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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.6 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2009001200018 

ARTIGO ORIGINAL
HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA

 

Prevalência, controle e tratamento da hipertensão arterial sistêmica em Nobres - MT

 

 

Tânia Maria do RosárioI; Luiz César Nazário ScalaI, II; Giovanny Vinícius Araújo de FrançaI, IV; Márcia Regina Gomes PereiraI; Paulo César Brandão Veiga JardimIII

IInstituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, MT- Brasil
IIFaculdade de Ciências Médicas, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, MT- Brasil
IIIFaculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO- Brasil
IVUniversidade Federal de Pelotas, RS- Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A hipertensão arterial sistêmica (HAS), considerada um problema de saúde pública devido a sua elevada prevalência e dificuldade de controle, é descrita também como um dos mais importantes fatores de risco para doenças cardiovasculares.
OBJETIVO: Estimar a prevalência da HAS, assim como as características de seu controle e tratamento, na população de 18 a 90 anos da região urbana de Nobres - MT.
MÉTODOS: Estudo transversal, de base populacional, com amostragem aleatória e com reposição. O critério para classificação da HAS foi pressão arterial (PA) > 140/90 mmHg ou uso atual de anti-hipertensivos. As entrevistas foram realizadas utilizando-se questionários padronizados e testados previamente. As variáveis foram descritas por médias ± desvios-padrão e frequências. As médias foram comparadas utilizando-se o teste t-Student e as associações por meio do teste do qui-quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%.
RESULTADOS: Nos 1.003 indivíduos maiores de 18 anos analisados, foi observada prevalência de HAS de 30,1%. Entre os hipertensos (N = 302), 73,5% sabiam dessa condição, 61,9% faziam tratamento e 24,2% tinham a PA controlada. Observou-se a associação positiva entre HAS e idade; analfabetismo; escolaridade inferior a oito anos; IMC > 25kg/m²; circunferência da cintura aumentada e muito aumentada; razão cintura-quadril (RCQ) em faixa de risco; sedentarismo e etilismo.
CONCLUSÃO: A HAS revelou-se um importante problema de saúde pública também em um município de pequeno porte do interior do país. Os níveis de controle e tratamento da hipertensão nessa população foram considerados insatisfatórios, apesar de melhores em comparação aos observados em outros estudos. (Arq Bras Cardiol 2009; 93(6):672-678)

Palavras-chave: hipertensão/terapia/epidemiologia, controle, prevalência.


 

 

Introdução

A hipertensão arterial (HA), doença mais frequente na população brasileira1,2, não tem sua prevalência no país conhecida3. A influência da HA sobre o desenvolvimento das doenças cardiovasculares (DCV) exige o reconhecimento de sua real distribuição nos distintos estados brasileiros4, estimando-se que aproximadamente 30 milhões de brasileiros são atingidos pela doença5. A pressão arterial (PA) é uma variável linear e contínua que se associa positivamente com o risco cardiovascular6, sendo que a relação entre morte por doença cérebro-vascular e PA é também contínua, crescente e significativa em níveis superiores a 115/75 mmHg para todas as faixas etárias7.

Segundo as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, são hipertensos os adultos cuja pressão arterial sistólica (PAS) atinge valores iguais ou superiores a 140 mmHg, e/ou cuja pressão arterial diastólica (PAD) seja igual ou maior que 90 mmHg, em duas ou mais ocasiões, na ausência de medicação anti-hipertensiva. Foram classificados como PA normal registros inferiores a 130/85 mmHg, e PA ótima valores inferiores a 120/80 mmHg8.

A hipertensão arterial é considerada uma síndrome por estar frequentemente associada a um agregado de distúrbios metabólicos, tais como obesidade, aumento da resistência à insulina, diabete melito e dislipidemias, entre outros. A presença desses fatores de risco e lesões em órgãos-alvo, quando presentes, é importante e deve ser considerada na estratificação do risco individual, com vistas ao prognóstico e decisão terapêutica8.

Diversos estudos populacionais evidenciaram a importância do controle da hipertensão arterial para a redução da morbidade e mortalidade cardiovascular4,9. O desenvolvimento de modernas tecnologias em relação aos medicamentos pouco tem contribuído para melhorar as taxas de controle da doença10. Estima-se que apenas um terço da população hipertensa tenha sua pressão controlada4. No Brasil, são escassos os dados relativos a real prevalência da HA3,11, sendo também escassas as informações referentes ao grau de tratamento e controle.

