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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.4 São Paulo Apr. 2010  Epub Mar 26, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000015 

ARTIGO ORIGINAL
EXPERIMENTAL

 

Alunos de um programa de pós-graduação em cardiologia: são os resultados de quase 30 anos adequados?

 

 

Luana Brock; Edileuza Cunha; José Roberto Tavares; Iran Gonçalves Jr; Angelo A V de Paola; Valdir Moisés; Antonio Carlos Carvalho

Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A pós-graduação stricto sensu no Brasil foi implementada em 1965 para aumentar a qualidade de ensino nas Universidades e preparar pesquisadores completos e independentes. A participação brasileira nas publicações ISI tem aumentado desde então de forma significante, mas pouca informação está disponível sobre a qualidade dos pós-graduados.
OBJETIVO: Revisar 29 anos de programa de pós-graduação em cardiologia na Universidade Federal de São Paulo e analisar as características dos alunos de mestrado e doutorado em relação à origem, publicações e carreira subsequente.
MÉTODOS: Desenvolvemos um questionário para avaliar 168 alunos de pós-graduação que produziram 196 teses (116 de mestrado e 80 de doutorado), no período de 1975-2004 e entramos em contato com 95,9% deles. As informações sobre as publicações foram obtidas através dos bancos de dados científicos usuais.
RESULTADOS: 30% dos alunos de pós-graduação eram das regiões Norte-Nordeste-Centro-Oeste e apenas 50% deles retornou à sua região de origem. A idade média quando da admissão na pós-graduação foi de 32,5 anos e 34,9 anos para mestrandos e doutorandos, respectivamente; a duração média dos programas de pós-graduação foi respectivamente de 39,0 e 43,2 meses e aproximadamente 50% dos alunos fez o curso de pós-graduação sem qualquer bolsa de estudo. A publicação das teses durante esses 29 anos apresentou uma média de 36,5% para mestrado e 61,9% para doutorado, mas quaisquer publicações posteriores foram da ordem de 70,2% e 90,6%, respectivamente. O fator de impacto médio da tese publicada foi de 1,3 para mestrado e 3,1 para doutorado, com 65,5% e 87,5% de Qualis A, respectivamente. Atualmente, há ex-alunos de pós-graduação originários de nossa instituição em 17 estados da federação e 12 deles tornaram-se professores titulares.
CONCLUSÃO: Embora o programa stricto sensu, especialmente no mestrado, ainda apresente muitas áreas que necessitam de melhoras, ele parece estar contribuindo para melhorar a qualidade profissional e das publicações brasileiras indexadas.

Palavras-chave: Programas de pós-graduação em saúde, cardiologia, dissertações acadêmicas, qualidade, publicações científicas e técnicas.


 

 

Introdução

A pós-graduação na área médica no Brasil começou em 1965, quando o Conselho Federal de Educação emitiu a resolução 977/65 que definiu os cursos de pós-graduação latu senso e stricto sensu, sendo que o programa stricto sensu tinha o objetivo de desenvolver professores com formação científica e o programa de doutorado, de desenvolver capacidades de ensino adequadas e pesquisadores totalmente capacitados e independentes1-3. Nos Estados Unidos e Europa, um médico faz seu treinamento de pós-graduação em áreas de pesquisa básica, enquanto no Brasil o programa pode também ser desenvolvido na área clínica. A área de cardiologia na Universidade Federal de São Paulo iniciou seu programa em 1975 e em 1999, um programa em áreas associadas à Cardiologia que aceitava alunos não-médicos, foi implantado4.

A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) supervisiona o programa e desenvolveu uma avaliação tri-anual de todos os cursos, com um sistema de escore de 1 a 7, com os níveis 6 a 7 se igualando à bons cursos internacionais de pós-graduação2,5,6. Ainda há controvérsias sobre as regras de publicação e o sistema de classificação das revistas6-8, mas o fato é que o Brasil aumentou sua participação nas publicações ISI de 0,88% em 1996 para 1,73% em 2004 e da mesma forma, as publicações brasileiras em áreas relacionadas à cardiologia aumentaram de 0,9% em 1998 para 1,9% em 20061 *.

