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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.2 São Paulo Feb. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010000200008 

ARTIGO ORIGINAL
CORONARIOPATIA CRÔNICA

 

Ponte miocárdica: evolução clínica e terapêutica

 

 

Aline Braz Pereira; Danilo Spricigo Peressoni Castro; Emanuela Todeschini Menegotto; Wladimir Maia do Amaral; Gustavo Spricigo Peressoni Castro

Universidade do Extremo Sul Catarinense, Hospital São José de Criciúma SC, Florianópolis, SC - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A ponte miocárdica constitui um dos principais diagnósticos diferenciais de doença arterial coronariana. Entretanto, ainda é subdiagnosticada e tem seus mecanismos fisiopatológicos e sua terapêutica não completamente elucidados.
OBJETIVO: Analisar e descrever a evolução clínica e terapêutica de pacientes com diagnóstico angiográfico de ponte miocárdica, comparando os dados com a literatura atual, a fim de elucidar o perfil clínico e o prognóstico destes pacientes.
MÉTODOS: Foram revisados os resultados de cineangiocoronariografias realizadas no período de 2003 a 2007, em um laboratório de hemodinâmica, efetuando-se análise de prontuários e entrevista de um grupo de pacientes selecionados.
RESULTADOS: A frequência de diagnósticos de pontes miocárdicas foi de 3,6%. A idade média dos pacientes foi de 56,8 anos (DP = 11,83; IC = 0,73). A artéria descendente anterior foi acometida isoladamente em 100% dos casos. Após a seleção, realizou-se análise e entrevista de 31 pacientes. Não houve correlação entre os sintomas e o grau de estreitamento angiográfico obtido nos pacientes estudados. O tratamento medicamentoso incluiu o uso de agentes? bloqueadores, antagonistas do canal de cálcio, antiagregantes plaquetários e/ou nitratos, tendo, como resultado, melhora clínica em 30%, ausência de alterações no quadro clínico em 60% e piora dos sintomas em 10% dos pacientes. Um paciente apresentou morte súbita, dois pacientes realizaram angioplastia com melhora clínica significativa e nenhum paciente realizou procedimento cirúrgico.
CONCLUSÃO: A maioria dos pacientes com ponte miocárdica tem um bom prognóstico, mas em longo prazo não há dados suficientes, realizados em um grande grupo de pacientes sintomáticos, para conclusões definitivas.

Palavras-chave: Doença da artéria coronariana/terapia, angioplastia transluminal percutânea coronariana, ponte miocárdica, estudos de coortes.


 

 

Introdução

A ponte miocárdica (PM) é uma anomalia congênita das coronárias que acomete geralmente a artéria descendente anterior esquerda (DAE), em que um ou mais feixes de miocárdio cruzam ou envolvem um segmento de artéria coronária epicárdica, a qual atravessa a porção intramural do miocárdio, abaixo da ponte muscular. A PM constitui um dos principais diagnósticos diferenciais de doença arterial coronariana (DAC), podendo manifestar-se como angina de peito típica ou atípica e, mais raramente, infarto agudo do miocárdio (IAM) ou morte súbita.

Trata-se de uma patologia relativamente comum na população geral, geralmente benigna, acometendo principalmente pacientes com baixo risco para DAC; entretanto, quando sintomáticas, manifestam-se na forma de angina instável ou estável, arritmias cardíacas (taquicardia ventricular e taquicardia supraventricular), IAM e morte súbita, sendo os dois últimos de ocorrência rara1.

Ainda é subdiagnosticada em virtude de apenas uma minoria dos pacientes apresentarem-se sintomáticos, da falta de disponibilidade e, consequentemente, do uso restrito de métodos diagnósticos de maior acurácia, fazendo com que seus mecanismos fisiopatológicos e sua terapêutica ainda não tenham sido completamente elucidados. Este estudo visou analisar a evolução clínica e terapêutica de pacientes com diagnóstico angiográfico de ponte miocárdica, no período de 2003 a 2007, comparando os dados com os da literatura atual, a fim de elucidar o perfil clínico e a evolução destes pacientes.

 

Métodos

Trata-se de um estudo de coorte observacional e transversal, em que foram utilizadas ferramentas estatísticas para análise do nível de significância de 5%. Os custos referentes aos materiais utilizados foram de inteira responsabilidade do pesquisador. A pesquisa foi realizada mediante análise dos prontuários e aplicação de um questionário a um grupo de pacientes selecionados.

