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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.87 no.5 São Paulo Nov. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006001800023 

RELATO DE CASO

 

Infarto do miocárdio em atleta jovem associado ao uso de suplemento dietético rico em efedrina

 

 

Rafael Yared Forte; Daniel Precoma-Neto; Nelson Chiminacio Neto; Francisco Maia; José Rocha Faria-Neto

Hospital da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR, Curitiba, PR

Correspondência

 

 


RESUMO

Suplementos dietéticos que contêm efedrina e outros alcalóides relacionados à efedrina são largamente consumidos em vários países, com propósito de estímulo energético e perda de peso. Mesmo sendo proibida a sua comercialização no Brasil, esses produtos podem ser comprados ilegalmente pela Internet ou em academias. Relatamos a seguir o caso de um jovem atleta, sem fatores de risco para doença cardiovascular, que apresentou infarto do miocárdio no período em que fez uso de suplemento rico em efedrina.

Palavras-chave: Infarto agudo do miocárdio, doença coronariana, efedrina.


 

 

A efedrina é um alcalóide simpatomimético derivado de plantas do gênero Ephedra, que possui mais de 40 espécies distribuídas em regiões de clima temperado e subtropical. Há séculos seu uso com fins terapêuticos já era disseminado entre os chineses, que utilizavam o extrato da planta desidratada (chamada de Ma huang) para o tratamento de afecções respiratórias1. Na medicina moderna, a efedrina já foi usada como descongestionante nasal, broncodilatador e vasopressor2, porém, o uso terapêutico desses alcalóides tornou-se restrito por haver dúvidas quanto ao seu perfil de segurança.

Atualmente, suplementos dietéticos que contêm efedrina e outros alcalóides relacionados à efedrina são largamente consumidos em vários países, com propósito de estímulo energético (aumento da performance atlética) e perda de peso, apesar de estudos clínicos demonstrarem que esta redução é modesta e ocorre apenas em curto prazo3. Mesmo sendo proibida a sua comercialização no Brasil, esses produtos podem ser comprados ilegalmente pela Internet ou em academias. Eventos cardiovasculares adversos advindos do uso de efedrina já são bem documentados na literatura, como hipertensão arterial, taquiarritmias, infarto do miocárdio e morte súbita, além de relatos de miocardite associada ao uso de compostos com efedrina. Acredita-se que o vasoespasmo por estímulo a e b adrenérgico seja o mecanismo tanto da miocardite4 quanto do infarto agudo do miocárdio, e os efeitos adrenérgicos da efedrina, provocando diminuição do período refratário, também permitem o desenvolvimento de arritmias. O efeito cardiovascular da efedrina é, ao menos em parte, semelhante ao da cocaína, droga que também causa estimulação a e b adrenérgica, levando a aumento da pressão arterial, aumento da freqüência cardíaca, vasoespasmo coronariano, isquemia, infarto e arritmias5.

Relatamos a seguir o caso de um jovem atleta, sem fatores de risco para doença cardiovascular, que apresentou infarto do miocárdio no período em que fez uso de suplemento rico em efedrina.

 

