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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.86 no.1 São Paulo Jan. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006000100009 

ATUALIZAÇÃO

 

Cardiologia baseada em evidências: onde buscar evidências?

 

 

Otávio Berwanger; Álvaro Avezum; Hélio Penna Guimarães

Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia - São Paulo, SP

Correspondência

 

 

INTRODUÇÃO

Medicina baseada em evidências (MBE) é definida como o uso consciente, explícito e criterioso das melhores evidências disponíveis na literatura médica para tomadas de decisões em relação ao manejo de pacientes1,2. Consiste em processo sistemático de seleção, análise e aplicação de resultados válidos de publicações científicas como base de decisões clínicas3,4. Essas decisões incluem quantificação de risco, escolha de métodos diagnósticos, estabelecimento de prognóstico e escolha da melhor abordagem terapêutica.

O que se consideram "evidências" são estudos clínicos publicados em diferentes periódicos ou bancos de dados eletrônicos, sob forma de artigos originais, resumos estruturados de artigos originais, revisões sistemáticas, health technology assessments e diretrizes (guidelines).

Anualmente, são publicados cerca de dois milhões de artigos médicos, o que faz que o profissional em busca de evidências clínico-epidemiológicas tenha, em um primeiro momento, dificuldade para encontrar as informações que deseja. Além disso, busca de evidências não-sistematizada pode ser desgastante e pouco produtiva. Nos últimos anos, entretanto, ocorreram grandes avanços em desenvolvimento, síntese e organização de evidências em diferentes bancos de dados que podem ser consultados para auxiliar em tomada de decisão clínica5-7.

 

ONDE BUSCAR ARTIGOS ORIGINAIS?

Busca em bancos de dados eletrô­nicos (Medline e Embase)

Medline de US National Library of Medicine e Embase, seu correspondente europeu, são grandes bancos de dados destinados a englobar a maior parte das publicações relacionadas à pesquisa biomédica.

Medline foi a primeira fonte eletrônica de evidência disponível. Permanece como excelente recurso para busca de provas científicas quando outros serviços mais especializados de consulta não estão disponíveis ou quando se planeja busca genérica da literatura médica. Para obtenção de artigos de alta qualidade científica no Medline necessita-se desenvolver estratégia de busca adequada.

Atualmente, a melhor forma de identificar artigos originais no Medline é pelo PubMed (www.pubmed.com) da U.S. National Library of Medicine, uma vez que esse sítio eletrônico oferece vantagens como acesso gratuito, possibilidade de realizar um tutorial online, ferramenta mesh browser e ferramenta clinical queries.

A ferramenta mesh browser possibilita a identificação das palavras-chave do sistema Medline sobre o tópico em questão, tornando a busca de artigos menos propensa à não-captura de artigos fundamentais.

A ferramenta clinical queries permite o emprego de filtros metodológicos específicos para diferentes enfoques clínicos (terapêutico, preventivo, diagnóstico, prognóstico e etiológico). Por exemplo, ao escolher-se o enfoque terapêutico, o emprego desses filtros metodológicos garante que os resultados da busca sejam preferentemente ensaios clínicos randomizados e revisões sistemáticas e não artigos de pesquisa básica ou outros não relacionados diretamente à questão de interesse.

 

BUSCA EM PERIÓDICOS PRIMÁRIOS

De modo geral, periódicos primários contêm artigos originais, artigos de revisão, relatos de caso, editoriais, seções específicas e cartas de leitores. Alguns dos mais importantes são: New England Journal of Medicine, The Lancet, British Medical Journal (BMJ), JAMA, entre outros. Desses, o BMJ permite acesso integral aos artigos originais, ao contrário da maioria dos demais periódicos.

Tais revistas são geralmente de fácil acesso em bibliotecas e estão sob forma de publicação eletrônica na internet. No Brasil, alguns sítios eletrônicos oferecem acesso gratuito a artigos integrais, a exemplo de "Periódicos Capes" (www.periodicos.capes.gov.br), disponível em algumas universidades e instituições.

 

ONDE BUSCAR RESUMOS ESTRUTURADOS DE ARTIGOS ORIGINAIS?

ACP Journal Club e Evidence Based Medicine (www.acpjc.org)

São revistas publicadas a cada dois meses pelo American College of Physicians (ACP) e pelo British Medical Journal (BMJ), respectivamente. Nelas, artigos relevantes e recentemente publicados nos principais periódicos primários são selecionados, avaliados criticamente e apresentados em forma de resumos estruturados. ACP Journal Club é mais específico, incluindo apenas artigos de clínica médica, enquanto Evidence Based Medicine abrange áreas como pediatria, psiquiatria, ginecologia e cirurgia, além de medicina interna. Os revisores dessas publicações utilizam critérios científicos bem estabelecidos para selecionar os artigos, dando preferência àquelas publicações capazes de fornecer informações diretamente aplicáveis na prática clínica.

