiros e a prevalência de infecção parasitária total foi testada usando o coeficiente de Pearson (r), com prévia transformação angular dos dados de prevalência (arco seno) e separação das amostras em 9 classes de comprimento (3,0-9,5cm; 9,7-14,5 cm; 15,0-19,5 cm; 20,0- 25,6 cm; 26,0-29,8 cm; 30,0-34,5 cm; 35,0-39,8 cm; 40,0-44,9 cm; 45,0-49,0 cm).

Em cada piscicultura, durante as coletas dos peixes, foram determinados o pH usando pHmetro digital (pH- 100, YSI, Brannum Lane, OH, USA), temperatura e níveis de oxigênio dissolvido usando oxímetro digital (DO-200, YSI, Brannum Lane, OH, USA). Para comparação desses parâmetros entre pisciculturas foi usada análise de variância (ANOVA), seguida pelo teste de Dunn, quando houve diferenças significativas (P<0,05).

RESULTADOS

Nos viveiros de cultivo das 10 pisciculturas os valores médios da temperatura e oxigênio dissolvido foram similares, porém esses níveis de oxigênio estiveram abaixo de 3mg L-1 na maioria das propriedades. Os valores médios de pH mostraram diferenças significativas (P<0,05) somente em viveiros de duas pisciculturas (Figura 1).

Figura 1 Parâmetros de qualidade da água nos viveiros de tambatinga em 10 pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. Média ± desvio padrão. * Indica diferenças pelo teste de Dunn (P<0,05). 

Os peixes foram cultivados em diferentes densidades de estocagem e apresentavam tamanhos variados, devido as diferentes fases de cultivo (alevinagem e recria). Assim, a prevalência parasitária total variou entre as pisciculturas investigadas (Tabela 1).

Tabela 1 Peso, comprimento médio (± desvio padrão) e número (N) de híbridos tambatinga coletados em pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. P: Prevalência parasitária total. 

Durante o período deste estudo, observou-se a mortalidade de cinco mil alevinos (± 5 cm) da piscicultura 4, mas nenhum peixe examinado estava parasitado. A mortalidade ocorreu após transporte inadequado durante horário (entre 12 e 14 horas) de temperaturas mais elevadas do dia e sem o uso de oxigênio.

Nas 10 pisciculturas investigadas, os peixes estavam parasitados por Ichthyophthirius multifiliis Fouquet, 1876; Tetrahymena sp.; Piscinoodinium pillulare (Schäperclaus, 1954) Lom, 1981; Trichodina sp.; Perulernaea gamitanae Thatcher e Paredes, 1985, Anacanthorus spathulatus Kritsky, Thatcher e Kayton 1979; Linguadactyloides brinkmanni Thatcher e Kritsky, 1983; Mymarothecium boegeri Cohen e Kohn 2005; Notozothecium janauachensis Belmont-Jégu, Domingues e Martins 2004; Procamallanus (Spirocamallanus) inopinatus Travassos, Artigas e Pereira, 1928 e Neoechinorhynchus buttnerae Golvan, 1956. As infecções por I. multifiliis foram similares em peixes de 70% das pisciculturas, enquanto parasitismo por P. pillulare não ocorreu em duas pisciculturas (Tabela 2). Baixa prevalência e intensidade de Trichodina sp. (prevalência= 5,2% e intensidade média = 1.220 ± 2.009 parasitos por peixe) e Tetrahymena sp. (P= 7,8% e IM = 505 ± 441 parasitos por peixe) ocorreram somente na piscicultura 5.

Tabela 2 Protozoários parasitos das brânquias de híbrido tambatinga em pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. PE: Peixes examinados, PP: Peixes parasitados, IM: Intensidade média, AM: Abundância média, ATP: Abundância total de parasitos. 

A prevalência de espécies de monogenoideas foi similar nas brânquias de híbridos tambatinga de 80% das pisciculturas, mas somente A. spathulatus parasitou peixes de todas as pisciculturas. Porém, M. boegeri ocorreu em peixes de 60,0% das pisciculturas, L. brinkmanni e N. janauachensis em 30,0% das pisciculturas (Tabela 3).

