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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.87 no.4 São Paulo Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006001700013 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uma avaliação do rastreômetro, um novo equipamento para triagem populacional da pressão arterial elevada, em países em desenvolvimento

 

 

Andreas ForsvallI; Martin OscarssonI; Lucelia Batista N. Cunha MagalhãesII; Catia PalmeiraII; Armênio Costa GuimarãesII; Marco Antonio Mota GomesIII; Dag ThelleI

ISahlgrenska Academy at Göteborg University, Gotemburg-Sweden
IICentrocor, Salvador, Bahia- Brasil
IIIFaculdades de Ciências Médicas de Alagoas, Maceió, Alagoas- Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Testar um novo dispositivo simplificado de medição chamado rastreômetro, que poderia ser usado pelos Agentes de Saúde.
MÉTODOS: O rastreômetro foi desenvolvido a partir de um esfigmomanômetro aneróide convencional, no qual se cobriu o visor do aneróide com um adesivo, cujo desenho tem uma faixa vermelha, indicativa de pressões > 140 mmHg e uma faixa amarela, indicativa de pressões < 140 mmHg. O início das oscilações da agulha do esfigmomanômetro é considerado indicativo da pressão arterial sistólica. As medições pelo rastreômetro foram comparadas com aquelas realizadas pelo método auscultatório em 268 pacientes, por dois operadores. A influência, sobre os resultados, de variáveis que podem causar confusão, como idade, sexo, IMC, comprimento do braço, circunferência do braço, cor da pele e presença de tratamento anti-hipertensivo, foram levadas em consideração, assim como a variação intra e interobservador.
RESULTADOS: No grupo como um todo, a sensibilidade foi de 95,1%, a especificidade foi de 63,1%, o valor preditivo positivo foi de 62,4% e o valor preditivo negativo foi de 95,3%. O tratamento anti-hipertensivo afetou significativamente a especificidade, de 32,7%, em comparação com 77,8%, no grupo não medicado. Os dois operadores melhoraram seus resultados ao longo do tempo.
CONCLUSÃO: Este estudo sugere que a técnica do rastreômetro, como método de triagem para hipertensão, tem boa sensibilidade. Quanto à especificidade, ela é aceitável se os pacientes não estiverem sob tratamento anti-hipertensivo regular. Nesse último caso, pode ser melhorada pela padronização adequada da leitura da pressão sistólica pelas oscilações da agulha. Além disto, o uso dessa técnica requer operadores bem treinados.

Palavras-chave: Triagem de pressão arterial elevada, novo equipamento para avaliar hipertensos, triagem populacional para países em desenvolvimento.


 

 

É comumente aceito que a hipertensão é um fator de risco importante para doença cardiovascular1.

No Brasil, a prevalência da hipertensão é de cerca de 22%, sem viés ou interação significativa para sexo2. O acidente vascular encefálico (AVE) é a principal causa de mortalidade cardiovascular em 99% dos 5.529 municípios3.

O Ministério da Saúde (MS) do Brasil, com o objetivo de reduzir a taxa de morbidade e mortalidade cardiovascular, desenvolveu um plano com vários estágios, envolvendo muitas das maiores organizações de saúde nacionais, para o tratamento desse problema de saúde, de grandes dimensões e que afeta um número crescente de pessoas. Desde o início, em 1996, conseguiu-se reduzir a taxa de mortalidade em 19,6%4. O objetivo do projeto é aumentar a prevenção e detecção de doença cardiovascular por meio de educação básica, campanhas, organização de rede primária de atendimento e desenvolvimento de novos dispositivos diagnósticos. Isso, por sua vez, facilitaria a detecção e controle de fatores de risco importantes, como a hipertensão e o diabetes.

Países com detecção e controle adequados da hipertensão apresentam taxas de mortalidade consideravelmente menores, decorrentes de complicações cardiovasculares como insuficiência cardíaca, AVE e doença renal em estágio terminal5.