Nos anos 50, o pessoal de nível superior era 0,67% da população economicamente ativa e 60% dos alunos não chegavam ao fim do ensino médio9. O número de professores com doutorado (equivalente a Ph.D.) era de 38,2% em escolas públicas e 12% em escolas privadas em 199810, e ainda há uma grande diferença de 8.801 doutores nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, contra 29.006 no Sudeste11.

Em 1997, uma comissão internacional avaliando a CAPES sugeriu que a agência deveria obter informações sobre seus alunos de pós-graduação2,6. Ramos12 já havia sugerido isso, bem como Barbosa e DePaola13, todos reconhecendo a dificuldade em adequadamente contatar todos os ex-alunos. O propósito desse estudo foi obter um perfil de quase três décadas de um programa de pós-graduação em cardiologia, avaliando os resultados dos alunos do programa, contribuindo para o entendimento dos desfechos e implicações dos primeiros 40 anos de desenvolvimento do programa de pós-graduação brasileiro.

 

Métodos

Esse estudo foi realizado através de perguntas aos alunos de pós-graduação dos programas de mestrado e doutorado em cardiologia de 1975 a julho de 2004. Um questionário foi desenvolvido com 44 perguntas, com o intuito de coletar informações básicas sobre o aluno, tais como idade, sexo, escola de graduação em medicina, porcentagem de tempo em atividades de ensino antes e depois da pós-graduação, atividades médicas e pesquisa, publicações antes e depois da pós-graduação, participação atual em corpos docentes. Algumas perguntas eram abertas de forma que o entrevistado pudesse expressar seus sentimentos sem ficar limitado pela questão específica. Houve uma preocupação em não tornar o questionário muito longo ou tedioso, a fim de evitar a falta de cooperação. Nosso protocolo foi aprovado pelo comitê de ética da instituição.

Esse tipo de avaliação não tem sido feita regularmente e não há um consenso na literatura5,14 sobre as questões, seu tamanho, formato, etc., além das necessidades básicas, tais como emprego atual, posição na universidade, se aplicável, atividades atuais de ensino e pesquisa, se o aluno recomenda ou não o programa de pós-graduação.

No início dos anos 70, não havia as facilidades disponíveis atualmente em relação a computadores e, além disso, não houve, ao longo dos anos, nenhuma monitoração dos alunos; muitos deles mudaram de lugar e de instituição, tornando difícil a identificação de sua localização. Em tais casos, tentamos estabelecer contato através da companhia telefônica, catálogos de endereços de e-mail, antigos amigos, parentes, sociedades médicas estaduais e nacionais, seu/sua orientador(a) e recursos da internet. Após um contato inicial via fone ou por e-mail, explicando as razões para essa pesquisa, demos aos entrevistados a opção de responder o questionário ao vivo, pelo telefone ou através de e-mail, fax ou por carta com envelope selado e auto-endereçado fornecido por nós.

De um total de 168 alunos de pós-graduação com 196 teses (116 de mestrado e 80 de doutorado), obtivemos uma resposta à nossa busca após um contato inicial em 153 casos, 87 com grau de mestrado e 66 com grau de doutorado. Apenas 4 ex-alunos de pós-graduação recusaram-se a cooperar e a dar o consentimento oral para a pesquisa e para aqueles que não responderam inicialmente, na maior parte das vezes a alegação era "falta de tempo". Dos 18 que responderam mais tarde, as tentativas de comunicação até que o questionário fosse finalmente respondido variaram de 3 a 11 vezes. Em 7 casos dos 168 (4,1%), não foi possível obter qualquer resposta, embora tivéssemos informações suficientes para garantir que todos estavam vivos.

A busca pelas publicações pelo nome do(a) autor(a)/orientador(a) foi feita através do Pubmed, a National Library of Medicine dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), Scielo através da Biblioteca Regional de Medicina (BIREME) e da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS, OMS) e da Web of Science disponível através da CAPES.

Para a análise estatística, cada aluno foi considerado pela sua produção, de forma que 19 alunos que fizeram ambos os cursos de mestrado e doutorado foram analisados duas vezes, uma vez em cada curso. A análise estatística foi realizada com o software SPSS 11.5; as comparações de proporções foram feitas através dos testes Qui-quadrado e de Pearson, quando apropriado. A análise Kappa foi utilizada para concordância na comparação entre achados relativos ao curso de mestrado e ao doutorado e a regressão logística uni e multivariada foi utilizada para correlacionar o tempo gasto até a publicação com a idade na época da admissão no programa de pós-graduação, tempo até o término do programa, origem do candidato, gênero, se ele(a) pertencia à área médica ou não-médica, período pré ou pós 1992, e atividades anteriores do(a) orientador(a).

