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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.88 no.4 São Paulo Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2007000400020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aspectos macroscópicos da cardiopatia chagásica crônica no envelhecimento

 

Flávia Aparecida de OliveiraI, III; Vicente de Paula Antunes TeixeiraII, III; Ruy de Souza Lino JuniorI; Marina Clare VinaudI, Marlene Antônia dos ReisII, III

IDisciplina de Patologia Geral, Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP), Universidade Federal de Goiás (UFG)
IIDisciplina de Patologia Geral, Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM)
IIIPrograma de Pós-graduação em Patologia , UFTM - Goiânia-GO, Uberaba, MG

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Descrever as características macroscópicas da cardiopatia chagásica crônica em idosos autopsiados.
MÉTODOS: Os idosos tinham 60 anos ou mais, sendo que 20 tinham cardiopatia chagásica crônica (CC) e sorologia positiva para doença de Chagas e 14 não tinham cardiopatia (SC) nem alterações morfológicas para cardiopatia e eram sorologicamente negativos para doença de Chagas.
RESULTADOS: Os idosos CC apresentaram peso cardíaco maior que os SC (385 ± 141,1 vs 306.8 ± 62,1g, respectivamente; p > 0,05), além de relação peso cardíaco/peso corporal significantemente maior (0,71% [0,5-1,42%] vs 0,59% [0,47-0,91%], respectivamente; p < 0,05). Quando os dois grupos foram comparados, os idosos CC apresentaram menor proporção de espessamento fibroso e/ou aterosclerose no segmento da aorta ascendente, nas valvas mitral e tricúspide e coronárias esquerda e direita que os SC, sendo que nas valvas aórtica e mitral as lesões eram significantemente mais discretas (p < 0,05). Quarenta e cinco por cento dos idosos CC tinham lesão vorticilar, e 10% tinham trombose intracardíaca no ventrículo esquerdo.
CONCLUSÃO: o espessamento fibroso e/ou aterosclerose nas valvas e vasos foram mais discretos nos idosos CC. Além disso, o peso do coração e a freqüência de trombose intracardíaca foram menores que os descritos na literatura em indivíduos não-idosos.

Palavras-chave: Cardimiopatia chagásica, aterosclerose, doença de Chagas, envelhecimento.


 

 

Introdução

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 13 milhões de pessoas estão infectadas pelo Trypanosoma cruzi, sendo que cerca de três milhões de casos são sintomáticos. A incidência da doença de Chagas é de 100 a 200 mil novos casos por ano1. No Brasil, associada à transição demográfica está ocorrendo a transição epidemiológica2. Entre os vários quadros crônicos que acometem o idoso, a doença de Chagas na fase crônica é observada em áreas endêmicas. A infecção pelo T. cruzi em idosos representa um problema de saúde pública, em decorrência da diminuição da prevalência e da interrupção da transmissão da doença, o que determina um aumento do número de indivíduos infectados que estão envelhecendo3. Embora a cardiopatia chagásica crônica seja a lesão mais grave da doença de Chagas, a doença ainda é pouco compreendida. A maioria das pessoas infectadas permanece assintomática, e cerca de 30% apresentam complicações cardíacas e/ou digestivas na fase tardia da doença4.

Na cardiopatia chagásica crônica descrita em indivíduos não idosos, as alterações macroscópicas variam de um coração aparentemente normal com dilatação da aurícula direita até aumento do peso, dilatação global do coração associada com hipertrofia, fibrose endocárdica na ponta do ventrículo e músculos papilares, espessamento endocárdico, lesão vorticilar com ou sem trombose intracardíaca, trombose intracardíaca, cardiomegalia extrema com peso acima de 1.000 g e alterações na aorta, como dilatação supravalvar e formação de aneurismas5-7.

Não foram encontrados na literatura os aspectos macroscópicos da cardiopatia chagásica no envelhecimento. Dos poucos estudos sobre a doença de Chagas no idoso, a maioria trata dos aspectos clínicos8-12. Assim, com base no aumento do número de portadores de doença de Chagas que estão envelhecendo e no fato de haver poucos estudos anatomopatológicos dessa doença no idoso, o objetivo deste estudo foi descrever as alterações macroscópicas da cardiopatia chagásica crônica em idosos autopsiados.

 

Métodos

Os idosos, portadores ou não de doença de Chagas, foram selecionados a partir de laudos de autópsias realizadas no Hospital Escola da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM) de Uberaba, Minas Gerais, de 1970 a 2000. Os idosos selecionados tinham 60 anos ou mais, e seus dados demográficos são apresentados na Tabela 1. As causas de morte foram agrupadas em cardiovascular, infecciosa, neoplásica, digestiva e outras, de acordo com a descrição no laudo da autópsia do processo que poderia ter determinado a causa última da morte13.