Uma das principais estratégias para atingir esse objetivo é o compromisso de 180 mil Agentes de Saúde Comunitários (ASC) com a triagem da hipertensão. Os ASC são treinados para executar ações de saúde básicas sob a supervisão de um enfermeiro formado, inclusive a medição convencional da pressão arterial. Eles ficam lotados em todo o país, mesmo nas áreas em que não há médicos.

O Conselho Federal de Enfermagem (Coren), no entanto, exprimiu sua preocupação em relação à possibilidade de ter agentes bem treinados na técnica convencional de medição da pressão arterial em todos os municípios brasileiros, de forma a obter medições confiáveis e a delegar, a esses agentes, a decisão do primeiro diagnóstico de hipertensão.

Esses fatos motivaram Magalhães e Gomes a desenvolverem uma maneira mais simples de detectar a pressão arterial elevada através de uma modificação introduzida no esfigmomanômetro aneróide convencional. Esse novo dispositivo foi chamado de "rastreômetro", nome que traduzido para o inglês seria algo como screenometer, cujo uso é bastante simples. Não é necessário estetoscópio, e a interpretação da pressão sistólica é feita por meio da observação visual do início das oscilações da agulha. Esse novo dispositivo de triagem, se funcionasse, seria mais econômico e fácil de implementar do que a triagem da população pelo método auscultatório.

Uma possível estratégia seria implementar essa triagem por meio do Programa de Saúde da Família, cuja equipe básica inclui um médico, um enfermeiro formado, dois auxiliares de enfermagem, e de quatro a seis Agentes de Saúde Comunitários (ASC). Nessa equipe multiprofissional, o ASC seria responsável pela triagem com o rastreômetro. Depois, se alguém fosse diagnosticado como "vermelho" (provável hipertensão), o ACS o encaminharia para a enfermagem da Unidade Básica de Saúde para avaliação mais aprofundada. No entanto, para ser aceito como ferramenta de triagem para detecção primária de hipertensão arterial, o rastreômetro precisava ser validado, tendo sua sensibilidade e especificidade determinadas, sendo esta a razão para a realização desse estudo.

 

Métodos

O estudo foi feito por dois suecos, alunos do terceiro ano de medicina (MO, AF), sem nenhuma experiência com o rastreômetro além de um dia de treinamento (15 pacientes). Os pacientes foram selecionados em quatro diferentes clínicas, três delas localizadas na cidade de Salvador, capital do Estado da Bahia, no Nordeste do Brasil (Centrocor, Serviço Médico da Universidade da Bahia/Smurb e Centro de Diabetes da Bahia/Cedeba) e uma na cidade de Camaçari (Centrocardio), a 40 km de Salvador. O estudo abrangeu 268 pacientes, dos quais cinco precisaram ser excluídos do estudo por causa de resultados incompletos. Os pacientes foram convidados a participar do estudo por um enfermeiro, enquanto aguardavam a consulta com enfermeiro ou médico.

Os pacientes responderam um breve questionário, foram pesados, e tiveram a altura, circunferência da cintura e comprimento e circunferência do braço medidos; a pressão arterial também foi medida. A pressão arterial foi medida duas vezes com o rastreômetro e duas vezes com o esfigmomanômetro aneróide convencional, em seqüência aleatória, tanto relativamente aos métodos quanto aos operadores. Todos os dados da pressão foram registrados utilizando dois protocolos diferentes, permitindo que os operadores trabalhassem de forma independente, sem conhecimento dos resultados obtidos pelo outro.

Os pacientes foram pesados (kg) com roupas leves, sem sapatos, em uma balança calibrada (Filizola). A altura foi medida com um estadiômetro, usando a técnica padrão.

