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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.3 São Paulo Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010000300017 

ARTIGO ORIGINAL
INSUFICIÊNCIA CARDÍACA

 

Preditores clínicos de fração de ejeção preservada em insuficiência cardíaca descompensada

 

 

Livia GoldraichI; Nadine ClausellI, II; Andréia BioloI, II; Luís Beck-da-SilvaI, II; Luís Eduardo RohdeI, II

IHospital de Clínicas de Porto Alegre
IIFaculdade de Medicina da UFRGS, Porto Alegre, RS - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Identificação e impacto clínico da fração de ejeção preservada em desfechos intra-hospitalares em pacientes com insuficiência cardíaca (IC) descompensada permanecem pouco conhecidos.
OBJETIVO: Descrever preditores clínicos e desfechos intra-hospitalares de pacientes com IC descompensada e fração de ejeção de ventrículo esquerdo (FEVE) preservada, e desenvolver um escore preditivo baseado em dados clínicos obtidos no momento da admissão.
MÉTODOS: Internações consecutivas devido a IC descompensada (n=721) em um hospital terciário foram acompanhadas até a alta ou óbito. Mais de 80 variáveis clínicas foram avaliadas para identificar os preditores da FEVE preservada no momento da admissão.
RESULTADOS: Identificou-se FEVE preservada (>50%) em 224 (31%) internações. Os preditores clínicos de FEVE preservada foram: idade >70 anos (p= 0,04); sexo feminino (p<0,001); etiologia não-isquêmica (p<0,001); fibrilação ou flutter atrial (p=0,001); anemia (p=0,001); pressão de pulso >45 mmHg (p<0,001); e ausência de anormalidades de condução intraventricular verificadas no eletrocardiograma (p<0,001). Um escore clínico baseado nessas variáveis foi capaz de predizer com acurácia a presença de FEVE preservada no momento da admissão hospitalar (área sob a curva ROC de 0,76). Nenhuma diferença significativa foi observada na taxa de mortalidade intra-hospitalar ou de complicações clínicas de acordo com os quintis de FEVE.
CONCLUSÃO: A FEVE preservada é uma condição prevalente e mórbida entre pacientes hospitalizados por IC. Dados clínicos simples obtidos no momento da internação podem ser utilizados para predizer FEVE preservada.

Palavras-chave: Insuficiência cardíaca, fração de ejeção preservada, mortalidade hospitalar.


 

 

Introdução

A insuficiência cardíaca (IC) persiste como um problema de saúde de grande relevância no Brasil e no mundo1-4. A IC com função sistólica preservada é reconhecida há mais 30 anos, mas somente na última década é que se obteve uma maior compreensão de sua epidemiologia, apresentação clínica e prognóstico5-8. Atualmente, reconhece-se que uma grande quantidade de pacientes que apresentam sintomas de IC possui fração de ejeção de ventrículo esquerdo (FEVE) normal ou ligeiramente reduzida. A prevalência da FEVE preservada em coortes com IC, contudo, pode variar bastante, dependendo dos critérios adotados para o diagnóstico, configuração e delineamento do estudo. Estima-se que aproximadamente 30-50% das internações hospitalares atribuídas à IC descompensada ocorrem em pacientes sem disfunção sistólica9-12. Além disso, hospitalizações devido a IC com FEVE preservada tornaram-se cada vez mais freqüentes nas últimas duas décadas13.

Os critérios adotados para o diagnóstico de IC associada à FEVE normal não são universalmente aceitos e podem ser confuso e pouco práticos para os médicos que avaliam pacientes com IC descompensada14. Na sala de emergência, a rápida identificação de pacientes com IC e FEVE preservada é particularmente importante, tendo em vista que as estratégias de tratamento podem-se alterar consideravelmente de acordo com as diferentes categorias de função ventricular esquerda15. Dados diagnósticos e prognósticos derivados de análises post-hoc de ensaios clínicos que incluíram pacientes ambulatoriais com FEVE preservada podem não se aplicar a este cenário clínico específico16-19. Além disso, dados prospectivos que avaliaram o impacto da função ventricular esquerda em desfechos intra-hospitalares são escassos e conflitantes5,20,21.

O objetivo desse estudo transversal prospectivo foi

I) descrever a prevalência e os preditores clínicos independentes de FEVE preservada em pacientes admitidos por IC descompensada em um hospital universitário terciário;

II) desenvolver um escore preditivo simples para IC com FEVE preservada baseado em dados clínicos obtidos nas primeiras horas da internação; e

III) comparar desfechos intra-hospitalares clinicamente relevantes de pacientes com FEVE preservada àqueles de indivíduos com disfunção sistólica.

