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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085

J. bras. psiquiatr. vol.62 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0047-20852013000300003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Relação entre bem-estar espiritual, características sociodemográficas e consumo de álcool e outras drogas por estudantes

 

Relationship between spiritual well-being, sociodemographic characteristics and use of alcohol and other drugs by students

 

 

Roberta de Paiva Silva; Priscila de Souza; Denismar Alves Nogueira; Denis da Silva Moreira; Erika de Cássia Lopes Chaves

Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG), Programa de Pós-Graduação em Enfermagem

Endereço para correspondência

 

 


ABSTRACT

OBJETIVOS: O estudo objetivou avaliar o consumo de álcool e de outras drogas por estudantes de Enfermagem e investigar a relação entre esse consumo e o bem-estar espiritual e as características sociodemográficas/religiosas dos estudantes.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional e seccional, realizado com 100 graduandos do curso de Enfermagem de uma universidade do sul de Minas Gerais. A coleta de dados foi realizada no segundo semestre de 2011 e utilizou um questionário sociodemográfico, a Escala de Bem-estar Espiritual e o Teste de Triagem do Envolvimento com Álcool, Tabaco e outras Substâncias. O tratamento estatístico dos dados foi realizado utilizando-se a análise univariada, por meio do teste qui-quadrado e análise múltipla, por meio da regressão logística dicotômica.
RESULTADOS: O álcool demonstrou ser a substância mais utilizada pelos estudantes (84%), o que, por sua vez, apresentou relação significativa com a espiritualidade deles, visto que possuir bem-estar espiritual negativo (OR: 3,325; IC95%: 1,059-10,441) e não ter prática religiosa frequente (OR: 3,392; IC95%: 1,064-10,811) aumenta as chances de consumo abusivo dessa substância.
CONCLUSÃO: Iniciativas preventivas ao consumo de drogas psicoativas, vinculadas à prática de atividades espirituais, podem ser utilizadas como estratégias para a promoção de hábitos saudáveis e para a manutenção da saúde e também como recurso na formação profissional de estudantes de Enfermagem

Palavras-chave:  Enfermagem, transtornos causados pelo uso de substâncias, espiritualidade.


ABSTRACT

OBJECTIVES: This study aimed to evaluate the use of alcohol and other drugs by nursing students and to investigate the relationship between this consumption, and the spiritual well-being and sociodemographic characteristics/religious students.
METHODS: This was an exploratory study of type epidemiological and cross-sectional, conducted with 100 graduating students of nursing at a university in southern Minas Gerais. The data collection was conducted in the second half of 2011 using a sociodemographic questionnaire, the Scale and Spiritual Well-being, Screening Test of Involvement with Alcohol, Tobacco and other Substances. The statistical treatment of the data was performed using univariated analysis, through chi square test and multiple analyses, by logistic dichotomic regression.
RESULTS: Alcohol proved to be the most commonly used substance among students (84%), which in turn, showed a significant relationship with the spirituality of the same, seen that owning spiritual welfare negative (OR: 3,325; IC95%: 1,059-10,441) and having no religious frequent practice (OR: 3,392; IC95%: 1,064-10,811) increase the chances of abuse of this substance.
CONCLUSION: Preventive initiatives to the consumption of psychoactive drugs linked to the practice of spiritual activities can be used as strategies to promote healthy habits and health maintenance, and also as a resource in the training of nursing students.

Keywords:  Nursing, substance-related disorders, spirituality.


 

 

INTRODUÇÃO

Os danos decorrentes do uso do álcool e outras drogas são amplos e interferem em diversos aspectos da vida do indivíduo, resultando em comportamento de risco à saúde que afeta o desenvolvimento físico, mental e social; esse comportamento se inicia, comumente, na adolescência e se estende por toda a juventude1,2.

Em 2010, foi divulgado o I Levantamento Nacional sobre Uso de Álcool, Tabaco e outras Drogas entre 12.711 Estudantes Universitários, realizado pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), o qual revelou que quase a metade desses universitários (49%) já usou drogas ilícitas. O estudo notificou, ainda, que 22% dos estudantes estavam sob o risco de desenvolver dependência de álcool e 3% já apresentavam o padrão de dependência3.

Para estudantes universitários, o consumo de álcool e outras drogas pode ocasionar, além das diversas consequências pessoais e sociais, importante prejuízo ao processo de profissionalização, como mau desempenho acadêmico, por causa das faltas ou dos atrasos constantes nas atividades escolares, do baixo rendimento durante as aulas e nos exames das disciplinas e dos inúmeros problemas de saúde, que repercutirão durante toda a formação acadêmica4.