Relato do caso

Paciente masculino, 28 anos, lutador de Vale-Tudo e usuário de Therma-Pro®, um suplemento dietético que o paciente utilizava para perda de peso antes das pesagens para lutas. Segundo o próprio paciente, além da perda de peso (até 12 kg em 20 dias, quando associado a treino físico intenso e dieta), esse produto causava palpitações, tremores e insônia. Já havia feito o uso prévio do produto, sempre apresentando esses sintomas. Durante o período de preparação para uma luta, o paciente iniciou o uso de 4 comprimidos/dia de Therma Pro®, evoluindo no terceiro dia com dor torácica de forte intensidade, em repouso, tipo aperto, que piorava com esforço e melhorava com repouso, com duração prolongada e intermitente. Procurou auxílio médico, tendo recebido prescrição de analgésico, sem melhora do quadro. Após seis dias do sintoma inicial, a dor evoluiu, com síncope e hemiparesia direita, tendo sido atendido em outros locais e encaminhado para nosso serviço apenas 30 dias após o início do quadro. Nesse momento o paciente já havia recuperado totalmente o déficit motor, porém apresentava insuficiência cardíaca congestiva classe funcional II (NYHA). Não relatava história pregressa de hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, dislipidemia ou história familiar de doenças cardiovasculares. Havia fumado meio maço de cigarro/dia por cinco anos, porém já havia parado de fumar há 3 anos. Negava uso de drogas ilícitas, tendo sido questionado diretamente sobre o uso de cocaína em diversas ocasiões durante a internação, e negava também o uso de outros produtos estimulantes, como esteróides anabolizantes. Ao exame físico, apresentava PA de 120/70 mmHg, FC 72 bpm, peso 104 kg e altura 1,77 m. Apesar do índice de massa corpórea na faixa de obesidade (33,2), apresentava grande massa muscular, com pouca adiposidade.

Os exames complementares mostravam ECG com área eletricamente inativa anterior extensa, Rx Tórax normal, colesterol total de 144 mg/dl, HDL 32 mg/dl, LDL 77 mg/dl, triglicerídeos 176 mg/dl, glicemia de jejum 78 mg/dl, hemograma normal e creatinina 1,5 mg/dl. Ecocardiograma evidenciou ventrículo esquerdo (VE) com dimensões no limite superior da normalidade e fração de ejeção de 45%. Análise da contração segmentar mostrou acinesia ântero-septal, apical e anterior. Notou-se também a presença de trombo no VE. Foi submetido a cineangiocoronariografia, que mostrou artéria descendente anterior (DA) ocluída em sua origem (fig. 1A), enchendo terço médio e distal por discreta circulação colateral intracoronariana, além de trombo em ápice e aumento importante da pressão diastólica do VE. Pela presença de circulação colateral, optou-se por angioplastia com stent para DA (fig. 1B). Evoluiu sem intercorrências após o procedimento.

 

Discussão

A incidência de doença coronariana sintomática e Infarto Agudo do Miocardio (IAM) em pacientes jovens, com menos de 40 anos é baixa: apenas 3% dos casos ocorrem em pacientes nessa faixa etária6. Estudos epidemiológicos demonstram que os fatores de risco mais prevalentes nessa população são tabagismo e história familiar de doença cardiovascular. A anamnese sobre o consumo de drogas simpatomiméticas lícitas ou ilícitas (cocaína, "crack") deve sempre ser criteriosa nesses casos, principalmente quando os tradicionais fatores de risco para doença aterosclerótica não são identificados. No caso aqui descrito, a ausência de fatores de risco e a relação temporal entre o uso do suplemento dietético rico em efedrina e a ocorrência do evento agudo sugerem uma forte relação causal.

A efedrina em sua forma pura e o extrato de Ma huang, rico em efedrina e outros alcalóides semelhantes à efedrina, como a pseudo-efedrina, são componentes usuais de suplementos dietéticos consumidos por atletas de diferentes modalidades esportivas, que procuram rápida redução de peso e ganho energético. Seu uso é indiscriminado, apesar da advertência de diversos órgãos de saúde, como a American Medical Association7, e de ser encarado como doping pela maioria das entidades desportivas. O uso desses produtos tem sido associado a diversos eventos cardiovasculares e neurológicos adversos8, e, em abril de 2004, o órgão controlador de drogas nos Estados Unidos, FDA, proibiu seu comércio, tendo sido esse o primeiro caso em que um suplemento dietético teve sua comercialização banida. Apesar de não ser um agente causal de grande prevalência, o consumo desses suplementos não pode ser descartado em casos de morte súbita de atletas jovens e sem cardiopatia estrutural9.

