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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.91 no.4 São Paulo Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2008001600005 

ARTIGO ORIGINAL
CIRURGIA CARDÍACA - ADULTOS

 

Fatores de risco para acidente vascular encefálico após cirurgia de revascularização do miocárdio

 

 

Dinaldo Cavalcanti de Oliveira; Carlos Romerio Ferro; João Bosco de Oliveira; Marcelo Menezes Malta; Plínio Barros Neto; Silvia J. F. Cano; Stevan Krieker Martins; Luis Carlos B. Souza; Adib Domingos Jatene; Leopoldo Soares Piegas

Hospital do Coração - Associação do Sanatório Sírio, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O acidente vascular encefálico (AVE) é uma temida complicação após cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM), com incidência entre 1,3% e 4,3%.
OBJETIVO: Identificar fatores preditores de AVE após CRM, na era moderna da cirurgia cardíaca.
MÉTODOS: Este é um estudo caso-controle de 65 pares de pacientes, no qual o pareamento foi realizado por sexo, idade (+ 3 anos) e data da CRM (+ 3 meses). Os casos são pacientes submetidos à CRM eletiva com circulação extracorpórea (CEC), que apresentaram AVE (definido como déficit clínico neurológico até 24 horas de pós-operatório e confirmado por exame de imagem), e os controles aqueles submetidos à CRM eletiva com CEC sem AVE.
RESULTADOS: A análise univariada revelou que o número de vasos revascularizados foi associado com a ocorrência de AVE após a CRM (3 ± 0,8 vs. 2,76 ± 0,8, p = 0,01). Na análise multivariada por regressão logística condicional, a hipertensão arterial sistêmica [OR: 6,1 (1,5 - 24), p = 0,009] e o diabete melito [OR: 3,1 (1,09 - 11), p= 0,03] foram determinantes de maior chance de AVE após CRM, e o infarto agudo do miocárdio > 1 mês determinante de menor chance [OR: 0,1 (0,03 - 0,36), p = 0,003].
CONCLUSÃO: Hipertensão e diabete melito foram identificados como preditores independentes de AVE nas primeiras 24 horas de pós-operatório de CRM. Em pacientes com tais fatores de risco, é possível que o conhecimento dos mecanismos causadores da injúria cerebral represente uma estratégia capaz de diminuir a incidência de AVE após CRM.

Palavras-chave: Acidente cerebrovascular, revascularização miocárdica / efeitos adversos, fatores de risco.


 

 

Introdução

A cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) é um tratamento eficaz em prolongar e melhorar a vida de pacientes com doença arterial coronariana (DAC)1.

O acidente vascular encefálico (AVE) é uma temida complicação dessa cirurgia. Sua incidência, na década de 1960, era de até 9%2; e a despeito da melhora das técnicas cirúrgicas dos últimos anos, essa complicação tem atualmente incidência que varia de 1,3% a 4,3%3-6.

Estudos clínicos prévios identificaram preditores de AVE após CRM, porém a baixa freqüência desse evento, a não-uniformidade na avaliação de variáveis relacionadas à injúria cerebral e o tamanho das amostras são fatores limitantes desses estudos7-9.

Acreditamos que análises de fatores de risco contemporâneos são necessárias para determinar quais são realmente os preditores de AVE na era moderna da cirurgia cardíaca.

Realizamos um estudo caso-controle a fim de identificar fatores preditores de AVE após CRM.

 

Métodos

Este é um estudo caso-controle de 65 pares de pacientes, no qual o pareamento foi realizado por sexo, idade (± 3 anos) e data da CRM (± 3 meses). Os casos são pacientes (pts) submetidos à primeira CRM eletiva com circulação extracorpórea (CEC), que apresentaram AVE (definido como déficit clínico neurológico até 24 horas de pós-operatório e confirmado por exame de imagem), e os controles aqueles também submetidos à primeira CRM eletiva com CEC que não sofreram AVE.