Entre estudantes de Enfermagem, as implicações remetem, ainda, ao seu papel como profissionais na área de saúde, pois deverão ser capazes de desenvolver ações profiláticas no campo social e de saúde pública; nesse sentido, esses futuros profissionais servirão como modelo para seus pacientes, o que torna maior sua responsabilidade em evitar o uso de substâncias psicoativas5.

Outro importante fator relacionado ao graduando de Enfermagem é o fato de lidar com o ser humano no confronto direto com o sofrimento, com a dor e com a morte e ao mesmo tempo a deficiência de um processo educativo que prepare os alunos para enfrentar esses problemas6. Por conseguinte, é um público cuja atenção para a magnitude do consumo de álcool e outras drogas e de suas consequências requer o envolvimento de pesquisadores e de educadores dessa área de atuação.

A inclusão da dimensão espiritual como um fator de proteção para o uso de álcool e outras drogas é, ao mesmo tempo, inovador e relevante. Uma revisão de literatura, realizada em 2007, demonstrou que indivíduos que dão importância à espiritualidade apresentam menores índices de consumo dessas substâncias7. Ainda, pesquisadores8 têm confirmado que, ao envolver-se com padrões de religiosidade e espiritualidade, o jovem adere a um conjunto de valores, de símbolos, de comportamentos e de práticas sociais, que inclui, entre outras coisas, a recusa ao uso de álcool e outras drogas. Nesse sentido, estratégias que envolvam a espiritualidade poderiam contribuir de forma significativa para o enfrentamento das dificuldades encontradas durante a vida universitária e, consequentemente, poderiam atuar como proteção para o comportamento de risco relacionado ao uso de drogas.

Vale ressaltar que espiritualidade e religiosidade são dois construtos distintos, uma vez que espiritualidade consiste em todas as crenças e atividades pelas quais a pessoa tenta relacionar sua vida a Deus, ao Ser Divino ou mesmo a outra conexão de realidade transcendente9. Já religião é descrita como um sistema de doutrina específica partilhada por um grupo10 e religiosidade é a manifestação exterior das crenças e cultos11.

Tendo em vista que a questão da espiritualidade é muito vasta e sua mensuração é bastante complexa, tem-se no bem-estar espiritual, ou seja, na percepção subjetiva de bem-estar do sujeito em relação à sua crença, um de seus aspectos passíveis de avaliação12.

O bem-estar espiritual está relacionado à abertura da pessoa para a dimensão espiritual associada a outras dimensões da vida, maximizando seu potencial de crescimento e autoatualização13. Portanto, a definição de "bem-estar espiritual" compreende uma sensação de bem-estar que é vivenciada quando se encontra um propósito que explique um comprometimento com algo na vida, e esse propósito envolve um "significado maior" para o indivíduo14.

Estudo12 que examinou a influência do bem-estar espiritual na saúde mental de estudantes universitários concluiu que ele atua como fator protetor para transtornos psiquiátricos menores, considerando-se que a espiritualidade é um recurso para a promoção de saúde mental. Diante disso, o bem-estar espiritual pode ser uma importante variável no estudo de fatores que possam contribuir para a prevenção do uso de drogas ou, ainda, dos danos associados ao seu consumo.

Por fim, é importante destacar que uma das dificuldades encontradas para enfrentar os problemas relacionados ao uso de drogas é a falta de informações confiáveis sobre o assunto, pois, muitas vezes, os dados são divulgados fora de um contexto, sem fundamento na realidade ou de forma distorcida, contribuindo para uma visão preconceituosa sobre o consumo de álcool e drogas3. Assim, este estudo objetivou avaliar o consumo de álcool e outras drogas por estudantes de enfermagem e investigar a relação entre esse consumo e o bem-estar espiritual e as características sociodemográficas/religiosas dos estudantes.

 

MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico, observacional e seccional, realizado em uma universidade do sul de Minas Gerais. A população eleita foi de estudantes matriculados no curso de graduação em Enfermagem, que, no segundo semestre de 2011, totalizaram 157 alunos, divididos nos segundo, quarto, sexto e oitavo período. Desses, participaram do estudo 100 alunos, compondo a amostragem aleatória simples em que foi respeitado o critério de inclusão: idade acima de 18 anos. Foram excluídos os indivíduos que estavam afastados das atividades didáticas por atestados médicos ou que não compareceram às aulas por três dias consecutivos.