Tabela 3 Helmintos parasitos de híbridos tambatinga em pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. PE: Peixes examinados, PP: Peixes parasitados, IM: Intensidade média, AM: Abundância média, ATP: Abundância total de parasitos. 

Procamallanus (S.) inopinatus ocorreu no intestino de peixes de somente três pisciculturas e em baixa prevalência, intensidade média e abundância (Tabela 3). Porém, acantocéfalo N. buttnerae foi encontrado no intestino de peixes somente da piscicultura 4, com prevalência de 43,8% e intensidade média de 44 ± 39 parasitos por peixe.

Perulernaea gamitanae foi coletado somente nas brânquias e boca de peixes das pisciculturas 5 e 7. Em peixes da piscicultura 5 os parasitos foram observados na boca (P= 13,2% e IM = 3 ± 2 parasitos por peixe) e brânquias (P = 6,5% e IM = 2 ± 1 parasitos/peixe) dos peixes, mas em peixes da piscicultura 7 o parasitismo foi maior, tanto na boca (P = 53,4% e IM = 16 ± 12 parasitos por peixe) como nas brânquias (P = 34,5% e IM = 10 ± 6 parasitos por peixe). Houve dominância de I. multifiliis, seguido por P. pillulare e espécies de monogenoideas (Tabela 4) e padrão de distribuição agregado de parasitos, mas o índice de discrepância (D) indica uma maior agregação de P. pillulare e P. gamitanae (Tabela 5).

Tabela 4 Índices parasitológicos em híbridos tambatinga cultivados no estado do Amapá, Amazônia brasileira. SI: Sítio de infecção, PE: Peixes examinados, PP: Peixes parasitados, IM: Intensidade média, DP: Desvio padrão, AM: Abundância média, ATP: Abundância total de parasitos, DR: dominância relativa. 

Tabela 5 Índice de dispersão (ID), estatístico d e índice de discrepância (D) para híbridos tambatinga (N = 503) de pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. 

A relação peso-comprimento foi alométrica negativa (y = 0,0657x2,628; r2 = 0,841) para peixes não parasitados (y = 0,0294x2.8555; r² = 0,975) e parasitados (y = 0.0664x2.6251; r2 = 0,841), indicando maior incremento em massa corporal que em tamanho. Não houve diferença significativa (U = 22013.5; P = 0,233) entre o fator de condição relativo (Kn) de peixes parasitados (Kn = 1,011 ± 0,158) e não parasitados (Kn = 1,071 ± 0,561).

A abundância de monogenoideas, I. multifiliis, P. pillulare e P. gamitanae mostrou correlação positiva com o comprimento total, peso corporal e fator de condição relativo dos hospedeiros (Tabela 6). Foi observada correlação positiva do comprimento dos hospedeiros com a prevalência parasitária total (r = 0,571; P = 0,0001). A abundância de monogenoideas mostrou correlação positiva com a abundância de I. multifiliis (r=0,360; P = 0,0001) e P. pillulare (r = 0,228; P = 0,0001).

Tabela 6 Coeficiente da correlação de Pearson (r) entre a abundância de parasitos e os parâmetros corporais e fator de condição relativo (Kn) de híbrido tambatinga (N = 503) em pisciculturas do estado do Amapá, Amazônia brasileira. P: probabilidade. 

DISCUSSÃO

Em tambatinga cultivada no estado do Amapá houve dominância de ectoparasitos I. multifiliis, P. pillulare, monogenoideas e P. gamitanae. Porém, esse mesmo hospedeiro cultivado na Venezuela foi parasitado por A. spatulatus, Trichodina sp., Epistylis sp., Myxobolus sp. e Ergasilus sp (Centeno et al. 2004). Os peixes podem ser parasitados por diversas espécies de parasitos, os quais podem estar dispersos de forma diferente nos hospedeiros (Rohde et al. 1995; Moller 2006). A dispersão agregada de parasitos está relacionada principalmente a sua estratégia e reprodução direta, heterogeneidade dos peixes quanto à suscetibilidade aos parasitos e ao diferenciado sistema imunológico dos hospedeiros, de forma que esse padrão de agregação estabiliza a dinâmica da relação parasito-hospedeiro, controlando a população hospedeira (Moller 2006).