 

Métodos

Cenário do estudo e identificação de casos

O protocolo do estudo foi conduzido no Hospital de Clínicas de Porto Alegre, um hospital universitário de atendimento terciário situado no sul do Brasil, com 749 leitos. Pacientes consecutivos que foram admitidos com suspeita de ICAD entre agosto de 2000 e janeiro de 2004 foram elegíveis para inclusão, independentemente do destino intra-hospitalar após a avaliação na sala de emergência (enfermarias, centro de terapia intensiva ou alta hospitalar diretamente do departamento de emergência). O protocolo desse registro foi previamente descrito22. Resumidamente, um investigador do estudo ou um assistente de pesquisa treinado pela equipe de IC abordou diariamente membros de equipes médicas para identificar pacientes potencialmente elegíveis. O diagnóstico de IC e a inclusão de indivíduos basearam-se nos critérios de Boston23. Os critérios de Boston baseiam-se em históricos clínicos (máximo de 4 pontos: dispnéia em repouso [4 pontos], ortopnéia [4 pontos], dispnéia paroxística noturna [3 pontos], dispnéia ao caminhar em área plana [2 pontos] ou dispnéia ao caminhar em aclives [3 pontos]), exame físico (máximo de 4 pontos: anormalidade da freqüência cardíaca [1-2 pontos], pressão venosa jugular elevada [2-3 pontos], crepitantes pulmonares [1-2 pontos], sibilos [3 pontos] ou terceira bulha cardíaca [3 pontos] e radiografia do tórax (máximo de 4 pontos: edema pulmonar alveolar [4 pontos], edema pulmonar intersticial [3 pontos], derrame pleural bilateral [3 pontos], índice cardiotorácico superior a 0.50 [3 pontos], ou redistribuição de fluxo na região superior [2 pontos]). Pacientes internados com escore de Boston igual ou superior a 8 pontos (IC definitiva) foram considerados para inclusão caso não houvesse evidência de diagnóstico médico alternativo ao qual o quadro clínico apresentado pudesse ser atribuído. As condições de exclusão mais relevantes foram doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão pulmonar primária, doenças do pericárdio, obesidade, falta de condicionamento físico, ansiedade, infecções respiratórias ativas ou tromboembolismo pulmonar. Além disso, os critérios de exclusão incluíam histórico de eventos cardíacos agudos (síndrome coronária aguda, revascularização miocárdica ou cirurgia cardíaca) nos 3 meses anteriores à internação-índice por IC e incapacidade de fornecer o consentimento informado. O protocolo de pesquisa foi estruturado de acordo com os princípios da Declaração de Helsinki e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisas da nossa instituição. Consentimento informado foi obtido de todos os pacientes antes da inclusão. Os dados da presente análise refletem internações individuais e internações múltiplas do mesmo paciente, que foram inseridas como registros separados. O registro completo inclui 779 internações consecutivas por IC descompensada, mas apenas 721 apresentavam avaliação recente de função ventricular esquerda por ecocardiograma, constituindo, portanto, a população desse estudo.

Coleta de dados

Após a inclusão, os pacientes foram acompanhados durante o período de internação até a alta hospitalar ou o óbito. Um histórico médico completo foi obtido de todos os pacientes. Investigadores treinados abordaram os pacientes na admissão e durante o período de internação para coletar dados como demografia, história médica pregressa, apresentação inicial (anamnese, exame físico e dados laboratoriais), capacidade funcional, manejo intra-hospitalar e desfechos intra-hospitalares. Após o óbito ou a alta, os dados pendentes foram obtidos diretamente a partir de prontuário eletrônico.

Ecocardiograma transtorácico, com utilização de modos M, bi-dimensional e Doppler, foram realizados a critério do médico assistente e interpretados por cardiologistas experientes da instituição. O laboratório de métodos cardiológicos não-invasivos da nossa instituição segue as recomendações da Sociedade Americana de Ecocardiografia para estimativas de FEVE24. As variáveis ecocardiográficas analisadas no presente estudo foram obtidas a partir do prontuário eletrônico, com a finalidade de reproduzir dados tipicamente disponíveis na prática clínica de rotina. Função sistólica preservada foi definida como FEVE igual ou superior a 50% na ausência de doença valvar ou pericárdica relevante. A fórmula de Devereaux foi utilizada para estimar a massa ventricular esquerda, enquanto a presença de disfunção diastólica foi definida a partir de critérios ecocardiográficos padronizados25. A avaliação da função ventricular esquerda foi realizada na maioria dos pacientes durante a internação-índice; para aqueles que não realizaram tal avaliação, a ecocardiografia mais recente disponível foi obtida através do prontuário eletrônico.

