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Jornal Brasileiro de Psiquiatria

Print version ISSN 0047-2085On-line version ISSN 1982-0208

J. bras. psiquiatr. vol.65 no.2 Rio de Janeiro Apr./June 2016

http://dx.doi.org/10.1590/0047-2085000000116 

ARTIGO ORIGINAL

Prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados para idosos: um estudo transversal em instituição psiquiátrica

Prescription of potentially inappropriate medications for older adults: a cross-sectional study in psychiatric institution

Kaio Vinicius Freitas de Andrade1 

Cintya da Silva Filho2 

Letícia Lima Junqueira2 

1 Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Departamento de Saúde.

2 Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

RESUMO

Objetivo

Estimar a frequência de prescrição de medicamentos potencialmente inapropriados (MPIs) para idosos institucionalizados em um hospital psiquiátrico.

Métodos

Estudo descritivo, transversal, baseado em análise de prescrições médicas para indivíduos com 65 anos ou mais (n = 40), elaboradas no mês de janeiro de 2013 e coletadas de prontuários médicos, em uma instituição hospitalar pública especializada em saúde mental. Foram analisadas variáveis sociodemográficas e clínicas relativas ao idoso. Os medicamentos prescritos foram categorizados, pelos Critérios de Beers (CB), em: 1) MPIs que devem ser evitados em qualquer condição clínica; 2) MPIs nas condições clínicas identificadas no estudo; 3) medicamentos que devem ser utilizados com precaução em idosos.

Resultados

Houve predomínio do sexo feminino (62,5%, n = 25/40). Em relação à idade, a média foi de 73 anos (66-93 anos). O tempo médio de internamento foi de 15 anos, e o principal diagnóstico foi de esquizofrenia (56,4%; n = 22/39). A prevalência de polifarmácia foi de 70%. Os medicamentos mais prescritos foram prometazina e haloperidol. Em relação aos CB, observou-se que 40,2% (n = 90/224) dos medicamentos prescritos foram classificados como MPIs em qualquer condição clínica; 38,8% (n = 87/224) foram considerados como MPIs em determinadas condições clínicas e 23,7% (n = 53/224) pertenciam à categoria dos medicamentos que devem ser utilizados com cautela em idosos.

Conclusão

Obteve-se elevada prevalência de MPIs para idosos, quando comparada com estudos semelhantes. Os CBs contribuíram para a análise das prescrições, possibilitando a identificação de medicamentos que podem potencializar os riscos de desenvolvimento de iatrogenias ou agravamento de patologias preexistentes.

Palavras-Chave: Medicamentos sob prescrição; saúde mental; hospitais psiquiátricos; prescrição médica

ABSTRACT

Objective

To estimate the frequency of prescription of potentially inappropriate medications (PIM) for institutionalized older adults in a psychiatric hospital.

Methods

Descriptive study, transversal, based on analysis of prescriptions for individuals aged over 65 years (n = 40), drawn up in January 2013 and collected from medical records in a public hospital. Sociodemographic and clinical variables were analyzed. Medications were categorized by Beers Criteria (BC): 1) PIM which should be avoided in any clinical condition; 2) PIM to avoid in older adults with certain diseases identified on the study; 3) medications to be used with caution in older adults.

Results

There was a predominance of females (62.5%, n = 25/40). Regarding age, the average was 73 years (66-93 years). The inpatient average time was 15 years and the main diagnosis was schizophrenia (56.4%; n = 22/39). The prevalence of polypharmacy was 70%. The most commonly prescribed drugs were promethazine and haloperidol. Regarding the CB, it was observed that 40.2% (n = 90/224) of the prescribed drugs have been classified as PIM in any clinical condition; 38.8% (n = 87/224) PIM in specific clinical conditions and 23.7% (n = 53/224) belonged to the category of drugs that should be used with caution in the older adults.

Conclusion

We obtained a high prevalence of PIM for older adults compared with similar studies. The BC contributed to the analysis of the requirements, enabling the identification of drugs that may enhance the risk of developing iatrogenic or worsening of preexisting conditions.