 

Resultados

Gênero e origem - Dos 116 indivíduos com mestrado, 65 eram do sexo masculino e 51 do sexo feminino. A origem de 59% deles era a região Sudeste, contra 31% das regiões Norte-Nordeste e Centro-Oeste. Eles eram originários do curso de medicina em 86% dos casos, mas também havia candidatos dos cursos de biomedicina, enfermagem, nutrição, psicologia, fisioterapia e medicina veterinária. Eles vinham de 36 escolas diferentes, 12 delas escolas federais em outros estados, fora de São Paulo; 99,2% dos médicos haviam completado seus programas de residência médica e 38% tinham participado em programas de monitores ou Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). Em relação aos 80 indivíduos com doutorado, 62 (79,5%) eram do sexo masculino; vinham de 27 locais diferentes e de 14 escolas federais em outros estados, fora de São Paulo; 67,6% eram da região Sudeste e 24% das regiões Norte-Nordeste e Centro-Oeste. Havia 5,4% de estrangeiros. Todos os alunos de doutorado eram da área médica e 50% havia feito o curso de mestrado anteriormente.

Idade na admissão, bolsas, razões para fazer pós-graduação - A idade média na admissão do mestrado era de 32,5 anos (DP 5,6 anos) e ao final do curso, 35,4 anos (DP 6,2 anos). Para os não-médicos, a idade média na admissão era de 34,1 anos (DP 8,4 anos). Bolsas da CAPES estavam disponíveis para 44% dos alunos e bolsas do CNPq para 14%; bolsas da FAPESP foram obtidas por 9% dos alunos. As razões para iniciar um curso de pós-graduação eram: melhorar tecnologicamente e cientificamente, para 56%; razões pessoais, para 23% e melhorar a qualificação profissional na área de ensino para 19%. No doutorado, a idade na admissão variava de 21 to 52 anos (média 34,8 anos) e ao final do curso, de 24 a 56 (média de 38,2 anos). Em relação às bolsas de doutorado, somente 42 dos 79 alunos (53,2%) recebiam bolsa, com a CAPES e o CNPq responsáveis por 36 e a FAPESP por apenas 3. As razões para iniciar um programa de doutorado eram: melhorar as capacidades técnicas cientificas para 77% dos alunos e avanço na carreira universitária para os outros.

Dificuldades com orientação e em geral - 72% das respostas abertas definiram a relação do aluno com o(a) orientador(a) no mestrado como estimulantes e 26% como adequada; somente 1,3% a classificou como sendo inadequada. O número de reuniões com o(a) orientador(a) foi definido como suficientemente frequente por 72% dos alunos. Entre as dificuldades mencionadas estavam: muitas dificuldades simultâneas, por 22,2%; obtenção de materiais para as pesquisas, por 20,6%; falta de dinheiro, por 6,3% e dificuldades com o(a) orientador(a), por 4,8%. No doutorado, a orientação foi definida como estimulante por 78,8% e inadequada por apenas 1,9%. Entre as dificuldades, o ponto principal foi a complexidade da pesquisa escolhida para 40% e problemas na obtenção de materiais para a pesquisa por 18% dos casos.

Duração do programa e retorno ao local de origem - A duração média do programa de mestrado, da admissão à homologação pela secretaria de pós-graduação, variou de 10 a 164 meses, com média de 39,0 meses. Nos últimos 12 anos, houve uma grande diminuição, comparado ao período inicial, na duração do programa para mestrado, mas não para o doutorado (Figura 1). A duração média do curso de mestrado para aluno não-médico variou de 5 a 62 meses, com média de 29,4 meses. Do total de alunos que terminaram o curso, 55,5% retornaram à sua universidade de origem. A duração média do curso de doutorado foi de 43,2 meses (média de 4 a 122 meses) e 52,6% deles retornaram à sua escola de origem.