A síntese dos artigos segue um formato que visa facilitar a interpretação e a aplicabilidade dos estudos analisados. Nele se incluem: título declarativo (contendo o achado principal do estudo), questão clínica principal, delineamento, população estudada, resultados principais expressos sob forma de parâmetros clínico-epidemiológicos de impacto (nem sempre utilizados nos artigos originais) como NNT e conclusão.

Para cada artigo resumido há também comentário de um especialista sobre a importância dos achados. Adicionalmente, os editoriais dessas revistas fornecem excelente material educacional sobre medicina baseada em evidências. O CD-ROM Best Evidence, atualizado anualmente, compila todas as edições de ACP Journal Club e Evidence-Based Medicine. Atualmente, também é possível, mediante assinatura anual, acessar essas revistas online no site < www.acpjc.org>.

No caso da Cardiologia, há o periódico Evidence-based Cardiovascular Medicine (www.harcourt-international.com/journals/ebcm/), o qual segue os mesmos princípios de sumarização e apresentação dos dados.

Avaliação crítica de um tópico (Critically Appraised Topic – CAT)

Avaliação crítica de um tópico (Critically Appraised Topic - CAT, em inglês) é fonte rica e de fácil acesso no sítio eletrônico < www.cebm.jr2.ox.ac.uk>. Essas avaliações são feitas a partir de dúvidas clínicas reais geradas no atendimento de pacientes. Organizam-se de forma muito semelhante aos artigos sumariados nas revistas ACP Journal Club e Evidence Based Medicine, incluindo título declarativo, questão clínica e demais itens. Além de constituir-se em fonte de evidências, os CAT representam importante recurso educativo. A partir dessas avaliações, lançou-se livro sobre o manejo de urgências e emergências denominado Evidence Based On Call – Acute Medicine, que pode ser acessado no endereço eletrônico <www.eboncall.org>.

Seguindo o modelo dos CAT, outros centros possuem propostas semelhantes, como os POEM (Pieces of Evidence that Matters), publicados no BMJ e também disponíveis no endereço (www.infopoems.com). Ainda há os Best Bets (www.bestbets.com).

 

ONDE BUSCAR REVISÕES SISTEMÁTICAS?

As principais fontes de revisões sistemáticas são a Cochrane Library, publicação da Cochrane Collaboration (www.cochrane.org), e o The York Database of Abstracts of Reviews of Effectiveness (DARE) do NHS Centre for Reviews and Dissemination. A Cochrane Collaboration é constituída por grupo internacional de médicos, pesquisadores e instituições que visam preparar, manter e divulgar revisões sistemáticas8.

A Cochrane Library foi delineada para ser uma das mais completas e importantes fontes de evidência para a tomada de decisões clínicas. Atualmente, a Cochrane Library é composta por quatro bancos de dados:

A) Cochrane Database of Systematic Reviews, que contém cerca de trezentas revisões sistemáticas e trezentos protocolos, abrangendo áreas como obstetrícia e neonatologia, doenças cerebrovasculares, diabetes, doenças respiratórias, entre vários outros.

B) The York Database of Abstracts of Reviews of Effectiveness (DARE): complementando as informações contidas no banco de revisões sistemáticas, inclui análises críticas detalhadas de duzentas revisões e resumos de publicações de agências internacionais de tecnologia em saúde. Pode ser acessado gratuitamente no endereço do NHS Centre for Reviews and Dissemination (www.york.ac.uk/ inst/crd/welcome.htm), o qual adicionalmente possibilita acesso a banco de Health Technology Assessment e banco de Análises Econômicas em Saúde (contendo principalmente estudos de custo-efetividade).

C) The Cochrane Controlled Trials Register (CCTR), que contém bibliografia de mais de 350 mil ensaios clínicos identificados pelos colaboradores da Cochrane Collaboration e outros profissionais, incluindo vários estudos não listados no MEDLINE e em outros arquivos bibliográficos.

D) The Cochrane Review Methodology Database (CRMD), que inclui coleção de artigos e manual sobre a metodologia de revisões sistemáticas.

No Brasil, atualmente é possível acessar gratuitamente a Cochrane Library cadastrando-se por meio da Bireme (www.bireme.br) ou da Biblioteca Virtual em Saúde - BVS (http://www.bvsalud.org).