Os instrumentos utilizados foram o questionário de caracterização dos sujeitos de estudo, a Escala de Bem-estar Espiritual (EBE)13 e o Teste de Triagem do Envolvimento com Álcool, Tabaco e outras Substâncias (ASSIST)15.

O questionário de caracterização dos sujeitos foi desenvolvido com base na literatura de referência1,16 e teve a finalidade de investigar, além dos aspectos sociodemográficos (sexo, idade, estado civil e renda familiar mensal), também aqueles relacionados à religiosidade dos sujeitos, a saber, prática religiosa; tempo de prática religiosa; importância da religião; prática religiosa familiar e importância da religiosidade na formação do profissional de saúde. Esse instrumento foi submetido a um processo de refinamento de conteúdo e de aparência, que contou com a avaliação de um grupo de cinco juízes, peritos na temática investigada.

Sob a coordenação da Organização Mundial de Saúde (OMS), pesquisadores de vários países desenvolveram um instrumento para detecção do uso de álcool, tabaco e outras substâncias psicoativas, denominado ASSIST. Esse instrumento foi traduzido para várias línguas, inclusive para o português falado no Brasil, já tendo sido testado quanto à sua confiabilidade e factibilidade, quando aplicado por Henrique et al. em 200415. O estudo da confiabilidade teste-reteste do ASSIST foi realizado com 236 indivíduos, em diferentes locais do mundo17, e foi observada uma boa confiabilidade com kappa entre 0,58 e 0,90 para as principais questões.

O ASSIST é um questionário estruturado contendo oito questões sobre o uso de nove classes de substâncias psicoativas: tabaco, álcool, maconha, cocaína, estimulantes, sedativos, inalantes, alucinógenos e opiáceos. Vale ressaltar que o instrumento visa ao rastreamento do uso dessas substâncias para a identificação de situações de risco, o que exclui o uso por indicação médica, conforme explícito nas instruções para preenchimento dele.

As questões do ASSIST englobam a frequência de uso de substâncias psicoativas, na vida e nos últimos três meses; os problemas decorrentes dele; as preocupações, por parte de pessoas próximas ao usuário, acerca do consumo; os prejuízos na execução de tarefas esperadas; as tentativas malsucedidas de cessar ou de reduzir seu consumo; o forte desejo ou a urgência em consumir drogas e o uso por via injetável. Cada resposta corresponde a um escore, que varia de 0 a 4, e a soma total pode variar de 0 a 20. Considera-se a faixa de escore de 0 a 3 como indicativa de uso ocasional; de 4 a 15 como indicativa de abuso e maior que 16 como sugestiva de dependência15.

A EBE foi desenvolvida por Paloutzian e Elisson, em 198218, e adaptada e validada para população brasileira por Marques et al., em 2003, cuja consistência interna foi de 0,92, revelando alta fidedignidade13. Esse instrumento é constituído por 20 itens; 10 itens são destinados à avaliação do bem-estar religioso e os demais à mensuração do bem-estar existencial12. Os itens são respondidos em uma escala de seis pontos, do tipo Likert, que varia de "concordo fortemente" a "discordo fortemente". Os pontos de corte para o escore geral da EBE são os intervalos de 20 a 40, 41 a 99 e 100 a 120, para baixo, moderado e alto bem-estar espiritual, respectivamente. Nas duas subescalas, de bem-estar religioso e de bem-estar existencial, os intervalos são 10 a 20, 21 a 49 e 50 a 60 pontos, para baixo, moderado e alto, respectivamente18. Na análise deste estudo, os resultados da EBE foram denominados positivos para escore alto, e negativo para o moderado e o baixo12,19.

A coleta de dados foi realizada no segundo semestre de 2011. Antes da realização da coleta, foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido aos participantes do estudo e, mediante a sua concordância em participar da pesquisa, foram apresentados os instrumentos de coleta de dados.

Os instrumentos autoaplicáveis foram colocados em envelope e entregues aos alunos no início das atividades didáticas. Ao final do dia, posteriormente ao preenchimento, os instrumentos foram recolhidos em envelope lacrado. Essa forma de coleta foi utilizada para possibilitar ao aluno o preenchimento no momento que considerasse mais adequado e para garantir seu anonimato.

