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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.61 no.3 Rio de Janeiro  2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852012000300002 

ARTIGO ORIGINAL

 

Escala de Satisfação dos Pacientes com os Serviços de Saúde Mental (SATIS-BR): estudo de validação

 

Patients' Satisfaction with Mental Health Services Scale (SATIS-BR): validation study

 

 

Marina BandeiraI; Mônia Aparecida da SilvaII

IUniversidade Federal de São João Del Rei (UFSJ); Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Université de Montréal, Canadá
II
Programa de Mestrado em Psicologia da UFSJ; Laboratório de Pesquisa em Saúde Mental (LAPSAM) da UFSJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Fazer um estudo da validade de construto, validade convergente e consistência interna da Escala de Satisfação dos Pacientes com os Serviços de Saúde Mental (SATIS-BR).
MÉTODO: Participaram da pesquisa 110 pacientes psiquiátricos, atendidos em cinco serviços públicos de saúde mental do interior de Minas Gerais. A escala foi aplicada em entrevistas individuais estruturadas. A escala possui 12 itens que avaliam a satisfação dos pacientes, com alternativas de resposta dispostas em escala Likert de 5 pontos. Foi também aplicada a Escala de Mudança Percebida (EMP) para a análise de validade convergente da SATIS-BR.
RESULTADOS: A análise fatorial pelo método Principal Axis Factoring revelou uma estrutura fatorial de três fatores, que avaliam a satisfação dos pacientes em relação às dimensões: 1. Competência e compreensão da equipe; 2. Ajuda e acolhida; 3. Condições físicas do serviço. A análise pelo coeficiente alfa de Cronbach mostrou boa consistência interna (alfa = 0,88). A análise da validade convergente foi adequada, tendo sido obtida uma correlação de Pearson positiva significativa com a escala EMP, que avalia um construto teoricamente relacionado ao de satisfação (r = 0,41; p < 0,001).
CONCLUSÃO: A escala SATIS-BR apresenta qualidades psicométricas adequadas de validade de construto, validade convergente e fidedignidade. 

Palavras-chave: Satisfação do paciente, escalas, avaliação de resultados (cuidados de saúde), serviços de saúde mental.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To investigate the construct validity, convergent validity and reliability of the Patient Satisfaction with Mental Health Services Scale (SATIS-BR).
METHOD: One hundred and ten psychiatric patients attending five public mental health services located in Minas Gerais, Brazil, participated in this research. The scale was applied in individual structured interviews. The scale has 12 items evaluating patients' satisfaction, with response alternatives disposed in a five points Likert scale. In order to evaluate the convergent validity, another scale was applied, the Perceived Improvement Questionnaire (PIQ).
RESULTS: Factorial analysis using the Principal Axis Factoring method revealed a 3 factors structure, evaluating satisfaction regarding the following dimensions: 1. Professional competence and understanding; 2. Help from the professional; 3. Service physical conditions. Reliability results showed adequate internal consistency evaluated by Cronbach analysis (alpha = 0,88). Convergent validity analysis showed a positive significant Pearson Correlation coefficient (r = 0,41; p < 0,001) with the PIQ scale, which evaluates the related construct of patient" perceived improvement.
CONCLUSION: The SATIS-BR scale has adequate psychometric properties of construct validity, convergent validity and reliability.

Keywords: Patient satisfaction, scales, outcome assessment (health care), mental health services.


 

 

INTRODUÇÃO

A avaliação contínua dos serviços de saúde mental tem sido recomendada, visando promover a qualidade desses serviços1. Segundo Donabedian2, os resultados da assistência em saúde devem estar congruentes com a perspectiva dos usuários, para que a qualidade do tratamento não fique comprometida. Incluir a perspectiva dos próprios pacientes na avaliação dos serviços de saúde mental tem despertado cada vez mais o interesse dos clínicos, dos administradores e das agências de credenciamento de serviços3. Uma das medidas mais frequentemente utilizadas para avaliar a qualidade dos serviços é a satisfação dos pacientes4. Dando destaque à importância da perspectiva dos pacientes, Ruggeri5 apontou que a medida subjetiva de satisfação dos pacientes com os serviços constitui o critério, por excelência, da qualidade dos serviços.

