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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

versão impressa ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. v.56 n.1 Rio de Janeiro  2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852007000100012 

ARTIGO ORIGINAL

 

Escala de atitudes frente ao uso de drogas: evidências de validade fatorial e preditiva

 

Attitudes toward drugs use scale: evidences of factor and predictive validity

 

 

Valdiney V. GouveiaI, *; Carlos Eduardo PimentelII; Emerson Diógenes de MedeirosIII; Rildésia S. V. GouveiaIV; Jane PalmeiraV

IDoutor em Psicologia Social pela Universidade Complutense de Madri
IIMestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
IIIMestrando em Psicologia Social na UFPB
IVDoutoranda em Psicologia Social na UFPB
VMestra em Psicologia Social pela UFPB

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: O presente estudo teve como objetivo conhecer evidências de validade fatorial e preditiva de uma medida de atitudes ante o uso de drogas em geral (EAAUD).
MÉTODO: Participaram voluntariamente 276 estudantes universitários de vários cursos, provenientes de uma universidade pública (94,2%) e outra particular (5,8%) da cidade de João Pessoa (PB). Estes tinham idade média de 21 anos (DP = 3,40; 93,5% eram de jovens de 17 a 25 anos), a maioria solteira (91%) e do sexo feminino (65,6%). Além de um conjunto de perguntas demográficas, os participantes preencheram a EAAUD. Esta compreende uma medida formada por quatro itens/adjetivos bipolares (positivo/negativo, gosto/desgosto, bom/ruim e desejável/indesejável) respondidos em escala do tipo diferencial semântico, de 9 pontos, variando de - 4 a + 4.
RESULTADOS: De acordo com a análise de componentes principais, um único componente emergiu, com todos os itens apresentando saturação acima de |0,40|; este teve valor próprio de 3,17, explicando 79,3% da variância total. Sua consistência interna (alfa de Cronbach) foi de 0,91. Por meio de regressão logística, comprovou-se que as pontuações na EAAUD predisseram significativamente a condição de ser um usuário de drogas, B = 0,17, Wald (1) = 8,45, p = 0,004.
CONCLUSÃO: Tais resultados indicam que esta medida reúne evidências de validade fatorial e preditiva, podendo ser empregada para conhecer o potencial envolvimento dos jovens com drogas. Não obstante, sugerem-se novas pesquisas com amostras maiores e mais diversificadas.

Palavras-chaves: Atitudes, drogas, jovem, medida.


ABSTRACT

OBJECTIVE: This study aimed at knowing evidences of factor and predictive validity of a measure of attitudes toward drugs use (ATDUS).
METHODS: Participants were 276 volunteer undergraduate students of several courses. They were of a public (94.2%) and other private (5.8%) university from João Pessoa city (Paraíba), with mean age of 21 years old (SD = 3.40; 93.5% were youths, with age ranging from 17 to 25). Most of them were single (91%) and female (65.6%). Moreover a set of demographic characteristics, they filled the ATDUS. It is composed by four item/adjective bipolars (positive-negative, like-dislike, good-nasty, and desirable-undesirable) rating in a semantic differential type scale of 9-points, ranging from - 4 to +4.
RESULTS: Only one component was observed according to the principal component analysis, with factor loadings above of |.40|. It showed an eigenvalue of 3.17, accounting for 79.3% of the total variance, with Cronbach’s alpha of .91. Logistic regression analysis suggested that scores on ATDUS significantly explained the condition of to be a drug user, B = .17, Wald (1) = 8.45, p = .004.
CONCLUSION:These findings support the evidences of factor and predictive validity of the ATDUS, which can be used to know the potential engagment of youths with drugs. However, new researches that consider large and diverse samples are also suggested.

Key-words: Attitudes, drugs, youth, measure.


 

 

INTRODUÇÃO

Shedler e Block (1990) definem o problema do uso e abuso de drogas entre pessoas jovens como "um dos maiores desafios de nossos tempos". Com efeito, o uso de drogas é considerado um problema de proporções mundiais. Segundo o relatório mundial do Escritório da ONU de combate às drogas e crimes (UNDOC, 2006), aproximadamente 200 milhões de pessoas da população com idades entre 15 e 64 anos consumiram drogas ilegais no ano passado; estima-se também que 2,7% da população mundial, na mesma faixa etária, usa drogas regularmente.