O estudo foi realizado em um laboratório de hemodinâmica, mediante aprovação pelo comitê de ética da instituição. O sigilo de identidade dos pacientes e a utilização dos dados somente para pesquisa científica foram garantidos. Após a pré-seleção dos prontuários, foram contatados os pacientes ou responsáveis, sendo explicado o estudo e adquirido o consentimento mediante a assinatura do termo de consentimento aprovado pela Comissão Científica de Pesquisa e Ética em Saúde da instituição.

Foram analisados pacientes com idade entre 20 e 75 anos, que realizaram cineangiocoronariografia no período de 2003 a 2007, sob suspeita e investigação de provável DAC, em que os resultados angiográficos demonstraram a presença de PM. Também foram analisados pacientes que não possuem patologias cardíacas associadas capazes de produzir sintomas anginosos: doença valvular cardíaca ou miocardiopatias previamente diagnosticadas ou à cineangiocoronariografia, e presença de DAC à cineangiocoronariografia. Foram excluídos pacientes com patologias neurológicas que impeçam a correta aplicação do questionário, além daqueles cujos dados disponíveis encontravam-se incompletos ou desatualizados, impossibilitando o estabelecimento de contato para entrevista.

Apesar dos pacientes terem sido incluídos no estudo com base em angiografias coronarianas feitas antes do estudo, todas foram realizadas de acordo com o protocolo do laboratório de hemodinâmica da instituição, seguindo a técnica de Judkins, em que o fenômeno de compressão sistólica da artéria coronária descendente anterior pode ser observado claramente. Este protocolo não incluiu a administração intracoronária de nitroglicerina.

 

Resultados

Foram analisados os resultados de 3.375 cineangiocoronariografias realizadas no período de 2003 a 2007, das quais 123 apresentaram o fenômeno de constrição sistólica da artéria DAE (Figura 1), com o diagnóstico de PM. A frequência de diagnósticos de ponte miocárdica em cineangiocoronariografias realizadas nesse período foi de 3,6%. A idade média dos pacientes foi de 56,8 anos (DP = 11,83; IC = 0,73). Todos os pacientes apresentaram o acometimento de somente uma artéria coronária, sendo que a artéria DAE foi acometida em 100% dos casos. Trinta e quatro pacientes (27,6%) apresentaram DAC acometendo em graus variados o segmento proximal da ponte. O acometimento da artéria DAE à cineangiocoronariografia foi graduado em grau 1 (< 49%), grau 2 (50-74%) e grau 3 (> 75%) (Tabela 1).

 

 

 

 

Após a seleção dos pacientes, 81 deles foram excluídos do estudo, sendo 68 por DAC (55,28%), 17 por miocardiopatia (13,82%) e 21 por valvulopatia (17,07%) associadas. Foram selecionados 42 pacientes para o estudo, dos quais um apresentou patologia neurológica que impossibilitava a realização da entrevista, e em 10 casos não foi possível realizar a entrevista, pois os dados disponíveis encontravam-se incompletos ou desatualizados, impossibilitando o contato com estes pacientes, resultando na análise e entrevista de 31 pacientes.

A idade média de início dos sintomas dos pacientes estudados foi de 45,9 anos (IC = 11,7; DP = 4,2), sendo que 50% dos pacientes levaram intervalo de tempo > um ano para realizar o diagnóstico de ponte miocárdica. Foi efetuada a análise do grau de estreitamento da artéria DAE (Tabela 2). Os sintomas dos pacientes foram graduados com auxílio da classificação proposta pela Sociedade Canadense de Cardiologia para graduação da angina de peito, antes e após a realização do tratamento (Tabela 3).

 

 

De acordo com essa classificação, pacientes com grau 1 de estreitamento sistólico à cineangiocoronariografia possuem as classificações CCS-I (31,6%), II (31,6%) e III (31,6%). Pacientes com grau 2 de estreitamento classificam-se em I (11,1%), II (11,1%), III (66,7%) e IV (11,1%). Pacientes com grau 3 de estreitamento classificam-se em II (33,3%), III (33,3%) e IV (33,3%).

