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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782XOn-line version ISSN 1678-4170

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.1 São Paulo July 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2009000700007 

ARTIGO ORIGINAL
EXPERIMENTAL

 

Papel da lipoperoxidação na intensificação da remodelação causada pelo betacaroteno após o infarto

 

 

Paula S. AzevedoI; Daniella R. DuarteI; Marcos F. MinicucciI; Beatriz B. MatsubaraI; Luiz S. MatsubaraI; Rosângela NovoI; Ethel L. NovelliII; Álvaro O. CampanaI; Sergio A. R. PaivaI; Leonardo A. M. ZornoffI

IDepartamento de Clínica Médica - Faculdade de Medicina de Botucatu - UNESP
IIDepartamento de Bioquímica - Instituto de Biociências - UNESP2, Botucatu, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Os mecanismos envolvidos na maior remodelação causada pelo betacaroteno após o infarto são desconhecidos.
OBJETIVO: Analisar o papel da lipoperoxidação na remodelação ventricular após o infarto do miocárdio, em ratos suplementados com betacaroteno.
MÉTODOS: Ratos foram infartados e distribuídos em dois grupos: C (controle) e BC (500mg/kg/dieta). Após seis meses, foram realizados ecocardiograma e avaliação bioquímica. Utilizamos o teste t, com significância de 5%.
RESULTADOS: Os animais do grupo BC apresentaram maiores médias das áreas diastólicas (C = 1,57 ± 0,4 mm2/g, BC = 2,09 ± 0,3 mm2/g; p < 0,001) e sistólicas (C = 1,05 ± 0,3 mm2/g, BC = 1,61 ± 0,3 mm2/g; p < 0,001) do VE, ajustadas ao peso corporal do rato. A função sistólica do VE, avaliada pela fração de variação de área, foi menor nos animais suplementados com betacaroteno (C = 31,9 ± 9,3 %, BC = 23,6 ± 5,1 %; p = 0,006). Os animais suplementados com betacaroteno apresentaram valores maiores da relação E/A (C = 2,7 ± 2,5, BC = 5,1 ± 2,8; p = 0,036). Não foram encontradas diferenças entre os grupos em relação aos níveis cardíacos de GSH (C = 21 ± 8 nmol/mg de proteína, BC = 37 ±15 nmol/mg de proteína; p = 0,086), GSSG (C = 0,4 (0,3-0,5) nmol/g de proteína, BC = 0,8 (0,4-1,0; p = 0,19) de proteína; p = 0,246) e lipoperóxidos (C = 0,4 ± 0,2 nmol/mg de tecido, BC = 0,2 ± 0,1 nmol/mg de tecido; p = 0,086).
CONCLUSÃO: A maior remodelação em animais infartados e suplementados com betacaroteno não depende da lipoperoxidação.

Palavras-chave: Função ventricular, estresse oxidativo, disfunção ventricular esquerda, remodelação ventricular, betacaroteno.


 

 

Introdução

Após o infarto agudo do miocárdio (IAM), podem ocorrer alterações da arquitetura ventricular, envolvendo tanto a região infartada como a não infartada. É aceito que as alterações morfológicas sejam o reflexo de alterações celulares, moleculares e intersticiais cardíacas, que ocorrem em resposta à determinada agressão. O conjunto dessas adaptações - que são detectadas clinicamente por alterações na composição, massa, volume e geometria cardíaca -, é chamado de remodelação miocárdica1-4.

A intensidade do processo de remodelação ventricular está diretamente associada a um pior prognóstico, principalmente porque a remodelação está relacionada ao aparecimento e à progressão da disfunção ventricular. Assim, inúmeras estratégias vêm sendo utilizadas para prevenir ou atenuar o processo de remodelação ventricular após o IAM5-7.

Um dos principais moduladores do processo de remodelação é o estresse oxidativo. Entre outros mecanismos fisiopatológicos, uma das principais consequências do estresse oxidativo é a lipoperoxidação. Assim, se aceita que o estresse oxidativo possa ser um indutor de danos celulares que alteram variáveis funcionais e estruturais cardíacas, participando da fisiopatologia da insuficiência cardíaca secundária a vários estímulos, inclusive o IAM8-11.

