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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.61 no.1 Rio de Janeiro  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852012000100006 

ARTIGOS ORIGINAIS ORIGINAL ARTICLES

 

Insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento

 

Body dissatisfaction in college students of different study areas

 

 

Valter Paulo Neves MirandaI; Juliana Fernandes FilgueirasI; Clara Mockdece NevesI; Paula Costa TeixeiraII; Maria Elisa Caputo FerreiraI

IUniversidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Faculdade de Educação Física e Desportos, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Grupo de Estudos Corpo e Diversidade Humana
IIFaculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Instituto de Psiquiatria (IPq), Programa de Transtornos Alimentares
(Ambulim)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Verificar a prevalência de insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento, bem como a relação com sexo e com estado nutricional.
MÉTODOS: A amostra foi composta por universitários da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) de diferentes áreas de conhecimento. O Body Shape Questionnaire (BSQ) e a Escala de Silhuetas para adultos avaliaram a insatisfação corporal. Massa corporal e estatura autorreferidas foram utilizadas para o cálculo do índice de massa corporal (IMC). Para as análises estatísticas, foram realizados testes de associação, comparação e regressão logística.
RESULTADOS: Dos 535 estudantes, com média de idade de 20,82 ± 3,03 anos, 245 eram do sexo masculino. A média do BSQ foi de 68,00 ± 28,74, sendo 88,9% livres de insatisfação. Porém, pela escala de silhuetas, 76,6% foram considerados insatisfeitos. Os estudantes da área de saúde e humanas foram, sem significância, mais insatisfeitos que alunos de exatas. As mulheres em relação aos homens (p < 0,05) e aqueles com sobrepeso/obesidade (OR: 3,174; p = 0,000) tiveram a maior frequência na classificação de insatisfação corporal.
CONCLUSÃO: A maioria dos jovens mostrou-se livre de insatisfação corporal, não havendo relação com a área de estudo, porém as universitárias com IMC mais elevado apresentaram-se mais insatisfeitas com sua imagem corporal.

Palavras-chave: Imagem corporal, estudantes, estado nutricional, regressão logística.


ABSTRACT

OBJECTIVES: To check the prevalence of body dissatisfaction in college students of different majors, as well as the relationship with gender and nutritional status.
METHODS: The sample was composed of college students from the Federal University of Juiz de Fora (UFJF) of several different majors. The Body Shape Questionnaire (BSQ) and the Silhouette Scale for Adults assessed body dissatisfaction. Self-referred body mass and height were used to calculate the body mass index (BMI). For the statistical analysis, association, comparison, and logistic regression tests were performed.
RESULTS: Among the 535 students, with average age of 20.82 ± 3.03 years old, 245 were male. The BSQ average score was 68.00 ± 28.74, being 88.9% of the subjects free from dissatisfaction. Nevertheless, according to the silhouette scale, 76.6% were found to be dissatisfied. The students of Life Sciences and Humanities were, insignificantly, more dissatisfied than the Exact Sciences students. Women, when compared to men (p < 0.05) and those overweight/obese (OR: 3.174; p = 0.000) had the highest score in the body dissatisfaction rating.
CONCLUSION: Most young people were found to be free from body dissatisfaction, and no correlation to their area of studies was found. However, the college girls with the highest BMIs were found to be the most dissatisfied with their body image.

Keywords: Body image, college students, nutritional status, logistic regression.


 

 

INTRODUÇÃO

A imagem corporal (IC) pode ser definida como uma ilustração que se tem na mente acerca do tamanho, da aparência e da forma do corpo, sustentada por dois componentes: o perceptivo, que corresponde às imagens construídas na mente, e o atitudinal, que engloba os pensamentos e sentimentos em relação ao corpo1. A insatisfação corporal é um componente da dimensão atitudinal da IC e pode ser compreendida como uma avaliação negativa que o sujeito faz em relação à sua aparência física2. As experiências vivenciadas pelo indivíduo criam um referencial do seu corpo, e essa representação é reconstruída ao longo da vida1.