O índice de massa corporal (IMC) foi calculado (kg/m²), sendo os pacientes que apresentavam índice >35 classificados como severamente obesos. Os pacientes com IMC entre >30 e <35 foram classificados como obesos, e aqueles com IMC entre >25 e <30 foram classificados como sobrepeso. Aqueles com IMC entre >18 e <25 foram classificados como normais, enquanto aqueles com IMC <18 foram classificados como abaixo do peso.

A circunferência da cintura foi medida à altura do umbigo, usando-se uma fita métrica convencional. Uma circunferência de cintura >102 cm para homens e >88 cm para mulheres foi classificada como obesidade central6. O comprimento do braço foi medido do acrômio ao olecrânio no braço direito dos pacientes, com o antebraço posicionado em um ângulo de 90°. A circunferência do braço direito foi medida a um terço do comprimento total do braço, medido a partir do olecrânio, com o braço estendido.

A avaliação dos pacientes começou após pelo menos cinco minutos de descanso na sala de espera. A seqüência foi a seguinte: de pé, o paciente foi pesado, tendo sido medidos a altura, a circunferência da cintura e o comprimento do braço. O paciente permaneceu sentado durante a entrevista. O questionário continha perguntas relativas a idade, histórico de hipertensão e, no presente, uso regular de medicamentos para a pressão arterial. A cor da pele foi graduada utilizando-se uma escala de 1-5 (branco; mestiço predominantemente branco; mestiço; mestiço predominantemente negro, e negro).

A pressão arterial foi medida quatro vezes, e um operadores efetuou duas medições da maneira convencional, e o outro efetuou duas medições usando o rastreômetro. Os operadores trabalharam com ambos os métodos. Tanto os pacientes quanto os operadores foram aleatoriamente selecionados para começar com um dos métodos. As medições foram feitas no braço direito do paciente, sentado, com o braço apoiado à altura do coração. As primeiras duas medições foram feitas com pelo menos 15s de intervalo, seguidos por pelo menos 30s de intervalo antes de nova leitura utilizando o outro método, novamente com pelo menos 15s entre a terceira e a quarta medições. Manguitos desenhados para circunferências de braço entre 24 cm e 32 cm foram utilizados tanto para a medição convencional quanto para a medição com o rastreômetro, independentemente da circunferência do braço do paciente. Ambos os esfigmomanômetros de pressão arterial foram calibrados antes do estudo.

O rastreômetro é uma adaptação do esfigmomanômetro convencional. Para tanto, cobre-se o mostrador numérico aneróide com um adesivo plástico com duas zonas coloridas: a vermelha, no nível e acima da marca de 140 mmHg, indicativa de pressão arterial alta (140-300 mmHg), e uma zona amarela abaixo dessa, indicativa de pressão arterial normal (<140 mmHg). Esse adesivo plástico bicolor cobre completamente o aneróide, exceto por uma abertura estreita de 30° no primeiro quadrante, apenas para permitir a identificação da linha da posição zero. O adesivo é posicionado usando-se dois pontos de referência: a posição zero e uma marca preta que corresponde à pressão 210 mmHg do aneróide. O custo do adesivo é muito baixo, aproximadamente menos de US$3,00 para 100 adesivos.

O início das oscilações da agulha do esfigmomanômetro foi considerado uma indicação da pressão arterial sistólica. Em cada medição, a zona correspondente ao início das oscilações da agulha do aneróide foi registrada. A estimativa final da medição do rastreômetro foi interpretada como sendo pressão arterial alta se um dos dois valores medidos ficasse na zona vermelha. Todas as medições com o rastreômetro foram feitas com o mesmo esfigmomanômetro (Umedico, CE, 12x35 cm).

As estimativas tanto da pressão arterial sistólica quanto diastólica foram obtidas pelo esfigmomanômetro convencional, calculando-se o valor médio da primeira e da segunda medições, ambos com precisão de 5 mmHg; as medições foram feitas no mesmo equipamento. O valor sistólico correspondeu ao primeiro som regular (Korotkoff, fase I), e o valor diastólico, ao seu desaparecimento (Korotkoff, fase V). Conforme critérios internacionais, a pressão arterial foi considerada alta quando os valores finais da pressão foram >140/90 mmHg7,8.

