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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.88 no.4 São Paulo Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2007000400006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Janela aortopulmonar – Impacto das lesões associadas no resultado cirúrgico

 

Cinthia Siqueira Gangana; Ana Flávia de Araújo Malheiros; Elizabete Vilar Alves; Maurício Amir de Azevedo; Renata Moll Bernardes; Luiz Carlos Simões

Instituto Nacional de Cardiologia Laranjeiras – INCL-MS - Rio de Janeiro, RJ

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: A janela aortopulmonar (JAP) é uma comunicação entre a artéria pulmonar (AP) e a aorta ascendente na presença de duas valvas semilunares separadas. Nesta revisão, descrevemos nossa experiência na história natural da JAP e do impacto de lesões associadas nos resultados cirúrgicos de pacientes tratados em nosso serviço.
MÉTODOS: Estudo longitudinal retrospectivo, com revisão dos prontuários dos pacientes diagnosticados entre 1995 e 2005.
RESULTADOS: Dos 9 pacientes diagnosticados como portadores de JAP, 6 apresentavam cardiopatia associada. Sete pacientes foram submetidos a tratamento cirúrgico, ocorrendo dois óbitos. Um paciente teve a cirurgia contra-indicada pela presença de hipertensão pulmonar, e outro faleceu antes do procedimento cirúrgico por complicação infecciosa respiratória.
CONCLUSÃO: Os resultados cirúrgicos são satisfatórios quando a JAP se apresenta como defeito isolado e quando a cirurgia é realizada precocemente, evitando-se o desenvolvimento de hipertensão arterial pulmonar (HAP) irreversível. A presença de cardiopatia congênita complexa associada é fator de pior prognóstico em nossa série de casos.

Palavras-chave: Defeito do septo aortopulmonar/diagnóstico, cardiopatias congênitas, criança, recém-nascido, adolescente.


 

 

Introdução

A janela aortopulmonar é uma malformação congênita, caracterizada por uma comunicação entre a aorta ascendente e a artéria pulmonar, na presença de valvas semilunares separadas. Trata-se de uma malformação rara e representa 0,15% a 0,6% das cardiopatias congênitas, estando associada com outras malformações cardíacas em um quarto a metade dos casos. O impacto clínico depende do tamanho da janela e da presença de lesões associadas e da evolução para hipertensão arterial pulmonar1. A classificação mais aceita é a de Richardson2 (fig.1):

Tipo I: o defeito situa-se entre a origem da artéria pulmonar principal e a aorta ascendente logo acima do seio de Valsalva (embriologicamente deve-se à septação incorreta do tronco aortopulmonar);

Tipo II: é mais distal, entre a aorta ascendente e a origem da artéria pulmonar direita (deve-se à migração anormal do 6º arco aórtico);

Tipo III: consiste na origem anômala da artéria pulmonar direita da aorta (resulta da septação desigual do truncus arteriosus).

 

 

O diagnóstico é obtido mediante exames de imagem (ecocardiograma com Doppler e fluxo em cores e angiorressonância magnética), mas em alguns casos pode ser necessário o estudo hemodinâmico principalmente para o estudo da reatividade vascular pulmonar e de lesões complexas associadas, especialmente as vasculares3.

O tratamento é cirúrgico e deve ser realizado imediatamente após o diagnóstico, para prevenir complicações como a doença vascular obstrutiva pulmonar e a insuficiência cardíaca4,5.

O prognóstico depende da presença de outras malformações cardíacas congênitas associadas3.

Dadas a raridade dessa doença e a importância do diagnóstico precoce, o presente estudo realiza uma revisão dos casos de JAP, correlacionando manifestações clínicas, métodos diagnósticos, tratamento cirúrgico e impacto das lesões associadas no prognóstico.

 

Métodos

Foi realizado um estudo longitudinal retrospectivo, com revisão dos prontuários de 9 pacientes com JAP, diagnosticados no período de janeiro 1995 a setembro 2005 no Instituto Nacional de Cardiologia Laranjeiras, Rio de Janeiro. A idade variou de 2 dias a 13 anos, 6 eram do sexo masculino e 3 do sexo feminino. O diagnóstico foi confirmado pela revisão de ecocardiogramas, estudos hemodinâmicos e, nos casos operados, pelos achados cirúrgicos. Foram obtidas e analisadas as seguintes variáveis: sexo, idade, apresentação clínica, lesões associadas e classificação da janela aortopulmonar.