A avaliação da satisfação dos pacientes é importante, porque está relacionada com maior frequência de utilização dos serviços e diminuição da taxa de abandono do tratamento6-8, além de ser um fator preditivo para menor taxa de hospitalizações futuras9. A avaliação da satisfação dos pacientes é importante também por causa de sua associação com a adesão ao tratamento7. A adesão é essencial para a obtenção de resultados positivos das intervenções, particularmente em saúde mental, em que há dificuldade dos pacientes psiquiá­tricos em aceitar e manter o tratamento medicamentoso10. A inclusão da avaliação dos pacientes pode contribuir, ainda, para aumentar sua autoestima e o sentimento de controle ou empoderamento (empowerment), ao perceber que seu ponto de vista está sendo considerado11.

Entretanto, cuidados metodológicos devem ser tomados para a avaliação da satisfação dos pacientes com os serviços, tanto em termos da validade interna dos delineamentos de pesquisa e da representatividade da amostra avaliada quanto das qualidades psicométricas dos instrumentos de medida usados para aferir a satisfação4-6,12. Os instrumentos de medida devem apresentar as propriedades de validade e fidedignidade e ser multidimensionais, ou seja, avaliar diferentes dimensões do fenômeno, de preferência com subescalas que forneçam escores independentes para cada dimensão. As medidas multidimensionais são mais sensíveis aos efeitos do tratamento nos serviços de saúde mental, uma vez que podem ocorrer avaliações favoráveis a algumas dessas dimensões, e não a outras5,6,12-15. Esse tipo de medida permite, portanto, que os profissionais identifiquem os aspectos do serviço menos apreciados pelos pacientes e realizem modificações visando melhorar sua qualidade16. Em uma análise de estudos que avaliaram a satisfação dos usuários, Ruggeri5 destacou que as escalas de medida unidimensionais ou baseadas em um único item global não são consideradas adequadas para avaliar os resultados dos serviços, mas sim os instrumentos multidimensionais, pois o construto satisfação é multidimensional.

Para avaliar a percepção dos pacientes sobre os serviços de saúde mental no Brasil, a Escala da Satisfação dos Pacientes com os Serviços de Saúde Mental (SATIS-BR) havia sido submetida a um estudo de adaptação semântica e cultural para o país, a partir da versão canadense da escala, assim como uma avaliação de sua fidedignidade e validade concomitante17,18. Entretanto, ainda não havia sido realizada a análise da validade de construto, por meio de uma análise fatorial, visando identificar a estrutura dimensional da escala, para o contexto brasileiro. A escala original canadense tinha apresentado uma estrutura dimensional com três fatores que explicaram 54% da variância dos dados e uma consistência interna adequada, com alfa de Cronbach igual a 0,89. Essa escala é específica para essa população-alvo e não foi adaptada para outros tipos de população. A presente pesquisa teve como objetivo completar as análises anteriores da escala brasileira, realizando um estudo da análise fatorial, assim como reavaliar sua consistência interna e avaliar sua validade convergente.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram desta pesquisa 110 pacientes atendidos em cinco serviços públicos de saúde mental de três cidades do interior de Minas Gerais. A distribuição dos pacientes por cidade foi a seguinte: 40,00%, 33,60% e 26,40%. Foram incluídos, na amostra, pacientes psiquiátricos que estavam em tratamento há, pelo menos, um ano no serviço. Foram adotados, como critérios de exclusão: o paciente estar em crise, possuir comorbidade de déficits cognitivos associado ao problema psiquiátrico e apresentar dificuldade de responder às questões da escala. Foram contatados 143 pacientes para participar da pesquisa, mas 33 foram excluídos por estarem em crise, apresentarem comorbidades de transtornos por déficits cognitivos ou por não terem compreendido as questões dos instrumentos utilizados. Entretanto, não temos os dados que identifiquem quantos foram excluídos por um ou outro motivo. Não houve recusas dos pacientes em participar do estudo. Entretanto, a amostragem foi não probabilística, tendo sido selecionados os pacientes disponíveis nos serviços que preenchiam os critérios de inclusão e exclusão. A presença de comorbidade foi verificada por meio de consulta aos prontuários. O tamanho da amostra utilizada se situa dentro de uma faixa considerada aceitável para a realização da análise fatorial, embora não haja consenso sobre essa questão, na área19. Os valores de adequação da amostra obtidos foram satisfatórios (KMO = 0,87; Bartlet = 446,507; p < 0,01).