Key words: Prescription drugs; mental health; psychiatric hospitals; medical prescription

INTRODUÇÃO

Medicamentos potencialmente inapropriados (MPIs) são aqueles cujos riscos associados à sua utilização podem ser superiores aos benefícios terapêuticos1. Apesar das evidências associadas com desfechos negativos, eles continuam a ser prescritos e utilizados em idosos2.

O uso de MPI é considerado como um dos fatores de risco mais importantes para eventos adversos com medicamentos em idosos3. Esse fenômeno também está associado com a complexidade dos problemas de saúde nessa população, que geralmente requerem a prescrição de múltiplos fármacos, conceituada como polifarmácia. Somam-se a esse fato as alterações farmacocinéticas e farmacodinâmicas inerentes ao envelhecimento4,5.

A polifarmácia é comum entre idosos e mostra-se associada com o sexo feminino, aumento da idade, hospitalização, consultas com diferentes prescritores, automedicação, baixa percepção de saúde e qualidade de vida, além do acometimento por doenças crônico-degenerativas3-5.

Em 1990, nos países desenvolvidos, foram produzidos instrumentos capazes de identificar padrões inadequados de prescrições e problemas farmacoterapêuticos, com base em critérios implícitos, explícitos ou a combinação de ambos5-7.

Os critérios implícitos baseiam-se em revisões terapêuticas individualizadas, cuja validade e confiabilidade são de difícil avaliação6. Os critérios explícitos foram elaborados por meio de consensos entre profissionais, que estabeleceram índices de adequação para identificar drogas de alto risco e inapropriadas, resultando na elaboração de listas de MPIs, além de sugestões alternativas terapêuticas mais seguras2.

Os critérios usualmente empregados para esse tipo de avaliação foram propostos por Beers et al. em 1991 e atualizados em 1997, 2003 e 20122,6-8. Os Critérios de Beers (CB), publicados inicialmente em 1991, possibilitaram a identificação do uso inadequado de medicamentos em idosos institucionalizados nos Estados Unidos. Consistiam em uma lista contendo 19 medicamentos ou grupos farmacológicos que deveriam ser evitados e 11 medicamentos cuja dose, frequência de uso ou duração do tratamento não deveriam ser excedidas. A lista foi obtida por meio de consenso entre peritos em medicina geriátrica e farmacologia, utilizando-se o método Delphi modificado6.

Em 1997, os CB foram ampliados para aplicação em idosos não institucionalizados e incorporaram tópicos adicionais sobre o uso de medicamentos em idosos com patologias específicas, resultando em uma lista com 28 medicamentos ou classes de medicamentos inadequados e 35 medicamentos ou classes de medicamentos inadequados em 15 condições patológicas específicas7.

Em 2003, Fick et al. atualizaram os CB, alterando sua denominação para Critérios de Beers-Fick. Os medicamentos foram então categorizados em: 1) medicamentos ou grupos farmacológicos que devem ser evitados em idosos independentemente do diagnóstico ou condição clínica; 2) medicamentos ou grupos farmacológicos que não devem ser empregados em determinadas circunstâncias clínicas. Definiu-se uma lista com 48 medicamentos inadequados e outra contendo medicamentos inapropriados em indivíduos com 20 condições patológicas específicas8.

Em 2012, os critérios passaram por nova atualização, seguindo uma abordagem baseada em evidências. A nomenclatura utilizada passou novamente a ser Critérios de Beers, contendo 53 medicamentos ou classes de medicamentos, agrupados em três categorias: 1) MPIs que devem ser evitados em idosos; 2) MPIs para idosos com determinadas condições clínicas; 3) medicamentos que devem ser utilizados com precaução em idosos2.