Considerando que o betacaroteno, por possuir habilidade de inativar as espécies reativas de oxigênio, é considerado um antioxidante12,13, a suplementação de betacaroteno poderia ser benéfica após o IAM. Assim, em um trabalho anterior de nosso laboratório, foram avaliados os efeitos da suplementação de betacaroteno no processo de remodelação ventricular após o IAM. Contrariamente ao esperado, entretanto, a suplementação com betacaroteno resultou em intensificação da remodelação, acompanhada por piora da função cardíaca14. Os mecanismos responsáveis por esse fenômeno, no entanto, ainda não estão esclarecidos. Uma das possibilidades seria que o betacaroteno, em situação de grande estímulo oxidativo, deixaria de exercer atividade antioxidante e passaria a apresentar atividade pró-oxidante15.

Pelo exposto, o objetivo deste trabalho foi avaliar a participação da lipoperoxidação nas alterações morfológicas e funcionais cardíacas, induzidas pela suplementação de betacaroteno em ratos infartados.

 

Material e Métodos

Grupos experimentais

O protocolo experimental do presente trabalho foi aprovado pela Comissão de Ética em Experimentação Animal de nossa instituição, estando em conformidade com os Princípios Éticos na Experimentação Animal adotado pelo Colégio Brasileiro de Experimentação Animal.

Foram utilizados ratos Wistar machos, pesando entre 200 e 250 gramas. O infarto agudo foi produzido de acordo com o método previamente descrito16. Em resumo, os ratos (n = 120) foram anestesiados com cloridrato de cetamina (50mg/kg) e cloridrato de xilidino (1mg/kg), e então submetidos à toracotomia lateral esquerda. Durante o experimento, os animais respiraram espontaneamente, com suplementação de oxigênio a 100%, ofertado por cateter. Após a exteriorização do coração, o átrio esquerdo foi afastado e a artéria coronária esquerda ligada com fio mononáilon 5.00, entre a saída da artéria pulmonar e o átrio esquerdo. A seguir, o coração retornou ao tórax, os pulmões foram inflados com pressão positiva e o tórax foi fechado por suturas com algodão 10.

Os animais foram mantidos em gaiolas para recuperação; alimentados com ração comercial padrão e livre acesso a água; com controle de luz, ciclos de 12 horas; temperatura de aproximadamente 250C e umidade controlada.

Após 48 horas do infarto, os animais foram aleatoriamente divididos em dois grupos: grupo C (n = 25), formado pelos animais infartados alimentados com ração comercial padrão; e grupo BC (n = 27), formado pelos animais infartados que receberam dieta suplementada com betacaroteno na dose de 500mg/kg/dieta. Todas as análises foram feitas por examinadores sem conhecimento dos grupos dos animais.

Avaliação morfológica e funcional pelo ecocardiograma

Após seis meses de tratamento, os animais sobreviventes foram anestesiados com cloridrato de cetamina (50mg/kg) e cloridrato de xilidino (1mg/kg), para o estudo ecocardiográfico. Após a tricotomia da região anterior do tórax, os animais foram posicionados em decúbito dorsal em canaleta especialmente projetada, que permite a leve rotação lateral esquerda para realização do exame, utilizando-se equipamento da Philips (modelo TDI 5500) dotado de transdutor eletrônico multifrequencial até 12 MHz. A avaliação dos fluxos transvalvares mitral e aórtico foi realizada com o mesmo transdutor operando em 5,0 MHz. As medidas das estruturas cardíacas foram efetuadas nas imagens monodimensionais, obtidas com o feixe de ultrassom orientado pela imagem bidimensional, na posição paraesternal eixo menor. A imagem da cavidade ventricular esquerda foi obtida posicionando o cursor do modo-M entre os músculos papilares, logo abaixo do plano da valva mitral. As imagens da aorta e do átrio esquerdo foram obtidas na posição paraesternal eixo menor, com o cursor do modo-M posicionado ao nível da valva aórtica. O registro da imagem monodimensional (velocidade: 100 mm/s) foi realizado por meio da impressora modelo UP-890MD da Sony Co. Todas as medidas foram efetuadas de acordo com as recomendações da American Society of Echocardiography17, já validadas no modelo de ratos infartados18. O diâmetro diastólico do ventrículo esquerdo (DDVE) e a espessura da parede posterior do VE (HDVE) foram medidos no momento correspondente ao diâmetro máximo da cavidade. O diâmetro sistólico do VE (DSVE) foi medido no momento da excursão sistólica máxima da parede posterior da cavidade. As áreas diastólicas (AD) e sistólicas (AS) do VE foram medidas no modo bidimensional, por meio de planimetria, em dois planos paraesternais: eixo longo e eixo menor. A função sistólica do VE foi avaliada calculando-se a fração de variação de área (FVA = AD-AS/AD x 100)18, obtida pela média dos valores dos dois eixos. O fluxo diastólico transmitral (ondas E e A) foi obtido com o transdutor na posição apical de quatro câmaras. As medidas referentes aos fluxos foram realizadas diretamente no monitor do ecocardiógrafo.

