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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.89 no.2 São Paulo Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2007001400012 

IN MEMORIAN

 

Professor Luiz Venere Décourt – um legado

 

 

Protásio L. da Luz

Diretor, Divisão de Cardiologia Clínica, InCor-FMUSP

 

 

Em 20 de maio de 2007 faleceu no InCor, aos 96 anos, o notável professor Luiz Venere Décourt, nascido em Campinas, SP, no dia 7 de dezembro de 1911, filho do também professor Paulo Décourt e de Alzira Venere Décourt. Foi professor titular de Clínica Médica da Universidade de São Paulo entre 1950 e 1981; um dos idealizadores do InCor e seu diretor científico entre 1978 e 1981. Recebeu o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo em 1981. Além de suas obrigações regulares na Faculdade de Medicina, manteve um Curso de Especialização em Cardiologia durante vinte anos, e Curso de Pós-Graduação durante dez anos. Foi autor dos livros Lições de patologia cardiocirculatória (1945), Biópsia do coração humano (1965), Doença reumática (1969) e Medicina preventiva em Cardiologia (1988). Publicou 324 artigos científicos em revistas nacionais e internacionais; proferiu 306 conferências científicas no Brasil e no exterior (Argentina, Bélgica, Equador, França, Itália, Peru e Venezuela). Foi membro de 40 sociedades científicas nacionais e 21 estrangeiras. Recebeu os títulos de Doutor "Honoris Causa" das Universidades de Coimbra, Rio Grande do Sul e Paraná. Recebeu também 34 prêmios de sociedades médicas e do governo. Dentre esses destacam-se o Prêmio Alfred Jurzkwoski, da Academia Nacional de Medicina, o Prêmio Astra de Medicina e Cirurgia, o Prêmio Moinhos Santista em Ciências da Saúde e o Prêmio Professor Emérito-Troféu Guerreiro da Educação.

Professor Décourt foi um homem muito especial. Chegou cedo à posição de professor titular e honrou o cargo como poucos. Dotado de rara inteligência, concentrou notáveis conhecimentos de Clínica Médica e, portanto, sempre foi visto como um grande médico.

• Sempre foi um estudioso disciplinado, um leitor voraz, que mantinha fichas pessoais dos artigos que lia. E não apenas de medicina – são lendários seus profundos conhecimentos de música, matemática, história e artes em geral. Sempre valorizou a cultura geral, não como um luxo de intelectuais, mas como um instrumento valioso de comunicação entre os homens, de aproximação entre médico e pacientes.

• Amparou os jovens, incentivando-os com seu entusiasmo e mostrando-lhes caminhos. Foi ao mesmo tempo disciplinador, compreensivo e sensível; intolerante com falácias e preconceitos, com a maldade e a ignorância; acolhia, no entanto, livremente a discussão de idéias, e sobretudo tinha enorme compreensão pelo ser humano, aceitando suas limitações e diferenças. Graças a essa grande capacidade de compreensão dos homens, foi um agregador, um formador de equipes. Pelo seu serviço de Cardiologia passaram 897 estagiários, com pelo menos um ano, de todo o Brasil e da América Latina. Sempre procurava o lado bom das pessoas, e ajudou a muitos, senão todos nós que convivemos com ele, em algum momento de nossas vidas. Desde os tempos do Hospital das Clínicas cunhou a expressão "a mística da enfermaria", para significar que a nossa profissão tem um cunho sacrossanto porque se dedica a preservar valores inalienáveis da pessoa humana, como a saúde e a vida.

Olhando retrospectivamente, parece que Décourt teve três objetivos principais na vida profissional: a ciência, o ensino e a pessoa humana. Na ciência, estudou, escreveu livros e artigos, pesquisou e esteve sempre atualizado. No ensino, foi insuperável; para muitos, nosso maior didata. Como humanista, um defensor dos pobres, dos doentes e um pregador do respeito pela pessoa humana.

Ao perseguir esses objetivos, algumas outras características se destacaram:

• Integridade, dedicação e visão do futuro.

Essas qualidades fizeram dele um exemplo inesquecível, e um líder cuja contribuição para a Cardiologia brasileira e da América Latina de muito excede sua existência terrena. Foi, sem dúvida, o cardiologista clínico mais influente de sua época. Suas opiniões sempre mereceram grande respeito. E o que deu credibilidade à liderança do Prof. Décourt foi a coerência de sua vida: ele pregou humanismo e foi caridoso; pregou amor pela ciência e sempre venerou o conhecimento e o progresso; pregou a necessidade de ensinar; ensinou com palavras e exemplos, mas sobretudo, inspirou seus alunos, como um verdadeiro mestre deve fazer.

Há sempre uma tristeza e uma conscientização da nossa finitude quando alguém tão marcante como Luiz Venere Décourt desaparece. Mas lembremos que ele deixou lições inesquecíveis, exemplos memoráveis. Seu legado é uma lição de profissionalismo, dedicação, retidão de caráter e humanismo. Isso assegura que sua memória ficará sempre conosco. Sua existência foi uma benção que dignificou a humanidade. Seus ensinamentos serão sempre um guia para nós todos, para a prática da medicina e o magistério sob os nobres princípios de dignidade e humanismo, que ele sempre defendeu.

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