 

Resultados

Pacientes - Foram identificados 9 pacientes com o diagnóstico de janela aortopulmonar, 6 do sexo masculino e 3 do sexo feminino. Dos 9 pacientes, 8 tinham idade inferior a um ano e 1 era adolescente na ocasião do diagnóstico (mediana quatro meses). O peso no momento do diagnóstico variou de 2,7 kg a 34,6 kg (mediana de 5,0 kg).

O quadro clínico de hiperfluxo pulmonar com dispnéia e cansaço aos esforços foi observado em todos os casos. Dois pacientes apresentaram infecção respiratória de repetição, e outros 2 tinham insuficiência cardíaca congestiva de difícil controle.

Em 7 casos o diagnóstico foi realizado pela ecocardiografia (fig. 2 e 3), e em 2 casos, por cateterismo cardíaco (figs. 4A e 4B).

 


 

 


 

 


 

Lesões associadas - Seis casos apresentaram lesões cardíacas congênitas associadas: interrupção do arco aórtico do tipo B (1), origem anômala da artéria coronária direita da artéria pulmonar (1), CIA com persistência de veia cava superior esquerda (1), ventrículo único com valva átrio ventricular única (1), CIV associada à hipertensão arterial pulmonar (1) e tetralogia de Fallot (1).

Morfologia da janela aortopulmonar - Em 7 pacientes a janela aortopulmonar foi do tipo proximal (tipo I, segundo a classificação de Richardson) (fig. 2A e 3A). Em 2 pacientes a janela aortopulmonar era do tipo distal (fig. 2B e 3B), envolvendo artéria pulmonar principal e artéria pulmonar direita (tipo II de Richardson). O tamanho da janela variou de 0,5 a 1,2 cm.

Tratamento cirúrgico - Dos 9 pacientes, 7 foram submetidos a cirurgia. O paciente de 13 anos de idade teve a cirurgia contra-indicada pela presença de hipertensão arterial pulmonar (HAP) com resistência vascular pulmonar elevada; e um segundo paciente faleceu antes de ser submetido à cirurgia em razão de uma intercorrência infecciosa.

Quanto à técnica cirúrgica utilizada, 5 pacientes tiveram fechamento do defeito com utilização de retalho de pericárdio bovino; em 1 o defeito foi fechado com prótese de PTFE e em outro, por dissecção e ligadura. Em 5 pacientes a abordagem foi por via transpulmonar, e em 1 paciente, por via transaórtica. Dos 7 pacientes submetidos a procedimento cirúrgico, 2 faleceram. Dos 2 óbitos cirúrgicos, 1 ocorreu na sala de cirurgia, estando a JAP associada à interrupção do arco aórtico e ampla comunicação intervetricular, e o segundo no pós-operatório imediato como conseqüência de hipertensão arterial pulmonar (paciente portador de comunicação interatrial e persistência da veia cava superior esquerda).

O tempo de internação no pós-operatório variou de quatro dias a três meses. Dois pacientes evoluíram com complicação nesse período, um com hipertensão arterial pulmonar e outro com infecção sistêmica e SARA, um terceiro teve complicação tardia com infecção da ferida operatória, tendo sido reinternado (os 3 casos tinham cardiopatia associada).

Dos 5 pacientes que obtiveram êxito com o procedimento, em 3 observamos fechamento completo da JAP. Dos 2 que evoluíram com shunt residual, 1 foi solucionado com a correção cirúrgica da cardiopatia associada (tetralogia de Fallot) e outro permanece com shunt residual pequeno.

Quatro dos pacientes submetidos à operação encontram-se em acompanhamento ambulatorial em nosso instituto, com boa evolução clínica em um período de quinze meses a seis anos (média de 18,7 meses). O paciente submetido à correção de tetralogia de Fallot, em outra instituição, encontra-se também com boa evolução clínica.

 

Discussão

A janela aortopulmonar (JAP) foi descrita pela primeira vez por Elliotson em 18306.

Os pacientes com JAP apresentam fisiologia de shunt esquerda-direita; portanto, quando essa malformação se mostra isolada e de tamanho grande, a apresentação clínica decorre do aumento do fluxo pulmonar, com insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão pulmonar e desenvolvimento precoce de doença vascular obstrutiva pulmonar. Defeitos menores podem não se manifestar clinicamente e não ser detectados em exames de imagem. Quando outras malformações estão associadas, os achados clínicos são variáveis. Isso pode ocasionar manifestações clínicas atípicas mais relacionadas ao defeito associado1,3. Em nossa casuística, 8 pacientes (88,9%) tinham manifestação clínica decorrente do hiperfluxo pulmonar e apenas 1 permaneceu assintomático até os sete anos de idade.