Um sentimento negativo com a IC na maioria das vezes pode ser desencadeado por meio de dois mecanismos primários: comparação da aparência dos jovens entre si e a internalização de um modelo ideal de magreza3. Atualmente, o modelo de beleza imposto pela sociedade corresponde a um corpo magro para as mulheres e musculoso para os homens4. Assim, indivíduos que não se encontram nesse ideal de corpo tendem a adotar comportamentos inadequados para o controle de peso, como a procura exacerbada por exercícios físicos, cirurgias plásticas e atitudes alimentares inadequadas5.

Geralmente, as pessoas com alta insatisfação com sua imagem corporal podem ficar mais suscetíveis ao desenvolvimento de transtornos alimentares, além de estarem mais sujeitas a buscar dietas inadequadas e abusar do exercício, o que prejudica a qualidade de vida3,5.

Algumas pesquisas mostram que os jovens estão cada vez mais vulneráveis a mudanças de comportamento por causa da proximidade com a vida adulta e do ingresso no meio universitário, que proporciona novas relações sociais6. Alvarenga et al.7 verificaram, em universitárias da área da saúde de diferentes regiões brasileiras, insatisfação corporal bastante expressiva, assim como Costa e Vasconcelos8, que encontraram indicadores de elevada rejeição com a forma física em universitários ingressantes de uma instituição pública de Santa Catarina, Brasil.

Outro importante fator a ser considerado são os trabalhos envolvendo a avaliação da insatisfação corporal que sugerem uma associação significativa com a classificação de sobrepeso e obesidade, a partir do índice de massa corporal (IMC)7,9. Atualmente, algumas pesquisas mostram que os sujeitos com excesso de peso são mais suscetíveis à insatisfação com a IC10. Outros estudos indicam alta prevalência de insatisfação corporal em indivíduos com estado nutricional considerado adequado11, principalmente universitários do sexo feminino7,12.

São escassos na literatura estudos utilizando instrumentos devidamente adaptados transculturalmente para uma amostra representativa de estudantes universitários brasileiros12, principalmente pesquisas que avaliam jovens de ambos os gêneros de diferentes áreas de conhecimento.

Assim, esta pesquisa teve como objetivo verificar a prevalência de insatisfação corporal em universitários de diferentes áreas de conhecimento, bem como a relação com o sexo e com o estado nutricional.

 

MÉTODOS

Esta pesquisa epidemiológica caracteriza-se como transversal e correlacional13. Está de acordo com as normas da Portaria nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde, e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), sob Parecer nº 333/2009 e Protocolo nº 1920.264.2009. A pesquisa foi desenvolvida pelo Laboratório de Estudos do Corpo (LABESC) da Faculdade de Educação Física e Desportos (FAEFID) – UFJF. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Amostra

Para o cálculo do tamanho da amostra representativa da população, foi utilizada a metodologia recomendada por Thomas et al.13. Considerou-se um nível de confiança igual a 95% e um erro máximo permitido, com precisão absoluta de 5 pontos para mais ou para menos na variável resposta de referência, o escore do Body Shape Questionnaire (BSQ)14. Com a maior variabilidade de pontuação verificada para o sexo feminino (± 31,3 pontos), como a pior situação ao nível de significância de 5%, obteve-se um tamanho de amostra mínimo necessário igual a 129, já feita a correção para populações finitas. Com base no cálculo amostral, estimou-se que seria necessário multiplicar por três (número de áreas de conhecimento) o valor amostral mínimo (n = 129), obtendo-se um resultado igual a 387 universitários.

A partir de então, buscaram-se informações sobre o número de alunos matriculados na UFJF no ano letivo de 2009, destacando a divisão nas três grandes áreas de conhecimento: humanas, saúde e exatas. Nesse período a universidade possuía aproximadamente 10.822 alunos, sendo 34,80% da área de humanas, 31,60% da área de saúde e 28,27% da área de exatas, dados esses divulgados pela própria universidade15. Para atender ao valor amostral mínimo (n = 387), foram investigados 5% do número total de alunos (10.822), mantendo a proporcionalidade de cada área do conhecimento. A seleção foi feita de modo aleatório simples nos departamentos das faculdades da UFJF. No total, foram entrevistados 580 universitários, sendo excluídos 55 indivíduos que se recusaram a participar ou não assinaram o TCLE (n = 55). Dessa forma, a amostra final foi composta por 535 universitários, sendo 169 da área de exatas, 186 de humanas e 180 da saúde.