Em tambatinga de diferentes pisciculturas foram encontrados elevados níveis de infecções por protozoários I. multifiliis e P. pillulare, além de baixo parasitismo por Trichodina sp. e Tetrahymena sp. Os níveis de infecção por tais parasitos são, em geral, influenciados principalmente pelo manejo e baixas condições ambientais do cultivo (Banu e Khan 2004; Santos et al. 2013; Silva et al. 2013). A maioria das pisciculturas apresentou baixos níveis de oxigênio dissolvido na água e condição sanitária inadequada, o que favorece a prevalência de parasitos. Assim, houve correlação positiva da abundância de monogenoideas com a abundância de I. multifiliis e P. pillulare, ambos parasitos oportunistas (Tavares-Dias et al. 2001b; Silva et al. 2013). Porém, em nenhuma das pisciculturas investigadas os peixes apresentaram sinais clínicos de doenças, comprovando a propalada rusticidade desse híbrido no cultivo intensivo (Silva-Acuña e Guevara 2002; Dias et al. 2012; Hashimoto et al. 2012).

Embora A. spathulatus, M. boegeri, N. janauachensis e L. brinkmanni tenham sido encontrados parasitando as brânquias dos peixes deste estudo, somente A. spathulatus ocorreu em hospedeiros de todas as pisciculturas, enquanto M. boegeri ocorreu em 60,0% das propriedades investigadas e L. brinkmanni e N. janauachensis apenas em 30,0% delas. Porém, A. spathulatus foi o único monogenoidea parasitando as brânquias de tambatingas (n = 120) cultivadas na Venezuela (Centeno et al. 2004), e a prevalência de monogenoideas foi similar ao do presente estudo, mas para esse mesmo peixe (n = 2) cultivo em Sobral (CE) foi relatado somente a ocorrência de M. boegeri (Cohen e Kohn 2009). Tais diferenças são, portanto, devido ao baixo número de peixes examinados em Sobral.

Anacanthorus spathulatus é um monogenoidea patogênico que pode causar redução na capacidade respiratória dos peixes hospedeiros (Morais et al. 2009; Santos et al. 2013; Silva et al. 2013) dependendo dos níveis de infecção, assim como L. brinkmanni, o qual provoca reação inflamatória severa e grave hiperplasia acompanhada por hemorragias (Centeno et al. 2004; Thatcher 2006). Portanto, são necessárias medidas de controle desses parasitos e melhorias sanitárias, principalmente quando os peixes apresentarem infecções múltiplas como ocorreram neste estudo. Como os monogenoideas são ectoparasitos de ciclo de vida direto, sua reprodução é favorecida pela elevada temperatura e densidade populacional dos peixes, bem como pelos baixos níveis de oxigênio na água dos viveiros (Banu e Khan 2004; Modu et al. 2012), principalmente em regiões tropicais como a Amazônia onde as temperaturas são elevadas e constante durante todo o ano.

Perulernaea gamitanae ocorreu nas brânquias e boca dos peixes de apenas duas pisciculturas, mas o maior nível de parasitismo foi em peixes de uma das propriedades (piscicultura 7). Constatou-se que houve a transmissão desses ectoparasitos para uma outra piscicultura (piscicultura 5) que adquiriu tambaquis infestados com esse lerneídeo amazônico que possui especificidade parasitária. Esses resultados demonstram a grande importância da quarentena e cuidados profiláticos, geralmente negligenciados por boa parte das pisciculturas da região deste estudo (Tavares-Dias 2011; Silva et al. 2013), como também de outras regiões brasileiras. Porém, os níveis moderados de parasitismo por P. gamitanae em peixes deste estudo foram maiores que aqueles descritos para C. macropomum de pisciculturas de Rondônia (Godoi et al. 2012). Portanto, devido a todos esses resultados e o constante transporte de alevinos, entre as pisciculturas de produção de alevinos e recria no estado do Amapá, devem ser tomados cuidados sanitários adequados para evitar a transmissão de P. gamitanae para outras propriedades. Elevado parasitismo por esses lerneídeos causaram epizootia em alevinos de C. macropomum cultivados na Amazônia peruana, levando a perdas econômicas (Delgado et al. 2011), principalmente em peixes juvenis. Embora peixes deste estudo tenham apresentado elevada agregação parasitária, não ocorreu mortalidade pois eram peixes maiores e com boas condições corporais.