A análise estatística incluiu a estimativa de médias e desvios padrão para variáveis contínuas, e percentual para variáveis discretas.

Para testar a precisão do novo dispositivo, a sensibilidade foi calculada pela equação: sensibilidade = pacientes positivos por ambos os métodos/número total de pacientes positivos conforme o método convencional (considerado como o "padrão de referência"). A especificidade foi calculada pela equação: Especificidade = Pacientes negativos com ambos os métodos/número total de pacientes negativos pelo método convencional. O valor preditivo positivo (VPP) foi calculado pela equação: VPP = total de pacientes positivos por ambos os métodos/total de pacientes positivos pelo "rastreômetro". O valor preditivo negativo (VPN) foi calculado pela seguinte equação: VPN = total de pacientes negativos em ambos os métodos/total de negativos pelo "rastreômetro"9.

Os resultados foram analisados usando o EpiInfo versão 6.04b.

 

Resultados

As características clínicas dos pacientes estudados encontram-se descritas na tabela 1. A média de idade foi 53,6±15,8 anos, variando entre 9-94 anos. Eram do sexo masculino 79 (30%) pacientes e 184 (70%) do sexo feminino.

Quando perguntados sobre seu histórico de hipertensão e se estavam utilizando medicamento regularmente para a hipertensão, 55,1% dos pacientes disseram ser hipertensos; 60,3% mulheres contra 43,0% homens, respectivamente; 50,2% disseram estar sob tratamento medicamentoso, sendo 53,8% mulheres e 41,8% homens, respectivamente.

O IMC médio foi de 26,4±5,1 kg/m², indicando que a média de sobrepeso dos pacientes era de (IMC >25 kg/m²). Isso foi válido tanto para homens como para mulheres, com IMC médio de 25,6±4,3 e 26,8±5,3, respectivamente. As mulheres também apresentavam circunferência de cintura média de 88,6±12,7 cm, ligeiramente acima do limite superior de 87,9 cm estabelecido pela OMS como um critério de obesidade central. A circunferência média do braço estava dentro dos limites para os manguitos de pressão arterial utilizados (>24 e <32 cm) para ambos os sexos, 29,3±4,2 cm para as mulheres e 28,7±3,4 cm para os homens, respectivamente. No entanto, dezessete pacientes tinham circunferência de braço < 24 cm e 48 pacientes a tinham > 32 cm.

Pressão arterial elevada foi detectada, pelo método convencional, em 103 (39,2%) pacientes, 40,8% dos quais eram mulheres e 35,4% homens. Desses, 53 (51,5%) apresentavam pressão arterial sistólica isolada alta, 44 (42,7%) pressão arterial sistólica e diastólica altas, e seis (5,8%), pressão arterial diastólica alta isolada. Como esperado, a pressão arterial sistólica isolada alta predominava entre os mais velhos, enquanto a pressão diastólica alta isolada e combinada prevalecia entre os jovens e o grupo de meia idade.

Nessa população, o método do rastreômetro apresentou sensibilidade de 95,1%, especificidade de 63,1%, valor preditivo positivo de 62,4% e valor preditivo negativo de 95,3%.

