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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.79 no.4 São Paulo Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2002001300014 

Atualização


 

Do Bastão de Esculápio ao Caduceu de Mercúrio

 

Paulo R. Prates

Porto Alegre, RS

 

 

Os dicionários definem símbolos como "tudo aquilo que, por um princípio de analogia, representa ou substitui alguma coisa. Aquilo que, por sua forma e natureza, evoca, representa ou substitui, num determinado contexto, algo abstrato ou ausente" 1. A balança é o símbolo da justiça; o sol é o símbolo da vida; a cruz é o símbolo do cristianismo. Todo o símbolo tem um significado, sem o que ele não pode representar alguma coisa.

O editor da respeitada revista The New England Journal of Medicine, Arnold S. Relman, em seu editorial comemorativo ao volume 300 da revista, refere-se ao seu símbolo, o bastão de Esculápio cruzado com uma pena, como the crossed quill and caduceus seal 2. Uma quantidade de cartas de médicos americanos e até mesmo de outros países chegou a redação para reclamar da confusão feita com o bastão de Esculápio e o caduceu de Mercúrio.

A confusão entre o bastão de Esculápio e o caduceu de Mercúrio é antiga e existe desde a Renascença 3. O bastão de Esculápio com uma serpente enrolada sempre foi o símbolo da atividade médica. Em 1919 a American Medical Association e em 1956 a World Medical Association o adotaram como seus símbolos 4. O caduceu é mais antigo que o bastão de Esculápio e sempre esteve relacionado ao comércio. De onde vem esta confusão entre os dois símbolos?

Mercúrio era filho de Júpiter e de Maia. Os gregos o chamavam de Hermes, que significa interprete ou mensageiro. Logo após seu nascimento revelou extraordinária inteligência. Conseguiu sair do berço e foi para Tessália onde roubou parte dos rebanhos guardados por Apolo e após esconder o gado numa caverna voltou para o berço como se nada tivesse acontecido. Quando Apolo descobriu o roubo conduziu Mercúrio diante de Júpiter que o obrigou a devolver os animais. No entanto, Apolo, encantado com o som da lira que Mercúrio tinha inventado, a partir de uma casco de tartaruga, deu-lhe em troca, o gado e o caduceu. Júpiter, surpreso com a vivacidade e inteligência do filho, fez dele seu mensageiro e o colocou a serviço de Plutão, deus das profundezas subterrâneas, os infernos, de onde reinava sobre os mortos. Uma das tarefas de Mercúrio era conduzir os mortos ao reino de Plutão 5,6. Esta é a origem do costume de que na antigüidade, os homens que procuravam os feridos e os mortos nos campos de batalha levassem o caduceu, semelhante à bandeira branca ou à bandeira da cruz vermelha nos conflitos mais recentes 7. Surgiu daí o fato de ser o caduceu o símbolo de serviços de saúde de algumas forças armadas, inclusive a dos Estados Unidos 3.

O caduceu era, originalmente, uma haste de ouro com asas em sua extremidade. Segundo a mitologia, Mercúrio lançou-o entre duas serpentes que lutavam e estas se entrelaçaram na haste em uma atitude amistosa 6. Daí o seu aspecto conhecido. Por ser Mercúrio, também, deus dos negociantes, o caduceu tornou-se o símbolo do comércio (fig. 1) 5,6.

 

 

A lenda, sobre Asklépios ou Esculápio, data de cerca de 700 anos AC, foi relatada por Hesíodo 8.

Esculápio, nome latino de Asklépios em grego, era filho de Apolo e Côronis. Nasceu em Epidauro no Peloponeso, de onde seu culto se disseminou. Conta a mitologia que Diana, irmã e uma das esposas de Apolo, numa crise de ciúmes matou a mortal Côronis, grávida de Apolo. Estando Côronis já na pira funerária, Apolo arrancou-lhe do ventre o filho Esculápio, entregando-o ao centauro Quiron para ensinar-lhe a arte de curar. O menino aprendeu depressa e logo ultrapassou o mestre. Tornou-se tão hábil na arte de curar que podia ressuscitar os mortos. Plutão, temeroso de que com esse dom, pudesse Esculápio diminuir as almas que chegavam ao seu reino, queixou-se a Júpiter que, como castigo, o eliminou com um raio. Em outra versão, Esculápio foi morto pelas flechas de seu próprio pai, tendo as flechas de Apolo tornado-se o símbolo da morte súbita na medicina grega 4-6,9. Numa de suas visitas a pacientes em seu templo, uma serpente enrolou-se em seu cajado. Apesar do esforço para retirá-la, a serpente tornava a enrolar-se no cajado onde permaneceu 4. Esculápio tornou-se o deus da medicina e seu cajado com uma serpente enrolada, o símbolo da atividade médica (fig. 2) 3,4,10.

 

 

De onde vem a confusão entre os símbolos de atividade tão diferentes?

A primeira causa é a serpente que desde o tempo dos babilônios esteve relacionada com a cura e, portanto, com a atividade médica. Na lenda do príncipe Gilgamés, transmitida pela escrita cuneiforme, a serpente, após comer a erva da vida despiu-se de sua pele envelhecida e se rejuvenesceu. Tornou-se o símbolo de vários deuses da cura nas culturas antigas 11.

A Bíblia, no Quarto Livro de Moisés, 21:8, também se refere à serpente, relacionando-a com a cura: "Então", disse o Senhor a Moisés: "faze uma serpente de bronze e põe-na sobre a haste; e será que todo o mordido que olhar para ela vivera".