 

 

Encontros nacionais e internacionais, publicações e recomendação do programa: Em relação às apresentações em encontros e congressos nacionais e internacionais: encontros regionais, 37,3% antes e 55,6% depois do mestrado; em encontros nacionais, 54,7% antes e 69,1% depois do mestrado; e em encontros internacionais, 17,3% antes e 30,9% depois do mestrado. As publicações ocorreram para 42,9% antes e 70,2% depois do mestrado, enquanto atividades de ensino aumentaram de 26,9% antes para 48,8% depois do mestrado. De 93 respostas a essa pergunta, 49 haviam publicado suas teses (52,7%), enquanto 46 não haviam publicado, novamente com uma diferença entre os números quando comparados os períodos inicial e posterior do programa, sendo que os indivíduos com grau de doutorado publicaram mais do que os com grau de mestrado (Figura 2). Finalmente, 81,6% consideravam o curso de grande importância para suas carreiras e 98,9% deles o recomendariam. Em relação aos indivíduos com doutorado, as apresentações em Encontros regionais aumentaram de 37,5 para 53,4%, antes e depois do doutorado, respectivamente; em encontros nacionais, aumentaram de 62,5 para 72,4% e em encontros internacionais, de 39,3% para 62,1%, antes e depois do doutorado, respectivamente. As publicações aumentaram de 64,2% antes para 90,6% depois do doutorado e as atividades de ensino aumentaram de 48,2 para 63,5%, antes e depois do doutorado, respectivamente. A tese foi publicada por apenas 61,2% da amostra; 79,7% das respostas afirmaram que o programa de pós-graduação foi muito importante para suas carreiras e 100% recomendariam a experiência.

 

 

Revistas, fator de impacto e carreiras - Houve 29 publicações na Revista Brasileira de Cardiologia e em outras revistas, como: American Heart Journal, American Journal of Physiology, Annals of Thoracic Surgery, Atherosclerosis, British Heart Journal, Cardiology in the Young, Circulation, Hypertension, International Journal of Cardiology, Journal of the American Society of Echocardiography, Journal of Cardiovascular Electrophysiology, Journal of Cardiovascular Pharmacology, Journal of Heart and Lung Transplantation, Journal of the American College of Cardiology, Nutrition, etc. O fator de impacto médio para a tese de mestrado, para aqueles que publicaram a tese em uma revista de impacto (64% daqueles que publicaram a tese, sem diferença entre teses de mestrado e doutorado), foi de 1,3, enquanto que para a tese de doutorado, o fator de impacto foi de 3,1; 65,5% das teses de mestrado obtiveram classificação Qualis A, enquanto 87,5% das teses de doutorado obtiveram classificação Qualis A.

Em relação às carreiras subsequentes, 15 ex-alunos se tornaram professores associados e 12 professores titulares, sendo que todos completaram o doutorado. Além disso, 48 estavam, no momento da avaliação, trabalhando como chefes do departamento de cardiologia em seus serviços ou hospitais.

Comparação do mestrado com o doutorado: havia muitos fatores heterogêneos para serem considerados ao tentar comparar, estatisticamente falando, os cursos de mestrado e doutorado e então decidimos apresentar os achados para ambos os programas na Tabela 1. A idade na admissão (média no mestrado, 32,5 anos; média no doutorado, 34,8 anos), origem, duração do curso e retorno à universidade de origem foram similares. Entretanto, houve diferenças significantes em relação a questões vitais para um programa de pós-graduação, tais como apresentações internacionais após a tese, publicações após a tese, fator de impacto e Qualis A, e todos elas, como esperado, favoreceram o doutorado sobre o mestrado (detalhes na Tabela 1).

 

 

Discussão

Poucas publicações têm avaliado o produto do programa de pós-graduação brasileiro definido 40 anos atrás pela resolução 677/65 do Conselho Federal de Educação3. Em 2005, Hueb, Mady e Ramires comentaram sobre as realizações obtidas após 30 anos de pós-graduação em cardiologia e os desafios ainda à frente14. A qualidade do produto oferecido é uma (embora não a única) das melhores formas de avaliar a qualidade e a responsabilidade de qualquer indústria ou fábrica, e certamente, a participação brasileira na literatura científica indexada tem crescido de forma significante, graças ao aumento no número de doutores com pós-graduação; essa também é a razão pela qual a área da saúde ultrapassou a física em número de publicações internacionais. Nossos dados compreendem 29 anos de um programa de cardiologia que tem sido avaliado regularmente como 4 ou 5 pela classificação da CAPES e que possui informações sobre 95,9% de todos os ex-alunos.