Análise de sensibilidade adicional foi feita para avaliar a influência de algumas covariáveis, como circunferência do braço e estar ou não sob tratamento para hipertensão (tab. 2). Assim, uma circunferência de braço dentro do intervalo de comprimento (24-32 cm) do manguito usado (199 pacientes) foi associada a discreta elevação da sensibilidade para 97,2%, enquanto a especificidade permaneceu a mesma, 63,0%. Não obstante, para a minoria dos pacientes (25%) com circunferência de braço fora desse intervalo, a sensibilidade caiu para todos, mas a especificidade diminuiu para os pacientes com circunferência de braço acima de 32 cm (54,2%) e aumentou para aqueles com valores abaixo de 24 cm (80,0%). Para aqueles que declararam estar sob tratamento para hipertensão (132 de 263 pacientes [50,2%]) a sensibilidade permaneceu inalterada, mas a especificidade caiu para 32,7%, mesmo naqueles pacientes cuja circunferência de braço se encontrava no intervalo do comprimento do manguito (35%). Para os pacientes que não estavam sob tratamento para hipertensão (131 de 263 [49,8%]), a sensibilidade também permaneceu inalterada, mas a especificidade subiu para 77,8%. No entanto, considerando somente os pacientes com circunferência de braço dentro do intervalo do comprimento do manguito, a sensibilidade chegou a 100%, com apenas um leve declínio da especificidade (75,9%). Nenhuma das outras variáveis neste estudo mostrou alguma influência estatisticamente significativa na precisão das medições do rastreômetro.

 

 

O estudo foi feito por dois operadores (observador 1= MO e observador 2= AF), os quais trabalharam tanto com o rastreômetro quanto com o método convencional. Nenhum dos dois operadores havia tido contato com o rastreômetro antes do projeto, com exceção de um dia de treinamento, com quinze pacientes selecionados aleatoriamente.

Tanto os pacientes quanto os operadores foram escolhidos aleatoriamente para começar com um dos dois métodos.

O observador 1 mediu a pressão arterial de 135 (51,3%) pacientes e o observador 2, de 128 (48,7%) pacientes. A sensibilidade do rastreômetro foi de 92,2% e 98,1%, e a especificidade foi de 73,8% e 51,3%, respectivamente.

Ao se estratificarem os pacientes em 4 grupos, conforme sua admissão no estudo (pacientes número 1-65, 66-130, 131-195 e 196-268), foi detectada uma curva de aprendizagem para ambos os observadores. Enquanto a sensibilidade para ambos os operadores foi consistentemente alta, variando entre 88,9%-100%, a especificidade aumentou de modo constante de 38,9% no grupo1 (pacientes 1-65) para 76,1% no grupo 4 (pacientes 196-263). O mesmo tipo de evolução também ocorreu quando os dados de cada observador individual são comparados, sendo a sensibilidade razoavelmente constante no decorrer do tempo e a especificidade melhorada (tab. 3).

 

 

No grupo de pacientes como um todo (n=263), 103 (39,2%) tinham pressão arterial elevada. Desses 103 casos, o rastreômetro interpretou 5 (4,9%) como falso-negativos. Quatro deles não foram notados pelo observador 1 e um não foi notado pelo observador 2. Três dentre os cinco pacientes não detectados tinham uma circunferência de braço <24 ou >32 cm, o que significa que o manguito utilizado para eles não era adequado. Dos dois pacientes restantes, um deles tinha pressão diastólica elevada isolada, cuja detecção não é o objetivo principal do rastreômetro. É interessante notar, no entanto, que, dos seis pacientes do estudo que apresentavam pressão diastólica elevada isolada, o rastreômetro identificou cinco como verdadeiros positivos. Em resumo, quando se analisam os pacientes não-detectados pelo rastreômetro, apenas um resultado não pode ser explicado pela circunferência errada do braço, ou pela elevação isolada da pressão diastólica. Se esses dois parâmetros forem excluídos, a sensibilidade para os pacientes restantes atinge 98,6%, com uma especificidade de 63%.

 

Discussão

Este estudo foi o segundo já feito para testar a validade do rastreômetro10. Em uma tentativa para avaliar mais profundamente a validade desse dispositivo, levamos diversos parâmetros em consideração. O problema com a divisão do material em subgrupos é que, em um estudo desse tipo, se termina tendo diversos grupos com um número de pacientes bastante pequeno. Os resultados, assim, devem ser interpretados antes como uma indicação do potencial do rastreômetro, do que como mera prova, como diagnóstico e também como inspiração para estudos posteriores.