 

 

Para a análise macroscópica dos corações, foram formados dois grupos: um composto por 14 idosos sem cardiopatia (idosos SC) e outro composto por 20 idosos portadores de cardiopatia chagásica crônica (CC). No grupo de idosos CC foram excluídos os casos de enfisema; bronquite; cardiopatia isquêmica, hipertensiva e/ou reumática e cor pulmonale, segundo as características morfológicas macroscópicas e microscópicas. Nesse grupo, foram incluídos casos com sorologia positiva para doença de Chagas e casos com características morfológicas de cardiopatia chagásica14. No grupo de idosos SC, além das lesões excluídas no grupo dos idosos CC, foram excluídos os casos de cardiopatia chagásica e com sorologia positiva para doença de Chagas15.

Foram avaliadas as seguintes características macroscópicas: espessamento fibroso e aterosclerose na aorta ascendente, no tronco pulmonar e nas valvas aórtica, pulmonar, mitral e tricúspide; epicardite; forma do coração; fibroelastose; lesão vorticilar; e trombose intracardíaca16. A intensidade dos processos foi classificada semiquantitativamente de acordo com o predomínio na estrutura analisada da seguinte forma: ausente; discreta, no caso de acometimento de até 25% da estrutura; moderada, no caso de acometimento de 26 a 50% da estrutura; e acentuada, no caso de acometimento superior a 51% da estrutura. O peso cardíaco foi obtido nos laudos de autópsias, e a relação entre peso do coração e peso corporal (Pca/Pco) foi calculada com o peso em gramas multiplicado por 100. A relação Pca/Pco igual ou menor que 0,5% foi considerada normal17.

Para a análise estatística foi utilizado o programa SigmaStat 2.03. A comparação dos dois grupos com distribuição normal e variância homogênea foi feita com o teste t de Student e, quando não era esse o caso, com o teste Mann Whitney para a comparação de dois grupos ou teste de Krustal-Wallis para a comparação de mais de dois grupos, seguido pelo teste de Dunn. O nível de significância estabelecido foi de 5% (p < 0,05). O projeto de pesquisa deste estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da UFTM, protocolo nº 357.

 

Resultados

Os idosos CC apresentaram peso cardíaco maior que os SC (385 ± 141,1 vs. 306,8 ± 62,1g, respectivamente; p > 0,05), além de relação Pca/Pco significantemente maior (0,71% [0,5-1,42%] vs. 0,59% [0,47-0,91%], respectivamente; p < 0,05). Comparados aos idosos SC, os idosos CC apresentaram menor proporção de espessamento fibroso e/ou aterosclerose no segmento da aorta ascendente (Fig. 1), valvas mitral e tricúspide e coronárias esquerda e direita (Fig. 2), mas a diferença não foi estatisticamente significante (p > 0,05). Por outro lado, a aterosclerose na valva aórtica (Fig. 1) e o espessamento fibroso na valva mitral (Fig. 3) foram significantemente mais discretos nos idosos CC (p < 0,05) (Tab. 2). A dilatação cardíaca global foi significantemente mais acentuada nos idosos CC (p < 0,05) (Tab. 2). As demais alterações macroscópicas são apresentadas na Tabela 2.

 

 

 

 

 

 

Quarenta e cinco por cento dos idosos CC (n = 9) tinham lesão vorticilar e 10% (n = 2) tinham trombose intracardíaca no ventrículo esquerdo, todas associadas à lesão vorticilar. Nos casos de trombose intracardíaca o peso do coração foi de 520 e 850 g. O peso cardíaco dos idosos CC com lesão vorticilar foi maior do que dos idosos que não tinham essa lesão (431,1 ± 186,6 vs. 347,3 ± 80,4g, respectivamente; p > 0,05).

 

Discussão

De acordo com uma revisão da literatura, este trabalho parece ser o primeiro a descrever as características macroscópicas da cardiopatia chagásica crônica no envelhecimento. Em geral, na avaliação macroscópica do coração, os idosos CC apresentaram espessamento fibroso e/ou aterosclerose menos acentuados nas valvas e vasos avaliados do que os idosos SC. Além disso, o peso do coração e a freqüência de trombose intracardíaca foram menores que os descritos na literatura em indivíduos não-idosos18-20.

A aterosclerose na valva aórtica e o espessamento fibroso na valva mitral foram significantemente menos acentuados nos idosos CC do que nos idosos SC. Em outro estudo, não foi encontrada diferença nas freqüências de infarto do miocárdio e aterosclerose coronariana entre indivíduos não-idosos portadores ou não de doença de Chagas crônica. Além disso, os achados morfológicos da arteriopatia foram semelhantes nos dois grupos21. Provavelmente, com o envelhecimento, ocorre uma modulação da resposta inflamatória22 na cardiopatia chagásica crônica, podendo levar ao desenvolvimento de lesões ateroscleróticas mais discretas. Portanto, talvez a modulação inflamatória na cardiopatia possibilite a modulação de vias comuns para o desenvolvimento da cardiopatia e aterosclerose, que, de maneira indireta, inibiria o agravamento das lesões ateroscleróticas.