Procamallanus (S.) inopinatus ocorreu somente em tambatinga de três pisciculturas e em baixo nível de infecção, indicando baixa presença de hospedeiros intermediários no ambiente, como esperado em cultivo. Além disso, somente em peixes de uma das pisciculturas foi observado moderado nível de infecção por N. buttnerae (prevalência de 43,7% e intensidade média de 44,4 parasitos por peixe) quando comparado a alevinos de C. macropomum cultivados no estado do Amazonas, os quais apresentaram 100% de prevalência e intensidade média de 30 a 406 parasitos, que causou mortalidade devido a obstrução intestinal (Malta et al. 2001). Esse mesmo acantocéfalo também foi encontrado parasitando híbridos tambacu (prevalência = 12,5% e intensidade média = 18,5 parasitos por peixe) (Silva et al. 2013) da mesma piscicultura do presente estudo. Neoechinorhynchus buttnerae ainda não havia sido descrito infectando tambatinga, pois este é o primeiro registro. As espécies de Neoechinorhynchus são comuns em populações naturais onde há presença de hospedeiros intermediários. O ciclo de vida desses endohelmintos é complexo e tem uma espécie de ostracoide como hospedeiro intermediário primário (Martínez-Aquino et al. 2009). Larvas encontradas encistadas indicam que esse peixe pode ser hospedeiro intermediário para aquele parasito.

Apesar do parasitismo de híbridos tambatinga cultivados no estado do Amapá, o fator de condição relativo não foi influenciado, pois a maior abundância de I. multifiliis, P. pillulare, monogenoideas e P. gamitanae foi observada em hospedeiros maiores e com melhores condições corporais, assim os parasitos não foram patogênicos. Resultados similares foram relatados para C. macropomum cultivados quando parasitados por esses mesmos parasitos (Godoi et al. 2012; Santos et al. 2013). Porém, Pojmanska (1994) observaram que geralmente a abundância de espécies de protozoários é maior em peixes menores e os crustáceos ectoparasitos infectam peixes maiores, enquanto os monogenoideas parasitam peixes de todos os tamanhos, dependendo da espécie de dactilogirídeos.

CONCLUSÕES

Os resultados mostram que a prevalência de parasitos é influenciada pelo diferenciado manejo das pisciculturas no que se refere, principalmente, à densidade de estocagem dos peixes e quantidade da alimentação, pois em algumas propriedades esses permanecem por certo período sem qualquer alimentação balanceada (ração) ou são alimentados com ração estragada ou sem qualquer balanceamento. Portanto, a presença de ectoparasitos com ciclo de vida direto é favorecida pela pobre condição sanitária do ambiente de cultivo dos peixes. Embora a maioria das pisciculturas use corpos de água naturais (rio, igarapé e várzea) para abastecimento dos viveiros, a diversidade de endohelmintos é baixa, pois são parasitos com ciclo de vida complexo, dependente de hospedeiros intermediários contendo formas infectantes, que quando presentes no ambiente de cultivo podem ocorrer geralmente em baixa abundância. Esses dados parasitários e o padrão de distribuição indicam a necessidade de adoção de medidas profiláticas adequadas nas pisciculturas estudadas, para evitar perdas econômicas futuras devido a epizootias. Este é o primeiro relato desses protozoários, além de A. spathulatus, N. buttnerae, N. janauachensis e P. (S.) inopinatus para tambatinga no Brasil, e o terceiro registro de M. boegeri para esse hospedeiro.

AGRADECIMENTOS

Este trabalho foi desenvolvido de acordo com os princípios adotados pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA). Os autores são agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo suporte financeiro (Proc. 578159/2008-2) e bolsa PQ concedida a Tavares-Dias, M.

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Recebido: 09 de Março de 2014; Aceito: 19 de Setembro de 2014

* Autor correspondente: marcos.tavares@embrapa.br

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