 

ONDE BUSCAR HEALTH TECNOLOGY ASSESSMENTS (HTA)?

Atualmente a avaliação de tecnologias de saúde constitui parte fundamental da organização de serviços de saúde e instrumento de apoio à decisão clínica. Diversos endereços apresentam revisões sistemáticas sobre o assunto, incluindo aspectos de análise econômica em saúde, particularmente estudos de custo-efetividade. Entre eles, destacam-se:

A) National Library of Medicine’s Health Services/Technology Assessment Text (HSTAT) (text.nlm.nih.gov/ftrs/gateway).

B) Evidence-Based Practice Centers/ Evidence-Based Reports (www.ahcpr.gov/clinic/epc).

C) The NHS Centre for Reviews and Dissemination/ HTA Database (http://agatha.york.ac.uk/htahp.htm).

D) NICE- Technology Appraisals (www.nice.org.uk/).

E) Catalogue of the New Zealand HTA (nzhta.chmeds.ac.nz/nzhtainfo/service.htm).

F) International Network of Agencies for Health Technology Assessment (INAHTA). (www.inahta.org/)

 

ONDE BUSCAR DIRETRIZES (GUIDELINES)?

Diretrizes ou guidelines são posicionamentos clínicos sistemáticos desenvolvidos por sociedades e organizações oficiais, com o objetivo de fornecer ao profissional informação atualizada sobre o manejo de diferentes problemas clínicos. Idealmente, esses recursos devem ser montados para responder a questões clínicas específicas de forma objetiva, a partir de revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados. Há potenciais limitações nas diretrizes, como o fato de muitas de suas recomendações serem baseadas apenas em opinião de especialistas e não em evidências consistentes. Além disso, alguns desses posicionamentos são patrocinados pela indústria farmacêutica, sofrendo conflitos de interesse. Os principais sítios de busca de diretrizes são National Guidelines Clearinghouse (www.guideline.gov), NICE/NHS - Guidelines (www.nice.org.uk), Guidelines International Network (www.g-i-n.net) e SIGN- Guidelines (www.sign.ac.uk).

 

É POSSÍVEL REALIZAR UMA BUSCA INTEGRADA POR EVIDÊNCIAS?

SumSearch (www.sumsearch.uthscsa.edu/searchform4.htm) é um dos principais endereços eletrônicos que permitem busca unificada e gratuita de diretrizes, revisões sistemáticas e artigos originais. Além disso, a exemplo do PubMed, é possível especificar-se o enfoque clínico-epidemiológico de interesse na busca de evidências.

OVID (www.ovid.com) oferece acesso a bancos de dados como o Medline e o Embase e a diversos periódicos. Recentemente foi adicionado o banco de dados de MBE, denominado Evidence Based Medicine Reviews (EBMR), o qual reúne algumas das fontes de evidência mais importantes como o Best Evidence e o Clinical Evidence. Possui a desvantagem de não ser gratuito.

 

EXISTEM LIVROS-TEXTO QUE INCORPOREM CONCEITOS DE MBE?

Atualmente estão disponíveis livros textos que incorporam conceitos de MBE em seus capítulos. No caso de intervenções terapêuticas, um dos mais completos e de melhor qualidade é o Clinical Evidence www.clinicalevidence.com). Trata-se de um compêndio, atualizado a cada seis meses, que discute benefícios e riscos de várias intervenções médicas com base em revisões sistemáticas e ensaios clínicos randomizados. Seu enfoque é basicamente terapêutico-preventivo e seus capítulos são organizados a partir de questões clínicas como "Qual o efeito do ácido acetilsalicílico na prevenção secundária de cardiopatia isquêmica?" ou "Qual o risco associado ao emprego de trombolíticos no tratamento do acidente vascular encefálico isquêmico?".

O Clinical Evidence possui adicionalmente a vantagem de apresentar os métodos de busca e avaliação das evidências em seu texto. Inclui tópicos de diferentes áreas médicas, como cardiologia, psiquiatria, ginecologia, gastroenterologia, pneumologia, pediatria, entre outras.

Além da publicação do livro texto, o Clinical Evidence é disponibilizado nas versões eletrônica, CD-ROM e para uso em computadores de mão (Palms e Pocket PCs). Há pouco tempo foi lançado o Clinical Evidence Cardiovascular Disorders (www.clinicalevidence.com), o qual contém apenas os capítulos de medicina cardiovascular contidos na publicação completa do Clinical Evidence

O livro Evidence Based Cardiology editado por Yusuf et al. e publicado pela BMJ é um livro-texto que compreende os principais temas clínicos em doenças cardiovasculares e que incorpora explicitamente em sues capítulos conceitos de MBE, constituindo-se em excelente referência. Além disso, oferece a vantagem de fornecer atualização por meio do seu site (www.evidbasedcardiology.com). Também está disponível para uso em PDAs.