A dilatação global do coração foi significantemente mais freqüente nos idosos CC; epicardite crônica e fibroelastose endocárdica acentuadas também predominaram nos idosos CC, mas não houve diferença significante entre as proporções. A dilatação cardíaca na cardiopatia chagásica encontrada nos idosos é uma alteração característica da doença, como já foi descrito em indivíduos não-idosos16,23. Por outro lado, as outras alterações macroscópicas descritas anteriormente foram também encontradas nos idosos SC. Portanto, embora não tenham sido específicas, elas foram mais acentuadas na cardiopatia chagásica. A dilatação ventricular e a redução da complacência miocárdica também estão relacionadas à destruição de miocardiócitos associada à fibrose24. Esse fato provavelmente contribuiu para a dilatação cardíaca observada nos idosos CC.

Lesão vorticilar e trombose intracardíaca no ventrículo esquerdo associada à lesão vorticilar foram encontradas somente nos idosos CC. Esse fato está de acordo com a literatura, que descreve a lesão vorticilar como típica da cardiopatia chagásica, sendo considerada uma das alterações macroscópicas mais importantes para o diagnóstico da cardiopatia, que, por sua vez, predispõe à formação de trombose intracardíaca25.

Quarenta e cinco por cento dos idosos CC apresentaram lesão vorticilar e 10% apresentaram trombose intracardíaca, todas associadas à lesão vorticilar. Essas porcentagens foram menores que as relatadas por outro estudo, que descreveu lesão vorticilar em 53,2% dos casos, sendo que 49,5% também apresentavam trombose cardíaca18. Outros autores relataram uma porcentagem de 73% de trombose intracardíaca em indivíduos não-idosos com cardiopatia chagásica grave. A lesão vorticilar foi descrita em 68% dos casos, sendo que em 48% deles foi observada associação significante com trombose apical19. Em lesões vorticilares de grande porte, além do risco de trombose há o risco de arritmias e alteração do funcionamento cardíaco18.

A menor freqüência de lesão vorticilar e trombose intracardíaca nos idosos CC demonstra que, nos idosos estudados, a cardiopatia chagásica apresenta formas mais discretas, que permitem a adaptação funcional do coração às lesões no órgão e, conseqüentemente, a sobrevida do indivíduo. O peso do coração foi maior nos idosos que apresentaram lesão vorticilar e trombose intracardíaca, provavelmente em decorrência das lesões miocárdicas mais graves nesses casos, como descrito por outros autores19.

O peso cardíaco nos idosos CC (385 ± 141,1g) foi menor do que o descrito na literatura, que varia de 415 ± 136,8g a 568,49 ± 133,79g17,20,23. Da mesma maneira, a mediana da relação Pca/Pco nos idosos CC (0,71% [0,5-1,42%]) foi menor que a média descrita na literatura para indivíduos não-idosos (1,1 ± 0,22%)17. O peso cardíaco dos idosos CC, menor que o descrito na literatura, demonstra que, embora o aumento do coração ocorra também no idoso, esse aumento parece ser menos acentuado, provavelmente devido às lesões miocárdicas mais discretas no envelhecimento.

As lesões macroscópicas observadas nos idosos CC foram qualitativamente semelhantes às descritas na literatura em indivíduos não-idosos, porém mais discretas. O estudo da cardiopatia chagásica crônica no envelhecimento pode contribuir para uma maior compreensão do mecanismo de outras lesões, como a aterosclerose. Esses mecanismos podem estar envolvidos na modulação que produz as características peculiares da cardiopatia chagásica no idoso. Portanto, o espessamento fibroso e/ou aterosclerose observados nas valvas e vasos nos idosos CC foram mais discretos. Além disso, o peso do coração e a freqüência de trombose intracardíaca foram menores que o descrito na literatura em indivíduos não-idosos.

 

Agradecimentos

Os autores agradecem o apoio financeiro das seguintes instituições: Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), Fundação de Ensino e Pesquisa de Uberaba (FUNEPU), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP / UFG). Agradecem ainda as colaborações de Aloísio Costa, Lourimar J. Morais, Maria Helena SC Batista, Sônia M. Sobrinho e Vânia B. L. Moura.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflitos de interesses pertinentes.

 

Referências

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Correspondência:
Flávia Aparecida de Oliveira
Disciplina de Patologia Geral.
Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública
Rua 235, s/n, QD 62, LT AR1, Setor Universitário
74605-050 – Goiânia, GO
E-mail: flavia@iptsp.ufg.br

Artigo recebido em 28/07/06; revisado recebido em 28/07/06; aceito em 05/10/06.