Instrumentos de medida

Escala de Satisfação dos Pacientes com os Serviços de Saúde Mental (SATIS-BR): Este instrumento foi elaborado originalmente pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como parte do projeto WHO-SATIS21, que visava construir instrumentos de avaliação dos serviços de saúde mental, que incluíssem a satisfação dos três agentes envolvidos nos serviços – pacientes, familiares e profissionais –, assim como a sobrecarga sentida pelos profissionais e familiares. Sua adaptação e sua validação para o Brasil foram feitas por Bandeira et al.17 e Bandeira et al.18, com base na escala canadense, validada previamente. A escala inicial brasileira era composta por 13 questões, com alternativas de resposta dispostas em uma escala Likert de 5 pontos, na qual o valor 1 indica o menor grau de satisfação e o valor 5 indica o maior grau de satisfação com o serviço. A escala propriamente dita faz parte de um questionário mais completo contendo 44 questões, que incluem itens quantitativos, qualitativos, descritivos e sociodemográficos, descritos nos artigos citados acima. O questionário completo assim como a escala propriamente dita estão disponíveis no site do Laboratório de Pesquisa em Saúde Mental (LAPSAM) da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ).

No estudo brasileiro, a escala SATIS-BR tinha sido submetida a uma análise de sua consistência interna, por meio do cálculo de alfa de Cronbach, para a escala global e para as subescalas que estavam presentes na escala canadense. Os resultados indicaram índices adequados de alfa de Cronbach para a escala global (0,84) e para as duas subescalas que tinham sido retidas no estudo brasileiro, após a análise efetuada (0,77 e 0,55). Foi feita igualmente uma análise das correlações entre essas subescalas, tendo sido obtidas correlações positivas e significativas entre elas (0,62) e entre cada uma delas e a escala global (0,87 e 0,88). A escala tinha apresentado igualmente uma correlação positiva e significativa (0,63) com a escala CSQ-8 de satisfação dos pacientes com serviços de saúde mental22. Entretanto, não tinha sido realizada a análise fatorial para a versão brasileira da escala, tendo em vista o número pequeno de sujeitos da amostra do estudo (N = 30). Esse número reduzido de sujeitos consiste em uma limitação do estudo anterior, razão pela qual o presente estudo visou refazer as análises citadas acima, além de realizar a Análise Fatorial. Portanto, não tinha sido identificada a estrutura dimensional da escala, ou seja, a distribuição dos seus itens entre os fatores, para a versão brasileira18, objeto do presente trabalho.

Escala de Mudança Percebida (EMP): A versão original desta escala, "Questionaire of Perceived Changes", foi elaborada por Mercier et al.23 no Canadá visando avaliar a percepção de mudanças pelos pacientes como resultado do tratamento recebido em serviços de saúde mental. Posteriormente, a escala foi reavaliada por Perreault et al.24, com a denominação de Perception of Improvement Questionnaire (PIQ). Esse instrumento foi submetido aos procedimentos de adaptação transcultural para o Brasil25 e foi validado por Bandeira et al.26. A versão brasileira da escala EMP contém 19 itens, que avaliam a percepção do paciente sobre as mudanças ocorridas em sua vida, como resultado do tratamento recebido, com alternativas de resposta dispostas em uma escala Likert de 3 pontos, sendo 1. Pior do que antes, 2. Sem mudança, 3. Melhor do que antes. Dentre os 19 itens da escala, um item global avalia como o paciente percebe, em geral, os efeitos do tratamento recebido, enquanto os demais itens avaliam as mudanças percebidas em diversas dimensões de sua vida, incluindo aspectos físicos, psicológicos, vida social, condições de vida etc.26.

Uma análise da estrutura fatorial da escala EMP, pelo método dos Componentes Principais, com rotação Varimax, resultou em estrutura de três fatores: 1. Ocupação e saúde física; 2. Aspectos psicológicos e sono; 3. Relacionamentos e estabilidade emocional. A estrutura fatorial com três fatores, com valores de eigenvalues acima de 1,0, explicou 42,13% da variância dos dados, tendo todos os itens cargas fatoriais acima de 0,47. A escala apresentou boa consistência interna (alfa de Cronbach = 0,85), estabilidade temporal teste-reteste (r = 0,93; p < 0,05) e validade convergente (r = 0,37; p < 0,05). Os indicadores obtidos de adequação da amostra foram: KMO = 0,88; Bartlet = 1216,90; p < 0,0126.