Um paciente foi excluído da análise dos sintomas por óbito ocasionado por morte súbita, o qual apresentava grau 1 de estreitamento sistólico da artéria descendente anterior. Dois pacientes realizaram angioplastia, apresentando grau 1 de estreitamento, classificando-se ambos em CCS-III e evoluindo para as classes I e II após o procedimento.

Com base nesses dados, conclui-se que não há correlação entre a classificação dos sintomas e o grau de estreitamento angiográfico obtido nos pacientes estudados. Porém, a intensidade dos sintomas depende, também, do número, da espessura, da localização e do comprimento das pontes miocárdicas, que variam de paciente para paciente, podendo variar em um mesmo paciente de um exame para outro. Os eventos adversos relatados pelos pacientes foram: isquemia e síndrome coronariana aguda, IAM e morte súbita (Gráfico 1).

 

 

Houve variação significativa no tempo de tratamento realizado e nos esquemas terapêuticos utilizados pelos pacientes. O tratamento medicamentoso incluiu o uso de agentes bloqueadores, antagonistas do canal de cálcio, antiagregantes plaquetários e/ou nitratos. Dois pacientes realizaram angioplastia e nenhum paciente realizou procedimento cirúrgico. O nitrato foi utilizado em 43,3% dos pacientes, em associação ou não a outras drogas, apesar de relatos de piora dos sintomas e do quadro clínico na literatura. Entretanto, não foi possível afirmar o real impacto dessas medicações no desfecho clínico desses pacientes.

Dos pacientes que possuíam classificação CCS-I antes do tratamento, todos permaneceram na mesma classificação após o tratamento. Dos pacientes que possuíam classificação II antes do tratamento, 37,5% continuaram na mesma classe após o tratamento e 50% passaram para classe I, com melhora clínica. Em 12,5%, houve piora, passando para classe III. Dos pacientes que possuíam classificação CCS-III antes do tratamento, 53,8% continuaram na mesma classificação após o tratamento; em 30,8%, houve melhora para as classes I ou II; e em 15,4%, houve piora dos sintomas, passando para classe IV. Dos pacientes que possuíam classificação IV antes do tratamento, 50% continuaram na mesma classificação após o tratamento e, nos outros 50%, houve melhora, passando para classificação III. Foram incluídos nesse grupo dois pacientes com classificação III que realizaram ICP e continuaram utilizando o tratamento medicamentoso, apresentando melhora clínica.

Concluindo, 30% dos pacientes apresentaram melhora clínica, 60% dos pacientes não apresentaram alterações no quadro clínico e 10% apresentaram piora dos sintomas, apesar do tratamento (Gráfico 2).

 

Discussão

A ponte miocárdica é uma anomalia congênita2,3 resultante da falha do desenvolvimento sincrônico do miocárdio e de ramos coronários4, na qual um segmento de uma artéria coronária epicárdica é envolvido por um feixe de músculo cardíaco, chamado "segmento tunelizado", atravessando a porção intramural do miocárdio, abaixo da ponte muscular miocárdica5. A frequência de diagnósticos de pontes miocárdicas deste estudo foi de 3,6%. Os dados dos estudos revelam variação significativa entre os índices de frequência, incidência e prevalência, e os resultados angiográficos. A prevalência angiográfica de pontes miocárdicas é menor que 5%6-8, fato atribuído às pontes miocárdicas finas, que causam pouca compressão no segmento tunelizado e estão presentes na maioria dos casos8.

Vários estudos procuram elucidar a associação entre pontes miocárdicas e aterosclerose. Sabe-se que a área abaixo da PM é poupada da doença aterosclerótica, enquanto a área proximal à ponte é propícia ao desenvolvimento de aterosclerose9,10. Neste estudo, 27,6% dos pacientes apresentaram acometimento do segmento proximal da ponte por graus variados de DAC. Distúrbios no fluxo sanguíneo contribuem para o desenvolvimento de aterosclerose no segmento proximal da ponte11, modulando a produção de substâncias vasoativas pelas células endoteliais, afetando funções celulares vasculares, como o potencial trombogênico, regulação do fluxo sanguíneo e tônus vascular12,13.