Estudo morfométrico

Após o estudo ecocardiográfico, os animais foram sacrificados com pentobarbital; os corações dos animais foram retirados, dissecados e os ventrículos direito e esquerdo, incluindo o septo interventricular, foram separados e pesados.

Amostras de tecido cardíaco foram fixadas em solução de formol a 10% por período de 48 horas, segundo método já descrito19,20. Os cortes histológicos foram corados em lâmina com solução de Hematoxilina-Eosina (HE) para aferição de áreas da secção transversa dos miócitos, empregando-se microscópio LEICA DM LS acoplado a uma câmera de vídeo, que envia imagens digitais a um computador dotado do programa de análise de imagens Image Pro-plus (Media Cybernetics, Silver Spring, Maryland, USA). Foram mensuradas de 50 a 70 células por ventrículo analisado. Os miócitos selecionados estavam seccionados transversalmente, apresentavam forma redonda e núcleo visível no centro da célula. Esse cuidado visou uniformizar ao máximo o conjunto de miócitos dos diferentes grupos. As áreas seccionais médias obtidas para cada grupo foram utilizadas como indicador do tamanho celular.

Lâminas com cortes histológicos coronais de 6 micras - corados pela técnica de Picro Sirius red, específicos para visualização de colágeno -, foram feitas para avaliação do interstício do miocárdio do VE. A leitura foi feita utilizando-se microscópio LEICA DM LS acoplado a uma câmera de vídeo, que envia imagens digitais a um computador dotado do programa de análise de imagens Image Pró-plus (Media Cyberetics, Silver Spring, Maryland, USA).

Lipoperoxidação

Para avaliação bioquímica, foram realizadas dosagens dos níveis de glutationa reduzida (GSH), glutationa oxidada (GSSH), relação GSH/GSSG e lipoperóxidos, segundo técnica já padronizada21. As dosagens foram realizadas no fígado e no coração.

Análise estatística

Considerando que os dados apresentaram distribuição normal, as comparações foram feitas pelo teste t de Student. Os dados foram expressos em média ± desvio padrão. Para a relação GSH/GSSG, os dados estão expressos em mediana e intervalo interquartil e foram analisados pelo teste de Mann-Whitney. O nível de significância foi de 5%. As análises estatísticas foram feitas com o programa SigmaStat for Windows v2.03 (SPSS Inc, Chicago, IL).

 

Resultados

Ao final do estudo, 13 animais controle e 15 animais suplementados com betacaroteno sobreviveram ao período de seis meses (p > 0,05).

Os resultados do estudo ecocardiográfico estão na tabela 1. A frequência cardíaca foi estatisticamente maior nos animais suplementados com betacaroteno (C = 248 ± 31 bpm, BC = 281 ± 40 bpm; p = 0,025). Os animais BC apresentaram valores maiores do DDVE, ajustados ao peso corporal do rato (C = 20,5 ± 3,4 mm/g, BC = 23,8 ± 3,8 mm/g; p = 0,025), e valores menores de HDPP (C = 1,4 ± 0,2 mm, BC = 1,2 ± 0,2 mm; p = 0,041), em relação aos animais controle. Os animais do grupo BC apresentaram maiores médias dasáreas diastólicas (C = 1,57 ± 0,4 mm2/g, BC = 2,09 ± 0,3 mm2/g; p < 0,001) e sistólicas (C = 1,05 ± 0,3 mm2/g, BC = 1,61 ± 0,3 mm2/g; p < 0,001) do VE, ajustadas ao peso corporal do rato, em relação aos animais controle. A função sistólica do VE, avaliada pela fração de variação de área, foi menor nos animais suplementados com betacaroteno (C = 31,9 ± 9,3%, BC = 23,6 ± 5,1%; p = 0,006). Em relação à função diastólica, os animais suplementados com betacaroteno apresentaram valores maiores da relação E/A que os animais controle (C = 2,7 ± 2,5, BC = 5,1 ± 2,8; p = 0,036). Considerando as outras variáveis morfométricas, não foram observadas diferenças entre os dois grupos.

