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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.90 no.3 São Paulo Mar. 2008

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2008000300006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Influência do subsídio financeiro e do local da realização do curso de suporte avançado de vida em cardiologia, no aprendizado da emergência cardiovascular

 

 

Heberth C. MiottoI, II, III; Eugênio M. A. GoulartI, II; Carlos Faria Santos AmaralI, II; Maria da Consolação V. MoreiraI, II

IFaculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais
IIDepartamento de Clinica Médica da Universidade Federal de Minas Gerais
IIIPrograma de Pós-Graduação em Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O sucesso no aprendizado da emergência depende de muitos fatores que podem ser resumidos como: aluno, instrutores e curso.
OBJETIVO: Avaliar a influência do subsídio financeiro e do local da realização do curso no aprendizado da emergência cardiovascular.
MÉTODOS: Analisaram-se dados referentes aos cursos de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS) no período de dezembro de 2005 a dezembro de 2006. De acordo com o subsídio financeiro, foram divididos em: grupo 1 – subsídio integral; grupo 2 – subsídio de 50%; e grupo 3 – sem subsídio. Quanto ao local do curso, foram divididos em: local A – curso em cidade com > 1 milhão de habitantes; e local B – curso em cidade com < 1 milhão de habitantes. Compararam-se a aprovação prática e teórica e a média teórica.
RESULTADOS: Participaram do ACLS 819 alunos: 199 (24%) no grupo 1, 122 (15%) no 2 e 498 (61%) no 3. A aprovação prática e teórica e a média na prova teórica foram maiores no grupo 3 que nos demais grupos (p<0,05). Quatrocentos e oitenta e dois fizeram o curso no local A (59%) e 337 (41%) no local B. A aprovação prática foi semelhante para ambos os grupos (p = 0,33), entretanto a aprovação teórica foi maior no local A (73% vs. 65% - p = 0,021 – OR = 1,44 e IC: 1,05 – 1,97). A média teórica foi maior no local A (87,1 ± 10,4 e 86 ± 11, respectivamente p<0,05).
CONCLUSÃO: O subsídio financeiro e o local da realização do curso influenciaram na aprovação teórica e prática.

Palavras-chave: Ressuscitação cardiopulmonar (RCP), educação médica continuada, parada cardíaca, educação em saúde, emergências, suporte vital cardíaco avançado.


 

 

Introdução

Os cursos de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (Advanced Cardiac Life Support – ACLS) são destinados ao ensino da emergência cardiovascular1. O treinamento em emergência está associado com a melhora da sobrevida na parada cardiorrespiratória pré-hospitalar e hospitalar, porém a retenção do conhecimento e da habilidade psicomotora para realização da ressuscitação cardiopulmonar ainda continua sendo problema2-8. O sucesso no aprendizado da emergência cardiovascular depende de vários fatores, que podem ser resumidos em três: aluno, instrutor e curso.

O propósito do presente estudo é analisar retrospectivamente a influência do subsídio financeiro integral ou parcial e do local da realização do curso no aprendizado imediato dos cursos de Suporte Avançado de Vida em Cardiologia (ACLS).

 

Métodos

Selecionamos cursos regulares do ACLS entre dezembro de 2005 e dezembro de 2006. Participaram dos cursos médicos e enfermeiras que procuraram o treinamento espontaneamente ou por exigência de alguma instituição, e no último caso algum grau de subsídio foi fornecido.

Os cursos foram classificados conforme subsídio financeiro e local da sua realização. De acordo com o subsídio financeiro, foram assim organizados: grupo 1 (100% pago por alguma instituição), grupo 2 (50% pago por alguma instituição) e grupo 3 (integralmente pago pelo aluno). Quanto ao local, determinou-se a seguinte classificação: local A (centro urbano maior com mais de um milhão de habitantes) e local B (centro urbano menor com menos de um milhão de habitantes). A definição populacional dos centros urbanos foi obtida do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Todos os cursos tinham metodologia e formato idênticos, segundo o manual do instrutor do ACLS (American Heart Association – AHA) e foram administrados pela mesma equipe de instrutores, todos credenciados pela AHA, após curso de instrutor, e com recertificação a cada dois anos1. Os alunos receberam o material ("ACLS – Manual para provedores de saúde") com trinta dias de antecedência e foram orientados por carta para estudar o manual previamente.