O achado angiográfico típico da PM é a redução sistólica do diâmetro da artéria coronária epicárdica e persistência da redução durante a diástole14. Sua natureza transitória e a dinâmica da obstrução auxiliam no diagnóstico diferencial de estenoses coronarianas fixas. A artéria DAE é a mais comumente envolvida15, acometendo de forma isolada 100% dos pacientes neste estudo. Porém, pode haver envolvimento de outras artérias, como a artéria circunflexa esquerda e a artéria coronária direita4. A quantificação do comprometimento da artéria coronária envolvida foi efetuada de acordo com Noble e cols.6, em que o estreitamento da artéria descendente anterior durante a sístole foi graduado em: Grau 1 (> 49%); Grau 2 (50%-74%); e Grau 3 (> 75%).

Em alguns casos, quando os resultados angiográficos revelam artérias coronárias normais, o uso de testes de provocação por meio de redução da pré-carga e a estimulação adrenérgica com nitroglicerina e orciprenaline, respectivamente, podem acentuar a compressão sistólica do segmento tunelizado, estabelecendo-se então o diagnóstico em até 40% dos casos7,16. Tais procedimentos não foram realizados neste estudo.

O diagnóstico clínico de pontes miocárdicas deve ser considerado em pacientes com sintomas anginosos, na ausência de fatores de risco ou evidências de isquemia17. Apesar de ser uma malformação presente desde o nascimento, a ocorrência de sintomas não se desenvolve antes da terceira década de vida. A idade média de início dos sintomas apresentada pelos pacientes foi de 45,9 anos (IC = 11,7; DP = 4,2). A manifestação tardia dos sintomas pode ser explicada pelo aumento da tensão sistólica da parede miocárdica, em consequência do crescimento do coração, pela elevação da pressão diastólica final do ventrículo esquerdo, pela associação com a hipertensão arterial (hipertrofia miocárdica) e com a eventual redução do fluxo coronário por processos ateroscleróticos que ocorrem mais tardiamente18.

Uma considerável parcela dos pacientes com diagnóstico angiográfico de pontes miocárdicas possui doença cardíaca valvular associada, muscular ou aterosclerótica, que afeta de maneira independente a apresentação clínica e a resposta ao tratamento6. Tais pacientes foram excluídos neste estudo.

É bem estabelecida a associação entre pontes miocárdicas e complicações, como isquemia e síndrome coronariana aguda19, relatada em 56% dos pacientes estudados; IAM20, acometendo 40% dos pacientes; e morte súbita21, que vitimou um paciente neste estudo. Outras complicações são: espasmo coronariano22, ruptura do septo ventricular23, taquicardia paroxística supraventricular24, taquicardia ventricular25 e bloqueio atrioventricular induzido pelo exercício26, não relatados pelos pacientes neste estudo.

O tratamento medicamentoso é a conduta de primeira linha nos pacientes sintomáticos com pontes miocárdicas. As intervenções são reservadas aos pacientes com angina refratária a despeito do tratamento medicamentoso. O tratamento medicamentoso consiste no uso de agentes inotrópicos e cronotrópicos negativos, como bloqueadores de receptores adrenérgicos ou bloqueadores de canal de cálcio, e o uso de agentes antiplaquetários, com o objetivo de aliviar os sintomas e sinais de isquemia miocárdica e reduzir o risco de futuros eventos adversos cardíacos27. A duração do tratamento não está bem esclarecida entre os diversos estudos.

Neste estudo, houve variação significativa no tempo de tratamento realizado e nos esquemas terapêuticos utilizados pelos pacientes, impossibilitando a análise individualizada de cada classe medicamentosa.

O uso de bloqueadores promove redução da frequência cardíaca, aumento do tempo diastólico e redução da contratilidade e compressão sistólica do vaso, com consequente retorno à normalidade das alterações do segmento ST ao ECG, além de melhora dos sintomas clínicos anginosos e sinais de isquemia28,29. O uso de antagonistas do canal de cálcio pode ser particularmente útil quando há uma contraindicação para o uso dos bloqueadores ou, primeira escolha, quando há suspeita de vasoespasmo coronariano30. O uso de nitratos deve ser evitado, pois ao melhorar a contratilidade cardíaca, os nitratos pioram o grau de estreitamento sistólico da artéria coronária, podendo agravar os sintomas16,31,32. Apesar dos estudos apresentados, o nitrato foi utilizado em 43,3% dos pacientes, em associação ou não a outras drogas. Entretanto, não se pode estabelecer o real impacto do uso dessas medicações no desfecho clínico desses pacientes.