Análise estatística

As variáveis contínuas com distribuição normal foram expressas como média e desvio-padrão, enquanto que as variáveis com distribuição não-normal foram descritas como mediana e intervalo interquartis. Dados categóricos foram descritos como números absoluto e percentual. Características clínicas e desfechos foram comparados entre os diferentes quintis de FEVE. Mais de 80 variáveis clínicas baseadas em história médica pregressa, exame físico, exames laboratoriais e dados ecocardiográficos foram avaliadas para determinar preditores independentes de FEVE preservada. O teste de qui-quadrado de Pearson (ou teste exato de Fisher, conforme aplicável) foi utilizado para a análise dos dados categóricos. Comparações entre variáveis contínuas foram realizadas através do teste t de Student para amostras independentes e do teste U de Mann-Whitney, conforme aplicável. Para examinar a significância das comparações de variáveis entre os quintis de FEVE, foram utilizados o teste de ANOVA para linearidade e o teste de Mantzel-Haenzel para as variáveis quantitativas e qualitativas, respectivamente. A análise de regressão logística foi realizada para identificar preditores independentes de FEVE preservada entre as características clínicas apresentadas. Apenas as variáveis com menos de 5% de dados indisponíveis e com valor de p < 0,10 na análise univariada foram incluídas no modelo multivariado (idade >70 anos, sexo feminino, etiologia não-isquêmica, pressão de pulso >45 mmHg, ausência de bloqueio do ramo esquerdo ou atraso inespecífico da condução intraventricular, hemoglobina <11,5 mg/dl, ritmo não-sinusal no eletrocardiograma, sódio, balanço ureico nitrogenado no sangue (BUN) e terceira bulha cardíaca). As variáveis consideradas como potencialmente colineares foram excluídas do modelo. Os pontos de corte de variáveis contínuas associadas à FEVE preservada na análise univariada foram determinados a partir do melhor valor discriminatório nas curvas receiver operator characteristic (ROC). Após a análise multivariada, foi criado um escore clínico utilizando estimativas baseadas nos coeficientes de regressão para os preditores independentes de FEVE preservada identificados pelo modelo selecionado. Subseqüentemente, as propriedades diagnósticas (sensibilidade, especificidade e valores preditivos) foram calculados para as diferentes faixas do escore utilizando o teste de qui-quadrado de Pearson. Finalmente, a acurácia global do escore foi estimada através da área sob a curva ROC. Um valor de p bicaudal inferior a 0,05 foi considerado como indicativo de significância estatística. Todas as análises estatísticas foram realizadas através do software SPSS 12.0 para Windows (SPSS Inc., Chicago IL).

 

Resultados

População global

Na presente análise, foram estudadas 721 internações consecutivas por IC descompensada (idade média de 66 ± 13 anos). A FEVE apresentou distribuição normal (Figura 1), com média de 42 ± 17% (mediana= 39%). Cerca de 50% dos pacientes eram homens, e as etiologias predominantes foram isquêmica e hipertensiva (Tabela 1). Uma proporção considerável da população do estudo (aproximadamente 23%) possuía história de pelo menos 3 internações prévias por IC. Além disso, como esperado, mais de 90% encontravam-se em classes funcionais III e IV pela New York Heart Association no momento da admissão. Durante a internação, 67% dos pacientes receberam inibidores da enzima conversora de angiotensina I (IECA), porém apenas 21% utilizaram betabloqueadores. Óbitos intra-hospitalares ocorreram em 71 pacientes (10%), sendo a maioria devido à progressão da IC e choque cardiogênico (41 [58%]). Entre os demais óbitos, as principais causas foram sepse, eventos cerebrovasculares e eventos coronarianos agudos. Durante a internação, a maioria dos pacientes foi manejada na enfermaria clínica, com uso intermitente ou contínuo de diuréticos de alça por via intravenosa e doses incrementais de vasodilatadores. Suporte inotrópico foi utilizado em menos de 5% dos pacientes.