A análise dos dados, realizada pelo programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 17,0, foi precedida da elaboração de um banco de dados que foi submetido à dupla digitação para validação dele. A estatística descritiva foi utilizada para descrever e resumir os dados obtidos. Foi empregada a análise univariada, por meio do teste qui-quadrado, para investigar a relação entre o consumo de substâncias psicoativas e o bem-estar espiritual e as características sociodemográficas/religiosas dos estudantes. A análise múltipla foi utilizada para investigar a influência do bem-estar espiritual e da religiosidade sobre o uso de drogas; ela foi baseada em odds ratio, estimado pelo modelo de regressão logística dicotômica. O método de seleção das variáveis utilizado foi Backward, com nível de significância de 0,10; portanto, inicialmente, todas as variáveis independentes foram incluídas na análise e, posteriormente, passo a passo, as possíveis combinações de variáveis foram feitas até se chegar àquela que melhor discriminou os níveis da variável dependente.

Para assegurar os direitos dos participantes em cumprir os aspectos contidos na Resolução nº 196/96, do Ministério da Saúde, que trata das diretrizes e normas preconizadas em pesquisa envolvendo seres humanos, o estudo foi submetido a um Comitê de Ética em Pesquisa e aprovado sob o Protocolo nº 120/2010.

 

RESULTADOS

Dos 100 acadêmicos que participaram deste estudo, 87,0% foram do sexo feminino, sendo a proporção de sete mulheres para cada homem. Os acadêmicos investigados se apresentaram jovens (21 anos); solteiros (98,0%); residentes em república (61,0%) e com nível socioeconômico (renda familiar mensal) entre quatro e cinco salários (46,0%).

As características religiosas da população e os escores de bem estar-espiritual estão representados na tabela 1. É importante destacar que, no que se refere ao bem-estar espiritual e existencial, verificou-se que as frequências de escores positivos e negativos foram semelhantes, enquanto a frequência de bem-estar religioso positivo foi consideravelmente maior. As análises de consistência interna dos itens da Escalas de Bem-estar Espiritual demonstraram alta fidedignidade, com alfa de Cronbach de 0,889.

 

 

As frequências das respostas positivas ao ASSIST estão evidenciadas na tabela 2, na qual é demonstrado que, entre os estudantes que experimentaram maconha, anfetaminas, inalantes e opiáceos, nenhum deles fez uso nos últimos três meses que antecederam à pesquisa; no entanto, em relação às substâncias lícitas (álcool e tabaco), mais da metade dos estudantes refere uso nos últimos três meses e, ainda, mais de 80% deles fizeram o uso experimental de álcool na vida de forma geral.

Conforme o instrumento desenvolvido pela OMS, o ASSIST, o uso das substâncias psicoativas é caracterizado em ocasional, sugestivo de abuso e sugestivo de dependência; dessa forma, o perfil de consumo de álcool e outras drogas é apresentado na tabela 3. Entre os acadêmicos que consomem álcool, 74% fazem uso ocasional e 26% fazem uso indicativo de abuso. No que se refere ao tabaco, 58% consomem ocasionalmente, 39% fazem uso indicativo de abuso e 3% apresentam provável dependência. Entre os que utilizam hipnóticos/sedativos, 50% fazem uso ocasional e os demais fazem uso sugestivo de abuso. As demais substâncias investigadas foram identificadas somente como de uso ocasional.

Ao relacionar o padrão de uso de substâncias psicoativas com as características sociodemográficas, religiosas e de bem-estar espiritual dos sujeitos investigados, observou-se, por meio da análise univariada dos dados, que não houve diferenças estatisticamente significativas. Entretanto, vale lembrar que apenas o álcool e o tabaco foram as substâncias mais utilizadas, em termos de frequência absoluta, pelos estudantes (Tabela 3).

Assim, ao realizar a regressão logística dicotômica múltipla, elegeu-se como variáveis dependentes apenas o uso de álcool e tabaco, uma vez que, no estudo, apenas essas drogas apresentaram uma frequência válida de uso sugestivo de abuso e não só padrão de uso ocasional, como observado para as demais substâncias. Entretanto, apenas o uso de álcool obteve associações significantes, o que resultou num modelo final ajustado.

Portanto, os resultados da regressão logística dicotômica múltipla evidenciaram que possuir bem-estar espiritual negativo aumenta em 3,3 vezes a chance de fazer uso abusivo de álcool (p = 0,040) e que os alunos que não têm prática religiosa frequente apresentam 3,4 vezes mais chances de fazer uso abusivo dessa substância (p = 0,039) (Tabela 4). O ajuste do modelo de regressão apresentou um coeficiente de determinação de R² = 17%.