O implante de stents impede a compressão fásica da luz da coronária, elimina as anormalidades do fluxo diastólico e a elevação máxima da pressão sistólica intracoronária, normalizando os sintomas clínicos13. Após o implante do stent, evidencia-se o desaparecimento da compressão sistólica da artéria descendente anterior, aumento do diâmetro luminal e da área de secção transversal da artéria, além de aumento do fluxo coronário de reserva. Contudo, de acordo com Haager e cols.33, análises após 7 semanas revelaram, de moderada a severa, estenose dos stents em 45% dos pacientes, exigindo nova intervenção em 36% dos pacientes.

O seguimento clínico e angiográfico, por dois anos, revelou bons resultados, com melhora dos sintomas anginosos e ausência de eventos cardíacos33. Entretanto, resultados favoráveis em longo prazo são descritos por outros autores34,35. Neste estudo, dois pacientes com grau 1 de estreitamento sistólico angiográfico realizaram angioplastia, apresentando melhora significativa dos sintomas, livre de eventos adversos, após um e dois anos de seguimento.

Antes da atual era da intervenção coronariana percutânea, a miotomia cirúrgica era considerada o tratamento de escolha para os pacientes com sintomas persistentes, a despeito da terapia medicamentosa intensiva27,36. A descompressão cirúrgica da artéria tunelizada resulta em desaparecimento dos sintomas anginosos e da isquemia em pacientes com compressão sistólica severa da artéria descendente anterior37. Outra alternativa é a cirurgia de revascularização do miocárdio, com realização de anastomoses da artéria mamária interna na DAE33. Não foram realizados procedimentos cirúrgicos em nenhum paciente deste estudo.

O prognóstico em longo prazo das pontes miocárdicas é bom e é independente da severidade do estreitamento sistólico do diâmetro luminal da artéria coronária38.

Neste estudo, a análise de 31 pacientes revelou óbito em apenas um paciente, atribuído à morte súbita por ponte miocárdica; realização de angioplastia em dois dos pacientes, com melhora clínica significativa em longo prazo; e tratamento clínico medicamentoso em 96,7% dos pacientes. Em outro estudo, durante o seguimento de 43 meses de um grupo de 35 pacientes com pontes miocárdicas, um paciente morreu por morte súbita cardíaca, 20% dos pacientes continuaram apresentando angina classe CCS I-II, um dos pacientes necessitou de revascularização percutânea para melhora dos sintomas e 63% dos pacientes continuaram utilizando tratamento medicamentoso ao final do estudo39.

Limitações

Neste artigo, procurou-se descrever a evolução clínica e terapêutica, bem como o prognóstico em longo prazo dos pacientes com PM. Neste estudo retrospectivo, foram selecionados pacientes a partir de dados de um laboratório de hemodinâmica, que funciona como um dos centros de referência da região, não refletindo, estatisticamente, dados da população local. Como os pacientes foram selecionados a partir dos dados de cineangiocoronariografias previamente realizadas em intervalo de tempo de 5 anos, não foi possível realizar um seguimento e fazer testes diagnósticos não invasivos uniformes em todos os pacientes, bem como realizar a confirmação das complicações apresentadas, baseando-se apenas no relato dos pacientes entrevistados.

Só foi possível indicar o número de pacientes em que esses testes foram realizados e o tipo de testes que foram realizados, bem como seus resultados. Por último, os critérios em que a decisão de manter o tratamento em longo prazo foram baseados, bem como as opções terapêuticas utilizadas, estão fora do alcance deste estudo, sendo influenciados pelo critério do cardiologista.

 

Conclusão

A ponte miocárdica acomete indivíduos com sintomas anginosos na ausência de fatores de risco ou evidências de isquemia, em que o início dos sintomas não se desenvolve antes da terceira década de vida. A maioria dos pacientes com ponte miocárdica tem um bom prognóstico, mas, em longo prazo, não há dados suficientes realizados em um grande grupo de pacientes sintomáticos que tenham um elevado grau de compressão sistólica e diastólica e evidências de isquemia para conclusões definitivas.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

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Correspondência:
Aline Braz Pereira
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Artigo recebido em 13/05/09; revisado recebido em 20/05/09; aceito em 06/08/09.

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