No Brasil, a realidade não é diferente. Galduróz et al. (2005) afirmam que existe no país o uso epidêmico de drogas, sendo os jovens os mais diretamente implicados (Carlini-Cotrim et al., 1989; De Micheli e Formigoni, 2000). Nas décadas de 1980 a 1990, diversos estudos foram realizados neste país com jovens estudantes (Carlini-Cotrim et al., 1989; Carlini et al., 1990; Galduróz et al., 1997), além daqueles com crianças de rua com histórico de envolvimento com uso de substâncias psicotrópicas (Carlini-Cotrim et al., 1988; Noto et al., 1998). Nessas oportunidades já se apontava para o aumento crescente e diversificado do consumo de tais drogas, realidade que foi claramente corroborada no estudo recente de Carlini et al. (2002). Esses autores fizeram um levantamento domiciliar acerca do uso de drogas psicotrópicas no Brasil, considerando as 107 maiores cidades do país, tendo participado 8.589 pessoas com idades de 12 a 65 anos. Os resultados revelaram um dado alarmante: aproximadamente 20% dos entrevistados afirmaram ter usado pelo menos uma droga ilícita em sua vida.

Tendo em vista essa realidade, parece justificável pesquisar quais variáveis são importantes para explicar e, conseqüentemente, combater ou controlar o uso de drogas. De fato, essa atividade vem motivando um número destacável de pesquisadores (Gouveia et al., 2005; Hawkins et al., 1992; Petraitis et al., 1995). Neste âmbito, uma das variáveis que tem recebido considerável destaque compreende as atitudes perante as drogas e, principalmente, o seu uso (Isacson e Bingefors, 2002; Petraitis et al., 1995; Simons e Carey, 1998; Simons e Gaher, 2004). Portanto, demanda-se conhecer algo mais acerca desse construto.

Atitudes ante o uso de drogas

As atitudes há muito têm sido empregadas para entender uma miríade de objetos sociais e disposições pessoais (Wicker, 1969), mas sua capacidade para predizer comportamentos continua sendo um foco de pesquisas na área (Ajzen, 2001). No caso das atitudes ante o uso de drogas, estas têm sido consistentes na predição do uso de drogas em geral (Hawkins et al., 1992; Petraitis et al., 1995; Simons e Carey, 1998). De modo semelhante, as atitudes ante o uso de álcool também predizem o uso de álcool (Petraitis et al., 1995; Simons e Gaher, 2004). Portanto, parece adequado assumir que o que os jovens pensam sobre as drogas, suas crenças sobre seus efeitos e seu consumo e o que experimentam quando usam drogas contribuem para definir um perfil subjetivo, positivo ou negativo, que determinará a ocorrência ou não de seu consumo. Desse modo, conhecer as atitudes ante as drogas é importante para melhor se prover informações sobre sua aceitação ou rejeição numa determinada população, o que auxiliaria a prática psiquiátrica e psicológica (Isacson e Bingefors, 2002).

Essa relação é explicitada na teoria da ação racional (TAR) (Ajzen e Fishbein, 1980; Fishbein e Ajzen, 1975), que postula o uso dessas substâncias como sendo determinado por dois fatores cognitivos: as intenções são influenciadas pelas próprias atitudes ante o uso; e as crenças sobre as normas sociais também afetam as decisões em se utilizar drogas. Nesta mesma direção, Simons e Carey (2000) verificaram o poder preditivo das atitudes com relação ao uso de maconha no comportamento propriamente dito de uso dessa substância em dois estudos (Estudo 1: b = 0,53, p < 0,001; Estudo 2: b = 0,41, p < 0,001). Ainda de acordo com esses autores, as atitudes perante o não-uso de drogas apenas moderaram a relação anteriormente citada. Ajzen et al. (1982), por sua vez, explicaram que essas atitudes e as crenças sociais normativas sobre o uso de substâncias psicotrópicas predizem satisfatoriamente seu uso.