Desde então, diversos estudos vêm sendo desenvolvidos com base nesses critérios, considerando que a frequência de prescrição de MPIs para idosos pode atuar como um indicador de qualidade assistencial em instituições hospitalares e/ou ambulatoriais, com relação à segurança da farmacoterapia9. Nesse contexto, objetivou-se estimar a frequência de prescrição de MPIs para idosos institucionalizados no Hospital Especializado Lopes Rodrigues (HELR), em Feira de Santana, Bahia, Brasil.

MÉTODOS

Estudo descritivo, transversal, cuja unidade de análise foram prescrições de medicamentos para idosos com 65 anos ou mais, no mês de janeiro 2013, em processo de internação no HELR, uma instituição hospitalar pública especializada em saúde mental, com 273 leitos de internação, localizada em Feira de Santana, Bahia, município com 556.642 habitantes10.

Os critérios para inclusão da prescrição no estudo foram: 1) idade ≥ 65 anos; 2) ter sido elaborada em janeiro de 2013; 3) estar escrita de forma legível, permitindo a leitura e decodificação completa. Foram descritas variáveis sociodemográficas (sexo e idade) e clínicas (diagnóstico que motivou a internação; comorbidades; tempo de internação; medicamentos prescritos).

Elegeu-se como cenário de estudo a unidade geriátrica da referida instituição, que contava com 78 leitos de internação no período da coleta. Com base nos critérios de inclusão, foram selecionados 40 prontuários, sendo analisada 1 (uma) prescrição por prontuário. Quando havia mais de uma prescrição elaborada no mês de estudo, incluiu-se apenas aquela com maior número de medicamentos.

Os medicamentos prescritos foram classificados segundo os CB2em: 1) MPIs que devem ser evitados em qualquer condição clínica; 2) MPIs nas condições clínicas identificadas no estudo; 3) medicamentos que devem ser utilizados com precaução em idosos.

As informações foram coletadas pelo pesquisador principal e, posteriormente, tabuladas e analisadas por todos os pesquisadores. Realizou-se uma análise descritiva por meio do software SPSS para Windows 18.011.

As recomendações da Resolução nº 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde12, foram atendidas. A pesquisa foi autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Feira de Santana (CEP/UEFS), Bahia, com Parecer nº 186.574 (CAAE: 08981312.9.0000.0053).

RESULTADOS

Observou-se maior frequência de indivíduos do sexo feminino (62,5%; n = 25/40). A idade média foi de 73 anos, com desvio-padrão de 6,5 (variando de 66-93 anos). O tempo médio de internamento foi de 15 anos, com desvio-padrão de 4,3 (2-18 anos). Esquizofrenia (56,4%; n = 22/39) foi o diagnóstico mais prevalente. As principais comorbidades foram hipertensão arterial (32,6%; n = 16/49) e dislipidemia (12,3%; n = 6/49) (Tabela 1).

Tabela 1 Caracterização dos idosos de acordo com o sexo, diagnóstico principal e comorbidades – Feira de Santana, Bahia, janeiro de 2013 

n %
Sexo (n = 40)
Feminino 25 62,5
Masculino 15 37,5
Diagnóstico principal (n = 39)
Esquizofrenia (F20) 22 56,4
Psicose orgânica não especificada (F29) 11 28,1
Retardo mental moderado (F71) 3 7,7
Retardo mental grave (F72) 1 2,6
Transtornos esquizoafetivos (F25) 1 2,6
Tricotilomania (F63.3) 1 2,6
Comorbidades (n = 49)
Hipertensão arterial 16 32,6
Dislipidemia 6 12,3
Diabetes mellitus tipo II 5 10,2
Outras 22 44,9

No total, foram prescritos 224 medicamentos (com 57 princípios ativos distintos), obtendo-se uma média de 5,6 medicamentos/prescrição (1-9 medicamentos). A prevalência de polifarmácia (cinco ou mais medicamentos/prescrição) foi de 70% (n = 28/40). Dos 57 fármacos, 33,3% (n = 19/57) eram inapropriados em qualquer condição clínica, com nível elevado de evidência e forte grau de recomendação contrária ao uso em idosos.