FEVE preservada

Nesta coorte de IC descompensada, identificou-se FEVE preservada em 223 (31%) internações. A Tabela 1 demonstra as características demográficas e clínicas entre os diferentes quintis de FEVE. Pacientes com FEVE mais elevada possuíam idade mais avançada e eram predominante do sexo feminino (p<0,001). A prevalência de diabetes e de doença pulmonar obstrutiva crônica, assim como o índice de comorbidades de Charlson, não diferiram entre os quintis de FEVE. Pacientes com FEVE mais elevada demonstraram-se mais propensos a apresentar etiologia hipertensiva para a IC, fibrilação atrial e pressão arterial sistólica e de pulso basais mais elevadas. Entre os sinais clínicos e sintomas tradicionais de IC, apenas a presença de terceiro bulha cardíaca foi significantemente diferente entre as categorias de FEVE (p<0,001).

Evidências ecocardiográficas de disfunção diastólica foram identificadas mais freqüentemente em pacientes com FEVE preservada, porém anormalidades da condução intraventricular verificadas por eletrocardiograma (bloqueio do ramo esquerdo e bloqueio inespecífico da condução intraventricular) demonstraram-se mais comuns em pacientes com disfunção sistólica (55[36%] versus 11[8%] em comparação dos quintis inferior e superior de FEVE, respectivamente; p<0.001). Os níveis de hemoglobina sérica e de sódio também se demonstraram significativamente diferentes de acordo com quintis de FEVE, enquanto que a função renal foi similar em pacientes com ou sem disfunção sistólica. A proporção de pacientes tratados com diuréticos e betabloqueadores antes da internação por IC foi semelhante nas diferentes categorias de FEVE, porém o uso de IECA e de digoxina aumentou à medida que a FEVE diminuiu (p<0,01).

Preditores clínicos da FEVE preservada

Na análise multivariada, 7 preditores independentes permaneceram significativamente associados à FEVE igual ou superior a 50%, conforme descrito na Tabela 2. Idade mais avançada, sexo feminino, etiologia não-isquêmica, ausência de ritmo sinusal, menores níveis de hemoglobina, níveis mais elevados de pressão de pulso e a ausência de anormalidades da condução intraventricular estiveram independentemente associados à FEVE preservada. Foi elaborado um escore clínico (variando de 0 - 6 pontos) baseado nos coeficientes de regressão logística do modelo multivariado. As propriedades diagnósticas do escore clínico para a predição da FEVE preservada são apresentadas na Tabela 3. Escores iguais ou inferiores a 1 ponto demonstraram um valor preditivo negativo de 100% para a presença de FEVE preservada, enquanto que escores superiores a 5 pontos determinaram uma especificidade mínima de 97%. Cada incremento de 1 ponto no escore determinou aumento de 2,5 vezes na chance de identificar FEVE preservada em um paciente com IC (IC 95% 2,1 - 2,9; p < 0,001). A acurácia global do escore para predição de FEVE preservada foi de 76% (IC 95% 72% -79%; p < 0,0001) (Figura 2).

 

 

 

 

 

 

Desfechos intra-hospitalares

As taxas de mortalidade intra-hospitalar e de complicações intra-hospitalares demonstraram-se semelhantes entre os diferentes quintis de FEVE (Tabela 4). Esses achados não se alteraram substancialmente após o ajuste para idade e sexo. Tanto as taxas de mortalidade intra-hospitalar quanto as de complicações intra-hospitalares permaneceram-se estatisticamente semelhantes ao se considerar FEVE igual ou superior a 40% (11,5% para FEVE >40% versus 8% para FEVE< 40%, p= 0,1 para mortalidade intra-hospitalar; e 45,5% para FEVE >40% versus 38,5% para FEVE <40%, p= 0,06 para complicações) ou 50% (10,5% para FEVE >50% versus 9,5% para FEVE <50%, p= 0,7; e 44% para FEVE >50% versus 41% para FEVE <50%, p= 0,4, respectivamente) como valores de corte para a função sistólica preservada. O tempo de permanência hospitalar entre os pacientes que receberam alta hospitalar vivos também se demonstrou semelhante entre as categorias de FEVE (mediana de 11 dias; intervalo interquartil: 6-19 dias). Arritmias cardíacas e febre ou evidência de infecção durante a permanência hospitalar foram mais freqüentemente observadas em pacientes com valores maiores de FEVE, porém sangramento gastrointestinal ou comprometimento da função renal não diferiram de acordo com a FEVE.