Instrumentos

Para avaliar a insatisfação e as preocupações com a forma do corpo, foi utilizado o BSQ validado para uma população não clínica de universitários brasileiros por Di Pietro e Silveira14. O questionário é composto por 34 questões, em escala tipo Likert, em que o avaliado aponta com que frequência, nas últimas quatro semanas, vivenciou os eventos propostos pelas alternativas. As respostas variam de 1 (nunca) a 6 (sempre), sendo a soma das pontuações de cada item o escore final da escala.

A classificação dos resultados do BSQ é dividida em quatro níveis de insatisfação corporal. A pontuação abaixo de 110 indica ausência de insatisfação; entre 111 e 138, insatisfação leve; entre 139 e 167, insatisfação moderada; e pontuação igual ou acima de 168 indica grave insatisfação corporal. Vale ressaltar que essa classificação foi proposta por Cooper et al.16, criadores desse instrumento.

Como segundo instrumento avaliativo da insatisfação com a IC, utilizou-se a Escala de Silhuetas Brasileiras para adultos17, criada e validada para adultos e crianças brasileiras. Composta por 15 silhuetas, a escala possui inter-relação com

    1. o IMC, variando entre 12,5 e 47,5 kg/m2, com intervalo de 2,5 kg/m² entre cada silhueta para ambos os sexos.
    2. O sujeito deveria assinalar "qual a silhueta que melhor representava seu corpo na atualidade" e "qual silhueta ele(a) desejaria ter". Assim, essa escala permite a avaliação do nível de satisfação (NS) calculado a partir da diferença entre a silhueta ideal (SI) e a silhueta atual (SA). Os valores iguais a zero (NS = 0) indicam que os jovens se sentem satisfeitos com sua IC. Já os valores diferentes de zero (NS ≠ 0) indicam que
  1. o sujeito está insatisfeito com sua IC. Assim, resultados positivos indicam um desejo de aumentar o tamanho corporal, enquanto resultados negativos, um desejo de diminuí-lo18.

Para o cálculo do IMC, foram utilizados os dados de massa corporal e estatura autorreferidos. A classificação primária do estado nutricional (EN) foi realizada a partir dos pontos de corte do IMC, estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde19 – < 18,5: baixo IMC; entre 18,5 e 24,9: normal IMC; entre 24,9 e 29,9: sobrepeso; > 29,9: obesidade.

Procedimentos

Inicialmente, os pesquisadores foram até as faculdades e apresentaram o projeto da pesquisa para a coordenação de curso. Em seguida, foi estabelecido contato com o professor para explicar todo o procedimento adotado e pedir autorização para intervenção durante sua aula.

Posteriormente, os pesquisadores realizaram uma explicação sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa para os alunos e distribuíram o TCLE. Assim, aqueles que aceitaram participar voluntariamente da pesquisa assinaram o termo e receberam um material de avaliação contendo: cabeçalho para informações gerais (massa corporal, estatura, data de nascimento, sexo e área de conhecimento), questionário BSQ e a Escala de Silhuetas.

Após a conclusão do procedimento de coleta, os dados foram levados, em sigilo total, para o Laboratório de Estudo do Corpo (LABESC), onde foram tabulados e analisados pelos pesquisadores responsáveis pelo estudo.

Análise estatística

Para análise estatística, utilizou-se o software estatístico SPSS, versão 17.0, com nível de significância de 5% (α = 0,05) para todas as análises. Realizou-se inicialmente análise descritiva de cada variável, por meio da frequência, valores médios e desvios-padrão. Como as variáveis numéricas não apresentaram normalidade pelo teste de Kolmogorov-Smirnov, optou-se pela aplicação de testes não paramétricos.