Questionário sociodemográfico e clínico: Foi utilizado um questionário visando avaliar as características sociodemográficas e clínicas dos pacientes. Este questionário havia sido previamente testado em um estudo piloto, visando avaliar a adequação das questões para um bom entendimento pela população-alvo. As variáveis sociodemográficas incluídas no questionário foram: idade, sexo, escolaridade e renda. As variáveis clínicas avaliadas foram: diagnóstico, idade em que ficou doente, há quantos anos estava doente, tempo de tratamento, existência de outra doença além do transtorno psiquiátrico, dados sobre internações em hospital psiquiátrico, tipo e frequência da medicação, dados sobre a ocorrência de crises no ano anterior, uso de bebidas ou de drogas. Algumas variáveis desse questionário foram identificadas por meio de consulta aos prontuários dos serviços de saúde mental, tais como o diagnóstico dos pacientes e a presença de comorbidades.

Procedimento

Coleta de dados: Após aprovação do projeto pelos serviços de saúde mental e pela Comissão de ética da UFSJ (processo 8-a/2010/CEPES), os participantes foram contatados para participar da pesquisa. As entrevistas foram realizadas na própria instituição ou na casa do entrevistado, conforme sua disponibilidade. Antes do início de cada entrevista, eram explicados ao paciente os objetivos da pesquisa, o procedimento, o anonimato dos dados e sua liberdade de interromper a qualquer momento a realização da entrevista se desejasse desistir da sua participação. Era explicado, ainda, que não havia respostas certas ou erradas e que ele deveria apenas responder, de forma sincera, de acordo com a sua opinião. Durante as entrevistas, os entrevistadores aplicavam as escalas EMP e SATIS-BR, assim como o questionário sociodemográfico, lendo as questões para os participantes e marcando suas respostas.

Análise de dados: O procedimento adotado para verificação da validade de construto da escala SATIS-BR foi a análise fatorial, pelo Método dos Eixos Principais, com rotação Varimax. Foi utilizado o critério mínimo de 0,40 de carga fatorial para retenção dos itens na escala27. O critério para delimitação do número de fatores a serem retidos foi definido com base nos autovalores superiores a 1.0 e análise gráfica dos autovalores28.

O segundo procedimento realizado foi a Análise por Hipóteses, enfocando a técnica de validação convergente. Esse procedimento visa verificar a correlação da escala com uma outra que avalia um construto distinto, porém teoricamente relacionado29. Para isso, foi utilizado o construto de percepção de mudança pelos próprios pacientes, pois, no estudo realizado por Holcomb et al.3, esses autores constataram que a melhora percebida pelos pacientes entre o pré e o pós-teste era um importante preditor do sentimento posterior de satisfação com os serviços. Perreault et al.24 também encontraram uma relação significativa entre esses dois construtos. Tendo em vista essa relação observada entre percepção de mudança e satisfação com o serviço, foi escolhida a Escala de Percepção de Mudança (EMP) para avaliar a validade convergente da escala SATIS-BR. A análise dos dados foi feita por meio do cálculo da correlação de Pearson entre os escores dessas duas escalas de medida.

A fidedignidade da escala SATIS-BR foi avaliada por meio da análise de sua consistência interna, por meio do coeficiente alfa de Cronbach. Foi utilizado como critério mínimo para retenção dos itens na escala o valor de 0,20 de correlação item-total30. Para a realização dessas análises estatísticas, foi utilizado o programa estatístico SPSS-PC, versão 13.0.

 

RESULTADOS

Descrição da amostra

As características sociodemográficas da amostra estão apresentadas na tabela 1. Os pacientes eram, em sua maioria, do sexo feminino (68,20%), solteiros (38,20%) e alfabetizados (97,30%), com escolaridade predominante de ensino fundamental incompleto (65,60%). A idade média era de 42,11 anos (dp = 10,77), sendo a mínima de 19 e a máxima de 67 anos. Grande parte possuía renda própria (59,10%), cujo valor era, na maioria dos casos (78,50%), de 1 a 2 salários mínimos e as principais fontes de renda eram o auxílio do governo (21,60%) e a aposentadoria por invalidez (21,60%).

 

 

As características clínicas da amostra estão apresentadas na tabela 2. Quarenta por cento dos pacientes tinham um diagnóstico da categoria Esquizofrenia, Transtornos Esquizotípicos e Transtornos Delirantes, conforme os critérios da CID-1020. A maioria dos pacientes (86,40%) não apresentava comorbidades e não tinha doenças físicas (58,20%). A idade de início do transtorno psiquiátrico foi, em média, de 28,48 anos (dp = 12,09), variando de 1 a 64, e a duração média do transtorno psiquiátrico de 13,66 anos (dp = 10,83), variando entre 1 e 46 anos. A duração média do tratamento psiquiátrico era de 11,05 anos (dp = 9,69), com tempo mínimo de 1 e máximo de 46 anos. Quanto ao número de crises no último ano, 53,60% dos pacientes não tinham sofrido nenhuma crise. Dos entrevistados, 50,00% relataram que haviam sido internados em hospitais psiquiátricos, com uma média de 3,96 internações (dp = 13,88), no decorrer da vida, variando de 1 a 30. A medicação era apenas do tipo oral para a maioria dos pacientes (75,50%), com um número médio de 3,26 (dp = 1.31) tipos de medicamentos, variando de 1 a 8.

