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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.87 no.6 São Paulo Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2006001900009 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise de séries temporais da mortalidade por doenças isquêmicas do coração e cerebrovasculares, nas cinco regiões do Brasil, no período de 1981 a 2001

 

 

Maria de Fátima Marinho de Souza; Airlane Pereira Alencar; Deborah Carvalho Malta; Lenildo Moura; Antonio de Padua Mansur

Ministério da Saúde e Instituto do Coração do Hospital das Clínicas – FMUSP, São Paulo, SP

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Analisar as tendências do risco de morte por doenças isquêmicas do coração e cerebrovasculares, nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, no período de 1981 a 2001.
MÉTODOS: Dados de mortalidade por doenças isquêmicas do coração e cerebrovasculares nas cinco regiões brasileiras foram obtidos através do Ministério da Saúde. A fonte de dados foi o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Departamento de Análise da Informação de Saúde – Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. A população das regiões e estados teve por fonte o IBGE, censos 1991 e 2000, contagem populacional de 1996 e estimativas populacionais, disponibilizado pelo Datasus. Os dados do SIM foram relativos às seguintes causas de morte: doença cerebrovascular (Código Internacional de Doenças CID-9 430-438, CID-10 I60-I69) e a doença isquêmica do coração (CID-9 410-414, CID-10 I21-I25). O estudo estatístico utilizou-se para as análises inferenciais de modelos lineares generalizados ajustados.
RESULTADOS: A tendência da mortalidade por doença cerebrovascular mostrou declínio nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste em todas as faixas etárias e sexo. Também a mortalidade por doença isquêmica do coração declinou nas regiões Sudeste e Sul, com estabilização do risco na região Centro-Oeste e aumento na região Nordeste.
CONCLUSÃO: O risco de morte para as doenças circulatórias, cerebrovasculares e isquêmicas do coração diminuiu no Sul e no Sudeste, regiões mais desenvolvidas do país, e aumentou nas menos desenvolvidas, principalmente no Nordeste.

Palavras-chave: Doenças circulatórias, doença isquêmica do coração, doença cerebrovascular, mortalidade, epidemiologia, Brasil


 

 

As tendências de mortalidade no Brasil têm sofrido modificações ao longo das últimas décadas1,2. Em 1980, as doenças do aparelho circulatório eram a principal causa de morte, o que permaneceu em 2000. As neoplasias eram a quinta causa de morte em 1980, passando para terceira causa em 2000. Outra mudança importante foi o aumento das mortes por doenças do aparelho respiratório e a redução das infecciosas e parasitárias. As análises de série temporal têm por objetivo avaliar a tendência da mortalidade em cada região do Brasil ao longo do tempo nos últimos vinte anos, comparar as regiões quanto à tendência do risco de morte pelas causas analisadas e estimar a variação anual do risco para cada região, sexo e faixa etária analisados.

 

Métodos

Realizou-se análise de série temporal da mortalidade por doença isquêmica do coração e doença cerebrovascular; em uma casuística de vinte anos, segundo sexo, faixa etária e regiões do Brasil. A fonte de dados foi o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Departamento de Análise da Informação de Saúde – Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. A população das regiões e estados teve por fonte o IBGE, censos 1991 e 2000, contagem populacional de 1996 e estimativas populacionais, disponibilizado pelo Datasus. Os dados do SIM foram relativos às seguintes causas de morte: doença cerebrovascular (Código Internacional de Doenças -9 430-438, CID-10 I60-I69) e doença isquêmica do coração (CID-9 410-414, CID-10 I21-I25).

Análise estatística - Para avaliar a tendência da mortalidade em cada região do Brasil, foram realizadas análises descritivas e análises inferenciais. Para a descrição das tendências temporais, utilizou-se uma apresentação gráfica dos dados através do "scatter" simples e uma linha suavizada com a técnica Lowess (SPSS-10). Para as análises inferenciais, foram ajustados modelos lineares generalizados3,4. A variável resposta foi o número de óbitos ou o coeficiente de mortalidade. Levamos em conta que as tendências de mortalidade podem não ser semelhantes nos dois sexos e nas diversas faixas etárias e regiões. Assim, as variáveis explicativas da mortalidade foram o tempo (em anos), sexo (masculino ou feminino), faixa etária (trinta a 49 anos, cinqüenta a 64 anos e e > 65 anos), região (Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul).