O teste qui-quadrado foi aplicado para analisar as associações das áreas de conhecimento, o sexo e o estado nutricional em relação à frequência de sujeitos classificados como satisfeitos e insatisfeitos pela Escala de Silhuetas e pelo BSQ.

A variação dos escores da insatisfação com a imagem corporal entre as diferentes áreas de conhecimento e os grupos do estado nutricional foi avaliada pelo teste de Kruskal-Wallis e o teste post hoc de Bonferroni (α = 0,016). Para a comparação das médias dos escores dos instrumentos entre ambos os sexos, foi utilizado o teste de Mann-Whitney; para a comparação entre os grupos relacionados ao estado nutricional, utilizou-se o teste qui-quadrado de Pearson de associação linear, e o teste exato de Fisher foi também selecionado para verificar a diferença de categorização de insatisfação corporal entre as variáveis independentes.

Por fim, realizou-se um modelo de regressão logística binária para verificar quais das variáveis independentes analisadas apresentavam associação (risco ou proteção) significativa

(p) com a insatisfação corporal (Escala de Silhueta e BSQ), de acordo com a interpretação dos valores do odds ratio (OR). As análises tiveram como base as variáveis que demonstraram relação com a avaliação da insatisfação corporal em outros estudos com universitários brasileiros7,12: os pertencentes da área de saúde, o sexo masculino e a classificação IMC normal e baixo. Para atender ao requisito de dicotomia da variável resposta, o BSQ foi reorganizado em duas categorias: satisfeitos – aqueles classificados como livres de insatisfação corporal; e insatisfeitos – aqueles com algum nível de insatisfação corporal (leve, moderada e grave). O mesmo procedimento foi utilizado para a variável estado nutricional, que teve as quatro categorias agrupadas em duas: baixo peso/eutrofia e sobrepeso/obesidade. Esses agrupamentos propiciaram também um número mínimo necessário de elementos em cada categoria de análise.

 

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 535 estudantes da UFJF no ano de 2010, com média de idade de 20,82 ± 3,03 anos, sendo 245 (44,2%) do sexo masculino e 290 (55,8%) do sexo feminino. A média de peso corporal, estatura e IMC autorreferidos foi de 65,69 ± 14,16 kg, 1,70 ± 0,90 m e 22,33 ± 4,06 kg/m2, respectivamente. A maioria dos jovens apresentou a classificação normal do estado nutricional, sendo 75,2% da amostra total. Por outro lado, 18,3% dos universitários apresentaram sobrepeso e obesidade, sendo os estudantes de humanas aqueles com maior frequência de sobrepeso e obesidade, com 18,7% contra 18,5% dos estudantes de exatas e 17,8% dos estudantes da área de saúde.

A média de pontuação do BSQ foi de 68,00 ± 28,74 pontos. Não houve variação da insatisfação corporal em relação às áreas de conhecimentos pela análise do BSQ (p = 0,513), sendo a área de saúde com a maior média com 69,82 ± 29,4 pontos, contra 65,47 ± 26,35 e 68,52 ± 30,04 pontos dos alunos de exatas e humanas, respectivamente. A média dos índices de insatisfação corporal das mulheres foi significativamente maior que dos homens (p < 0,05), sendo as primeiras com pontuação média de 76,91 ± 30,27 e os homens com pontuação média de 57,45 ± 22,72.

Também foi observado que estudantes com sobrepeso (72,70 ± 28,03 pontos) e obesidade (96,52 ± 40,78 pontos) foram significativamente (p < 0,016) mais insatisfeitos que aqueles com IMC baixo (57,97 ± 28,45) e aqueles com IMC normal (67,03 ± 27,46).

Analisando a Tabela 1, pode-se observar que 10,1% dos universitários manifestaram algum nível de insatisfação corporal pelo BSQ e, desses, nenhum jovem foi classificado com grave insatisfação (pontuação maior que 167 pontos). Os estudantes da área de humanas (11,7%) tiveram a maior frequência na classificação de insatisfação maior que os estudantes da saúde (11,2%) e exatas (6,6%), diferença não significativa. Já entre os sexos, observou-se que as mulheres foram significativamente classificadas como insatisfeitas em relação aos homens (p < 0,05). Entre os grupos de classificação de estado nutricional, também foi observado que os universitários com sobrepeso e obesidade foram significativamente classificados como insatisfeitos em relação àqueles com IMC normal e baixo (p < 0,05).