Vários estudos de base populacional foram realizados em diversos estados brasileiros nos últimos anos, observando-se prevalências entre 10,0% e 42,0%, de acordo com a região, subgrupo populacional e critério diagnóstico utilizado11. Considerando-se também a escassez de estudos de prevalência, conhecimento e controle da hipertensão na Região Centro-Oeste, em especial no Mato Grosso, a obtenção dessas informações serão úteis para a planificação de ações preventivas, terapêuticas e assistenciais nessa região do país. Existem evidências que tais ações, direcionadas à HA, reduzem a morbidade e mortalidade associadas às DCV12-14. O presente estudo analisou e interpretou alguns aspectos epidemiológicos da hipertensão arterial em Nobres, com o objetivo de determinar a prevalência, as principais características associadas e os níveis de conhecimento, tratamento e controle, na população urbana de 18 a 90 anos.

 

Método

Estudo observacional, analítico, de delineamento transversal, de base populacional, com amostragem aleatória, com reposição e em múltiplos estágios. Este estudo compõe o "Projeto Centro-Oeste de Hipertensão Arterial", desenvolvido pela Universidade Federal de Mato Grosso (Instituto de Saúde Coletiva e Faculdade de Ciências Médicas), em cooperação com a Universidade Federal de Goiás (Faculdade de Medicina e Liga de Hipertensão Arterial). O objetivo deste estudo cooperativo foi analisar a hipertensão arterial e fatores associados, nas cidades de Cuiabá e Nobres (Mato Grosso); Goiânia e Firminópolis (Goiás). Através de questionário padronizado, aplicado em domicílio, foram colhidas informações sociodemográficas e de hábitos de vida de adultos e idosos (18 a 90 anos), residentes na região urbana do município de Nobres - MT, no período de janeiro a março de 2006. O tamanho amostral foi estimado em 1.003 indivíduos, selecionados através de amostragem aleatória de 12.269 habitantes15, de 3.619 domicílios, respeitando-se a densidade populacional das diversas áreas urbanas. A prevalência de hipertensão na população adulta foi estimada em 20%16, com nível de confiança fixado em 95% e erro de delineamento de 2,5%. Este estudo contou com a colaboração das equipes do Programa de Saúde da Família (PSF) e de agentes comunitários locais de saúde, cuja cobertura atinge 100% da área urbana de Nobres.

O sorteio da amostra foi realizado em quatro estágios. As unidades amostrais do primeiro estágio foram os setores censitários da zona urbana de Nobres - MT. O segundo estágio compreendeu amostragem por quadras, o terceiro por domicílios, e o quarto o sorteio de um morador. Preliminarmente, os indivíduos eram informados sobre os objetivos e procedimentos da pesquisa e, a seguir, eram convidados a participar voluntariamente do estudo. Os que estavam de acordo assinavam um "Termo de Consentimento Livre e Esclarecido". Caso o indivíduo sorteado não estivesse no domicílio no momento do sorteio, eram agendadas novas visitas. Após três tentativas sem sucesso, ou em caso de recusa, procedia-se ao sorteio de outro indivíduo em domicílio contíguo, identificado no sentido horário. Foram excluídos da amostra imóveis não residenciais (escolas, hospitais, quartel), grávidas, empregadas domésticas e os que se recusaram a participar do estudo.

A equipe de pesquisa foi constituída pelo coordenador da pesquisa em Mato Grosso, pela coordenadora e supervisora do município de Nobres e pelos pesquisadores de campo. Estes foram distribuídos em seis duplas e treinados com o objetivo de aplicarem os inquéritos padronizados, pré-testados, e realizarem medidas antropométricas e de pressão arterial. Os entrevistadores eram facilmente identificados através de crachás, camisetas e bolsas com a logomarca da pesquisa.

Todos os entrevistados receberam materiais informativos sobre pressão arterial, hipertensão e fatores de risco cardiovascular. Caso fosse observada a presença de hipertensão, eram encaminhados a unidades de saúde mais próximas de seu domicílio. O controle de qualidade das medidas obtidas (PA, antropométricas) foi realizado através de sorteios aleatórios, estimativas de médias e medidas de dispersão entre os observadores, sob supervisão da coordenadora do estudo.

No domicílio, os participantes responderam ao questionário pré-testado sobre dados sociodemográficos e de hábitos de vida. Foram realizadas medidas de PA (esfigmomanômetro OMROM-HEM 705CP), peso (balança eletrônica PLENNA LITHIUM GIANT), altura (estadiômetro SECCA) e medida da cintura (fita inextensível CARDIOMED). O questionário continha questões sobre o tratamento atual da hipertensão, comprovado pela apresentação de medicação anti-hipertensiva, registrando-se, nesse caso, se a PA estava ou não controlada.

