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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.5 São Paulo nov. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2009001100011 

ARTIGO ORIGINAL
EPIDEMIOLOGIA

 

Transição epidemiológica da mortalidade por doenças circulatórias no Brasil

 

 

Antonio de Padua Mansur; Adriano Ibrahim A. Lopes; Desidério Favarato; Solange Desirée Avakian; Luíz Antonio M. César; José Antonio F. Ramires

Instituto do Coração (InCor) - HCFMUSP - São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: As doenças circulatórias (DC) são as principais causas de morte no Brasil, com predomínio das doenças cerebrovasculares (DCbV). Nos países desenvolvidos, predominam as doenças isquêmicas do coração (DIC).
OBJETIVO: Analisar a relação entre DCbV/DIC em homens e mulheres a partir de 30 anos.
MÉTODOS: As estimativas da população e os dados de mortalidade para DC, DIC e DCbV foram obtidos do Ministério da Saúde para o período entre 1980 e 2005. O risco de morte por DIC e DCbV por 100.000 habitantes e a relação entre DCbV/DIC foram analisados nas faixas etárias decenais a partir de 30 anos. O risco de morte foi ajustado pelo método direto, usando como população padrão a população mundial de 1960.
RESULTADOS: Observou-se aumento exponencial do risco de morte por DIC e DCbV, com o aumento da faixa etária. DCbV foi a principal causa de morte no Brasil até 1996, quando passou a predominar a DIC. Foi observada redução de 33,25% no risco de morte por DC na população brasileira. Na região metropolitana de São Paulo, houve uma diminuição de 45,44%, entre 1980 e 2005. A relação DCbV/DIC foi maior nas mulheres mais jovens: de 2,53 em 1980 e 2,04 em 2005 para a população brasileira, e de 2,76 em 1980 e 1,96 em 2005 na região metropolitana de São Paulo, com decréscimo nas faixas etárias subsequentes. Nos homens, a relação DCbV/DIC foi próximo de <1 para todas as faixas etárias.
CONCLUSÃO: Observou-se, no Brasil, uma transição do risco de morte por DC, com predomínio atual das DIC.

Palavras chave: Isquemia encefálica/mortalidade/epidemiologia, isquemia miocárdica/mortalidade/epidemiologia, população urbana, São Paulo, Brasil.


 

 

Introdução

As doenças circulatórias (DC) são as principais causas de morte no Brasil. Desde 1980, vêm sendo observada uma redução da mortalidade por estas doenças1. A redução foi maior nas regiões Sudeste e Sul, as mais desenvolvidas do país, e para as faixas etárias acima de 60 anos2. Dentre as DC, destacam-se as doenças isquêmicas do coração (DIC) e as doenças cerebrovasculares (DCbV). As DIC são as principais causas de morte nos países desenvolvidos, enquanto as DCbV são importantes causas de morte nos países em desenvolvimento, como os do Leste Europeu3. No Brasil, a mortalidade por DC é maior nos homens. Nestes, o risco de morte por DIC e DCbV é semelhante. Nas mulheres, as DCbV matam mais que as DIC. Contudo, nas mulheres das regiões mais desenvolvidas do Brasil, predomina a mortalidade por DIC4. Os objetivos deste estudo foram analisar, de 1980 a 2005, a tendência do risco de morte por DC, DIC e DCbV na população brasileira em geral, assim como na população da região metropolitana de São Paulo, além da razão entre DIC e DCbV.

 

Métodos

Foram analisadas a mortalidade por DC na população brasileira (país em desenvolvimento) e na população da região metropolitana de São Paulo, selecionada como representante de um país desenvolvido por ser uma das regiões mais desenvolvidas do Brasil. As estimativas da população e os dados de mortalidade para DC, DIC e DCbV foram obtidos do Ministério da Saúde para o período entre 1980 e 2005. As estimativas da população foram obtidas dos censos de 1980, 1991 e 2000; da contagem de 1996; e das projeções intercensitárias de 1981 a 2005. Os óbitos, de 1980 a 1995, foram classificados de acordo com a 9ª Conferência de Revisão da Classificação Internacional de Doenças de 1975 (CID-9) e adotada pela 20ª Assembléia Mundial da Saúde. As DC estão agrupadas nos códigos 390 a 459; a DIC, códigos 410 a 414; e DCbV, códigos 430 a 438 do CID-9 para a população brasileira nos anos de 1979 a 1995. A mortalidade entre os anos de 1996 a 2005 foi classificada pela 10ª Conferência de Revisão (CID-10). As DC estão agrupadas nos códigos I10 a I82.9; as DIC, códigos I20 a I25; e as DCbV nos códigos I60 a I69. Os dados de mortalidade por 100.000 habitantes foram analisados na população geral, em homens e mulheres, com idade igual ou superior a 30 anos. A razão entre DCbV e DIC, nos homens e mulheres em faixas decenais a partir de 30 anos, foi posteriormente calculada a cada cinco anos, entre 1980 e 2005. O risco de morte foi ajustado pelo método direto, usando como população padrão a população mundial de 19605.