Enriquez-Flores e Luis (2004) realizaram uma pesquisa sobre o uso e as atitudes relacionadas a álcool, tabaco, folhas de coca, tranqüilizantes e anfetaminas. Esses autores verificaram que as atitudes favoráveis dos participantes da amostra perante as drogas corresponderam aos maiores índices de aprovação do uso de álcool, folhas de coca e tranqüilizantes. Em suma, existem evidências de que realmente o conhecimento das atitudes pode ser importante para antecipar ou explicar o uso ou envolvimento com drogas, o que seguramente contribui para seu posterior controle, quer seja interferindo diretamente no objeto de preocupação (combate às drogas), quer seja procurando intervir nas e mudar as atitudes dos jovens como forma de afastá-los delas (Rodrigues et al., 2000; Scott, 1996).

Diante do previamente descrito, considerando a prevalência de uso de drogas entre os jovens e a utilidade das atitudes para sua explicação, um passo preponderante para as pesquisas na área seria contar com medidas psicometricamente adequadas sobre as atitudes perante as drogas. Seria particularmente útil ter em conta uma medida tipo lápis e papel, que fosse auto-administrada, facilmente respondida e breve. Isso permitiria o uso em larga escala, servindo como um instrumento de triagem para identificar potenciais usuários de drogas, e daria a possibilidade para incluir outras perguntas no estudo, tendo uma visão mais real dos múltiplos fatores que poderiam explicar as atitudes (antecedentes) ou serem explicados por elas (conseqüentes). Um instrumento com essas características foi proposto para estudar as atitudes perante a maconha (Simons e Carey, 2000), tendo sido adaptado ao contexto brasileiro por Gouveia et al. (2005). Essa escala será considerada para desenvolver uma mais geral, que considera as atitudes perante as drogas, o que demanda descrevê-la sumariamente.

Escala de Atitudes Ante o Uso de Maconha

A Escala de Atitudes Ante o Uso de Maconha (EAAUM) (Simons e Carey, 2000) baseou-se em escalas de diferencial semântico, desenvolvidas por Crites et al. (1994). Constitui-se por quatro pares de adjetivos (positivo/negativo, agradável/desagradável, bom/ruim e desejável/indesejável), situados nos extremos do diferencial semântico de 9 pontos; as pontuações de +4 a -4 foram recodificadas, passando a escala a ser expressa no intervalo de 1 a 9, com os valores 1, 2, 3 e 4 representando atitudes favoráveis, sendo 5 o ponto nulo, enquanto as pontuações 6, 7, 8 e 9 indicam atitudes desfavoráveis perante o uso. Essa medida tem demonstrado boa validade convergente e discriminante, e observou-se alfa de Cronbach (estrutura unidimensional) de 0,97 (Simons e Carey, 1998).

Gouveia et al. (2005) argumentam que essa medida de atitudes (EAPUM) pode ser utilizada como uma forma de conhecer o potencial envolvimento dos jovens com drogas, destacando suas vantagens sobre outras medidas, a exemplo do questionário CAGE, que mede o uso potencial de álcool (Gouveia et al., 1999), e do POSIT, cujo propósito principal é detectar potencial uso de drogas entre adolescentes (Coelho Júnior et al., 2003).

A adaptação da EAAUM para o contexto brasileiro foi levada a cabo por Gouveia et al. (2005), considerando a versão original em inglês (Simons e Carey, 2000). Mantiveram-se os mesmos itens, instruções de como responder e formato da escala de resposta. Na versão em português, os seguintes parâmetros psicométricos foram encontrados: estrutura unifatorial, com variância total explicada de 84,1% e índice de consistência interna (alfa de Cronbach) de 0,94. Realizou-se, ainda, uma análise fatorial confirmatória, tendo sido observados os seguintes índices de ajuste: c2/g.l. = 0,87, GFI = 1, AGFI = 0,99 e RMR = 0,01, reunindo assim evidências favoráveis de validade fatorial e precisão, que justificam seu emprego em pesquisas realizadas neste país.