Outro motivo é que o caduceu pertencia a Apolo que o deu a Mercúrio em troca da lira. Apolo é também considerado como deus da medicina pelos gregos e considerado o inventor da arte de curar 13. O juramento de Hipócrates inicia com o juramento em nome de Apolo, "juro por Apolo, médico, Asklépios, Hegéia e Panacéia..." 14.

O fato de ser usado nos campos de batalhas na procura de feridos e mortos também o confunde com a atividade médica 7.

Outro fato importante é a associação do caduceu à alquimia na idade média 3, daí a sua ligação aos medicamentos e a medicina.

Certamente, o motivo principal da confusão nos tempos atuais foi a publicação das obras de Hipócrates em grego pelo tipógrafo suíço Johannes Froben em 1538. O caduceu era o símbolo de sua tipografia e como tal, foi estampado na página frontal do livro (fig. 3) 15.

 

 

Símbolos significam a representação de alguma coisa ou de alguma atividade e podem, em determinado período, perder a sintonia com aquilo que ele representa. O famoso artista gráfico americano, Paul Rand, nos diz muito bem sobre isto:

"Há bons símbolos, como a cruz.
Há outros como a suástica.
Seus significados são tomados de uma realidade.
Símbolos são uma dualidade.
Eles tomam significado das causas... boas ou más". 16

As mudanças que a realidade econômica tem imposto à atividade médica com a comercialização exagerada da profissão; com planos de saúde impondo normas à nossa atividade e muitos desses planos usando corretamente o caduceu do comércio, como símbolo, mas algumas vezes fazendo com que este seja confundido com o símbolo da medicina, uma reflexão sobre o nosso verdadeiro símbolo e o seu significado se impõe. É pouco provável que seu uso incorreto possa induzir mudanças no comportamento médico. Em seu artigo "O símbolo da medicina: tradição e heresia" o Prof. Joffre Marcondes de Rezende escreve: "com a intermediação dos serviços médicos por empresas de fins lucrativos, a medicina tornou-se objeto de comércio por parte de terceiros. O médico passou a ser apenas um prestador de serviços e o paciente um consumidor, ambos sujeitos a normas contratuais previamente estabelecidas. Neste sentido, estaria justificado o uso por essas empresas do caduceu de Hermes, símbolo do comércio" 17. Por outro lado, não devemos esquecer que a nossa atividade surgiu com o homem, com o primeiro sinal de sofrimento e com o primeiro desejo de aliviá-lo 12 e outro não deveria ser seu objetivo primordial. Isto não tem nada em comum com o comércio. O bastão de Esculápio e o que ele significa é e deve continuar sendo o verdadeiro símbolo da medicina 4,9,18.

 

Referências

1. De Holanda Ferreira AB. Novo Dicionário da Língua Portuguesa Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.        [ Links ]

2. Relman AS. Editorial. N Engl J Med 1979; 300: 38-9.        [ Links ]

3. Metzer WS. The caduceus and the Aesculapian staff: ancient eastern origins, evolution, and western parallels. South Med J 1989; 82: 743-8.        [ Links ]

4. Faria Jr. MA. Vandals at the gates of medicine. Georgia: Hacienda Publishing, 1994.        [ Links ]

5. Commelin P. Nova mitologia grega e romana. Belo Horizonte: Itatiaia, 1983.        [ Links ]

6. Ménard R. Mitologia Grego-Romana. São Paulo: Opus, 1991.        [ Links ]

7. Eich WF. The caduceus. Letters to the editor. South Med J 1989; 82: 1455.        [ Links ]

8. Tamayo RP. El Concepto de Enfermedade. México: DF Fondo de Cultura Económica, 1988.        [ Links ]

9. Meade JW. Letters to editor. JAIMA 1989; 262: 1771.        [ Links ]

10. Filley CM. Serpents two will not do. N Engl J Med 1979; 300: 929.        [ Links ]

11. De Oliveira AB. A evolução da medicina até o início do século XX. São Paulo: Livraria Pioneira, Secretaria de Estudos de Cultura, 1981.        [ Links ]

12. Greelhoed GW. The caduceus as a medical emblem: heritage or heresy? South Med J 1988, 81: 1155-61.        [ Links ]

13. Castiglione A. História da Medicina. São Paulo: Editora Nacional, 1947.        [ Links ]

14. Lyons AS, Petrucelli II RJ. Medicine an Illustrated History. New York: Harry N. Abrams, Inc. Publishers, 1978.        [ Links ]

15. Rutkow JM. Surgery an Ilustrated History. Toronto: Mosby, 1993.        [ Links ]

16. Os símbolos nacionais. Presidência da República. Brasília, 1993.        [ Links ]

17. Rezende JM. O símbolo da medicina: tradição e heresia. Dados obtidos via internet. Web: http://www.usuários.cultura.com.br/jmrezende, 29/10/2001.        [ Links ]

18. Parrish DO. The symbol of medicine: one snake, not two. JAMA 1989; 261: 3412.        [ Links ]

 

 

Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul/Fundação Universitária de Cardiologia
Correspondência: Paulo R. Prates - Unidade de Pesquisa do IC/FUC - Av. Princesa Isabel, 395 - 90620-001 - Porto Alegre, RS - E-mail: pesquisa@cardnet.tche.br
Recebido para publicação em 13/9/01
Aceito em 14/11/01

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