 

Resultados

As tendências do risco de morte por DC, DIC e DCbV, em homens e mulheres da população brasileira e da região metropolitana de São Paulo de 1980 a 2005, encontram-se na Tabela 1. No Brasil, de 1980 a 2005, observou-se significativa redução da mortalidade por: DC (-33,25%); DC nos homens (-32,37%); DC nas mulheres (-34,46%);DIC nos homens (-31,32%); DIC nas mulheres (-29,23%); DCbV nos homens (-33,38%); e DCbV nas mulheres (-38,30%). Na região metropolitana de São Paulo, de 1980 a 2005, observou-se significativa redução da mortalidade por: DC (-45,44%); DC nos homens (-41,65%); DC nas mulheres (-51,40%); DIC nos homens (-39,49%); DIC nas mulheres (-46,59%); DCbV nos homens (-44,96%); e DCbV nas mulheres (-56,75%). A análise por faixas etárias decenais, a partir de 30 anos, mostrou redução significativa da mortalidade por DCbV e DIC no Brasil e na região metropolitana de São Paulo. No Brasil, a redução da mortalidade por DCbV variou de 25,65% a 59,22% e por DIC, de 14,22% a 48,29%. Na região metropolitana de São Paulo, a redução da mortalidade por DCbV variou de 16,65% a 69,84% e por, DIC de 12,01% a 54,07% (Tabela 2). A razão entre DCbV/DIC foi maior nas faixas etárias mais jovens. Nas mulheres da população brasileira, a razão sempre foi maior que 1, reduzindo gradativamente com o aumento da faixa etária e entre 1980 e 2005. Nos homens, a razão foi próxima a 1 para todas as faixas etárias e anos analisados (Tabela 3). Nas mulheres da região metropolitana de São Paulo, a razão DCbV/DIC foi maior que 1 nas faixas etárias mais jovens, porém menor que 1 a partir de 1990 e na faixa etária acima de 50 a 59 anos (Tabela 3).

 

 

 

 

 

 

Discussão

Este estudo mostrou uma redução significativa da mortalidade por DC no Brasil e na região metropolitana de São Paulo. A DCbV foi a principal causa de morte nas mulheres na população brasileira, enquanto a mortalidade por DIC predominou nos homens em geral e nas mulheres da região metropolitana de São Paulo. A distribuição da mortalidade por DCbV e DIC no Brasil foi semelhante à observada na maioria dos países em desenvolvimento, com grande participação da mortalidade por DCbV, enquanto na região metropolitana de São Paulo predominou a DIC, semelhante ao observado na maioria dos países desenvolvidos6,7. Nos EUA, em 2004, as DIC foram responsáveis por 52% das mortes por DC e as DCbV por 17%. Porém, nos países em desenvolvimento, observa-se importante participação das DCbV8. Este resultado reflete o inadequado controle dos fatores de risco para DC, em especial da hipertensão arterial sistêmica (HAS). Sabe-se que a HAS é o fator de risco mais prevalente na população brasileira e nas camadas menos favorecidas da população9. As condições socioeconômicas e as dificuldades em ter acesso à saúde expõem estes indivíduos a um maior risco de morte por DCbV10. André e cols.11 observaram uma redução da mortalidade por DCbV, de 1980 a 2002 - maior que 50% na maioria das regiões do Brasil, com exceção da região Nordeste, onde houve uma queda de 41%. Esta redução foi comparável às observadas em países como EUA e Canadá, e pode ser resultado de melhorias das políticas de saúde pública11. Apesar da queda na mortalidade, o conhecimento dos sinais, sintomas e tratamento das DCbV é limitado em nossa população, melhorando nos indivíduos com maior escolaridade12. Esta mudança reflete a transição epidemiológica da mortalidade por doenças cardiovasculares (DAC) observada no Brasil no final dos anos de 1990. Este estudo mostrou que no Brasil, entre os homens, predominava a mortalidade por DCbV mas, a partir de 1996, houve um predomínio da mortalidade por DIC. Em contrapartida, entre as mulheres, a DCbV sempre foi a principal causa de morte. Devido à heterogeneidade do risco de morte por DC nas regiões do Brasil2, a região metropolitana de São Paulo foi selecionada como representante da região mais desenvolvida do país, do ponto de vista socioeconômico. Nesta cidade, a mortalidade por DIC foi sempre maior que por DCbV, padrão semelhante ao observado nos países mais desenvolvidos. Este resultado pode estar relacionado ao maior, mas ainda limitado acesso da população da cidade ao tratamento para controle da HAS, principal fator de risco para as DCbV. Os dados de mortalidade do sistema de informação do Ministério da Saúde apresentam problemas, tais como erros de diagnóstico, preenchimento inadequado de declarações de óbito, existência de uma proporção de mortes que não têm causa esclarecida e erros na digitação. Estudos de validação das informações de mortalidade não existem para a maioria dos estados e cidades do país. Porém, um indicador indireto da qualidade do dado é a proporção de atestados de óbito com o diagnóstico da causa da morte (como sintomas, sinais e afecções) mal definido, ainda significativo na maioria das cidades brasileiras das regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, mas não significativo nas regiões Sul e Sudeste. Este diagnóstico também não é significativo na região metropolitana de São Paulo.

 

Conclusão

Este estudo teve como objetivo mostrar uma transição epidemiológica da mortalidade por DC no Brasil na última década, com o atual predomínio das DIC. As causas destas mudanças são desconhecidas.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Antônio de Padua Mansur
Av. Dr. Enéas C. Aguiar, 44 - Cerqueira César
São Paulo, SP - Brasil
E-mail: pmansur@cardiol.br, corantonio@incor.usp.br

Artigo enviado em 07/08/08; revisado recebido em 03/11/08; aceito em 22/12/08.