O produto utilizado pelo paciente descrito, Therma-Pro®, apresenta em sua fórmula, conforme dados disponíbilizados pelo fabricante, 250 mg de extrato de Ma huang, o que equivale a 20 mg de efedrina. A dose utilzada, quatro comprimidos ao dia, é o dobro da preconizada pelo fabricante. Independentemente da dose, a efedrina é uma droga que estimula a liberação de catecolaminas endógenas, estimulando receptores a-1 , b-1 e b-2 adrenérgicos10. Os efeitos da efedrina são de vasoconstrição e estimulação cardíaca, acarretando a elevação aguda da pressão arterial e da freqüência cardíaca, além de midríase, insônia, vertigem, cefaléia e ansiedade. A pseudo-efedrina, que age principalmente por estimulação dos receptores b-2 adrenérgicos, causa bronco dilatação, enquanto seus efeitos a-agonistas são responsáveis por melhora de sintomas de congestão nasal.

Na circulação coronariana, a efedrina pode causar vasoespasmo11, principalmente em indivíduos com tônus vagal aumentado, como o jovem paciente aqui descrito, por tratar-se de atleta bem condicionado fisicamente. Este parece ser o mecanismo fisiopatológico de muitos dos casos relatados de síndrome coronariana aguda associada ao consumo de efedrina, onde os pacientes apresentam cinecoronariografia normal12. Entretanto, a trombose in situ pode ocorrer associadamente13 por diferentes razões; além da lentificação do fluxo coronariano, o espasmo pode ser a causa de rotura da capa fibrosa de placas ateroscleróticas ainda jovens, que possuem extenso núcleo lipídico. No caso dos pacientes que fazem uso de drogas como a efedrina, isso ocorre na presença de significativa ativação plaquetária pela atividade simpatomimética dessa substância. A associação de espasmo e trombose in situ pode ter ocorrido no caso aqui descrito, pois a cinecoronariografia demonstrou oclusão completa da artéria descendente anterior, porém sem evidência de qualquer comprometimento de outros vasos.

Na ausência de eventos trombóticos prévios, venosos ou arteriais, e na presença de um fator que crescentemente tem sido reconhecido como causa de IAM em pacientes jovens, nenhuma investigação de trombofilia foi realizada neste paciente. A maioria dos polimorfismos de proteínas do sistema de coagulação envolvidos com trombose venosa apresenta muito pouca ou nenhuma associação com IAM14. Em nosso meio, Faria-Neto e cols.15 demonstraram baixa prevalência e nenhuma correlação do Fator V de Leiden e dos polimorfismos G20210A da protrombina e C677T da metilenotetrahidrofolato redutase (envolvida no metabolismo da homocisteína) com a presença de oclusão coronariana demonstrada pela cinecoronariografia.

A opção por angioplastia tardia da artéria relacionada ao infarto neste paciente é uma conduta controversa, principalmente na ausência de estudo de viabilidade da área afetada. Um grande estudo patrocinado pelo National Heart, Lung, and Blood Institute (NHLBI) está em andamento para testar a hipótese de que abrir artérias relacionadas ao infarto tardiamente (3 a 28 dias pós-IAM) com stent, em pacientes assintomáticos de alto risco (FEVE < 50% e oclusão proximal de uma grande artéria), acarreta redução de desfechos compostos de morte, infarto recorrente não fatal e ocorrência de insuficiência cardíaca classe funcional IV, com média de 3 anos de seguimento16.

A descrição deste caso alerta para a necessidade de orientarmos a comunidade quanto aos riscos envolvidos no consumo de suplementos dietéticos contendo efedrina, que continuam a ser ilegalmente comercializados sob a promessa de rápida redução de peso e aumento do rendimento físico.

 

Referências

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Correspondência:
José Rocha Faria Neto
Rua Des. Otávio do Amaral, 741/802
80730-400 – Curitiba, PR
E-mail: jose.faria@pucpr.br

Recebido em 01/09/05; revisado recebido em 12/12/05; aceito em 01/06/06.

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