O esfigmomanômetro OMROM HEM 705 CP é um equipamento automático, eletrônico e oscilométrico, validado por instituições internacionais e recomendado para ser utilizado em estudos epidemiológicos17,18. Foram considerados os seguintes procedimentos para a medida da PA: posição sentado; pés no chão; braço esquerdo relaxado, apoiado sobre mesa e à altura do coração; palma voltada para cima; bexiga vazia; ausência de prática de exercícios físicos moderados ou intensos; e ter fumado ou ingerido bebida alcoólica nos 30 minutos antecedentes às medidas. A braçadeira utilizada foi compatível com a circunferência do braço. Para fins de análise, foi considerada a última medida da PA, desde que não houvesse uma diferença maior que 5 mmHg entre as mesmas. Em caso contrário, eram realizadas mais duas medidas complementares, com intervalo mínimo de três minutos, considerando-se sempre a última.

As medidas da circunferência da cintura foram efetuadas com fita metálica inextensível sobre a pele, ajustada ao corpo, tomando-se como parâmetro a parte mais estreita do tronco, entre o tórax e quadril.

Considerou-se variável desfecho a presença ou ausência de hipertensão arterial, definida segundo as V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial8, incluindo hipertensos em tratamento atual comprovado. Foram analisadas as seguintes variáveis independentes:

1) Variáveis independentes sociodemográficas: a) idade - expressa em anos completos e categorizada em faixas etárias de 18 a 90 anos; b) gênero - masculino e feminino; c) situação conjugal - se os entrevistados viviam com ou sem companheiro(a) na época do estudo; d) escolaridade - anos de estudo; e) renda familiar mensal per capita - segundo valores de salários mínimos; f) número de moradores no domicílio;

2) Variáveis independentes de hábitos de vida: a) alimentares - uso de sal, consumo de gordura; b) tabágico - fumante atual, qualquer número de cigarros/dia; ex-fumante ou nunca fumou; c) consumo excessivo de bebida alcoólica - presente ou ausente; d) prática de atividade física - diária ou sistemática no trabalho e/ou nos momentos de lazer; sedentário, atividade física leve, moderada ou intensa; e) presença de hipertensão arterial - se sabia ser hipertenso, fazia tratamento e se a PA estava sob controle.

3) Variáveis independentes antropométricas: a) peso normal - definido pelo índice de massa corpórea (IMC) (peso/altura2) > 18,5kg/m2 e < 25kg/m2; b) sobrepeso - IMC > 25kg/m2 e <30kg/m2; c) obesidade - IMC > 30kg/m2 de superfície corporal; d) obesidade central - definida pelos pontos de corte da circunferência da cintura (CC) > 88cm para homens e >84cm para mulheres.

As informações deste estudo foram duplamente digitadas, construindo-se dois bancos de dados, comparados entre si para correções de eventuais inconsistências. Para o grupo total, estratificado por gênero, e para as variáveis independentes, foram calculadas as taxas de prevalência de hipertensão, intervalos de confiança (IC) 95% e medidas de associação. As variáveis contínuas foram analisadas sob a forma de médias e desvios-padrão, e as categóricas quanto às frequências absoluta e relativa.

Foram analisadas associações entre as variáveis independentes e a variável desfecho (presença ou ausência de hipertensão), através do teste do qui-quadrado de Pearson para as proporções e teste T para as médias. A análise foi realizada pelos programas EPI INFO-2000, versão 3.3.2, e SPSS, versão 9.0.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Júlio Müller da Universidade Federal de Mato Grosso. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento pós-informado.

 

Resultados

Foram analisados 1.003 participantes com média de idade de 42,6 ± 15,4 anos, sendo 51,3% (N = 515) homens. Predominaram as faixas etárias de 18 a 29 anos (26,0%; N = 261) e 30 a 39 anos (24,1%; N = 242). As proporções de participantes de idade inferior a 40 anos e superior a 60 anos foram, respectivamente, 50,1% (N = 503) e 18,0% (N = 180). Em relação à escolaridade, 46,6% (N = 497) estudaram até o primeiro grau, com 10,9% (N = 109) de analfabetos. Observou-se que 62,2% (N = 624) dos entrevistados viviam com companheiro(a), e 52,3% (N = 525) em domicílios com quatro a sete pessoas. Quase que a totalidade da população amostral (98,3%; N = 986) apresentou renda familiar per capita inferior a cinco salários mínimos vigentes. Essas características da população amostral estão expressas na tabela 1.