Os medicamentos mais prescritos foram prometazina (11,6%; n = 26/224) e haloperidol (10,3%; n = 23/224). Desses, 40,2% (n = 90/224) eram inapropriados em qualquer condição clínica; 38,8% (n = 87/224), nas condições clínicas dos indivíduos que receberam a prescrição e 23,7% (n = 53/224) deveriam ser utilizados com cautela em idosos (Tabela 2).

Tabela 2 Frequência de medicamentos prescritos segundo Critérios de Beers (n = 224) – Feira de Santana, Bahia, janeiro de 2013 

n %
MPI em qualquer condição clínica
Não 134 59,8
Sim 90 40,2
MPI em determinadas condições
Não 137 61,2
Sim 87 38,8
Uso com precaução*
Não 171 76,3
Sim 53 23,7

* Medicamentos que devem ser utilizados com cautela em idosos, quando os benefícios superarem os riscos, e que requerem monitoramento de eventos adversos, segundo a American Geriatrics Society, 2012.

O número médio de MPI em qualquer condição clínica por prescrição (n = 90/40) foi 2,25 (variando de 1-5). Em 90% (n = 36/40) das prescrições havia pelo menos 1 (um) MPI desse tipo. Nas prescrições em que houve polifarmácia (n = 28), em 96,4% (n = 27/28) havia pelo menos 1 (um) MPI em qualquer condição clínica e em 92,8% (n = 26/28) havia pelo menos 1 (um) MPI na condição clínica específica dos indivíduos.

A prescrição de MPI em qualquer condição clínica foi mais prevalente na faixa etária de 65-79 anos (70,0%; n = 28/40) e no sexo feminino (57,5%; n = 23/40). Dentre esses medicamentos (n = 90), destacaram-se os antipsicóticos (36,7%; n = 33/90), anti-histamínicos de uso sistêmico (28,9%; n = 26/90) e ansiolíticos (13,3%; n = 12/90). O MPIs mais prescritos foram: prometazina (26,7% n = 24/90), haloperidol (25,5%; n = 23/90) e diazepam (12,2%; n = 11/90) (Tabela 3).

Tabela 3 Caracterização dos MPI em qualquer condição clínica (n = 90) – Feira de Santana, Bahia, janeiro de 2013 

n %
Grupo farmacológico
Antipsicóticos 33 36,7
Anti-histamínicos de uso sistêmico 26 28,9
Ansiolíticos 12 13,3
Outros 19 21,1
Medicamentos prescritos
Prometazina 24 26,7
Haloperidol 23 25,5
Diazepam 11 12,2
Clonazepam 7 7,8
Clorpromazina 6 6,7
Outros 19 21,1

Dos 57 fármacos distintos entre os medicamentos prescritos (n = 224), 31,6% (n = 18/57) foram classificados como inapropriados em determinadas doenças ou síndromes. Os mais prescritos foram prometazina (27,6%; n = 24/87), haloperidol (26,4%; n = 23/87) e clonazepam (8,0%; n = 7/57).

Em 80% (n = 32/40) das prescrições analisadas constava pelo menos 1 (um) medicamento que deve ser usado com precaução em idosos, prevalecendo antipsicóticos (62,3%; n = 33/53), anticonvulsivantes (20,7%; n = 11/53), antidepressivos (15,1%; n = 8/53) e antitrombóticos (1,9%; n = 1/53). Entre os medicamentos prescritos nesse grupo, prevaleceram o haloperidol (26,4%; n = 14/53) e a carbamazepina (20,7%; n = 11/53).

DISCUSSÃO

A polifarmácia entre idosos associa-se com a elevada carga de doenças crônicas e manifestações clínicas resultantes do envelhecimento13,14. Seus desfechos podem contribuir para a redução da segurança da terapia medicamentosa, com prevalência variando de 59,5% a 71,8%15,16.

No presente estudo, a prescrição de MPI em qualquer condição clínica foi elevada, em comparação com prevalências de 41% e 54,1%, obtidas em dois estudos semelhantes15,17. Essa diferença também foi observada na comparação com estudos internacionais, que obtiveram frequências de pelo menos um MPI em quaisquer condições clínicas, iguais a 38% e 46%18.