A falta de informação computadorizada de base dos quinze primeiros anos do programa de pós-graduação (1975-1990) constituiu uma grande dificuldade ao tentar avaliar a carreira subsequente dos primeiros pós-graduados. Além disso, também tivemos casos de respostas incompletas ao questionário com algumas perguntas não tendo sido respondidas por todos e sem cooperação adequada para o término das respostas mesmo após dez ou onze contatos por telefone. Uma tese da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) de 1994 localizou 72% dos pós-graduados e apenas 40% deles responderam às questões apresentadas15, enquanto Tosta de Souza5, Silva e cols.16, como em nosso caso, encontrou uma maioria de pós-graduados originários de sua própria instituição5,16. Encontramos apenas 30 e 25% de alunos de mestrado e doutorado, respectivamente, que vieram das regiões Norte-Nordeste-Centro-Oeste e 50% deles retornaram à sua universidade de origem.

Silva e cols.16 observaram uma idade média na admissão do curso de mestrado em dermatologia da Universidade Federal de Minas Gerais de 30,3 anos e Beiguelman17 na Unicamp reportou que 70% dos alunos no programa de doutorado tinham mais de 30 anos, enquanto nossa amostra não mostrou uma diferença significante em relação à idade na admissão do curso de mestrado ou doutorado - 32,5 x 34,8 anos, respectivamente. Entretanto, mais significante foi nosso achado de que, em média, uma tese de mestrado levava 39 meses até a homologação, enquanto uma tese de doutorado levava 43 meses e que a taxa de publicação de teses também era significantemente diferente (36,5 x 61,9%). Younes, Deheinzelin e Birolini7 reportaram que o prazo para a publicação da tese era de até 5 anos e até mais para revistas internacionais, uma situação que melhorou consideravelmente nos últimos anos através das exigências da CAPES e de cada programa específico, de forma que atualmente, muitos programas, como o nosso, somente aceitam a apresentação da tese após a sua publicação.

De qualquer maneira, em nossa análise, as publicações de tese pós-mestrado e pós-doutorado foram feitas por 70,2% dos pós-graduados com título de mestrado e 90,6% daqueles com título de doutorado; as apresentações em eventos internacionais ocorreram em 31 e 62% dos casos de mestrado e doutorado, respectivamente, enquanto as atividades de ensino também aumentaram de forma significante. Então, parece que ambos os pontos fundamentais do programa stricto senso estão sendo alcançados, mas os cursos (especialmente o de mestrado) ainda leva mais tempo do que deveria e o programa de doutorado é seguido de forma mais rígida de acordo com as definições propostas para um curso de pós-graduação. Em geral, tem havido poucas tentativas de comparar dados de cursos de mestrado e doutorado no programa de pós-graduação brasileiro da CAPES.

Observamos em nossa amostra um fator de impacto médio de 1,3 para a tese de mestrado publicada, enquanto que para o doutorado, esse fator de impacto era de 3,1. Considerando esses dados sob outro ponto de vista, esses resultados são corroborados pela classificação de Qualis A de 62,5% no mestrado e 87,5% no doutorado. Marchini e Caramelli18 relataram um fator de impacto médio de 2,1 para um período de 10 anos em relação a teses de doutorado publicadas no Instituto do Coração (InCor), São Paulo, ao avaliar 268 pós-graduados com 195 publicações18. A frequência de estudos publicados aumentou após ambos os nossos programas, mas não tivemos a chance de realizar uma busca individual ou explorar citações dos trabalhos publicados, já que o período de tempo envolvido era de quase 30 anos, e portanto, as comparações não seriam significantes. Nenhuma variável significante resultou da análise multivariada ao comparar teses publicadas e não-publicadas, mas provavelmente é muito cedo para detectar a aparente melhora, recentemente causada pelos critérios mais rígidos da CAPES e dos programas individuais. Havia um total de 5,4% de alunos estrangeiros fazendo doutorado em nossa instituição e 5 de nossos pós-graduados moram permanentemente no exterior, e outros 5 estão fazendo o pós-doutorado na Europa ou nos Estados Unidos.