 

 

Os resultados do estudo morfométrico estão na tabela 2. A suplementação com betacaroteno resultou em maior peso do VD, ajustado ao peso corporal (C = 0,7 ± 0,4 mg/g, BC = 1,1 ± 0,3 mg/g; p = 0,034). Não foram observadas diferenças em relação às outras variáveis analisadas (p > 0,05).

 

 

Em relação às dosagens bioquímicas, não foram encontradas diferenças entre os grupos quanto aos níveis hepáticos de GSH (C = 17 ± 7 nmol/mg de proteína, BC = 27 ± 14 nmol/mg de proteína; p = 0,250); GSSG (C = 0,3 ± 0,1 nmol/g de proteína, BC = 0,4 ± 0,2 nmol/g de proteína; p = 0,246); GSH/GSSG (C = 4377 (2738-8249), BC = 2012 (1116-4488); p = 0,286) e lipoperóxidos (C = 0,3 ± 0,1 nmol/mg de tecido, BC = 0,2 ± 0,1 nmol/mg de tecido; p = 0,159). Do mesmo modo, não foram encontradas diferenças entre os grupos em relação aos níveis cardíacos de GSH (C = 21 ± 8 nmol/mg de proteína, BC = 37 ±15 nmol/mg de proteína; p = 0,086); GSSG (C = 0,4 (0,3-0,5) nmol/g de proteína, BC = 0,8 (0,4-1,0; p = 0,19) de proteína; p = 0,246); GSH/GSSG (C = 56 ±7, BC = 53 ± 14; p = 0,709) e lipoperóxidos (C = 0,4 ± 0,2 nmol/mg de tecido, BC = 0,2 ± 0,1 nmol/mg de tecido; p = 0,086).

 

Discussão

O objetivo deste trabalho foi analisar a participação da lipoperoxidação no processo de remodelação ventricular, após o infarto agudo do miocárdio, em ratos suplementados com betacaroteno. Nosso trabalho confirmou que a suplementação de betacaroteno intensifica a remodelação cardíaca pós-IAM. No entanto, contrariamente ao esperado, a piora da remodelação não parece ser dependente da lipoperoxidação.

O primeiro aspecto a ser considerado refere-se ao fato de que nosso trabalho confirmou os achados relatados previamente em relação aos efeitos da suplementação do betacaroteno no processo de remodelação ventricular após o IAM14. De fato, a suplementação do betacaroteno resultou em aumento dos diâmetros ventriculares, tanto sistólico como diastólico, indicando piora do processo de remodelação ventricular esquerda. O aumento da cavidade ventricular foi acompanhado pela diminuição da espessura da parede posterior do VE. Esse fato, associado ao não aumento da área seccional do miócito, pode sugerir que a suplementação de betacaroteno resulta em crescimento celular de padrão excêntrico.

O segundo aspecto relevante de nosso trabalho está associado ao conceito de que a remodelação cardíaca resulta, invariavelmente, em uma queda progressiva da função sistólica ventricular. Inicialmente, em consequência do crescimento celular, a remodelação pode contribuir para manter ou restaurar a função cardíaca. Cronicamente, entretanto, ocorrem alterações bioquímicas, genéticas e estruturais que vão resultar em disfunção sistólica ventricular progressiva2-4. Em consonância com esse conceito, nos ratos suplementados com betacaroteno, o processo de remodelação foi acompanhado pela queda da fração de variação de área. Outros sinais indiretos de disfunção ventricular foram encontrados nos animais suplementados com betacaroteno, como, por exemplo, aumento da frequência cardíaca e hipertrofia do ventrículo direito. É interessante notar que, em nosso trabalho, identificamos também alterações na função diastólica. O aumento da relação E/A foi interpretado como padrão restritivo do enchimento ventricular, caracterizando disfunção diastólica grave. O fato de que os animais suplementados apresentaram tendência a maiores valores de átrio esquerdo reforçam essa interpretação. Outro fato interessante foi que não identificamos diferenças em relação ao conteúdo de colágeno intersticial. Levando-se em conta que o colágeno é um importante modulador da função diastólica22, nossos resultados sugerem que outros fatores moduladores da função diastólica podem ter sido afetados pelo tratamento com betacaroteno.