Em análise de prescrições médicas realizada em Portugal (n = 291), evidenciou-se, entre os MPIs mais prescritos, predomínio de antipsicóticos (27,5%) e benzodiazepínicos (25,1%), padrão semelhante ao encontrado no presente estudo. Relativamente aos princípios ativos considerados inapropriados, o haloperidol esteve entre os mais prescritos19.

Os antipsicóticos aparecem nas três categorias de MPIs2. Esses fármacos são lipossolúveis, podendo acumular-se progressivamente no idoso, em decorrência da elevação proporcional da gordura corporal associada ao envelhecimento. Outros fatores como redução dos níveis de albumina plasmática e das taxas de metabolismo hepático e excreção renal contribuem para o aumento dos tempos de meia-vida e maior risco de toxicidade20. No presente estudo, a maioria dos sujeitos apresentou esquizofrenia. Nessa população, pela própria natureza do transtorno, a prevalência de prescrição de antipsicóticos costuma ser mais elevada, podendo ter como consequência maior frequência de eventos adversos.

Sintomas extrapiramidais, hipotensão ortostática e efeitos anticolinérgicos decorrentes do uso de antipsicóticos podem comprometer a mobilidade dos idosos21,22. Os antipsicóticos convencionais podem aumentar o risco de acidente vascular cerebral e a mortalidade em idosos com demência23. Também podem ocasionar prejuízos na função psicomotora, levando à ataxia, que favorece a ocorrência de quedas e fraturas2.

Recomenda-se evitar a prescrição de antipsicóticos para idosos, reservando-os para quadros com sintomatologia mais grave e que não responderam adequadamente a outras alternativas, empregando-se as menores doses necessárias para a obtenção dos efeitos terapêuticos. O risco de eventos adversos graves, principalmente cerebrovasculares, deve ser avaliado24.

Prometazina e difenidramina são anti-histamínicos utilizados como sedativos e hipnóticos, isoladamente ou em associação com outros fármacos. Possuem propriedades anticolinérgicas intensas, provocando confusão e disfunção cognitiva no idoso. A prometazina possui efeito sedativo prolongado e tolerância reduzida com o avanço da idade, estando associada à ocorrência de confusão, boca seca, constipação e retenção urinária em idosos. É, ainda, inapropriada em determinadas condições clínicas, como na doença de Parkinson, por agravar os sintomas parkinsonianos2.

Na maioria dos hospitais psiquiátricos brasileiros, a prometazina foi consagrada como um dos fármacos mais prescritos no tratamento das manifestações extrapiramidais distônicas agudas ocasionadas pelos antipsicóticos típicos25. No entanto, deve-se atentar para o risco de deflagração de estados confusionais e o agravamento de possíveis déficits cognitivos; nos casos de efeitos extrapiramidais relacionados ao uso de antipsicóticos em idosos, recomenda-se a redução da dose ou a substituição do medicamento por outros que não ocasionam efeitos anticolinérgicos como loratadina, desloratadina, cetirizina e azelastina26.

Em razão da menor incidência de efeitos adversos extrapiramidais em relação aos antipsicóticos tradicionais ou típicos, os antipsicóticos atípicos, eficazes no controle das manifestações psicóticas em adultos e idosos, passaram a ser utilizados com maior frequência e como primeira opção terapêutica para o manejo dos sintomas psicóticos e comportamentais, tornando dispensável a associação com anti-histamínicos ou anticolinérgicos24.

O diazepam, o clordiazepóxido e o clonazepam são benzodiazepínicos de longa ação classificados como MPIs em qualquer condição clínica e a depender da doença ou síndrome. Possuem meia-vida longa em idosos, produzindo sedação prolongada, alterações psicomotoras, falta de coordenação, aumento do risco de quedas e fraturas, além de delírios, perturbações cognitivas e elevação da mortalidade2,27,28.