As características clínicas e cirúrgicas avaliadas foram: hipertensão arterial sistêmica (HAS), diabete melito (DM), dislipidemia (DLP), tabagismo, AVE prévio, lesão de carótida prévia (> 60%), fibrilação atrial pregressa, função ventricular (definida pela fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ao ecocardiograma em: normal se FEVE > 60%, discreta entre 50% e 60%, moderada de 40% a 50% e grave < 40%), número de vasos revascularizados, tempo de CEC, insuficiência renal crônica (creatinina > 1,5 mg/dl), infarto agudo do miocárdio (IAM) <1 mês e >1 mês, intervenção coronária percutânea (ICP) prévia.

As variáveis contínuas foram descritas em média e desvio padrão, enquanto as categóricas em valores percentuais.

Na análise univariada, utilizamos o teste da homogeneidade marginal para avaliação das variáveis categóricas e o teste t de Student para as variáveis numéricas. Para o cálculo da razão de chance (RC), realizamos análise multivariada por regressão logística condiconal, sendo p considerado significativo quando < 0,05.

As variáveis avaliadas no modelo multivariado de regressão logística condicional (utilizada para avaliar a probabilidade de as variáveis determinarem os casos) foram aquelas que nos modelos univariados apresentaram p-valores < 0,1 ou que tenham sido consideradas relevantes clinicamente.

Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da nossa instituição.

 

Resultados

No período de janeiro de 2000 a abril de 2006, foram submetidos à primeira CRM eletiva com CEC 3.420 pacientes, e 65 (1,9%) apresentaram AVE, conforme definição do estudo.

Incluímos 65 pares de pacientes, de acordo com o delineamento do estudo, sendo 41 de homens e 24 de mulheres. A idade média foi 70,6 ± 8,1 anos.

A freqüência de distribuição das variáveis analisadas e suas associações com a ocorrência de AVE, de acordo com análise univariada, são demonstradas nas tabelas 1 e 2. As variáveis que tiveram associação significativa com AVE, no pós-operatório de revascularização do miocárdio, foram o maior número de vasos revascularizados e a ICP prévia.

 

 

 

 

O modelo final da análise multivariada por regressão logística condicional incluiu as seguintes variáveis: HAS, DM, DLP, tabagismo, AVE prévio, lesão de carótida prévia, fibrilação atrial pregressa, função ventricular, número de vasos revascularizados, tempo de CEC, IAM <1 mês e >1 mês e ICP prévia.

Após controle para esses fatores, identificamos a HAS [RC: 6,1 (1,5 -24), p = 0,009] e o DM [RC: 3,1 (1,09 - 11), p = 0,03] como fatores determinantes de maior chance de AVE no pós-operatório de RM, enquanto o IAM >1 mês [RC: 0,1 (0,03 - 0,36), p = 0,003] foi o fator associado à menor chance desse evento.

 

Discussão

Neste estudo, realizado na era contemporânea da CRM, identificamos dois fatores do perfil clínico dos pacientes, HAS e DM, que foram determinantes de maior chance de AVE no pós-operatório.

Os dois mecanismos responsáveis pelo AVE são a isquemia e a hemorragia10.

A isquemia pode ser causada por fenômenos embólicos (cardíaco, da artéria aorta ou de artérias proximais), tromboembolismo de vasos intra ou extracranianos e hipoperfusão sistêmica. A hemorragia ocorre associada à hipertensão arterial sistêmica ou à reperfusão de áreas infartadas10.

No AVE hemorrágico, o sangue acumula-se fora do vaso sangüíneo e pode contribuir para a elevação da pressão cerebral e a morte da célula neurológica10.

Na injúria isquêmica causada por embolia cardíaca, geralmente os êmbolos são originários do átrio, como na fibrilação atrial, ou do ventrículo esquerdo, como no IAM recente. Habitualmente, são múltiplos infartos predominantemente no território na artéria cerebral média. Quando ocorre tromboembolismo lacunar, a causa é aterosclerose induzida por hipertensão ou estenoses de artérias penetrantes no cérebro. O tromboembolismo trombótico é relacionado à aterosclerose de vasos intracranianos ou a anormalidades hematológicas, como aumento das hemácias ou plaquetas10.