 

 

Quanto à classificação da pressão arterial da população amostral discriminada por sexo, e uso ou não de medicação anti-hipertensiva, observou-se que entre os indivíduos sob medicação anti-hipertensiva (N = 73), 30,3% dos homens (N = 20) e 47,7% das mulheres (N = 53) estavam normotensos, isto é, tinham a PA controlada. Quanto aos indivíduos que não utilizavam medicação anti-hipertensiva (N = 701), observou-se 81,3% de homens (N = 365) e 89,1% das mulheres com PA normal. Considerando-se os indivíduos sob medicação e com a PA não controlada, observou-se predomínio dos homens (69,7%; N = 46) em relação às mulheres (52,3%; N = 58). Quanto aos hipertensos sem uso de medicação, também se observou predomínio dos homens (18,7%; N = 84) em relação às mulheres (10,9%; N = 41). Esses dados estão expressos na tabela 2.

Observou-se que, na população amostral, 7,3% (N = 73) dos hipertensos sob medicação estavam com a PA controlada (PA < 140/90 mmHg) e que 22,8% (N = 229) dos indivíduos sem medicação apresentaram hipertensão. A soma dos hipertensos sob medicação (7,3%) e dos hipertensos sem medicação (22,8%) totalizou 30,1%, cifra que representa a prevalência geral de hipertensão arterial na região urbana de Nobres (n = 302; IC95% - 27,3 - 33,1). Verificou-se predomínio, não significativo, de hipertensão arterial nas mulheres - 31,1% vs. 29,1% (tabela 3).

 

 

Quanto às características demográficas e de hábitos de vida da população hipertensa, foram observadas associações significantes entre hipertensão arterial e idade superior a 60 anos, analfabetismo, escolaridade inferior a oito anos, sedentarismo e hábito alcoólico. A comparação entre normotensos e hipertensos revelou diferenças significativas em relação à idade média em anos (37,1 ± 14,0 vs. 54,2 ± 15,9; p < 0,001), IMC e circunferência da cintura. Renda familiar inferior a dois salários mínimos e hábito tabágico não se mostraram associados à hipertensão arterial tabela 4.

 

 

Em relação aos hipertensos (N = 302), observou-se que 73,5% (N = 222) sabiam ser hipertensos. Destes, 11,6% (N = 35) não estavam sob tratamento e 61,9% (N = 187) utilizavam anti-hipertensivos. Dos que estavam sob tratamento (N = 187), 73 apresentaram PA sob controle, representando, em relação ao total de hipertensos da população amostral (N = 302), taxa de controle de 24,2% (figura 1).

 

 

Discussão

Este estudo compõe um projeto cooperativo entre as Universidades Federais de Mato Grosso (UFMT - Instituto de Saúde Coletiva e Faculdade de Ciências Médicas) e de Goiás (UFG - Faculdade de Medicina e Liga de Hipertensão Arterial), para estimar a prevalência e identificar características epidemiológicas da hipertensão arterial na região Centro-Oeste. Foram previamente avaliadas as cidades de Goiânia19 e Firminópolis (Goiás), e Cuiabá20 (Mato Grosso). O presente estudo analisou, exclusivamente, a cidade de Nobres - MT. Observou-se, em Nobres, um porcentual baixo de perdas de domicílios (0,5%), explicado pela existência de PSF com 100% de cobertura da região urbana.

Uma das limitações do delineamento deste estudo é não permitir a definição de associações causais entre hipertensão e as características epidemiológicas estudadas, uma vez que, tratando-se de um corte no tempo, os possíveis determinantes e desfechos são vistos em um mesmo momento, impossibilitando a utilização da temporalidade como critério causal. Entretanto, o delineamento deste estudo permitiu obter informações e avaliações das variáveis de interesse, indicando fatores demográficos, sociais e antropométricos que influenciam a ocorrência da hipertensão arterial.

A partir de uma lista já pronta de domicílios e moradores, e dos setores censitários fornecidos pelo IBGE, abreviou-se o processo dispendioso e demorado de visitas aos setores censitários, para arrolamento de domicílios e identificação dos moradores, comum em estudos de base populacional.

