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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.93 no.6 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2009001200028 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Cardiopatia chagásica crônica na Amazônia: uma etiologia a ser lembrada

 

 

João Marcos Bemfica Barbosa FerreiraI; Jorge Augusto de Oliveira GuerraII, III; Belisa Maria Lopes MagalhãesIII; Leíla I. A. R. C. CoelhoII; Marcel Gonçalves MacielIII; Maria das Graças Vale BarbosaII, III

IHospital Universitário Francisca Mendes (UFAM), Manaus, AM - Brasil
IIFundação de Medicina Tropical do Amazonas, Manaus, AM - Brasil
IIIUniversidade do Estado do Amazonas, Manaus, AM - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo avaliou a frequência de cardiopatia chagásica crônica (CCC) em 37 pacientes autóctones da Amazônia com disfunção sistólica ventricular esquerda sem etiologia definida. Foram diagnosticados três casos com frequência de 8,1% no grupo estudado.

Palavras chave: Frequência; cardiomiopatia chagásica; Amazônia


 

 

Introdução

A Amazônia foi por muitos anos considerada área de baixo risco para a doença de Chagas (DC). Recentemente, tem sido mais frequente o diagnóstico tanto de casos agudos como crônicos na região1. Existem, porém, relatos de apenas cinco casos crônicos com miocardiopatia dilatada de etiologia chagásica em autóctones da Amazônia2,3.

Não existem estudos que avaliem a frequência de DC em pacientes com miocardiopatia dilatada na Amazônia. Em outras áreas, a DC responde por uma parcela significativa dos casos. No entanto, essa etiologia raramente é lembrada em pacientes autóctones da Amazônia, não se realizando a sorologia para Trypanosoma cruzi, o que pode subestimar o diagnóstico da doença.

O objetivo deste estudo foi avaliar a frequência da cardiopatia chagásica crônica (CCC) em pacientes autóctones da Amazônia com miocardiopatia dilatada e disfunção sistólica ventricular esquerda sem etiologia definida.

 

Métodos

Estudo prospectivo e transversal com avaliação de 37 pacientes que realizaram ecocardiograma transtorácico entre julho e dezembro de 2007, no Hospital Universitário Francisca Mendes da Universidade Federal do Amazonas.

Foi escolhido o Hospital Universitário Francisca Mendes por se tratar do único Centro de Referência de Alta Complexidade em Cardiologia credenciado pelo SUS no estado do Amazonas. Este serviço atende pacientes de todo o estado do Amazonas e de outros estados da Amazônia Ocidental.

Foram incluídos pacientes de ambos os sexos, com idade superior a 12 anos e fração de ejeção < 45% no ecocardiograma transtorácico, sendo todos autóctones da Amazônia.

Foram considerados como autóctones aqueles naturais da Amazônia Brasileira, sem qualquer viagem prévia para outras regiões.

Foram excluídos aqueles com evidências de coronariopatia, hipertensão arterial, valvopatias ou cardiopatias congênitas.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pequisa da Universidade Federal do Amazonas e da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas. Os pacientes assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.

Foi realizada sorologia para DC com pesquisa de IgG pelos métodos de Imunofluorescência Indireta e ELISA na Fundação de Medicina Tropical do Amazonas.

A Imunofluorescência Indireta foi realizada com kit de Biomanguinhos (Fundação Oswaldo Cruz)4 e o método ELISA, com antígeno recombinante (Pathozyme Chagas®)5.

Os pacientes com um ou dois métodos reagentes realizaram Western-Blot (TESA-BLOT)6.

Foram considerados com cardiopatia chagásica crônica aqueles com dois métodos reagentes.

 

Resultados

No período do estudo, foram realizados 2.039 exames de ecocardiograma transtorácico, com 196 pacientes apresentando fração de ejeção de VE < 45%.

Após avaliação dos critérios de inclusão e exclusão, 37 pacientes foram incluídos no estudo (média de idade de 62,9 anos, 81% do sexo masculino). A média da fração de ejeção do VE foi de 29,4%.

A naturalidade dos pacientes foi de 43,2% do interior do Amazonas; 35,1% do município de Manaus (AM); 13,5 % do Pará; 5,4% do Maranhão e 2,7% do Acre.

A imunofluorescência indireta foi reagente em oito casos (21,6%), o ELISA em dois (5,4%) e o Western-Blot em três (8,1%).

Três pacientes tiveram o diagnóstico de CCC. A frequência de CCC na população estudada foi de 8,1%.

Os dados dos pacientes positivos estão descritos na Tabela 1.

 

Discussão

A Amazônia é considerada hipoendêmica para DC. Recentemente têm ocorrido casos agudos em surtos ou isolados, sendo relatados aproximadamente 440 casos na região. Com relação aos casos crônicos, a taxa de soropositividade é de 1% a 3%, com risco maior em certas subregiões1.

Uma destas subregiões é o município de Barcelos, na microrregião do Rio Negro (AM). Neste local foi descrita transmissão relacionada à extração de fibras de piaçaba. Três inquéritos feitos entre 1991 e 1997, envolvendo 2.254 indivíduos de Barcelos, mostraram prevalência de 2,8% a 5% de sorologias positivas confirmadas com ELISA recombinante e Western Blot7,8.