Assim sendo, contar com medida psicometricamente adequada sobre atitudes perante as drogas constitui-se num passo importante com o fim de estimar o potencial uso de drogas e os seus correlatos. Uma medida com as características da EAAUM parece ideal. Não obstante, esta é orientada para um tipo específico de drogas: a maconha. Caberia conhecer se seus fundamentos podem ser aplicados a uma medida de atitudes perante as drogas em geral. Este compreende o objetivo principal do presente estudo, isto é, desenvolver e testar a adequação psicométrica da Escala de Atitudes Ante o Uso de Drogas (EAAUD). Especificamente, procurou-se conhecer evidências de sua validade fatorial (e consistência interna) e preditiva. Neste caso concretamente, pretendeu-se avaliar se as pontuações nessa escala podem predizer o fato de o indivíduo ser usuário de drogas.

 

MÉTODO

Participantes

Tratou-se de uma amostra de conveniência (não-probalística) composta por 276 estudantes universitários, provenientes de uma universidade pública (94,2%) e outra particular (5,8%), localizadas na cidade de João Pessoa (PB). Os participantes eram de diversos cursos (Administração, Ciências Sociais, Computação, Direito etc.), e a maioria (54,7%) se repartiu entre os cursos de Ciências Contábeis (30,8%) e Psicologia (23,9%). A idade destes variou de 17 a 43 anos (M = 21; DP = 3,40), com a maioria formada por jovens de 17 a 25 anos (93,5%). Predominaram aqueles do sexo feminino (65,6%), solteiros (90,6%) e que se consideravam de classe socioeconômica média (59,5%) ou média-baixa (28,1%); estes declararam uma média de religiosidade de 3,38 pontos (DP = 1,13; amplitude da escala de 1 = nada religioso a 5 = totalmente religioso), estatisticamente superior à mediana teórica da escala de resposta (2), t (272) = 20,32, p < 0,001.

Instrumentos

Escala de Atitudes Ante o Uso de Drogas (EAAUD)

Esta segue a forma da Escala de Atitudes Ante o Uso de Maconha (EAAUM), adaptada por Gouveia et al. (2005), pautada nas escalas desenvolvidas por Crites et al. (1994) para vários objetos atitudinais, sendo utilizadas por Simons e Carey (2000) para o uso de maconha e álcool (Simons e Gaher, 2004). Baseia-se em escalas de diferencial semântico, consistindo em saber a avaliação global do jovem acerca de estar sob o efeito de drogas. Os quatro pares de adjetivos (positivo/negativo, agradável/desagradável, bom/ruim e desejável/indesejável) são situados nos extremos do diferencial semântico de 9 pontos. Como na versão da EAAUM, as pontuações de +4 a -4 foram recodificadas, de acordo com a seguinte definição: + 4 = 1, + 3 = 2, + 2 = 3, + 1 = 4, 0 = 5, - 1 = 6, -2 = 7, - 3 = 8 e - 4 = 9. Portanto, 1, 2, 3 e 4 representam atitudes favoráveis, sendo 5 o ponto nulo, enquanto as pontuações 6, 7, 8 e 9 indicam atitudes desfavoráveis perante o uso. Neste sentido, a maior pontuação indica atitude contrária ao uso de drogas.

Questionário demográfico

Este pretendeu caracterizar os participantes do estudo, figurando como última parte a ser respondida. Constituiu-se por um conjunto de sete perguntas: idade, sexo, estado civil, grau de religiosidade, classe socioeconômica percebida, universidade onde estuda e curso que faz. Finalmente, incluiu-se uma pergunta em que se pedia ao participante para indicar se era ou não usuário de algum tipo de droga psicotrópica (por exemplo, cocaína, crack, ecstasy).

Procedimento

Previamente, procurou-se treinar os aplicadores dos instrumentos. Estes foram orientados a não intervir nas respostas dos participantes, minimizando a possibilidade de algum viés. Neste sentido, os questionários foram aplicados de forma coletiva nas salas de aula, bastando aos participantes seguir as orientações dadas por escrito no próprio questionário. Os aplicadores permaneceram em sala atentos a possíveis dúvidas quanto à forma de responder. Procurou-se assegurar o sigilo das respostas, que deveriam ser tratadas coletivamente; solicitou-se aos jovens que não se identificassem, bem como o respeito às diretrizes éticas que regem a pesquisa com seres humanos. Neste sentido, anexo à escala, constava um termo de consentimento livre e esclarecido que deveria ser rubricado pelo participante. Sua participação demorou em média 10 minutos. Respondidos os instrumentos, estes eram rapidamente checados e, finalmente, expressavam-se os agradecimentos aos estudantes e professores presentes. O estudo foi conduzido conforme os princípios da Declaração de Helsinki e de suas emendas, com o consentimento dos participantes.