Dados da validação da escala

A análise da estrutura fatorial pelo método de Principal Axis Factoring, com rotação Varimax, identificou três fatores (Tabela 3). Os indicadores obtidos de adequação da amostra foram: KMO = 0,87; Bartlet = 446,507; p < 0,01. A estrutura fatorial, com três fatores, com valores de eigenvalues acima de 1,0, explicou 53,12% da variância dos dados, tendo todos os itens cargas fatoriais acima de 0,45.

Os três fatores ou subescalas identificados foram: 1. Competência e compreensão da equipe, 2. Ajuda e acolhida, 3. Condições físicas do serviço. O primeiro fator contém sete itens (itens 2, 3, 4, 5, 6, 9 e 10), que explicaram 25,05% da variância dos dados e avaliam a competência e compreensão dos profissionais a respeito do problema do paciente. O segundo fator contém três itens (itens 1, 7 e 8), que explicaram 14,16% da variância dos dados e avaliam a ajuda recebida pelo paciente no serviço e a qualidade da acolhida dos profissionais. O terceiro fator possui dois itens (itens 11 e 12), que explicaram 13,92% da variância dos dados e avaliam as condições físicas e conforto do serviço. Apenas um item da escala inicial brasileira (item 6, que avaliava a informação recebida pelo paciente) foi eliminado por apresentar um coeficiente de saturação abaixo do critério mínimo estabelecido.

A tabela 4 apresenta as correlações de Pearson dos fatores entre si e com a escala global. Pode-se notar que todas as correlações foram significativas e positivas e que as correlações entre cada fator e a escala global (0,73, 0,75 e 0,94) foram mais elevadas do que aquelas obtidas entre os fatores (0,46 a 0,53). Assim, embora os fatores representem dimensões distintas, todos estão relacionados a um construto comum de satisfação, presente na escala SATIS-BR14.

 

 

No que se refere à validade convergente da escala EMP, os resultados mostraram uma correlação de Pearson positiva significativa (r = 0,41; p < 0,001) entre os escores obtidos com a aplicação da escala SATIS-BR e os dados encontrados com a escala EMP. Essa escala avalia um construto distinto, porém teoricamente relacionado, que se refere à mudança percebida pelos próprios pacientes como resultado do tratamento recebido.

A fidedignidade da escala SATIS-BR foi avaliada por meio da análise de sua consistência interna, pelo cálculo do coeficiente alfa de Cronbach. Os resultados estão apresentados na tabela 1. Os dados indicaram, para a escala global, um valor de alfa de 0,88 e correlações item-total entre 0,87 e 0,88. Esse valor de alfa se situa dentro da faixa considerada ideal (0,75 a 0,85) por Vallerand14, indicando que as questões da escala são homogêneas, sem ser repetitivas. O primeiro fator apresentou um valor de alfa igual a 0,85 e correlações item-total entre 0,52 e 0,70. O segundo fator apresentou um valor de alfa igual a 0,61 e correlações item-total entre 0,37 e 0,52. O terceiro fator apresentou um valor de alfa igual a 0,74 e correlações item-total de 0,59. A escala SATIS-BR se encontra no anexo deste artigo.

 

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos indicaram que a escala SATIS-BR apresenta qualidades psicométricas adequadas, com relação à sua validade de construto, à validade convergente e à sua consistência interna. Na avaliação da validade de construto, a análise fatorial da escala indicou uma matriz com extração de três fatores, com todos os itens alcançando cargas fatoriais acima de 0,45, explicando 53,12% da variância dos dados. Esses resultados se assemelham aos dados obtidos na validação da escala original canadense31, na qual também foram encontrados três fatores, explicando uma porcentagem comparável da variância dos dados (54,10%).

Os três fatores identificados na versão brasileira da escala SATIS-BR são semelhantes, quanto ao conteúdo, aos fatores identificados na escala original canadense (relações com a equipe, maneira de ser tratado pelos profissionais e satisfação com as condições físicas do serviço). Houve uma ligeira diferença na distribuição dos itens entre os fatores, talvez por causa de diferenças culturais, características clínicas diferenciadas da população-alvo ou variações nas características dos serviços entre os dois países31. A ocorrência de distribuições diferenciadas dos itens nos fatores é frequente nas validações de escalas de medida de uma cultura original, a qual a escala foi inicialmente validada, para sua versão adaptada para um outro país14.