O terceiro aspecto a ser considerado é que os mecanismos responsáveis pela intensificação do processo de remodelação cardíaca com a suplementação de betacaroteno não são conhecidos. Um dos possíveis mecanismos está relacionado com a lipoperoxidação, já que, como dito anteriormente, o betacaroteno, em situação de grande estímulo oxidativo, pode deixar de exercer atividade antioxidante e poderia passar a apresentar atividade pró-oxidante15. Outro mecanismo proposto é que o betacaroteno pode induzir a expressão do citocromo P450 e, com isso, aumentar o catabolismo do ácido retinóico, importante modulador da remodelação cardíaca23.

Em relação ao estresse oxidativo, sabe-se que as espécies reativas de oxigênio são constantemente produzidas no organismo. Os potenciais danos gerados por essa produção são contrabalanceados pela ação dos sistemas de defesa antioxidantes. Entre as defesas antioxidantes, destacam-se os sistemas enzimáticos, com a participação, por exemplo, do GSH e GSSG; e os sistemas não enzimáticos, com a participação de vitaminas, entre outros. Quando o equilíbrio entre o estímulo oxidante e as defesas antioxidantes é rompido, estabelece-se a condição denominada estresse oxidativo8-11. Uma das principais consequências do estresse oxidativo seria a lipoperoxidação. Assim, tanto a relação GSH/GSSG, como os níveis de lipoperóxidos, poderiam avaliar a presença/intensidade do estresse oxidativo24,25.

Contrariamente à nossa hipótese original, a suplementação de betacaroteno não modificou as variáveis que procuraram avaliar a lipoperoxidação. De fato, a relação GSH/GSSG, e os níveis de GSH, GSSG e lipoperóxidos do grupo suplementado com betacaroteno não foram diferentes dos animais infartados sem suplementação. Devemos considerar que as concentrações de GSH e GSSG, bem como a relação entre elas, indicam o quanto da GSH foi utilizada para manter o equilíbrio antioxidante/oxidante. Ou seja, a GSH é convertida em GSSG para impedir a ação de espécies reativas no organismo. Considerando que não houve diferença nas concentrações de GSH, GSSG e em sua relação, nossos resultados não confirmam a possível atividade pró-oxidante do betacaroteno. Pelo contrário, desde que o betacaroteno por si só pode apresentar efeito antioxidante, não haveria necessidade de consumir GSH, formando GSSG, para manter o equilíbrio redox. Portanto, se considerarmos que, apesar desses fatores, houve uma consistente intensificação da remodelação cardíaca com o betacaroteno, podemos sugerir que a lipoperoxidação provavelmente não teve participação na intensificação da remodelação ventricular.

É importante ressaltar que nosso estudo, por características de metodologia disponível no momento, avaliou somente a participação da lipoperoxidação e dos sistemas relacionados diretamente com ela. Devemos considerar, entretanto, que a participação do estresse oxidativo na intensificação da remodelação não pode ser descartada apenas pela ausência de aumento na lipoperoxidação, já que outros sistemas produtores de radicais livres de oxigênio podem estar atuando, como por exemplo, os sistemas NADPH-oxidase e tioredoxina. Desse modo, os mecanismos responsáveis pela ação deletéria do betacaroteno, nesse modelo, permanecem por ser determinados.

Em conclusão, o conjunto de nossos dados sugere que a maior remodelação em animais infartados e suplementados com betacaroteno não depende da lipoperoxidação.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi parcialmente financiado por FAPESP - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Leonardo A. M. Zornoff
Faculdade de Medicina de Botucatu - Distrito de Rubião Jr., s/n
18618-000 - Botucatu, SP - Brasil

E-mail: lzornoff@cardiol.br, lzornoff@fmb.unesp.br

Artigo recebido em 01/08/07; revisado recebido em 01/10/07; aceito em 10/10/07.

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