Análises dos dados

O SPSS (Statistical Package for the Social Sciences, versão 13) foi utilizado para tabular e realizar as análises dos dados. Empregaram-se estatísticas descritivas (medidas de tendência central e dispersão, distribuição de freqüência), principalmente para caracterizar a amostra. Realizou-se MANOVA para checar o poder discriminativo do conjunto de itens. O Teste de Esfericidade, de Bartlett, e o KMO foram empregados com o fim de conhecer a possibilidade de fatoração do conjunto de itens da EAAUD. A análise de componentes principais (CP) foi empregada com o intuito de conhecer a estrutura fatorial da escala. Neste contexto, além dos critérios de Kaiser (valor próprio igual ou superior a 1) e Cattell (distribuição gráfica dos valores próprios), realizou-se também uma análise paralela para definir o número de componentes a extrair. Este último é um procedimento mais robusto, tendo sido recentemente recomendado (Hayton et al., 2004). O alfa de Cronbach foi também calculado para conhecer a consistência interna (precisão) da estrutura fatorial resultante, demandando-se que este seja de ao menos 0,70 para que o instrumento possa ser considerado como psicometricamente adequado (Pasquali, 1999). Finalmente, realizou-se regressão logística com o fim de conhecer evidências de validade preditiva da EAAUD.

 

RESULTADOS

Análises preliminares

Inicialmente, procurou-se conhecer se os itens da EAAUD apresentavam poder discriminativo satisfatório. Neste sentido, adotou-se o procedimento de dividir os participantes segundo a mediana teórica (20) da sua pontuação total (soma dos quatro itens), formando os grupos inferior (abaixo da mediana) e superior (acima da mediana). A partir disso, calculou-se uma MANOVA, considerando as pontuações nos itens como variáveis dependentes e a classificação dos grupos como variável critério. Os resultados indicam que o conjunto de itens é discriminativo, lambda de Wilks = 0,32, F (4, 253) = 135,36, p < 0,001; o tamanho do efeito variou de 0,37 (item 1: agradável/desagradável) a 0,64 (item 4: desejável/indesejável). Os testes univariados apoiaram a adequação de cada um dos itens (F > 100, p < 0,001).

Evidências de validade fatorial e preditiva

Embora haja suficiente argumento teórico para realizar diretamente uma análise fatorial confirmatória, optou-se por conhecer a adequação em si de se realizar uma análise fatorial e checar os resultados de uma análise exploratória, neste caso, a análise de componentes principais (CP). Antes de efetuar a análise de CP, procurou-se averiguar a fatoração da matriz de correlações entre os itens do instrumento em questão, por meio do KMO (Kaiser-Meyer-Olkin), que deve ter valor igual ou superior a 0,60 para ser aceito (Tabachnick e Fidel, 1996), e do Teste de Esfericidade, de Bartlett, que comprova a hipótese de que a matriz de covariâncias é uma matriz identidade. Corroborou-se a adequação de se proceder a uma análise fatorial: KMO = 0,81 e Teste de Esfericidade, de Bartlett, c2 (6) = 772,80; p < 0,001. Neste sentido, optou-se por efetuar uma análise CP, sem fixar rotação ou número de dimensões a extrair. A propósito, a figura 1 oferece indicações acerca da dimensionalidade deste instrumento.

 

 

Conforme demonstra essa figura, há unanimidade quanto à natureza unidimensional da estrutura da medida em questão. Unicamente um componente atendeu ao critério de Kaiser, isto é, valor próprio igual ou superior a 1. Isso é corroborado claramente se inspecionando a distribuição gráfica dos valores próprios (critério de Cattell), quando passam a não se diferenciar a partir do segundo componente. Reforça essa solução a análise paralela, assumindo uma estrutura de banco de dados com 276 participantes e quatro itens, efetuando mil simulações. Neste caso, unicamente o primeiro valor próprio médio simulado (1,13) foi inferior ao observado (3,17). Portanto, parece justificável assumir uma estrutura unidimensional, como a representada na tabela 1.