O método auscultatório de medição da pressão arterial foi utilizado como padrão de referência. A pressão arterial foi medida de modo convencional duas vezes, com precisão de 5 mmHg, utilizando os mesmos dois manguitos (um para o método convencional e um para o rastreômetro) para todos os pacientes, independentemente da real circunferência do braço. Com isso, eliminamos as possíveis diferenças pelo uso de manguitos diferentes, e também pudemos analisar se a circunferência do braço influencia nos resultados ou não. Isso é importante, pois é improvável que um agente comunitário de saúde, em seu trabalho em campo, tenha a opção de usar diferentes tipos de manguitos para diferentes circunferências de braço.

Considerando os resultados para o grupo pacientes como um todo (n=263), o rastreômetro revelou sensibilidade muito alta (95,1%) e especificidade ainda alta, embora significativamente mais baixa (63,1%). Como o rastreômetro foi desenvolvido para uso como instrumento de triagem, esses valores são aceitáveis. É muito mais importante ter sensibilidade muito alta do que especificidade muito alta, o que significa que o dispositivo identificará quase todos os hipertensos, embora com a desvantagem de interpretar aproximadamente um terço das pressões normais como falsos positivos. Para o grupo como um todo, o valor preditivo positivo (VPP) foi de 62,4%, e o valor preditivo negativo (VPN) foi de 95,3%. Isso significa que, se, por exemplo, mil pacientes forem considerados hipertensos com o rastreômetro, o número verdadeiro de hipertensos será 624; e se mil pacientes forem considerados normotensos, 953 deles, na verdade, teriam pressão arterial normal. Nesse exemplo, 47 de mil pacientes não seriam detectados, e 376 dos mil outros pacientes seriam submetidos a testes posteriores devido a resultados falso-positivos.

A estratificação dos pacientes conforme a circunferência do braço afeta apenas marginalmente a sensibilidade e a especificidade. As maiores diferenças nos subgrupos foram observadas quando o grupo medicado foi comparado ao grupo não medicado. Ambos os grupos apresentaram alta sensibilidade, cerca de 95%, mas o grupo medicado teve especificidade significativamente mais baixa (32,7%) quando comparado ao grupo não medicado (77,8%). Se esses dados estiverem efetivamente corretos, são uma forte indicação de que o rastreômetro se destina precipuamente para fazer a triagem populacional da hipertensão, e não para o acompanhamento de pacientes já diagnosticados e tratados.

Essa baixa especificidade no grupo medicado, entretanto, não foi confirmada pelo estudo piloto de Mota Gomes e cols.10, que encontraram uma sensibilidade de 98,7% e uma especificidade de 94,7%, o que indica a necessidade de estudos posteriores para resolver essa controvérsia. Os resultados de nosso estudo indicam que as pessoas normotensas e os pacientes sob tratamento anti-hipertensivo que têm pressão arterial normal apresentam leituras diferentes no rastreômetro, e as oscilações da agulha tendem a começar mais cedo no grupo medicado. Isso explica por que há tantos falso-positivos nesse último grupo. Então, o problema talvez se deva à interpretação do observador em relação à intensidade das oscilações que devem ser consideradas como indicativas da pressão sistólica. No grupo medicado, alterações nas propriedades elásticas das artérias, secundárias à hipertensão, pode propiciar o aparecimento precoce de oscilações fracas que precedem as mais fortes que realmente indicam a pressão sistólica. Esse fator dependente do observador, e que afeta a especificidade, também pode ser sugerido se os dados obtidos no grupo de pacientes como um todo, pelos dois observadores, forem comparados.

