SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.58 issue1Eating disorders and pregnancy: a reviewDelusional perception or apperception? author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085On-line version ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.58 no.1 Rio de Janeiro  2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852009000100011 

RESENHA DE LIVRO

 

Cannabis e saúde mental. Uma revisão sobre a droga de abuso e o medicamento

 

Cannabis and mental health. A review on the drug of abuse and the medication

 

 

Marcelo Santos Cruz; Renata Vargens; Thaisa Infurna; Rodrigo Espírito Santo Garcez; Ana Carolina R. Mathias

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto de Psiquiatria (Ipub)

Endereço para correspondência

 

 

 

O livro Cannabis e Saúde Mental. Uma Revisão sobre a Droga de Abuso e o Medicamento1 oferece contribuição oportuna e relevante para este tema atual. O livro traz uma extensa e cuidadosa revisão da literatura sobre amplos aspectos que vão da história de seus usos da droga, sua farmacologia, efeitos neuropsicológicos, relações com comorbidades, epidemiologia, possíveis usos terapêuticos até as abordagens de tratamento do seu abuso e dependência.

Os autores demonstram que há relatos de uso da planta desde 4000 a.C. A planta foi usada como matéria-prima para a confecção de cordas, tecidos e papel, como alimento, medicamento com diversas indicações e depois incorporada a rituais religiosos e usos recreativos. Só na primeira metade do século XX, a preocupação com efeitos deletérios do consumo, associada à visão proibicionista, motivou a ampla proibição do consumo da Cannabis em grande parte do mundo.

A descoberta relativamente recente de receptores canabinoides no cérebro e, depois, de substâncias endógenas que os estimulam provocou novo avanço do conhecimento. Os autores comparam esse achado às descobertas dos receptores nicotínicos, muscarínicos e opioides. Os estudos sobre o sistema canabinoide cerebral propiciam não apenas o conhecimento dos mecanismos de ação da droga no cérebro, mas também ilações sobre possíveis funções fisiológicas do sistema canabinoide e suas alterações fisiopatológicas.

Sobre os efeitos subjetivos da Cannabis e dos canabinoides, os autores relatam que ainda há controvérsias sobre a reversibilidade dos efeitos cognitivos após longos períodos do uso da maconha. Estudos de neuroimagem funcional ou estrutural mantêm essa questão sem resposta. Pesquisas com tomografia computadorizada não foram capazes de identificar mudanças atróficas em usuários "pesados". Os estudos com ressonância magnética são conflitantes. O sentimento de intoxicação está relacionado ao aumento do fluxo sanguíneo cerebral, especialmente nas porções anteriores do cérebro em pesquisas com SPECT e com o aumento no metabolismo do cerebelo (em estudos com PET ), no qual é alta a concentração de receptores canabinoides. Alguns estudos também mostram aumento significativo do metabolismo no córtex pré-frontal, similar àquele encontrado em dependentes de outras substâncias e em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo.

A relação etiológica entre o consumo de maconha e comorbidades, como ansiedade, depressão, transtorno bipolar e esquizofrenia, permanece obscura. No que se refere à esquizofrenia, confirmam-se as evidências de que a intoxicação por maconha desencadeia sintomas psicóticos e promove a exacerbação de sintomas psicóticos preeexistentes. Os autores afirmam que os efeitos psicóticos de curta duração podem ter uma explicação na facilitação do sistema dopaminérgico mesolímbico e que os efeitos a longo prazo do uso de Cannabis podem levar ao desenvolvimento de psicoses duradouras. O efeito persistente estaria relacionado à possível desregulação duradoura do sistema canabinoide e outros sistemas neurotransmissores. Inúmeros fatores poderiam explicar a associação entre uso de Cannabis e quadros psicóticos, mas não existem conclusões definitivas sobre o assunto, havendo a tendência a uma explicação multifatorial.

Mais inovador e provocativo é o que é apresentado no capítulo "Cannabis e Estresse Pós-traumático". Como os sintomas do estresse pós-traumático estão ligados diretamente à memória, os autores relatam pesquisas promissoras de uso de derivados da Cannabis em animais, demonstrando, por exemplo, que os endocanabinoides, presentes nas áreas cerebrais relacionadas à memória, têm grande participação na extinção de memórias aversivas. Abre-se a possibilidade de investigação sobre o uso da Cannabis ou alguns de seus constituintes na terapia desse transtorno psíquico.

Na mesma direção, o capítulo "Canabidiol – possíveis aplicações terapêuticas em psicopatologias" descreve estudos em animais e em humanos sobre efeitos ansiolíticos e antipsicóticos. Em estudo de simulação do falar em público, o canabidiol se mostrou tão eficaz quanto o diazepam. Estudo com SPECT sugere o efeito ansiolítico do canabidiol, evidenciando aumento da atividade no giro para-hipocampal esquerdo e uma diminuição de atividade no complexo amígdala-hipocampo esquerdo, estendendo-se até o hipotálamo, alterações também encontradas em outros transtornos ansiosos. O estudo com canabidiol em pacientes esquizofrênicos é bastante limitado, mas aponta para a tendência à melhora com a substância e ao agravamento com sua retirada.

A revisão mostra que ainda há pouco avanço nos estudos das abordagens farmacológicas dos transtornos relacionados ao uso da Cannabis. Alguns estudos fornecem dados secundários, sugerindo que antidepressivos e ansiolíticos podem auxiliar no tratamento da dependência. As abordagens não farmacológicas mais eficazes no tratamento da dependência devem ser individualizadas e com olhar multidisciplinar.

No que se refere à genética do uso da droga, estudos recentes confirmaram a agregação familiar para uso, abuso e dependência de Cannabis. Entretanto, esta não é condição suficiente para comprovar a transmissão genética, pois pode advir da exposição ambiental. Algumas poucas pesquisas recentes se propõem a identificar os genes envolvidos nesse processo e em comorbidades com depressão e esquizofrenia.

Alguns aspectos do uso da Cannabis foram motivo de debate recente na mídia e nos meios acadêmicos como a proibição ou não das pesquisas sobre o uso de Cannabis no tratamento de doenças consumptivas, como o câncer e a Aids, e também no tratamento da esclerose múltipla. Essas pesquisas sugeriam que as propriedades orexígenas, antieméticas e analgésicas poderiam ser opções de terapia em determinados casos. O livro em análise menciona essas pesquisas, sem aprofundar-se na polêmica da mesma forma que não inclui na revisão os debates jurídicos ou do campo da saúde sobre o status legal da droga. No entanto, o aporte de novas informações e a qualidade da pesquisa bibliográfica que as revelou colocam a publicação como indispensável para a compreensão atual das relações entre a Cannabis e a Saúde Mental.

 

REFERÊNCIA

1. Zuardi AW, Crippa JAS, Guimarães FS. Cannabis e saúde mental. Uma revisão sobre a droga de abuso e o medicamento. 1.ed. Ribeirão Preto: FUNPEC Editora; 2008.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Marcelo Santos Cruz
Rua Almirante Guilhem, 141/701
22440-000 – Rio de Janeiro, RJ
Telefone: (21) 2239-9363
Fax: (21) 2511-5596
E-mail: marceloscruz@terra.com.br

Recebido em 8/1/2009
Aprovado em 17/3/2009

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License