Todos os manequins utilizados nos cursos atendiam às recomendações da AHA e permitiam a realização de desfibrilação, procedimentos invasivos como intubação e simulação de ritmos cardíacos (Ambu®). Os cenários e as simulações nas aulas práticas e nas avaliações seguiram exemplos de cenários constantes do manual do aluno e do instrutor1.

Para a certificação, todos os alunos foram submetidos à avaliação teórica e prática ao final do curso, de acordo com modelo proposto pelo manual do instrutor do ACLS1. O teste teórico consistia em prova de múltipla escolha com trinta e três questões, elaboradas para os cursos do ACLS pela AHA, e era considerado aprovado quem obtivesse 84% ou mais de acertos. A prova prática avaliava o correto atendimento da parada cardíaca, segundo algoritmo AHA, e era considerado aprovado o aluno que realizasse um atendimento de uma parada cardíaca conforme os algoritmos da AHA e não cometesse nenhuma falta considerada grave, como falha em reconhecimento do ritmo, não-acionamento do Serviço Médico de Emergência (SME) e indicação incorreta de desfibrilação (tab. 1). O aluno que cometesse alguma falha grave recebia uma segunda chance e era novamente avaliado em outro cenário de parada cardíaca. Se novamente ocorresse algum erro considerado grave, então o aluno era considerado reprovado.

 

 

Comparamos a aprovação nas avaliações teórica e prática e a média na avaliação teórica nos locais A e B e nos grupos com subsídio financeiro 1, 2 e 3.

Todos os dados foram extraídos do banco de dados do centro de treinamento em emergências da Sociedade Mineira de Terapia Intensiva, a qual é credenciado pela AHA.

Ética

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais.

Análise estatística

O escore teórico e a aprovação nas avaliações teórico-práticas foram comparados retrospectivamente nos grupos local A e local B e grupos 1, 2 e 3, segundo dados constantes em banco de dados.

Inicialmente, os dados foram analisados por meio de técnicas de estatística descritiva, em que variáveis contínuas foram transformadas em variáveis binárias, para maior clareza de análise; depois esses dados foram agrupados sinteticamente em tabela. Posteriormente, as variáveis contínuas foram analisadas pelo Teste de T de Student, ANOVA, e, quando necessário, pelo teste não-paramétrico de Kruskall-Wallis. Utilizou-se p<0,05 para todas as variáveis como critério de significância estatística.

 

Resultados

No período de dezembro de 2005 a dezembro de 2006, 819 alunos foram treinados em emergência pelo curso do ACLS. Desse total, 437 eram do sexo masculino (53,4%) e 382 do sexo feminino (46,6%). Conforme o subsídio, os alunos estavam assim distribuídos: grupo 1 – 199 alunos (24,3%), grupo 2 – 122 (14,9%) e grupo 3 – 498 (60,8%). No grupo 1 havia pequena predominância do sexo masculino (60,3%), fato não observado nos demais grupos, e sem significância estatística.

O grupo 3 apresentou maior aprovação na avaliação prática, seguido do 1 e finalmente do 2 (p < 0,05). A aprovação teórica também foi maior no grupo 3 que nos demais grupos, e o grupo 1 apresentou o menor índice de aprovação. A média do escore na avaliação teórica foi maior no grupo 3 que nos demais grupos, e o grupo 2 apresentou melhor escore que o grupo 1 (p < 0,05) (tab. 2).