Há várias áreas de debate em relação aos programas de mestrado e doutorado, incluindo se programas mais sofisticados não deveriam aceitar alunos para um programa de mestrado. Acreditamos que ambos têm seu lugar, dependendo do perfil e da finalidade do programa sendo desenvolvido. Há poucas informações comparando os dois programas e não temos a intenção de fazer nenhum julgamento, devido às diferentes características inerentes a cada grupo, mas é claro que algumas diferenças se destacam. O grupo de doutorado era mais homogêneo, enquanto o grupo de mestrado, mesmo com melhoras posteriores, levou quase tanto tempo quanto o do doutorado para completar o curso, pelo menos em nosso programa. Como esperado, as apresentações internacionais, taxa de publicações, fator de impacto e classificação Qualis A favoreceram o grupo do doutorado.

Atualmente temos pós-graduados de nossa instituição em 17 estados da federação e eles gradualmente aumentam sua produção em locais como Belém, Cuiabá e Maceió, mas eles demonstraram que leva de 5 a 10 anos para que essas novas áreas gerem uma produção significante e isto é algo a ser considerado, pois uma avaliação muito precoce não irá detectar quaisquer sinais de mudança gerada pelo novo grupo. Além disso, é evidente em nossos dados que apenas 50% das pessoas de outros estados fora de São Paulo retornam à sua universidade de origem e que quase 50% dos pós-graduados não recebem nenhuma ajuda financeira de qualquer agência; nossos dados são, de forma geral, confirmados por outros dados disponíveis sobre programas de pós-graduação em outras instituições de ponta em nosso país.

Isso é preocupante, pois podemos estar perdendo importante contribuições de pessoas que desistem de seus programas de pós-graduação no meio do caminho devido à dificuldades financeiras e como as publicações geralmente ocorrem a partir de poucas instituições, a situação pode ser ainda pior. Por outro lado, ela enfatiza a necessidade de estabelecer programas adequados de pós-doutorado, a fim de acomodar a maior parte dos doutores que deixam os programas de doutorado no país14-17.

Finalmente, vemos, com grande satisfação, que um total de 15 professores associados e 12 titulares saíram desse programa, um número equivalente à informação disponível anteriormente na área de cardiologia14. A taxa de publicação pelos nossos antigos alunos de pós-graduação em anos recentes é agora maior que 90% e com medidas tais como a homologação da tese somente após sua publicação em um jornal científico indexado pela ISI, a produção científica brasileira continuará a crescer com qualidade.

Além disso, dificuldades tais como bolsas de pós-doutorado e aquelas mencionadas por 20% de nossa amostra em relação aos problemas de importação de materiais para pesquisa estão sendo resolvidos pelo Governo Federal. Fica também claro, mesmo para a imprensa leiga, que melhores qualificações implica em maiores chances de conseguir um bom emprego e melhores salários, com os alunos egressos de programas de pós-graduação ocupando o topo do mercado de trabalho19.

 

Conclusões

O programa brasileiro de pós-graduação stricto senso é um programa dinâmico, que melhora a cada dia e que está em desenvolvimento, com obrigações e regras claras e parece estar claramente relacionado ao excelente desempenho do Brasil em relação a publicações indexadas. A avaliação de seus alunos e ex-alunos é um passo à frente na melhora da qualidade do programa. Nossa avaliação parece indicar que, embora haja áreas que claramente precisam ser melhoradas, especialmente nos programas de mestrado, os resultados em geral parecem ser bastante satisfatórios, com boas taxas de publicação e excelente desempenho acadêmico, como demonstrado pelo número de professores associados e titulares que o programa tem gerado.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Luana Brock pela Unifesp.

 

Referências

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Correspondência:
Antônio Carlos Carvalho
Av. Jandira 731 ap 23 - Moema
04080-004 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: acarloscc@cardiol.br, carvalho.cardiocir@terra.com.br

Artigo recebido em 19/03/09; revisado recebido em 26/05/09; aceito em 01/07/09.

 

 

* Krieger EM. Apresentação oral. I Forum de Qualidade em Assistência Médica. São Paulo: SBC; 2008.

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