 

 

De acordo com essa tabela, todos os itens apresentam saturações acima de |0,40|, que pode ser tratada como um coeficiente de correlação estatisticamente diferente de 0 (zero; z > 1,96). Tais saturações variaram de 0,87 (item 1: positivo/negativo) a 0,91 (item 3: bom/ruim). Esse componente geral, denominado de atitudes negativas perante o uso de drogas, reuniu os quatro itens da escala, com valor próprio de 3,17, explicando 79,3% da variância total. Sua consistência interna (alfa de Cronbach) foi de 0,91. Sua maior pontuação é indicação de desfavorabilidade atitudinal perante o uso de drogas.

Finalmente, com o fim de verificar o poder preditivo das atitudes ante o uso de drogas com relação ao comportamento de uso em si, efetuou-se uma análise de regressão logística binária.

Como é possível constatar nessa tabela, as atitudes perante o uso de drogas puderam predizer significativamente [Wald (1) = 8,45, p = 0,004] o comportamento de uso de drogas (B = 0,17; OR = 1,19, p = 0,004).

Atitudes perante as drogas, comportamentos de uso e correlatos demográficos

Do conjunto de participantes do estudo, dois deixaram de responder à pergunta: "Você é usuário de drogas (como cocaína, crack e ecstasy)?". Daqueles que a responderam, 1,5% admitiu ser usuário de algum tipo de droga. Considerando o somatório das respostas dadas aos quatro itens da Escala de Atitudes Ante o Uso de Drogas, observa-se que a maioria dos participantes (63%) obteve a máxima pontuação, indicando atitudes totalmente negativas perante o uso de drogas; apenas 6,5% se encontraram abaixo da mediana teórica dessa medida, o que pode ser indício de atitudes menos desfavoráveis.

Finalmente, considerou-se a correlação da pontuação neste instrumento com quatro variáveis demográficas: idade, classe socioeconômica declarada, gênero e grau de religiosidade indicado. Unicamente com as duas últimas, foram observadas correlações significativas (p < 0,05; prova bilateral): gênero (r = 0,12) e religiosidade (r = 0,22), apontando que as mulheres e os que se expressam como mais religiosos apresentam atitudes negativas perante o uso de drogas em geral.

 

DISCUSSÃO

O objetivo principal desta pesquisa foi conhecer evidências de validade fatorial e preditiva da Escala de Atitudes Ante o Uso de Drogas. Confia-se que este tenha sido cumprido. Não obstante, como acontece com todo empreendimento científico, tal objetivo também não se encontra isento de potenciais limitações. Ressalta-se, por exemplo, que a medida ora avaliada teve como base respostas de estudantes universitários, indivíduos que, em virtude da condição de regularmente matriculados em instituição de ensino superior, evidenciam adesão a princípios e instituições convencionais (Hawkins et al., 1992; Petraitis et al., 1995). Esse dado é reforçado por sua religiosidade e menor favorabilidade ao uso de drogas, como previamente indicado. Portanto, pondera-se que os resultados previamente descritos não podem ser extrapolados para outros grupos. Mesmo no caso dos estudantes universitários, assevera-se que se tratou de uma amostra de conveniência, não sendo representativa do universo desses indivíduos, nem mesmo daqueles das instituições a que estão vinculados. Contudo, é prudente lembrar que não se pretendeu generalizar os resultados, mas sim conhecer se a medida adaptada apresentava evidências de validade para o contexto em que o estudo foi realizado. Dito isso, trata-se, a seguir, dos principais resultados.

A análise da EAAUD mostra que esta é uma medida claramente unidimensional, avaliando atitudes gerais em relação ao uso de drogas. A estrutura fatorial encontrada é equivalente àquela observada para a Escala de Atitudes Ante o Uso de Maconha (EAAUM) (Gouveia et al., 2005), medida na qual a EAAUD se pautou. Os parâmetros da EAAUM foram observados em amostra de estudantes do ensino médio, com média de idade de 16 anos. Na oportunidade, o componente único explicou 84% da variância total, apresentando alfa de Cronbach de 0,94, resultados bastante consistentes com os previamente descritos e dentro do que seria recomendado na literatura (Pasquali, 1999; 2003). Contudo, o presente estudo inovou no sentido de reunir evidências de validade preditiva da EAAUD, corroborando que as atitudes podem ser um preditor da intenção ou do comportamento propriamente dito (Hawkins et al., 1992; Petraitis et al., 1995; Simons e Carey, 1998). Isso é particularmente válido quando as atitudes são específicas (perante o uso de drogas) e relevantes para o comportamento em questão (ter usado algum tipo de droga), como ocorreu no presente estudo.

