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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.88 no.4 São Paulo Apr. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2007000400029 

PONTO DE VISTA

 

Tratamento cirúrgico de pacientes com insuficiência cardíaca: revascularização miocárdica, reconstrução ventricular, cirurgia valvar mitral

 

Enio Buffolo

Universidade Federal de São Paulo – EPM – São Paulo, SP

Correspondência

 

 


Palavras-chave: Baixo débito cardíaco, revascularização miocárdica, ventrículos cardíacos / cirurgia, valva mitral / cirurgia.


 

 

A insuficiência cardíaca, via final comum de variadas cardiomiopatias, se constitui no problema mais grave e atual nos âmbitos da cardiologia e da saúde pública. Apesar dos extraordinários progressos ocorridos nas últimas duas décadas no entendimento dos mecanismos mais íntimos da falência ventricular como uma síndrome endócrino-metabólica, a insuficiência cardíaca se constitui na principal causa de óbito da população adulta.

Justifica-se, assim, o uso da polifarmácia com cinco ou mais princípios ativos, com o objetivo de neutralizar etapas distintas da cascata de estimulação adrenérgica. O fascínio pela aplicação clínica desses princípios tem levado à postura de valorizar a síndrome de insuficiência cardíaca, às vezes aceitando sem maiores questionamentos a etiologia da enfermidade e, mais que isso, não identificando causas removíveis de insuficiência cardíaca.

A identificação do mecanismo causal e sua remoção ou neutralização representam significativo impacto na evolução, servindo como exemplo as cardiomiopatias isquêmicas, as taquimiopatias, e as doenças de depósito e metabólicas, entre outras.

Com os conceitos importantes e recentes da dinâmica ventricular sob a luz do mecanismo helicoidal em hélice dupla e o reconhecimento dos efeitos deletérios da esfericidade ventricular, torna-se necessária a abordagem da insuficiência cardíaca com visão mecanicista, que não é antagônica aos conceitos endócrino-metabólicos mas acrescenta expectativa de melhor manejo dessa síndrome.

Dentre as possibilidades de intervenção cirúrgica nessas situações, serão discutidas, de forma resumida, a revascularização no miocárdio isquêmico, a reconstrução ventricular e a correção da insuficiência mitral secundária.

Revascularização miocárdica

A disfunção isquêmica do miocárdio pode ser revertida pelo tratamento cirúrgico, contrastando significantemente com o manejo clínico isolado como demonstram vários estudos, constituindo critério maior de indicação operatória1-5.

Mais recentemente, os estudos Eplerenone in Heart Failure Post Acute Myocardial Infarction (EPHESUS) e Valsartan in Acute Myocardial Infarction Trial (VALIANT), com valores de corte da fração de ejeção entre 0,35 e 0,40, comprovaram as vantagens da revascularização cirúrgica sobre o manejo clínico a médio e longo prazos.

Deve-se ressaltar que, com avaliações de isquemia por meio de cintilografia, stress-echo e, mais recentemente, ressonância magnética nuclear, os resultados são altamente previsíveis, mas a afirmação de ausência de isquemia, mesmo incluindo o pet-scan, representa risco de erro de cerca de 20%.

Dessa forma, é difícil negar a indicação de revascularização em pacientes com mau desempenho ventricular quando existem leitos coronarianos distais abordáveis.

Dúvidas persistem quanto ao benefício da revascularização quando os volumes ventriculares são aumentados, sendo os resultados não tão satisfatórios quanto a revascularização em pacientes com ventrículo esquerdo não dilatado6-8.

Essas observações constituem a base para a proposta de associação entre algum tipo de reconstrução ventricular e revascularização do miocárdio, sendo muito promissora a aplicação clínica de conceitos atuais que entendem a contração ventricular como decorrente de um músculo único que se enrola sobre si mesmo.

Reconstrução ventricular

É reconhecido de longa data o impacto da ressecção de áreas discinéticas do ventrículo esquerdo na evolução da cardiopatia isquêmica9,10. Mais recentemente, os estudos Surgical Anterior Ventricular Endocardial Restoration (SAVER)11 e Randomized Efficacy Study of Tirofiban for Outcomes and Restenosis (RESTORE)12,13 apontaram para a necessidade de realizar ressecção de áreas fibróticas, mesmo aquelas acinéticas, justificando o desenho do estudo Surgical Treatment of Ischemic Heart Failure (STICH), recentemente completado.