O dano cerebral decorrente de hipoperfusão é causado por combinação de estenose extracraniana e hipotensão sistêmica, sendo mais freqüentemente unilateral, quando relacionado a embolismo, e bilateral, quando relacionado a importante e persistente hipotensão sistêmica10.

Quando o insulto cerebral tem dois ou mais mecanismos causadores, é classificado como de causas múltiplas, e aqueles sem mecanismos conhecidos são classificados como "outros"10.

Eventos neurológicos que ocorrem após CRM são classificados em tipo 1, quando são AVE focal, ataque isquêmico transitório ou dano cerebral fatal, e tipo 2, quando refletem injúria cerebral difusa com desorientação ou declínio intelectual normalmente reversível8.

O AVE, que ocorre nas primeiras 24 horas após a CRM, é uma complicação potencialmente catastrófica. Ele está associado ao aumento da mortalidade hospitalar, conforme demonstrado por Glance e cols.11 em estudo que avaliou 51.750 pacientes submetidos à revascularização cirúrgica do miocárdio, e, após ajuste para fatores de risco pré-operatório, o AVE determinou uma chance quatro vezes maior de óbitos12.

A identificação de fatores preditores de AVE e, quando possível, a atuação sobre eles, a fim de diminuir a incidência desse evento, são objetivos que pretendidos há mais de quatro décadas2. Nesse sentido, uma análise de 16.528 submetidos à CRM, nos anos 1990, revelou os seguintes preditores independentes: insuficiência renal crônica, IAM < 24 horas, AVE prévio, doença carotídea, HAS, DM, idade > 75 anos, FE < 34%, diminuição do débito cardíaco e fibrilação atrial no pós-operatório11.

Outros estudos também identificaram a HAS e o DM como preditores independentes de AVE no pós-operatório de CRM. Embora a rápida progressão de aterosclerose aórtica, carotídea, alterações trombóticas etc. estejam associadas à injúria cerebral, o verdadeiro mecanismo do AVE, em pacientes hipertensos e diabéticos, não está totalmente esclarecido e necessita de investigações futuras13-17.

As técnicas cirúrgicas e os cuidados pré, intra e pós-operatório têm sofrido mudanças nos últimos anos, contibuindo para a melhoria dos resultados da revascularização do miocárdio18. Entretanto, em razão dessas mudanças, não é possível inferir que todos os resultados de estudos clínicos realizados em outro momento da cirurgia cardíaca possam ser transpostos aos dias atuais.

A identificação de pacientes com características de maior risco para ocorrência de dano cerebral poderá permitir a adoção de medidas profiláticas fundamentadas no conhecimento prévio (conforme descrito anteriormente) dos mecanismos causadores de AVE.

Dessa forma, acreditamos que, em pacientes hipertensos e diabéticos, medidas como controle adequado da pressão arterial (evitando períodos de hipertensão e hipotensão), rastreamento de possíveis fontes emboligênicas cardíacas ou de outros territórios vasculares e a avaliação e manipulação criteriosa da artéria aorta possam contribuir para redução da incidência do AVE após a CRM.

 

Conclusões

A HAS e o DM foram determinantes de maior chance de AVE nas primeiras 24 horas de pós-operatório de CRM. Nos pacientes com tais fatores de risco, é possível que a atuação incisiva em mecanismos causadores de AVE contribua para redução de sua incidência.

 

Agradecimentos

Agradecemos aos profissionais de saúde da nossa instituição e às secretárias Val e Mônica, pois, sem a contribuição dessas pessoas, não seria possível realizar este estudo.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Dinaldo Cavalcanti de Oliveira
Rua Abílio Soares, 625 / 64 A - Paraíso
04005-002 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: dinaldo@cardiol.br

Artigo enviado em 29/11/2007; revisado recebido em 15/02/08; aceito em 15/02/08.

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