Para cada combinação de sexo, faixa e região, modelamos a tendência da mortalidade ao longo do tempo. A classe dos modelos lineares generalizados engloba os modelos de regressão linear múltipla convencional, bem como os modelos de regressão de Poisson, binomial negativa e logística, entre outros. Dentre esses, o mais conhecido e de mais fácil interpretação é o modelo de regressão linear múltipla convencional. Entretanto, quando a variável resposta é uma contagem (como é o caso do número de óbitos), as suposições desse modelo acerca da normalidade e homocedasticidade dos resíduos não são, em geral, satisfeitas. Para contornar esse problema, podem ser utilizadas transformações para a variável resposta (como o logaritmo ou a raiz quadrada) ou podem ser ajustados modelos nos quais a distribuição da variável resposta é Poisson ou binomial negativa. Uma outra possibilidade é utilizar um método de estimação de quasi-verossimilhança. A conclusão sobre o modelo mais adequado pode ser atingida somente após uma criteriosa análise de resíduos.

Assim, a estratégia de análise, para variável de mortalidade, envolveu os seguintes passos:

1) Inicialmente ajustamos seis modelos: Regressão gaussiana na qual a variável resposta foi o coeficiente de mortalidade; regressão gaussiana na qual a variável resposta foi o logaritmo do coeficiente de mortalidade; regressão gaussiana na qual a variável resposta foi a raiz quadrada do coeficiente de mortalidade; regressão de Poisson na qual a variável resposta foi o número de óbitos, controlando para o número de habitantes na população; regressão binomial negativa na qual a variável resposta foi o número de óbitos, controlando para o número de habitantes na população; modelo de quasi-verossimilhança no qual a variável resposta foi o número de óbitos, controlando para o número de habitantes na população, utilizando um método de estimação de quasi-verossimilhança.

2) A seguir, realizamos uma análise de resíduo para cada modelo, por meio do gráfico de envelope, a fim de determinar o modelo "mais adequado".

3) Testamos as hipóteses de interesse (se os coeficientes de mortalidade eram semelhantes para cada região, sexo ou faixa etária).

4) Agrupamos os dados nas situações em que os coeficientes eram semelhantes, chegando ao modelo final.

5) A partir do modelo final, calculamos os valores ajustados mediante o modelo para o coeficiente de mortalidade em cada ano, sexo, região e faixa etária.

6) A partir das informações do item anterior, construímos tabelas e gráficos.

É importante ressaltar que a interpretação dos coeficientes foi semelhante para os modelos escolhidos. Por exemplo, vamos representar o coeficiente de cada variável explicativa por bvar. Para a variável tempo, podemos dizer que, a cada ano que passa, o coeficiente de mortalidade fica multiplicado por exp(btempo). Para a variável sexo, podemos dizer que o coeficiente de mortalidade no sexo masculino é igual a exp(bsexo) vezes o do sexo feminino. Para a variável região, podemos dizer que o coeficiente de mortalidade na região nordeste é igual a exp(bnordeste) vezes o da região Norte; o coeficiente de mortalidade na região Centro-Oeste exp(bcentro-oeste) vezes o da região Norte, e assim por diante. A partir de exp(btempo), podemos obter as variações percentuais anuais. Para facilitar a interpretação, as tabelas contêm três informações básicas: o valor ajustado para o coeficiente de mortalidade no primeiro ano, sua variação porcentual a cada ano e o valor ajustado para o coeficiente de mortalidade no último ano.

 

Resultados

A mortalidade por doenças circulatórias - a análise dos dados de mortalidade de 2001 mostrou que o principal grupo de causas de morte no Brasil, em todas as regiões e para ambos os sexos, foram as doenças do aparelho circulatório. A partir dos 45 anos as doenças do aparelho circulatório foram o principal grupo de causas de morte, seguido das neoplasias e depois das causas externas. Quando desagregaram-se os grupos de causa de morte em seus principais componentes, observou-se que a doença cerebrovascular foi a principal causa de morte, com 86.424 mortes em 2001, seguida da doença isquêmica do coração com 79.375 mortes e outras doenças cardíacas com 58.745 mortes.

Tendência do risco de morte por doença cerebrovascular - a tendência do risco de morte por doença cerebrovascular mostrou declínio na maioria das regiões, para ambos os sexos e faixas etárias (figs. 1 a 3; tab. 1). A região Nordeste mostrou estabilização do risco na idade mais jovem para homens e mulheres e aumento do risco nas idades mais velhas.