As correlações dos três fatores entre si e com a escala global mostraram que todas elas foram positivas e significativas. Além disso, como esperado, os valores dos coeficientes de correlação de cada fator com a escala global foram mais elevados do que os valores obtidos entre os fatores. Esse resultado indica que, embora os fatores avaliem dimensões distintas da satisfação com os serviços, eles compartilham um construto comum, referente à satisfação global dos pacientes com os serviços14. Não é possível fazer uma comparação desses resultados com os dados da escala original canadense, tendo em vista que esse tipo de análise não constava do estudo canadense³¹.

A consistência interna da escala SATIS-BR se mostrou adequada, com um valor de alfa de Cronbach igual a 0,88 para os itens da escala global. Esse resultado se assemelha ao obtido na escala original canadense, cujo valor de alfa foi igual a 0,8931. O valor de alfa obtido no presente estudo indica que os itens da escala global possuem consistência interna e se situam dentro da faixa considerada ideal por Vallerand14, entre 0,75 e 0,85, indicando que eles são homogêneos, sem ser redundantes. Os valores de alfa para os fatores 1 e 3 se situaram acima de 0,70. Apenas o fator 2 apresentou valor de alfa um pouco abaixo desse valor, porém ainda acima de 0,50, o que é considerado aceitável32. As correlações item-total dos itens de cada fator variaram entre 0,36 e 0,89, portanto todas acima de 0,20, critério mínimo adotado para retenção dos itens na escala12. Esses valores foram superiores aos obtidos para a escala original, que se situaram entre 0,25 e 0,6831.

Quanto à validade convergente, avaliada pelo método da Análise por Hipótese29, a correlação positiva significativa obtida entre a escala SATIS-BR e a escala EMP (r = 0,41; p < 0,001) confirmou a hipótese postulada de uma relação teórica entre os construtos de mudança percebida pelos próprios pacientes e de satisfação com o serviço. O valor da correlação entre as duas escalas foi moderado, tal como esperado, uma vez que se trata de medidas de dois construtos distintos, embora teoricamente relacionados. Este resultado comprova a validade convergente da escala SATIS-BR, uma vez que a escala foi capaz de comprovar a hipótese testada. A relação das mudanças percebidas pelos pacientes com sua satisfação em relação ao tratamento recebido nos serviços tem sido evidenciada por estudos desenvolvidos nos últimos anos, tais como as pesquisas de Hasler et al.7,33 e de Perreault et al.24.

 

CONCLUSÃO

Pode-se concluir que a escala SATIS-BR possui propriedades psicométricas adequadas de validade de construto, validade convergente e fidedignidade, para sua aplicação no contexto brasileiro, podendo ser utilizada para avaliar o grau de satisfação do pacientes com os serviços de saúde mental. Sendo uma escala multidimensional, ela é mais sensível para avaliar dimensões distintas dos serviços, o que possibilita obter resultados diferenciados em função de cada dimensão avaliada, contrariamente às escalas unifatoriais, que apresentam menor sensibilidade e menor grau de informações sobre a satisfação dos pacientes com os serviços6.

A escala permite identificar quais aspectos dos serviços são mais apreciados pelos pacientes ou, ao contrário, quais aspectos deixam a desejar e necessitam ser melhorados. Pode-se, assim, utilizar essa informação para redirecionar e aprimorar os serviços, visando melhorar sua qualidade. Os dados obtidos com a escala SATIS-BR poderão ser úteis para complementar as avaliações dos profissionais e ajudar o serviço a oferecer tratamentos mais adequados às necessidades dos pacientes. Tendo em vista a sua forma curta e a facilidade de aplicação e de compreensão da escala pela população-alvo, ela poderia ser aplicada em serviços de saúde mental, de forma rotineira10, visando incentivar uma cultura de avaliação de serviços de saúde mental e práticas baseadas em evidências34.

 

AGRADECIMENTO

Este artigo faz parte de um projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (site do LAPSAM: www.ufsj.edu.br/lapsam).

Agências financiadoras: Fapemig e CNPq.

Conflito de interesses: nenhum.

 

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Endereço para correspondência:
Marina Bandeira

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Recebido em 9/3/2012
Aprovado em 1/7/2012

 

 

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