Porém, pela avaliação da escala de silhuetas, conforme pode ser observado na Tabela 1, a maioria dos indivíduos foram classificados como insatisfeitos (76,6%). Desse total, 265 (64,63%) desejaram aumentar sua silhueta atual e 145

(35,36%) queriam diminuí-la. No geral, os homens manifestaram o desejo de uma silhueta maior que a atual (39,9%), já entre as mulheres, a maioria desejou obter uma silhueta menor que a atual (61,7%).

Ainda em relação ao EN, vale ressaltar que aproximadamente 20,0% das mulheres com baixo e normal IMC foram classificadas com leve e moderada insatisfação corporal pelo BSQ. Já entre os homens, juntando aqueles com baixo IMC, normal IMC e sobrepeso, o percentual de jovens classificados como insatisfeitos não chegou a 5%. O gráfico 1 mostrou que os universitários com o IMC mais elevado apresentaram maiores índices de insatisfação corporal em ambos os sexos. No entanto, foi perceptível que em todas as classificações do EN as mulheres tiveram níveis de insatisfação mais elevados em relação aos homens.

Por meio do modelo de regressão logística, verificou-se que os jovens com sobrepeso e obesidade tiveram maiores chances de serem mais insatisfeitos com sua imagem corporal (OR: 3,174; p = 0,000) que aqueles com baixo e normal IMC. Já as mulheres (OR: 1,597; p: 0,164) e as áreas de conhecimento foram fatores de risco sem significância (Tabela 2) para com os níveis de insatisfação.

 

 

DISCUSSÃO

De acordo com os achados da literatura, são escassos os estudos que investigaram a insatisfação com a imagem corporal em diferentes áreas de conhecimento, utilizando instrumentos adaptação transcultural para uma população específica7,12.

A média total de pontos do BSQ foi de 68,00 ± 28,74, os homens apresentaram média de pontos de 57,45 ± 22,72 e as mulheres apresentaram média de 79,61 ± 30,27 pontos. No estudo de validação do BSQ com estudantes de medicina da cidade de São Paulo, Brasil, Di Pietro e Silveira14 verificaram que as médias de pontuação tanto de homens (58,7 ± 25,1) quanto de mulheres (89,7 ± 31,3) estavam acima dos resultados encontrados. Em relação à classificação do BSQ, verificou-se que a maior parte da amostra (89,9%) esteve livre de insatisfação corporal e, também, nenhum jovem foi classificado com grave insatisfação corporal, ou seja, eles tiveram pontuação maior que 167 pontos no BSQ. Estudos semelhantes encontraram 59,6% e 82,9% de universitárias de nutrição e educação física livres de insatisfação, respectivamente10,11.

No presente estudo, não foram encontradas variações significativas nas médias gerais de insatisfação entre os estudantes das diferentes áreas de conhecimento, porém pode-se observar que os estudantes da área de saúde e humanas, sem significância, tiveram maiores índices e frequência de classificação de insatisfação corporal que os alunos a área de exatas. Uma explicação para isso pode ser o fato de ter havido maior número de mulheres pesquisadas nas áreas de saúde e humanas em relação à área de exatas: 59,45% saúde, 54,55% humanas e 48,22% exatas.

Esse resultado é diferente de pesquisas que encontraram maior insatisfação corporal em jovens dos cursos da área da saúde, pelo fato de esses jovens tratarem de diversas questões vinculadas ao corpo humano7,8. Cursos como educação física11, nutrição10, psicologia8 e enfermagem apresentaram maior prevalência de insatisfação corporal. Para Bosi et al.10, 40,4% de estudantes de nutrição manifestaram insatisfação com sua imagem corporal. Também Moreira et al.20 encontraram que 50% das estudantes de medicina na Bahia apresentaram algum grau de insatisfação corporal.