 

 

DISCUSSÃO

As taxas de consumo de álcool e outras drogas por universitários, especialmente as de substâncias lícitas, que foram identificadas como mais elevadas neste estudo, corroboraram outros achados da literatura20-22 e vêm representando um tema de grande apreensão não só aos pais de jovens, mas também aos educadores, aos profissionais de saúde e à sociedade em geral. Particularmente, o uso do tabaco e do álcool é uma questão preocupante por diversas justificativas, entre elas, o não reconhecimento pelos estudantes dos riscos que o consumo acarreta, pelo fato de serem consideradas de uso comum e de serem aceitas socialmente.

Outras pesquisas também têm encontrado baixo consumo de substâncias ilícitas em comparação com o uso de substâncias lícitas entre estudantes de Enfermagem23, o que pode estar relacionado às características do curso, que é constituído predominantemente por mulheres, além de, muitas vezes, de profissionais que já atuam na área. Ainda, em estudo conduzido no México24 com universitários, foi observada menor prevalência de consumo de drogas pelo sexo feminino, especificando que essa característica se estende à população em geral e tem sido justificado que as mulheres têm mais restrições para realizar determinados comportamentos de risco relacionados a substâncias ilegais, voltando o consumo para aquelas de fácil acesso25.

Independentemente do perfil de consumo, que pode variar em relação a país, universidade ou, ainda, curso realizado, entre outros, é oportuno enfatizar que iniciativas preventivas para o consumo de drogas psicoativas por estudantes universitários devem ser conduzidas não somente por políticas adotadas em nível nacional, mas devem se somar a elas medidas locais, inclusive dentro da própria universidade, cuja função vai além de formar pessoas para o exercício profissional, mas também para participar ativamente da identificação, do estudo e da solução de problemas sociais, além buscar recursos para a melhoria da qualidade de vida do ser humano.

Nesse sentido, uma vertente de prevenção que se mostrou bastante expressiva neste estudo e que poderia ser estimulada no ambiente universitário foi o aspecto religioso/espiritual do aluno, tendo em vista que a presença de bem-estar espiritual negativo esteve associada a maior chance de uso abusivo de álcool pelo estudante (OR: 3,325; IC95%: 1,059-10,441; p = 0,040).

Estudo conduzido pelo Departamento de Enfermagem da Faculdade de Saúde de Gwangyang na Corea26, com o objetivo de desenvolver um Programa de Educação para o Cuidado Espiritual voltado para os estudantes de Enfermagem, concluiu que, ao observar dois grupos de sujeitos (experimental: n = 42 e controle: n = 39), o grupo experimental teve maior pontuação média para a espiritualidade e bem-estar espiritual, comprovando a efetividade do programa, o que, certamente, abre margem para testes em outras universidades.

Outra característica que mostrou ter influência sobre o consumo de drogas pelos estudantes foi a prática religiosa frequente (mais de uma vez por mês), pois a ausência dela esteve associada a maior chance do uso abusivo de álcool pelos estudantes (OR: 3,392; IC95%: 1,064-10,811; p = 0,039). Da mesma forma, estudo27 que analisou a associação entre religiosidade e exposição ao consumo de bebidas alcoólicas evidenciou que o adolescente praticante de atividades religiosas teve menor chance de exposição ao consumo de bebidas alcoólicas (razão de chances OR: 0,71; IC95%: 0,60-0,83). Por conseguinte, é cada vez maior o número de trabalhos que apontam a espiritualidade/religiosidade como importante fator de prevenção ao consumo inicial de drogas por jovens28.

De maneira ampla, estudos que avaliam o efeito da espiritualidade na saúde têm apontado relação positiva com vários aspectos do bem-estar físico e mental13,29, o que leva a concluir que se trata de um fenômeno a ser explorado não só no âmbito pessoal, mas também incluído como foco de atenção na assistência à saúde e na prevenção de doenças.

Nesse contexto, quando, neste estudo, os estudantes foram questionados sobre a relevância da espiritualidade na formação do profissional de saúde, 90% deles afirmaram ser importante (Tabela 2). Essa questão remete à necessidade percebida pelo estudante de apreender o cuidado além da dimensão física, de desenvolver a capacidade de se tornar sensível quanto à dimensão espiritual do paciente, proporcionando assistência holística que resulte em melhor qualidade de vida e de bem-estar.

