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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.5 São Paulo May 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010000500023 

RELATO DE CASO

 

Posicionamento ectópico de eletrodo de marcapasso

 

 

Gildo Mota; Juliana Prazeres; Nelmacy Freitas; Luiz Magalhães; Francisco Reis; Roque Aras

Hospital Universitário Professor Edgard Santos - Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

Apresentamos o caso de um paciente portador da forma cardíaca da doença de Chagas com disfunção ventricular esquerda e bloqueio atrioventricular de 2º grau Mobitz II, associados a vários episódios de síncope. Foi submetido a implante de marcapasso artificial definitivo dupla câmara. Após um ano do implante foi diagnosticado deslocamento de eletrodo atrial, sendo submetido a reimplante de eletrodo atrial. Após dois anos do primeiro procedimento cirúrgico, apresentava dispneia aos grandes esforços. Durante a avaliação, foi solicitado ecocardiograma, que detectou a presença de corpo estranho de características metálicas em câmaras cardíacas esquerdas, consistente com eletrodo de marcapasso ectópico.

Palavras-chave: Doença de Chagas, disfunção ventricular esquerda, marca-passo artificial, eletrodos implantados.


 

 

Introdução

O implante de marcapasso transvenoso definitivo é um procedimento cirúrgico invasivo, de alta eficácia e com poucas complicações. Dentre as complicações mais frequentes, encontram-se fratura de eletrodo, infecção cirúrgica, trombose de grandes vasos, deslocamento de eletrodo e estimulação diafragmática. As complicações agudas mecânicas do implante de marcapasso são mais raras, mais graves e potencialmente fatais, como hemotórax, hemopericárdio, pneumotórax e perfuração cardíaca1.

O posicionamento de eletrodo em câmaras cardíacas esquerdas ocorre acidentalmente em raros casos de implante de marcapasso e pode ser fonte de complicações cardioembólicas ocasionadas pela presença de corpo estranho na circulação sistêmica2-5. O ecocardiograma é um método complementar acessível e importante para visibilização das estruturas intracardíacas para o diagnóstico de posicionamento de eletrodo de marcapasso6-7.

Descrevemos a seguir um caso de posicionamento ectópico acidental de eletrodo de marcapasso em ventrículo esquerdo, diagnosticado através da ecocardiografia.

 

Relato do Caso

J.T.S., do sexo masculino, de 38 anos, portador da forma cardíaca da doença de Chagas, apresentava disfunção ventricular esquerda e bloqueio atrioventricular de 2° grau Mobitz II, associados a vários episódios de síncope. Foi submetido a implante de marcapasso artificial definitivo dupla câmara três anos antes da avaliação atual. Evoluiu após o implante sem intercorrências por um ano, quando passou a cursar com sintomas decorrentes da anormal estimulação elétrica diafragmática, sendo diagnosticado deslocamento de eletrodo atrial. Foi submetido à época, a reimplante de eletrodo atrial, sem intercorrências.

Após dois anos do primeiro procedimento cirúrgico, foi atendido no ambulatório do HUPES (Hospital Universitário Professor Edgard Santos) com queixas de dispneia aos grandes esforços, sendo solicitados exames complementares e ecocardiograma para avaliação de função ventricular esquerda.

Durante o exame, foi detectada a presença de corpo estranho de características típicas metálicas em câmaras cardíacas esquerdas no corte inicial paraesternal de eixo longo. Outras projeções ecocardiográficas confirmaram os achados iniciais, demonstrando a presença de estrutura metálica linear que se estendia do átrio direito, atravessava o septo interatrial e a válvula mitral e seguia até a porção basal da parede lateral no ventrículo esquerdo, consistente com eletrodo de marcapasso ectópico (Figura 1).

 

 

No eletrocardiograma, o paciente apresentava ritmo de marcapasso bicameral com captura adequada e padrão de bloqueio de ramo direito, corroborando a estimulação ventricular esquerda artificial (Figura 2).

Realizada radiografia de tórax, foi confirmada a localização não usual do eletrodo ventricular, em topografia de ventrículo esquerdo (Figura 2).

Diante da evolução favorável ao longo de três anos com o eletrodo localizado em circulação sistêmica e os riscos de trauma em parede ventricular e válvula mitral, além do risco de tromboembolismo durante o procedimento de retirada do eletrodo, optou-se por conduta conservadora, associada à terapia de anticoagulação oral crônica devido ao risco aumentado para embolia determinado pela presença de corpo estranho na circulação sistêmica.

 

Discussão

A posição de eletrodo de marcapasso na circulação sistêmica é uma complicação conhecida, porém pouco relatada na literatura. A maioria dos casos descritos está relacionada à presença de anomalias congênitas do septo interatrial, como forame oval patente e comunicação interatrial7.

O manejo deste tipo de complicação não é bem estabelecido, porém a maioria dos relatos da literatura são favoráveis à retirada do eletrodo em casos de diagnóstico precoce, na presença de eventos tromboembólicos prévios ou durante cirurgia cardíaca realizada por outra indicação7-10.

Nos casos em que o diagnóstico se faz tardiamente, como foi o caso do paciente em questão, ou quando o paciente recusa nova intervenção cirúrgica, a indicação recai sobre a anticoagulação definitiva, como foi optado na condução deste paciente7.

Outro fator importante na avaliação dos pacientes pós-implante de marcapasso é a atenção que deve ser dada à análise de exames complementares realizados após o procedimento. A presença de morfologia de bloqueio de ramo direito no eletrocardiograma pode estar presente em alguns casos mesmo com o eletrodo posicionado em ventrículo direito, mas a maior probabilidade é do implante ectópico do eletrodo, devendo-se, portanto, prosseguir com a investigação complementar5-7. Deve ser ainda avaliada a localização do eletrodo em radiografia de tórax de controle, que também é útil na avaliação do posicionamento de eletrodo.

Por fim, nos casos onde houver dúvidas quanto ao posicionamento dos eletrodos de marcapasso deve ser realizado o ecocardiograma transtorácico, que na maioria das vezes é esclarecedor ou o ecocardiograma transesofágico, nos raros casos onde a avaliação transtorácica não for conclusiva3,4,6.

 

Conclusão

A avaliação do posicionamento dos eletrodos de marcapasso deve ser feita precocemente através de exames acessíveis e de baixo custo como a radiografia do tórax e o ecocardiograma para que a correção de eletrodo seja realizada imediatamente, prevenindo a ocorrência de complicações precoces ou tardias.

Nos casos em que houver longo tempo decorrido entre o implante e o diagnóstico ou recusa do paciente na realização de nova intervenção cirúrgica, a anticoagulação oral definitiva poderá ser empregada como profilaxia de eventos tromboembólicos.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Gildo de Oliveira Mota
Rua Conselheiro Corrêa de Menezes, 266 apt 903 - Horto Florestal
40295-030 - Salvador, BA - Brasil
E-mail: gildomota@cardiol.br, gildomota@yahoo.com.br

Artigo recebido em 19/01/09; revisado recebido em 09/07/09; aceito em 27/10/09.

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