Foi observado que as mulheres e todos aqueles que estavam com IMC acima do normal tiveram maiores médias de insatisfação corporal, a partir do BSQ. Isso já era esperado, porque resultados semelhantes já foram encontrados na literatura7,10-12. No estudo de Quadros et al.12, por exemplo, em avaliação da IC em universitários e sua relação com o estado nutricional e o sexo, concluiu-se que as mulheres e os indivíduos com excesso de peso também apresentaram maior insatisfação. Porém, foi interessante observar que 20% das mulheres com baixo e normal IMC apresentaram insatisfação corporal leve e moderada. McCabe e Ricciardelli21 ressaltaram que muitas mulheres com IMC adequado ou baixo manifestam insatisfação corporal por causa de uma distorção com a própria imagem. Também Alvarenga et al.7 mostraram que estudantes eutróficas também apresentaram desejo em ter uma silhueta menor. Isso evidencia que as mulheres por si só, seja por influência do meio em que vive ou da cultura midiática, apresentam insatisfação corporal maior que os homens, mesmo levando em questão o estado nutricional. Esse fato pode ser observado no gráfico 1, no qual em todas as classificações do estado nutricional as mulheres tiveram maiores índices de insatisfação corporal.

A partir dos resultados encontrados nesta pesquisa, percebeu-se que apenas 10,1% dos universitários foram classificados como insatisfeitos com sua IC, no entanto 76,6% manifestaram o desejo de possuir uma silhueta diferente

Outro fator possivelmente limitante foi a forma bidimensional de apresentação da Escala de Silhuetas, podendo implicar falhas na representação total do corpo e na distribuição da gordura, afetando a formação individual da IC. Entretanto, a utilização desse instrumento se justifica pela facilidade e praticidade para aplicação, pela boa fidedignidade e frequente utilização em estudos epidemiológicos com a população universitária24,27.

Observou-se o quanto foi importante analisar a insatisfação corporal nas diferentes áreas de conhecimento, considerando o fato de que muitas pesquisas ressaltaram que o ambiente sociocultural3,4,8,12,27 e de estudo do indivíduo pode interferir em sua IC. Por meio dessa avaliação, pode-se perceber que alguns fatores como o estado nutricional e o sexo são de extrema importância na avaliação de algum componente da imagem corporal de jovens universitários de diferentes áreas de conhecimento.

 

CONCLUSÃO

Concluiu-se nesta pesquisa que a maioria dos jovens esteve livre de insatisfação corporal, porém a grande maioria manifestou o desejo de ter uma silhueta diferente da atual. Em relação às áreas de conhecimento, percebeu-se que não houve diferença nos níveis de insatisfação, porém o sexo e o EN foram fatores determinantes para maior prevalência de insatisfação corporal dos universitários pesquisados.

Outras variáveis comportamentais relacionadas à IC que não foram controladas neste estudo podem ser consideradas em futuras investigações, tais como: nível socioeconômico, nível de atividade física, influência da mídia, amigos e familiares, depressão, autoestima, comportamento alimentar e uso de esteroides anabolizantes. O conhecimento amplo das variáveis que influenciam a insatisfação corporal é importante para conscientizar os jovens a terem uma relação positiva com sua forma física. Assim, profissionais da saúde vinculados às questões relacionadas à aparência corporal poderão orientar os jovens a tomarem atitudes saudáveis que possam deixá-los mais satisfeitos com sua imagem corporal.

 

AGRADECIMENTOS

A todos participantes, pela disponibilidade e incentivo para que os alunos participassem desta pesquisa.

 

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declararam não haver conflitos de interesse.

 

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Endereço para correspondência:
Valter Paulo Neves Miranda
Rua Dr. Gil Horta, 163, ap. 402, Centro 36016-400 – Juiz de Fora, MG, Brasil
Telefone: (32) 9928-9878
E-mail: vpnmiranda@yahoo.com.br

Recebido em 17/10/2011
Aprovado em 25/1/2012