Também, em estudo30 que comparou os conhecimentos e atitudes dos docentes e discentes de Enfermagem quanto à interface espiritualidade, religiosidade e saúde, foi possível identificar que 77% dos sujeitos sentiam vontade de abordar o assunto; entretanto, somente 36% julgavam-se preparados e a maioria acreditava que a universidade não proporcionava todas as informações necessárias sobre o tema.

Seguramente, a inclusão da espiritualidade nas práticas de saúde e mesmo na formação profissional, ou ainda como recurso para o desenvolvimento de hábitos de vida saudáveis, é um grande desafio, haja vista a subjetividade do fenômeno e até mesmo o estigma de pessoalidade que o envolve. Particularmente, para a Enfermagem, a mudança de paradigma relacionado à espiritualidade está ligada à falta de formação dos enfermeiros e dos professores para a dimensão espiritual, porém é necessário que haja preparação dos estudantes para a avaliação de necessidades espirituais e para a prestação dos cuidados espirituais31, uma vez que a enfermagem é a profissão responsável pela assistência integral ao indivíduo, seja no âmbito físico, social, psicológico ou espiritual.

O conhecimento sobre a espiritualidade pelo futuro profissional cumula também em benefícios pessoais, visto que a espiritualidade permeia questões que resultam em senso de paz interior e de bem-estar32. Por sua vez, estes podem ser alcançados com práticas que vão além de limites culturais ou religiosos, ou seja, métodos de meditação, contemplação, oração vocal ou mental, imagens orientadas, musicoterapia, entre outros, que são atividades de cunho espiritual.

Certamente, as discussões sobre o tema não se encerram. Por se tratar de um estudo seccional, não se pode generalizar os resultados e também não é possível avaliar se as associações encontradas são causais nem avaliar a direção da causalidade. No entanto, estudos como ora apresentados permitem não só contribuir com evidências científicas sobre a realidade vivenciada no ambiente universitário, mas também assinalar mecanismos de proteção, para que seja possível construir ações de orientação para a prevenção, para a promoção da saúde e para a redução dos riscos e dos danos associados ao consumo de álcool e outras drogas.

Futuros estudos precisam ser conduzidos a fim de estabelecer os mecanismos moduladores do uso de álcool e outras drogas e como eles podem ser empregados para uma população tão vulnerável como a dos estudantes, a fim de fornecer subsídios para a implantação de medidas que garantirão melhor qualidade em sua formação profissional.

 

CONCLUSÃO

Este estudo revelou que a espiritualidade pode influenciar positivamente no uso de substâncias psicoativas entre estudantes universitários, uma vez que escores negativos de bem-estar espiritual e ausência de prática religiosa frequente estiveram associados a maior uso abusivo, especialmente de álcool, considerado uma droga socialmente aceita.

Dessa forma, iniciativas preventivas ao consumo de drogas psicoativas, vinculadas à prática de atividades espirituais, devem ser conduzidas em nível individual e comunitário, inclusive na universidade, de forma que os estudantes possam utilizar a própria espiritualidade como estratégia para a manutenção da saúde, para que posteriormente possam usar esse recurso em sua atuação profissional.

 

CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS

Roberta de Paiva Silva - Concepção e desenho do estudo, análise e interpretação dos dados, elaboração do artigo e aprovação da versão final para publicação.

Priscila de Souza - Concepção e desenho do estudo, análise e interpretação dos dados, elaboração do artigo e aprovação da versão final para publicação.

Denismar Alves Nogueira - Análise e interpretação dos dados, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

Denis da Silva Moreira - Concepção e desenho do estudo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

Erika de Cássia Lopes Chaves - Concepção e desenho do estudo, análise e interpretação dos dados, redação do artigo, revisão crítica relevante do conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada.

 

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores declaram não ter nenhum conflito de interesses relativo ao presente artigo. O projeto de pesquisa foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 

AGRADECIMENTOS

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pelo provimento de bolsa de iniciação científica.

 

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Endereço para correspondência:
Erika de Cássia Lopes Chaves
Programa de Pós-Graduação em Enfermagem
Universidade Federal de Alfenas
Rua Gabriel Monteiro da Silva, 700, Centro
37130-000 - Alfenas, MG, Brasil
Telefone: (35) 3299-1380
E-mail: echaves@unifal-mg.edu.br

Recebido em: 11/7/2013
Aprovado em: 22/9/2013.

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