As medições do observador 1 mostraram sensibilidade de 92,2% e especificidade de 73,8%, enquanto para o observador 2 esses valores foram 98,1% e 51,3%, respectivamente, sugerindo que o segundo observador tem a tendência de ler oscilações leves como sendo indicativas da pressão sistólica real, o que leva a uma maior sensibilidade e menor especificidade. Mais evidências a esse respeito são sugeridas pela curva de aprendizado de ambos os observadores. Embora os valores de sensibilidade sejam consistentemente altos desde o começo, variando entre 89%-100%, os valores de especificidade subiram de 38,9%, bem no começo (pacientes 1-65), para 76,1% ao final do estudo (pacientes 166-263) (fig. 1). Isso significa que ambos os observadores, por sua conta, modificaram sua interpretação da amplitude das oscilações iniciais que deviam ser consideradas como relativas à pressão sistólica real, levando a uma especificidade mais alta, sem afetar demais a sensibilidade.

Assim, as primeiras oscilações que devem ser consideradas como indicativas da pressão arterial sistólica real são um ponto-chave a ser considerado em estudos posteriores, para melhorar a precisão e reprodutibilidade do método em relação à especificidade. Isso também requer agentes de saúde bem treinados.

O rastreômetro foi desenhado para interpretar o início das oscilações, sendo possível apenas detectar a pressão arterial sistólica. Apesar de a maioria dos hipertensos ter elevação isolada da pressão sistólica, ou elevação da pressão sistólica e diastólica combinadas, um pequeno número de pacientes, geralmente jovens, tem hipertensão diastólica isolada, com uma alta probabilidade de não serem detectados pelo rastreômetro.

Um ponto interessante, no entanto, é que cinco dos seis pacientes com hipertensão diastólica isolada, neste estudo, foram detectados como hipertensos pelo rastreômetro. Não obstante, apesar desse achado, esses pacientes deveriam ser considerados como falso-positivos. Na verdade, o fato de que o rastreômetro não pode detectar pacientes com hipertensão diastólica isolada é uma desvantagem para seu uso futuro como método de triagem para hipertensão arterial.

Limitações do estudo - A principal limitação do estudo foi a ausência de um período de treinamento bem planejado, de forma que o platô da curva de aprendizagem tivesse chegado ao ponto final antes de considerarmos os operadores em condições de começarem a triagem. Isso é importante para estabelecer a estabilidade da precisão do rastreômetro ao longo do tempo.

Outro ponto foi a ausência de critérios definitivos para as características da oscilação precoce da agulha que devem ser consideradas como indicativas da pressão arterial sistólica. Isso certamente pode aumentar a especificidade do método.

O terceiro ponto é que os resultados representam um estudo conduzido por alunos do curso de medicina e não por agentes de saúde. Assim, os valores de precisão obtidos não podem ser considerados iguais aos que seriam obtidos se os operadores fossem agentes de saúde. Dessa forma, isso requer confirmação posterior, sendo isso fundamental para estabelecer essa técnica como sendo um método de triagem populacional para hipertensão arterial.

 

Conclusão

Esse estudo tende a confirmar o rastreômetro como um possível método de triagem para a detecção de hipertensão arterial passível de ser usado por agentes de saúde, por demonstrar sensibilidade muito alta e especificidade aceitável, quando utilizado por dois estudantes de medicina em condições controladas. No entanto, em pacientes tratados com agentes anti-hipertensivos, a especificidade tendeu a ser mais baixa do que nos pacientes não-tratados, embora estudos posteriores possam melhorar essa deficiência se houver padronização da leitura das oscilações precoces como indicativas de pressão arterial sistólica elevada.

Espera-se, portanto, que esses resultados estimulem estudos posteriores sobre a precisão do método quando aplicado por agentes de saúde, e melhorias técnicas no equipamento de forma a estabelecer sua utilidade para a triagem populacional de hipertensão, o que é muito útil em países em desenvolvimento.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

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Correspondência:
Lucélia Batista N. Cunha Magalhães
Rua José de S. Pedreira, 219/102
40155-150 – Salvador, BA
E-mail: lbncunha@cardiol.br / luceliamagalhaes@terra.com.br

Recebido em 23/03/05
Aceito em 12/09/05

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