O conceito de "helical heart", originalmente descrito por Torrent-Guasp, trouxe a base para o entendimento de como realizar a reconstrução ventricular com maior eficiência, restituindo sua forma elíptica14,15.

Na atualidade, a possibilidade de melhorar o desempenho ventricular por meio da exclusão de áreas de fibrose transmural associada à revascularização do miocárdio constitui área de extraordinário interesse e possibilidade de progresso.

Estudos experimentais bem conduzidos apóiam o conceito de se evitar cirurgicamente a expansão de áreas infartadas com prejuízo da função do miocárdio remanescente16.

É, pois, recomendável, diante dessas evidências clínico-experimentais, que na indicação e no planejamento do tratamento cirúrgico de pacientes com cardiomiopatia isquêmica e fração de ejeção rebaixada se estude a presença de áreas de fibrose preferencialmente por meio de ressonância magnética cardíaca e motilidade regional tagging.

São aguardados com grande interesse os resultados do estudo STICH, composto por dois braços: um braço é o da revascularização isolada e o outro, da revascularização com plastias ventriculares associadas.

Cirurgia valvar mitral

A insuficiência mitral secundária que se apresenta nas fases iniciais da insuficiência cardíaca é fator que onera consideravelmente o prognóstico17.

Essa regurgitação tem como base a esfericidade do ventrículo esquerdo, que determinará afastamento das papilares, dilatação do anel e perda adicional da função contrátil, com aumento da tensão da parede e maior gasto energético.

A proposta da correção dessa regurgitação por meio da plastia mitral foi feita inicialmente por Chen e cols.18 e amplamente divulgada por Bolling e cols.19.

Essa técnica tem como princípio corrigir sobrecarga adicional ao ventrículo esquerdo, eliminando o fluxo regurgitante e aumentando o volume sistólico sem ter primariamente a pretensão de melhorar a fração de ejeção.

Propusemos uma técnica mais abrangente, que, por meio do implante de uma prótese em posição A-V, corrige a insuficiência mitral, remodela o anel mitral e restitui o paralelismo dos músculos papilares20. Essa técnica foi modificada e aplicada por outros21,22.

A seleção de pacientes para esse tipo de procedimento merece consideração especial. Assim, a etiologia da cardiomiopatia não é fator relevante para a indicação, sendo fundamental a caracterização de insuficiência mitral moderada ou grave por meio da ecocardiografia transesofágica. Cumpre ressaltar que a detecção da insuficiência nessas situações, por meio de exame clínico e radiológico e mesmo por ventriculografia, freqüentemente a subestima.

Por outro lado, observa-se que o grau de insuficiência mitral não é estático, podendo variar com o grau de compensação do paciente. Nos casos de insuficiência mitral não grave e com dessincronização ventricular, a ressincronização pode substituir a intervenção valvar.

Nossos resultados recentemente publicados em uma série consecutiva de 116 pacientes permitem observar melhora consistente da classe funcional, aumento significante do volume de ejeção, eliminação da fração regurgitante, assim como diminuição da esfericidade do ventrículo esquerdo23.

Apesar da mortalidade hospitalar considerável (16,3%), a expectativa de vida ao final de cinco anos foi de cerca de 60%, incluindo a fase hospitalar, o que é semelhante a nossos resultados observados com transplante cardíaco.

Em conclusão, cremos ser válido propor a eliminação da insuficiência mitral secundária e a modelação da cavidade ventricular por meio do implante de prótese valvular em pacientes com insuficiência cardíaca avançada, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida e protelar ou viabilizar um transplante cardíaco e, em poucos casos de cardiomiopatias reversíveis, como ponte para cura.

 

Referências

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Correspondência:
Enio Buffolo
R. Borges Lagoa, 1080 – 7o andar
04038-030 – São Paulo, SP
E-mail: ebuffolo@cardiol.br

Artigo recebido em 31/08/06; aceito em 14/09/06.