 

 

O declínio na região Sul foi semelhante ao da região Sudeste, com exceção da faixa etária de 65 anos ou mais, quando foi, pelo menos, duas vezes menor. O risco da região Sul nessa faixa etária foi maior que o da região Sudeste em 2001 (fig. 3; tab. 1). É importante destacar que o risco de morte entre as mulheres foi menor que o risco dos homens nas faixas etárias mais jovens. Entre os mais velhos (> 65 anos), os riscos são muito próximos (tab. 1), provavelmente refletindo uma maior longevidade das mulheres, um acúmulo maior de mulheres idosas, dando uma impressão de riscos semelhantes para homens e mulheres nessa faixa etária.

Tendência do risco de morte por doença isquêmica do coração - para as mulheres, o coeficiente de mortalidade por doença isquêmica do coração permaneceu estável nas regiões Norte e Centro-Oeste. Foi decrescente nas regiões Sudeste e Sul, e aumentou na região Nordeste para todas as faixas etárias. A variação anual foi maior que 2% ao ano na região Nordeste, e o declínio do risco de morte na região Sul foi sempre menor que na região Sudeste (figs. 4 a 6; tab. 2). Para os homens, observou-se tendência de queda nas regiões Sudeste e Sul. O Centro-Oeste apresentou estabilização na tendência da mortalidade na faixa de trinta a 49 anos e e > 65 anos. Na faixa etária de cinqüenta a 64 anos observou-se aumento no risco. É importante destacar que o risco de morte entre as mulheres foi menor que o risco dos homens, na faixa etária de trinta a 64 anos e com e" 65 anos os riscos ficam muito próximos (tab. 2). Esse resultado pode se dever a maior longevidade das mulheres, necessitando ser analisado com cautela.

 

 

Discussão

A tendência da mortalidade por doença cerebrovascular mostrou declínio nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste, em todas as faixas etárias e sexo. Também a mortalidade por doença isquêmica do coração declinou nas regiões Sudeste e Sul, com estabilização do risco na região Centro-Oeste e aumento na região Nordeste. Essas tendências de declínio nas principais causas de morte entre as doenças circulatórias provavelmente refletem mudanças no comportamento relacionados ao controle dos principais fatores de risco, tabagismo, dislipidemia, diabetes e hipertensão arterial sistêmica.

Sabe-se que esse controle, prevenção primária e secundária das doenças circulatórias, é mais adequado em regiões mais desenvolvidas como o Sul e o Sudeste, onde ocorreram reduções significativas da mortalidade. Portanto, as condições socioeconômicas são facilitadores de uma melhor resposta na redução da morbidade e mortalidade por doenças circulatórias. Entretanto, os recursos destinados para a saúde pública pelos países em desenvolvimento são sabidamente escassos e extremamente inferiores aos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde5,6. Isso ocorre inclusive em um mesmo país, como no caso do Brasil, onde existem diferenças regionais de acesso à saúde.

Os resultados observados neste estudo complementam as mesmas tendências observadas em estudos prévios anteriores ao ano de 20007,8. Em resumo, esses estudos mostraram redução do risco de morte somente nas regiões mais desenvolvidas, e essa redução foi tardia e discreta, se comparada com outros países9-11. Entretanto, essa explicação ainda é insuficiente, sendo matéria para discussão e investigação, reafirmando a necessidade de estabelecer uma vigilância dessas doenças.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

1. Mansur AP, Favarato D, Souza MFM, Avakian SD, Aldrighi JM, César LAM, et al. Tendência da mortalidade por doenças circulatórias no Brasil de 1979 a 1996. Arq Bras Cardiol 2001; 76: 497-503.        [ Links ]

2. Mansur AP, Souza MFM, Timerman A, Ramires JAF. Tendência do risco de morte por doenças circulatórias, cerebrovasculares e isquêmicas do coração em 11 capitais do Brasil de 1980 a 1998. Arq Bras Cardiol 2002; 79: 269-76.        [ Links ]

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Correspondência:
Antonio de Padua Mansur
InCor - Av. Dr. Enéas C. Aguiar, 44 05403-000 – São Paulo, SP
E-mail: antonio.mansur@incor.usp.br

Artigo recebido em 12/12/05; revisado recebido em 02/01/06; aceito em 28/01/06.

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