A hipótese do "compromisso convencional" (Petraitis et al., 1995), embora não tenha sido intencional e plenamente testada no presente estudo, parece obter suporte ao menos parcial. A adesão às instituições convencionais, a exemplo de estar matriculado em um curso superior ou de professar religiosidade, pode potencializar as atitudes negativas perante o uso de drogas e, conseqüentemente, afastar ou proteger os indivíduos de um potencial uso. Contudo, como já dito, essa hipótese não foi testada, existindo apenas indícios de que poderia ser o caso. A propósito, poder-se-ia, em estudos futuros, avaliar em que medida o compromisso com instituições convencionais (por exemplo, família, igreja, escola) poderia explicar as atitudes perante as drogas e mesmo os comportamentos socialmente desviantes.

A despeito de possibilidades futuras, é importante que esta pesquisa seja replicada em outros contextos. Seria igualmente satisfatório que se considerassem amostras maiores e mais heterogêneas, incluindo pessoas de diferentes níveis de escolaridade e classes sociais. Poderia ser relevante, por exemplo, contar com a participação de jovens que têm tido histórico de envolvimento com drogas. No caso, poder-se-iam criar dois grupos: um de pessoas com envolvimento declarado (por exemplo, jovens infratores sob cuidados da justiça) e outro daquelas da população geral (por exemplo, estudantes do ensino médio ou universitários). Com isso se poderia tomar essa classificação como padrão-ouro e, em razão das pontuações dos participantes na escala, avaliar a sensibilidade e especificidade que esta apresenta.

Tendo-se em conta o tamanho da Escala de Atitudes Ante o Uso de Drogas, poder-se-ia acrescentar novos itens a essa medida, ou mesmo aplicá-la conjuntamente com uma escala que avaliasse atitudes perante a lucidez ou o não-uso de drogas, visto que estas últimas moderam (no sentido de atenuar) as atitudes positivas ante o uso de drogas (Simons e Carey, 2000; Simons e Gaher, 2004). Sugere-se igualmente empregar procedimentos de modelagem por equações estruturais com o propósito de confirmar a estrutura unifatorial da EAAUD. Inclusive seria útil checar a invariância fatorial dessa medida em diferentes grupos (por exemplo, homens e mulheres, usuários e não-usuários de drogas, religiosos e não-religiosos).

 

CONCLUSÃO

Visto que o conhecimento das atitudes perante o uso de drogas pode ser uma estratégia eficaz para o controle dessas substâncias em nossa sociedade, pesquisar tais atitudes pode ser um passo importante para auxiliar o conhecimento dos antecedentes e conseqüentes do uso das drogas (Isacson e Bingefors, 2002), aprimorando os programas de mudança de atitudes (Scott, 1996) e as estratégias de aconselhamento dos jovens envolvidos.

Diante do exposto, ter reunido evidências de validade fatorial e preditiva da EAAUD, além de conhecer seu parâmetro de consistência interna, pode ser entendido como um passo preliminar, mas essencial nesse empreendimento. Considerando a facilidade de responder a essa medida e sua brevidade, esta pode ser útil em estudos epidemiológicos que visem a traçar o perfil dos estudantes do ensino médio e universitários, grupos de jovens que parecem em risco iminente de envolvimento com drogas (Coelho Júnior et al., 2003), demandando atenção especial.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Valdiney V. Gouveia
Universidade Federal da Paraíba, CCHLA – Departamento de Psicologia
58051-900 – João Pessoa, PB
Fone: (83) 3216- 7006
E-mail: vvgouveia@pesquisador.cnpq.br

Recebido 18/01/2007
Aprovado 13/03/2007

 

 

* Durante o processo de coleta de dados e preparação do presente artigo, o primeiro autor contou com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. Os autores aproveitam a oportunidade de agradecer a essa instituição.