De acordo com o local do curso, do total de alunos inscritos, 482 (59%) realizaram o curso no local A (centro urbano com mais de um milhão de habitantes) e 337 (41%) no local B (centro urbano menor B) (tab. 3).

A aprovação na avaliação prática foi semelhante para os locais A e B (p = 0,33), entretanto a aprovação teórica foi maior no local A que no B (73% vs. 65% - p = 0,021 – OR = 1,44 e IC: 1,05 – 1,97). A média na avaliação teórica foi de 87,1 ± 10,4 para o local A e 86 ± 11 para o local B, resultando em diferença estatisticamente significativa (p<0,05).

 

Discussão

O desempenho dos participantes foi influenciado por vários fatores relacionados ao curso, como aluno, instrutor e o próprio curso7,9,10. O aluno motivado apresentou melhor aproveitamento teórico e prático, no entanto o subsídio financeiro, muitas vezes associado à obrigatoriedade da realização do curso do ACLS, pôde ser interpretado como fator negativo para a aprendizagem (menor motivação). Os dados apresentados demonstraram que os alunos subsidiados (100% ou 50%) apresentaram pior aproveitamento do que aqueles que não tinham nenhum subsídio, o que resultou em menor aprovação e menor escore médio na avaliação teórica. Tais dados sugerem que a procura espontânea é derivada de maior interesse e motivação para o aprendizado da emergência e, conseqüentemente, melhor desempenho nas avaliações teórica e prática. Quanto ao local de trabalho e à residência do aluno, quando o curso ocorreu em cidade menor, com menos de um milhão de habitantes (local B), o desempenho na avaliação teórica foi pior, caracterizando possivelmente menor conhecimento teórico ou menor engajamento para a realização do curso. Também pode significar menor estudo prévio do material teórico ou menor experiência no atendimento das emergências. O fato de, na avaliação prática, não ter havidodiferença significativa pode caracterizar capacidade de aprendizado do aluno ou metodologia didática adequada do curso (fator relacionado a este), mas também pode estar relacionado com o instrutor.

Existem outros fatores envolvidos no bom aproveitamento do treinamento, mas a localização do curso e o subsídio financeiro, o que depende do aluno, têm participação na aprovação e provavelmente na retenção dos conhecimentos teórico e prático.

 

Conclusão

A influência do subsídio financeiro e do local da realização do curso do ACLS na aprovação teórica e prática e na média da avaliação teórica foi bem reconhecida. Portanto, devem ser desenvolvidas estratégias para solucionar ou amenizar o problema.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de mestrado de Heberth C. Miotto, Eugênio M. Goulart e Carlos F. S. Amaral pela Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Referências

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2. Nadel FM, Lavelle JM, Fein JA, Giardino AP, Decker JM, Durbin DR. Teaching resuscitation to pediatric residents: the effects of an intervention. Pediatrics. 2000; 154 (10): 1049-54.        [ Links ]

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4. Woollard M, Whitfeild R, Smith A, Colquhoun M, Newcombe RG, Vetter N, et al. Skill acquisition and retention in automated external defibrillator (AED) use and CPR by lay responders: a prospective study. Resuscitation. 2004; 60: 17-28.        [ Links ]

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6. Quiney NF, Gardner J, Brampton W. Resuscitation skills amongst anaesthetists. Resuscitation. 1995; 29: 215-8.        [ Links ]

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9. Bullock I. Skills acquisition in resuscitation. Resuscitation. 2000; 45: 139-43.        [ Links ]

10. Moser DK, Coleman S. Recommendations for improving cardiopulmonary resuscitation skills retention. Heart Lung. 1992; 21: 372-80.        [ Links ]

 

 

Correspondência:
Heberth C. Miotto
Rua Paracatu, 1555/1202 – Santo Agostinho
30180-091 - Belo Horizonte, MG - Brasil
E-mail: hcmiotto@cardiol.br
hcmiotto@terra.com.br

Artigo recebido em 04/08/07; Revisado recebido em 15/10/07; Aceito em 31/10/07.

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