Observou-se elevada prevalência de hipertensão arterial (30,1%), sem diferença significativa em relação ao gênero, segundo os critérios de hipertensão > 140/90 mmHg e/ou uso de terapêutica anti-hipertensiva8. Em alguns estudos de base populacional, realizados também em regiões urbanas sob o mesmo ponto de corte, foram encontradas prevalências semelhantes aos deste estudo: no Rio Grande do Sul - 29,9%21 e 31,6%22; em Catanduva - SP - 31,5%23; em Aracajú - SE - 31,8%24; em Campos - RJ - 32,0%25; em Salvador - BA - 29,9%26; e em Formiga - MG -32,7%27. O grupo de pesquisadores do presente estudo registrou prevalências mais elevadas de hipertensão arterial em Goiânia - GO (36,4%)19 e em Cuiabá - MT (33,4%)20.

Em Nobres, não foram observadas diferenças significativas de hipertensão quanto ao gênero, em concordância com os resultados de Cuiabá-MT28, Cianorte - PR29 e Caucaia - CE30. Segundo os critérios de classificação da PA das V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão8, observou-se que entre os normotensos (N = 774), 54,9% apresentaram PA ótima, 27,4% PA normal e 17,0% PA limítrofe. Entre os hipertensos (N = 229), 28,0% apresentaram hipertensão estágio I, 17,0% estágio II, 12,2% estágio III e 42,8% hipertensão sistólica isolada.

Em relação à hipertensão estágio III, observou-se prevalência de 5,8% em Vitória - ES31, e 3,8% em Cuiabá - MT20, valores inferiores aos obtidos em Nobres - MT (12,2%). A prevalência de HSI em Nobres (42,8%) foi muito superior às observadas em Cuiabá - MT (9,8%)20, e Catanduva-SP (5,6%)23.

Quanto às variáveis sociodemográficas e de hábitos de vida, observou-se que os hipertensos apresentaram médias e proporções das variáveis, de modo geral, maiores que os normotensos, em concordância com outros estudos em Cuiabá28 e em Goiânia19.

Em relação ao conhecimento, tratamento e controle da hipertensão, considerando-se a prevalência de hipertensão em Nobres (30,1%; n = 1.003), observou-se que 73,5% dos indivíduos sabiam ser hipertensos, dos quais 61,9% faziam tratamento medicamentoso. Destes, 24,2% apresentavam PA controlada no momento da medida.

Verificou-se que os percentuais de conhecimento e tratamento da PA da pesquisa norte-americana Third National Health and Nutrition Examination Survey32, respectivamente 70,0% e 59,0%, foram próximos aos obtidos no presente estudo (73,5% e 61,9%). O trabalho americano mostrou 34,0% de controle pressórico, contra 24,2% no presente estudo. Em Portugal, um estudo com 5.023 adultos revelou prevalência de hipertensão de 42,1%, com controle pressórico de apenas 11,2%33.

Quanto ao conhecimento, tratamento e controle da PA, observaram-se em Goiânia19 percentuais de 64,3%, 42,4% e 12,9%, respectivamente. Em Cuiabá-MT20, registraram-se cifras de 68,3%, 68,5% e 16,6%, respectivamente. Comparativamente, na região Centro-Oeste, o controle da PA observado em Nobres (24,2%) foi superior ao de Cuiabá (16,6%) e ao de Goiânia (12,9%).

Observaram-se níveis mais elevados de conhecimento de hipertensão em Nobres, quando comparados aos de Goiânia - GO19, Cuiabá - MT20 e à maioria dos estados brasileiros. Esse fato pode ser justificado pela presença do Programa de Saúde da Família, em colaboração com o Programa de Agentes Comunitários Locais de Saúde da Secretaria de Saúde de Nobres. Nesse sentido, novos estudos devem ser dirigidos para serem identificadas as causas da falta de êxito do tratamento anti-hipertensivo. Com esse objetivo, deverão ser consideradas: a falta de adesão ao tratamento; a dificuldade de acesso à medicação e aos serviços médicos; a efetividade dos esquemas terapêuticos utilizados; a conduta dos profissionais de saúde frente aos hipertensos; a influência dos efeitos colaterais dos medicamentos; da classe social, escolaridade e dos aspectos culturais na abordagem e controle da doença.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Tânia Maria do Rosário pelo Instituto de Saúde Coletiva - UFMT.

 

Referências

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Correspondência:
Tânia Maria do Rosário
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Artigo recebido em 15/03/08; revisado recebido em 13/11/08; aceito em 07/04/09.

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