Também denominado Evidence Based Cardiology, o livro publicado por Sharis e Cannon traz ampla coletânea de referências-chave sobre grandes temas em cardiologia. Em virtude de seu formato de manual, oferece a vantagem de poder ser consultado de forma rápida, o que facilita seu uso na prática clínica diária.

 

OUTROS ENDEREÇOS ELETRÔNICOS

Nos endereços eletrônicos a seguir podem ser encontrados materiais didáticos sobre MBE, como calculadoras eletrônicas, fichas de leitura crítica de artigos, agenda de cursos, workshops e links para outros sítios de interesse.

A) Centre for Evidence-Based Medicine – University of Oxford (www.cebm.jr2.ox.ac.uk).

B) Centre for Evidence-Based Medicine – University of Toronto (www.cebm.utoronto.ca/).

C) McMaster University Health Information Research Unit (www.cebm.utoronto.ca/).

D) Evidence-Based Medicine Education Center of Excellence - North Carolina (www.hsl.unc.edu/ahec/ebmcoe/pages/index.htm).

Também são úteis sítios que fornecem material atualizado sobre fichas de leitura crítica de artigos, como o Centres for Health Evidence (www.cche.net/principles/content_all.asp), o qual fornece versões eletrônicas da série de artigos intitulada "User’s Guide to the Medical Literature" publicada no JAMA pelo Evidence Based- Medicine Working Group e o CASP (Critical Appraisal Skills Program) (www.phru.org.uk/~casp/casp.htm).

Igualmente estão disponíveis endereços eletrônicos destinados ao treinamento para busca na literatura, com destaque para ADEPT (Applying Diagnosis, (a)Etiology, Prognosis & Therapy methodological filters to retrieving the evidence) (http://www.egroups.com/group/adept) e para o tutorial do PubMed (www.pubmed.com).

Há, ainda, informações pertinentes em endereços como o do periódico Bandolier (www.bandolier.com), o qual também representa excelente coletânea de materiais sobre princípios e prática de MBE, bem como atualização em temas diversos de diferentes especialidades médicas.

 

QUANDO UTILIZAR CADA UMA DAS DIFERENTES FONTES DE EVIDÊNCIA

Em certas ocasiões, a exemplo da prática clínica diária, há necessidade de buscar evidências de forma mais rápida; em outras, como na elaboração de um projeto de pesquisa, uma busca mais completa se faz necessária. Assim, a fim de otimizar a prática de MBE, é fundamental determinar qual a função de diferentes fontes de evidência. No Quadro 1 apresentam-se algumas das principais fontes de evidência discutidas neste texto, acompanhadas de uma avaliação sobre sua utilidade.

 

 

 

REFERÊNCIAS

1. Sackett DL, Rosemberg WV, Gray JM, Haynes RB. Evidence based medicine: what it is and what it isn’t. BMJ 1996; 312: 71-2.

2. Evidence-based medicine working group. Evidence-based medicine: a new approach to teaching the practice of medicine. JAMA 1992; 208: 2420-5.

3. Sackett DL, Rosenberg WM. The need for evidence-based medicine.J R Med 1995; 88: 620-4.

4. Rosemberg W, Donald A. Evidence-based medicine: an approach to clinical-problem-solving. BMJ 1995; 310: 1122-5.

5. Sackett DL, Richardson WS, Rosenberg W, Haynes RB. Evidence-based medicine. How to practice & teach EBM. London; Churchill Livingstone; 1997. 250p.

6. Haynes RB, Glasziou P, Straus S. Advances in evidence-based information resources for clinical practice ACP Journal Club 2000; 132: A11.

7. Hersh W. Evidence-based medicine and the Internet. ACP Journal Club 1996; 125: A14.

8. Bero L, Rennie D. The Cochrane Collaboration. Preparing, maintaining, and disseminating systematic reviews of the effects of health care. JAMA 1995; 274: 1935-6.

 

 

Correspondência
Otávio Berwanger
Av. Dr. Dante Pazzanese, 500 – 13º andar
04012-909 – São Paulo, SP
E-mail: otavioberwanger@yahoo.com.br

Recebido em 05/05/04
Aceito em 25/07/05

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