Com relação ao agente etiológico, tem sido descrito na Amazônia o T. cruzi dos grupos zimodema 1, zimodema 3 ou híbrido Z1/Z3. Estas cepas são diferentes das encontradas nas zonas endêmicas do Brasil onde predomina o zimodema 21. Não se conhece totalmente a patogenicidade das cepas da Amazônia; porém, acredita-se que causem baixa morbidade, provavelmente menor que a encontrada nas áreas endêmicas1,2.

Apesar disso, foram descritos dois casos fatais de miocardiopatia dilatada e três casos com alterações ecocardiográficas típicas de DC em pacientes com infecção chagásica crônica em Barcelos (AM)2,3.

Ainda não conhecemos totalmente a importância da DC como causa de miocardiopatia dilatada na Amazônia. Em áreas endêmicas, a frequência é variável, porém significante. O presente estudo com frequência de 8,1% em pacientes sem etiologia definida demonstra que a cardiopatia chagásica é uma causa importante de insuficiência cardíaca na região amazônica.

A história epidemiológica de dois pacientes é compatível com DC. O primeiro paciente trabalhou três anos com extração de piaçaba no município de Barcelos (AM). O segundo paciente mora atualmente no assentamento Tarumã-Mirim em Manaus (AM) e trabalhou doze anos em seringal no Rio Purus (AM) (Figura) 1. Nestes três locais foi relatada a presença de vetores infectados, de reservatórios silvestres e de casos de infecção humana7-10. O terceiro paciente é procedente de Iranduba (AM) onde não existem estudos relacionados a DC. É importante destacar que esses três pacientes procediam de municípios do interior do Amazonas.

 

Conclusão

O presente estudo sugere que a DC é uma etiologia significativa de miocardiopatia dilatada na região amazônica, sendo importante sua pesquisa nos pacientes autóctones. Porém são necessários estudos com maior casuística para se conhecer melhor a importância da DC como etiologia das cardiopatias na Amazônia.

 

Agradecimentos

A Dra. Eufrozina Setsu Umezawa e Norival Kesper Júnior do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo, pela realização do Western-Blot. Ao Dr. Fábio Fernandes, do Instituto do Coração da Universidade de São Paulo, pela leitura do artigo e sugestões realizadas.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

1. Aguilar HM, Abad-Franch F, Dias JCP, Junqueira ACV, Coura JR. Chagas disease in the Amazon Region; Mem Inst Oswaldo Cruz. 2001; 102 (Suppl  I): 47-55.         [ Links ]

2. Albajar PV, Laredo SV, Terrazas MB, Coura JR. Miocardiopatia dilatada em pacientes com infecção chagásica crônica: relato de dois casos fatais autóctones do rio Negro, Estado do Amazonas. Rev Soc Bras Med Trop. 2003; 36 (3): 401-7.         [ Links ]

3. Xavier SS, Sousa AS, Albajar PV, Junqueira ACV, Bóia MN, Coura JR. Cardiopatia chagásica crônica no Rio Negro, Estado do Amazonas: relato de três novos casos autóctones, comprovados por exames sorológicos, clínicos, radiográficos do tórax, eletro e ecocardiográficos. Rev Soc Bras Med Trop. 2006; 39 (2): 211-6.         [ Links ]

4. Camargo ME, Rebonato C. Cross reactivity in immunofluorescence for Trypanosomai and Leishmania antibodies. Am J Trop Med Hyg. 1969; 18: 500-5.         [ Links ]

5. Pastini AC, Iglesias SR, Carriate VC, Guerin ME, Sanchez DO, Frasch AC. Immuno assay with recombinant Trypanosoma cruzi antigens potentially useful for screening donated blood and diagnosing Chagas Disease. Clin Chem. 1994; 40: 1893-7.         [ Links ]

6. Umezawa ES, Nascimento MS, Kesper Jr N, Coura JR, Borges Pereira J, Junqueira ACV, et al. Imunoblot assay using excreted-secreted antigens of Trypanosoma cruzi in serological diagnosis of congenital, acute and chronic Chagas Disease. J Clin Microbiol. 1996; 34: 2143-7.         [ Links ]

7. Coura JR, Junqueira ACV, Boia MN, Fernandes O. Chagas disease: from bush to huts and houses. Is the case of the brazilian amazon? Mem Inst Oswaldo Cruz. 1999; 94 (Suppl I): 379-84.         [ Links ]

8. Coura JR, Junqueira ACV, Fernandes O, Valente SAS, Miles MA. Emerging Chagas disease in Amazonian Brazil. Trends Parasitol. 2002; 18 (4): 171-6.         [ Links ]

9. Magalhães BML, Coelho LIARC, Guerra JAO, Fé NF, Magalhães LKC, Maciel MG, et al. Doença de Chagas no Amazonas: prevalência sorológica em área rural do município de Manaus. Rev Soc Bras Med Trop. 2009; 42 (supl 1): 330.         [ Links ]

10. Dantas-Maia TO, Castro C, Ostermayer AL, Macedo V. Soroprevalência de tripanosomíase americana em adultos de uma área da Amazônia Ocidental Brasileira. Rev Soc Bras Med Trop. 2007; 40 (4): 436-42.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
João Marcos B. Barbosa Ferreira
Rua Ramos Ferreira número 199, Apartamento 1501 - Aparecida
69010-120 - Manaus, AM - Brasil
E-mail: jmbemfica@hotmail.com

Artigo recebido em 05/01/09; revisado recebido em 18/05/09; aceito em 03/07/09