 

Discussão

No presente estudo, demonstramos que FEVE preservada é uma condição prevalente e mórbida entre pacientes hospitalizados por IC em um hospital universitário no Brasil. Pacientes com IC descompensada e FEVE preservada apresentaram características clínicas distintas: idade mais avançada, sexo feminino, etiologia não-isquêmica, fibrilação atrial crônica, anemia, pressão de pulso elevada e complexos QRS estreitos. Um escore clínico simples baseado nesses achados foi desenvolvido para auxiliar a rápida identificação dos subgrupos de pacientes com maior e menor probabilidade de possuírem fração de ejeção preservada ao se apresentarem com IC descompensada. Por fim, pacientes com FEVE preservada demonstraram taxas de morbidade e mortalidade intra-hospitalares semelhantes às dos indivíduos com disfunção sistólica.

Diversos relatos demonstraram que IC com FEVE preservada é uma condição prevalente tanto em coortes comunitárias como hospitalares. Esses indivíduos apresentam características clínicas semelhantes às dos pacientes típicos que apresentam IC com disfunção sistólica, embora nem sempre com a mesma gravidade4,5,7,14. O prognóstico desses pacientes, embora provavelmente melhor do que daqueles com IC e disfunção sistólica, é, no entanto, muito pior do que o de indivíduos normais10. Além disso, embora a mortalidade por IC com disfunção sistólica tenha diminuído dos últimos 15 anos, as taxas de desfechos fatais para casos de IC com FEVE preservada permanecem estáveis13.

Entre pacientes hospitalizados por IC descompensada, dados sobre o curso clínico e desfechos de indivíduos com FEVE preservada são limitados. Relatos anteriores demonstraram achados conflitantes sobre o impacto clínico em desfechos em longo prazo, e há poucos dados em relação às taxas de eventos intra-hospitalares10,11. Uma coorte canadense de pacientes internados por IC não observou diferenças significativas entre as taxas de morte durante a internação ou após o seguimento de 1 ano entre pacientes com disfunção sistólica e fração de ejeção preservada (4,9% e 3,8%, respectivamente, para óbitos intra-hospitalares)26. Contudo, uma análise recente do Registro ADHERE, que incluiu mais de 100.000 internações por IC, demonstrou que as taxas de óbitos intra-hospitalares eram significativamente menores entre pacientes com FEVE preservada (2,8% vs. 3,9%; p= 0,005), embora a duração da permanência em Unidades de Tratamento Intensivo e o tempo total de permanência hospital tenham sido semelhantes27. Considerando esses últimos resultados, é razoável supor que diferenças em alguns desfechos clínicos possam estar presentes em pacientes com diferentes graus de função sistólica, mas a magnitude dessas diferenças não parece ser tão significativa como considerado anteriormente. Além disso, nossos dados corroboram o conceito de que pacientes com FEVE preservada internados com IC descompensada apresentam uma condição consideravelmente mórbida, associada a altas taxas de eventos clínicos e mortalidade intra-hospitalar durante a permanência hospitalar. As taxas de óbitos intra-hospitalares em nossa população demonstraram-se significativamente maiores, independente da categoria de FEVE, quando comparadas a dados já publicados em outros países, principalmente em relatos norte-americanos28,29. Nossos dados derivam de uma coorte de pacientes com IC consecutivamente diagnosticados por critérios clínicos, representando o típico paciente do ''mundo real'' que procura atendimento hospitalar. Embora amplamente aceito para diagnosticar IC no contexto ambulatorial, nem os critérios de Framingham nem os de Boston podem diferenciar pacientes com disfunção sistólica daqueles com FEVE preservada14. Além disso, níveis de peptídeo natriurético tipo B, embora extensamente validados como ferramentas diagnóstica e prognóstica em IC descompensada, encontram-se elevados em pacientes com estado congestivo independentemente da FEVE30. Todos os critérios diagnósticos atuais propostos para identificar IC com função sistólica preservada incorporam modalidades de imagem para definir de forma objetiva a disfunção diastólica, uma etapa bastante limitadora nos casos de descompensação14. Neste cenário, características clínicas simples que sugiram a presença de disfunção ventricular esquerda podem ser essenciais para médicos que enfrentam o dilema de tratar pacientes com sintomas de IC nos departamentos de emergência.