O diagnóstico por técnicas de imagem (ecocardiograma com Doppler e fluxo em cores e angiorressonância magnética) permite a exata localização e o tamanho do defeito. Algumas vezes, pode ser difícil diferenciá-la do tronco arterioso comum, da origem anômala da artéria pulmonar da aorta (que segundo Richardson corresponde ao tipo III de janela aortopulmonar) e mesmo o canal arterial de curta extensão. Nesses casos, o cateterismo cardíaco torna-se importante no diagnóstico diferencial, fornecendo também informações adicionais sobre a pressão arterial e a resistência vascular pulmonar3. Em nosso estudo, 2 casos foram diagnosticados por meio de estudo hemodinâmico, e nos outros 7, o diagnóstico foi feito pelo ecocardiograma com Doppler.

A JAP pode ter vários tamanhos e localizações. Segundo estudos como os de Tkebuchava e cols.3, a forma mais freqüente é o tipo I de Richardson, o que foi concordante com a nossa casuística, na qual em 90% dos casos encontramos esse tipo de janela.

O prognóstico depende, em grande número de casos, da presença de outras malformações cardíacas congênitas associadas1. Em nosso estudo, 66% apresentaram lesões associadas o que se correlaciona com a literatura, que mostra uma incidência de 47% a 77%1,4. A lesão associada mais comum é a interrupção do arco aórtico (15% a 20%)4. Outras são origem anômala da artéria coronária, arco aórtico à direita, comunicação interventricular, valva aórtica bicúspide, tetralogia de Fallot com ou sem agenesia de valva pulmonar, conexão ventrículo-arterial discordante, duplo arco aórtico e atresia tricúspide3,7. Diferente dos dados encontrados na literatura, em nossa casuística não observamos predomínio de nenhuma cardiopatia associada, com apenas um caso de interrupção do arco aórtico (tab.1).

A JAP não se fecha espontaneamente e nem mostra diminuição do tamanho com o crescimento. A prevenção da doença vascular obstrutiva pulmonar é a primeira indicação para o fechamento cirúrgico, e esse procedimento deve ser realizado logo após o diagnóstico ter sido estabelecido, independentemente da idade do paciente8.

O reparo cirúrgico consiste no fechamento da JAP usando um retalho normalmente de pericárdio bovino. Desde a primeira correção, feita por Gross em 1952 através de toracotomia, numerosas técnicas têm sido descritas, utilizando abordagem transaórtica ou transpulmonar. A maioria dos centros recomenda o fechamento por retalho transaórtico9-11, contrastando com nossa experiência, onde 5 pacientes (71,4%) foram abordados por via transpulmonar, 1 paciente (14,2%) teve o fechamento realizado por via transaórtica, e em outro caso (14,2%) o fechamento foi feito por meio de dissecção e ligadura.

O fechamento por intervenção hemodinâmica também é relatado para defeitos pequenos ou para fechamento de qualquer defeito residual11,12. Segundo Soares e cols., para esse procedimento, o tipo de JAP deve estar caracterizado, devendo ser do tipo I (proximal), de dimensão pequena (3 a 4 mm), e sem associação com anomalia de origem das artérias coronárias. Logo, o fechamento percutâneo está restrito a situações especiais13.

O prognóstico cirúrgico depende tanto da existência de hipertensão arterial pulmonar quanto da presença das malformações associadas3. Em nossa casuística, um paciente teve a cirurgia contra-indicada por já apresentar HAP com hiper-resistência pulmonar no momento do diagnóstico. Dos pacientes com cardiopatia associada, 2 faleceram, e 1 era portador de interrupção do arco aórtico, e outro evoluiu com HAP grave e choque no pós-operatório imediato. Nos pacientes com cardiopatia associada, a mortalidade foi de 50%, e nos pacientes sem lesão associada a mortalidade foi de 0%, o que confirma os dados da literatura.

Concluímos que, se a JAP se apresenta como lesão isolada, o resultado cirúrgico é bom, com baixa morbidade e mortalidade. Entretanto, é pior na presença de cardiopatia complexa associada. A cirurgia deve ser realizada o mais precocemente possível, a fim de prevenir o desenvolvimento da complicação mais temida, a hipertensão arterial pulmonar irreversível.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

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Correspondência:
Cinthia Siqueira Gangana
Av. Epitácio Pessoa, 2566/301
22471-003 – Rio de Janeiro, RJ
E-mail: cinthiasg@ig.com.br

Artigo recebido em 18/01/06; revisado recebido em 30/06/06; aceito em 9/10/06.