Entre os benzodiazepínicos, em 2003, faziam parte da lista de MPIs apenas os de curta ação, caso fossem prescritas doses elevadas, e os de longa duração, uma vez que os primeiros não promovem a geração de metabólitos ativos e, por isso, foram associados a menor risco para os idosos. Porém, na atualização mais recente, em 2012, todos os benzodiazepínicos foram incluídos na categoria de MPIs, independentemente da sua duração de ação19.

Embora os benzodiazepínicos sejam amplamente utilizados em idosos, não se recomenda o seu uso, pelo fato de que, com o avanço da idade, há alterações qualitativas e quantitativas no complexo gabaérgico, particularmente em relação aos receptores GABA, que são responsáveis pelo aumento da sensibilidade aos benzodiazepínicos29. São necessárias doses mais baixas e níveis plasmáticos inferiores nos idosos do que entre os jovens, para alcançar o mesmo nível de sedação. A prescrição de benzodiazepínicos para idosos só deve ocorrer quando for extremamente necessária, dando-se sempre preferência aos fármacos de meia-vida curta e intermediária. Existem fármacos que podem ser prescritos como alternativa aos benzodiazepínicos em casos de ansiedade, como a buspirona, que possui efeito ansiolítico sem provocar sedação, dependência e síndrome de abstinência.

Entre os antiepilépticos, o fenobarbital é classificado como MPI para idosos em qualquer condição clínica, por causa da alta taxa de dependência física e risco de overdose, mesmo em baixas dosagens. Os barbitúricos são fortemente aditivos e causam mais efeitos adversos quando utilizados como anticonvulsivantes nos idosos do que a maioria dos sedativos ou hipnóticos. A população idosa requer dosagens menores para atingir as mesmas concentrações séricas de fenobarbital que os adultos30. Recomenda-se evitar a prescrição de fenobarbital para idosos, preferindo-se a gabapentina como agente de primeira escolha, já que é provavelmente o fármaco mais bem tolerado por essa população31,32.

CONCLUSÕES

Apesar de a prescrição de MPIs também ser um problema frequente nas unidades especializadas em psiquiatria, poucos estudos investigaram com profundidade o valor terapêutico e os riscos associados ao uso de medicamentos em idosos assistidos nessas instituições.

O principal achado do presente estudo consiste na elevada prevalência de MPI em prescrições para idosos, quando comparada a outros estudos com metodologia semelhante. Conclui-se que os Critérios de Beers contribuíram para a análise das prescrições selecionadas, possibilitando a identificação de medicamentos que podem potencializar os riscos de desenvolvimento de iatrogenias ou agravamento de patologias preexistentes.

Embora os Critérios de Beers sejam utilizados com frequência em pesquisas nacionais e internacionais, uma das limitações apresentadas na execução do estudo foi a escassez de estudos cuja análise tenha sido pautada na atualização mais recente dos referidos critérios. Outras limitações de ordem metodológica podem ter contribuído para reduzir a validade externa do estudo, em especial o número relativamente pequeno de prescrições analisadas e a natureza do estudo.

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Received: June 4, 2015; Accepted: May 24, 2016

Endereço para correspondência: Kaio Vinicius Freitas de Andrade. Av. Transnordestina, s/n, Novo Horizonte. 44036-900 – Feira de Santana, BA, Brasil. E-mail: kaiovinnicius@yahoo.com.br

CONTRIBUIÇÕES INDIVIDUAIS

Kaio Vinicius Freitas de Andrade – Elaboração do projeto de pesquisa e desenho do estudo, análise de dados, interpretação dos resultados, elaboração de tabelas, redação e revisão final do artigo.

Cintya da Silva Filho – Redação e formatação do artigo e das tabelas, revisão do conteúdo.

Leticia Lima Junqueira – Coleta, processamento, análise dos dados e elaboração do artigo.

CONFLITOS DE INTERESSE

Os autores não possuem conflitos de interesse a serem declarados.

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