Diversos estudos procuraram identificar variáveis clínicas que poderiam estar associadas à FEVE preservada e, portanto, auxiliar na sua identificação antes da avaliação de imagem dos parâmetros sistólicos e diastólicos11,19-21,27. Algumas dessas características foram sistematicamente relatadas em coortes de pacientes internados por IC, como idade avançada, sexo feminino e menor prevalência de históricos de infarto do miocárdio ou de doença arterial coronária entre pacientes com FEVE preservada11,20,21,29. Mais recentemente, demonstrou-se que a anemia e a fibrilação atrial são mais comuns em pacientes internados com IC sem disfunção sistólica27,31. Por outro lado, bloqueios de ramo esquerdo são significativamente mais freqüentes na presença de disfunção ventricular esquerda21,31. Além disso, valores elevados de pressão de pulso, conforme identificados no presente estudo, estiveram associados à FEVE mais elevada tanto em pacientes ambulatoriais como em indivíduos com IC descompensada32,33. No presente estudo, propomos um escore preditivo simples para identificar a função ventricular esquerda com base em características clínicas facilmente obtidas na apresentação do paciente. O desempenho diagnóstico desse escore clínico demonstrou-se adequado, com uma área sob a curva ROC de 0,76. Por exemplo, pacientes com escore <2 pontos representam um subgrupo com alta probabilidade de ter disfunção ventricular esquerda (FEVE <50%). Nossos dados corroboram as características clínicas que definem este perfil em uma coorte de pacientes com IC descompensada fora da América do Norte. As implicações terapêuticas desses resultados merecem ser destacadas. Collins e colaboradores recentemente sugeriram diversos alvos específicos para se ter em mente ao tratar pacientes com IC descompensada34. Por exemplo, o uso de fármacos inotrópico-negativos para controlar a pressão arterial e a frequência ventricular é um dilema clínico diário no manejo da IC descompensada, que pode ser altamente influenciado pela função ventricular esquerda.

Limitações

Algumas possíveis limitações do nosso estudo devem ser destacadas. Nossa população foi "altamente selecionada" para evitar a inclusão incorreta de outros diagnósticos que poderiam simular sintomas de IC, utilizando pontos de corte relativamente altos para os critérios de Boston (> 8 pontos). Essa estratégia de inclusão foi definida a priori e escolhida para evitar a "contaminação" da amostra estudada. Reconhecemos que esta possa ser uma possível limitação e que nossos resultados são aplicáveis apenas a um grupo selecionado de pacientes com IC descompensada. Não podemos excluir a possibilidade de que os critérios de seleção usados no presente protocolo (escore de Boston elevado) tenham excluído de forma desproporcional alguns pacientes com IC e fração de ejeção preservada, que possam apresentar IC menos grave e, portanto, menores taxas de complicações. O escore proposto é proveniente de uma coorte de pacientes consecutivos com IC, representando indivíduos típicos do "mundo real" que procuram atendimento hospitalar. Além disso, demonstramos anteriormente que diversas características clínicas são similares entre pacientes hospitalizados com IC em nossa instituição e em um hospital universitário de atendimento terciário nos EUA28. Reconhecemos que a validação externa prospectiva é necessária para que o escore proposto também apresente um desempenho apropriado em diferentes coortes de IC; esse aspecto representa uma das principais limitações do nosso estudo.

 

Conclusões

A FEVE preservada é uma condição comum em pacientes internados por IC descompensada e está associada a taxas substanciais de mortalidade em curto prazo e de eventos mórbidos intra-hospitalares clinicamente relevantes. Na apresentação clínica, características clínicas simples foram úteis na identificação de diferentes perfis de pacientes que pudessem predizer a categoria de função ventricular esquerda com uma precisão razoável. Este escore preditivo, contudo, necessita de subsequente validação prospectiva em diferentes coortes de pacientes com IC.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Vinculação acadêmica

Este artigo é parte da Dissertação de Mestrado de Lívia Goldraich pelo Programa de Pós Graduação em Ciências da Saúde: Cardiologia e Ciências Cardiovasculares da UFRGS.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi parcialmente financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo a Pesquisa do Rio Grande do Sul (Fapergs) e Fundo de Incentivo a Pesquisa (Fipe-HCPA).

 

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Correspondência:
Luís Eduardo Paim Rohde
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E-mail: leprohoe@cardiol.br, lerohde@terra.com.br

Artigo recebido em 04/02/09; revisado recebido em 20/07/09; aceito em 19/08/09.