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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.6 São Paulo June 2010 Epub May 21, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000049 

ARTIGO ORIGINAL
EPIDEMIOLOGIA

 

Prevalência de obesidade abdominal em hipertensos cadastrados em uma Unidade de Saúde da Família

 

 

Edmarlon GirottoI; Selma Maffei de AndradeII; Marcos Aparecido Sarriá CabreraII

IUniversidade Norte do Paraná - UNOPAR
IIUniversidade Estadual de Londrina - UEL, PR - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A obesidade abdominal é importante fator de risco cardiovascular e, juntamente com as dislipidemias, a intolerância a glicose e a hipertensão arterial, compõe a síndrome metabólica.
OBJETIVO: Verificar a prevalência de obesidade abdominal e fatores associados em hipertensos.
MÉTODOS: Estudo transversal com hipertensos de 20 a 79 anos cadastrados em uma Unidade Saúde da Família do município de Londrina, Paraná. A obesidade abdominal foi identificada por meio da relação cintura-quadril (RCQ) e da circunferência abdominal (CA), conforme pontos de corte recomendados pela Organização Mundial de Saúde (RCQ > 1,0 e CA > 102 cm para homens, e RCQ > 0,85 e CA > 88 cm para mulheres).
RESULTADOS: Entre os 378 entrevistados, a prevalência de obesidade abdominal identificada pela RCQ foi de 65,3% nos adultos e 68,1% nos idosos, sendo de 87,9% no sexo feminino e de 30,2% no masculino (p < 0,001). Nas mulheres, a RCQ elevada esteve associada ao relato de colesterol aumentado, não realização de atividade física regular, ausência de trabalho remunerado e baixa escolaridade. Não houve associação de RCQ elevada com quaisquer variáveis no sexo masculino. A circunferência abdominal elevada esteve presente em 66,8% dos adultos e 64,3% dos idosos, também com diferenças entre os sexos (p < 0,001). A CA elevada mostrou-se associada, no sexo feminino, ao diabete e ao não tabagismo, e, entre homens, ao diabete e à não realização de atividade física regular.
CONCLUSÃO: Esses resultados mostram uma alta prevalência de obesidade abdominal, especialmente no sexo feminino, reforçando a necessidade de estratégias que promovam a diminuição da obesidade abdominal entre hipertensos.

Palavras-chave: Obesidade abdominal, prevalência, hipertensão, centros de saúde.


 

 

Introdução

A hipertensão arterial é um importante fator de risco para doenças cardiovasculares (DCV)1-3, sendo causa da admissão de um grande número de pacientes nos setores de urgência e emergência dos serviços hospitalares1,4. Os pacientes hipertensos requerem atenção especial no controle de algumas comorbidades5 e na identificação precoce dos demais fatores de risco cardiovasculares6, como diabete, sedentarismo, tabagismo e obesidade7.

Nesse contexto, destaca-se a obesidade abdominal, considerada danosa à saúde, pois está mais associada à morbimortalidade cardiovascular8. Recentemente, autores têm demonstrado a importância da obesidade abdominal como fator de risco cardiovascular, especialmente quando associada às dislipidemias, à intolerância a glicose e à hipertensão arterial, compondo a síndrome metabólica9,10.

Esse tipo de obesidade pode ser determinado por medidas antropométricas, ultrassonografia abdominal e ressonância magnética nuclear11. Apesar de a ultrassonografia e a tomografia serem medidas com maior acurácia na determinação da gordura abdominal12, as medidas antropométricas permitem uma maior aplicabilidade13,14, pois são de baixo custo e de fácil execução15,16. Além disso, apresentam boa correlação com os métodos de imagem, tornando possível sua utilização no contexto da atenção ambulatorial15,17.

Diante da necessidade de estudos que identifiquem a prevalência de obesidade abdominal em pessoas que já apresentam um fator relacionado à síndrome metabólica, isto é, a hipertensão arterial, e da importância de se identificar fatores associados a essa condição para fins de prevenção, este estudo teve como objetivo verificar a prevalência de obesidade abdominal e fatores associados em hipertensos.

 

Métodos

Trata-se de um estudo transversal, realizado entre janeiro e junho de 2007, com hipertensos cadastrados em uma Unidade Saúde da Família (USF) do município de Londrina, Paraná, Sul do Brasil. A população projetada do município para o ano de 2008 foi de 505.184 mil habitantes18, e a da área da USF, de aproximadamente seis mil habitantes19.

Foram estudados hipertensos na faixa etária de 20 a 79 anos, cadastrados em ao menos uma das fontes da informação da USF: programa Sistema de Cadastramento e Acompanhamento de Hipertensos e Diabéticos (Hiperdia), Sistema de Informações da Atenção Básica (Siab) ou fichas de aprazamento, utilizadas no Serviço para acompanhamento e agendamento de retornos dos hipertensos. A partir do cruzamento dessas fontes de informações, obteve-se um número de 695 hipertensos. Considerando um erro de 3,5%, nível de confiança de 95% e prevalência de 50%, determinou-se uma amostra de 442 indivíduos (incluída projeção de perdas ou exclusões de 20%).

A amostragem foi sistemática e aleatória, com ordenação prévia por sexo e faixa etária, para garantir proporcionalidade. Do total de amostrados, 52 foram excluídos, por mudança de endereço para área de outra USF (33), óbito (6), estar fora da faixa etária definida (1) e não possuir histórico de hipertensão (12).

Os dados foram coletados por meio de entrevistas nos domicílios dos selecionados em até cinco visitas, com obtenção de dados sociodemográficos e econômicos, hábitos de vida, doenças existentes e medidas antropométricas (circunferências da cintura e do quadril). A coleta de dados foi realizada por entrevistadores devidamente treinados e avaliados, em sessões teóricas e práticas. As medidas da cintura e quadril foram obtidas com fita métrica inextensível, com largura inferior a 1,0 cm e unidade mínima de 0,1 cm. Realizou-se previamente estudo piloto, buscando adequar o instrumento de coleta de dados à realidade dos entrevistados. Também se realizou re-entrevista com 10% da amostra final, com o intuito de avaliar a confiabilidade dos dados obtidos.

Para a tomada das medidas de cintura e quadril, o indivíduo manteve-se de pé, em posição ereta, com o mínimo de roupa possível. A medida da cintura ou circunferência abdominal foi feita numa linha média imaginária entre a crista ilíaca e a última costela, no nível da cicatriz umbilical, ao final do movimento expiratório. A circunferência do quadril foi medida na maior extensão das nádegas. Em ambas as medidas, a fita foi posicionada em posição horizontal, sem pressionar os tecidos moles20.

As variáveis dependentes analisadas foram relação cintura-quadril (RCQ) e circunferência abdominal (CA) aumentadas. A RCQ foi calculada a partir da circunferência abdominal dividida pela circunferência do quadril. Foram considerados indivíduos com obesidade abdominal aqueles com RCQ > 1,0 para homens e > 0,85 para mulheres. Para a CA foi utilizado o ponto de corte de > 102 cm para homens e de > 88 cm para mulheres15.

As variáveis independentes foram:

Faixa etária - dividida em duas, 20 a 59 anos (adultos) e 60 a 79 anos (idosos).

Escolaridade - até 3ª série (ensino fundamental, ou escolaridade baixa) e 4ª série ou mais.

Trabalho remunerado - considerado sim se o trabalho fosse formal ou informal; caso contrário, não.

Classificação econômica - baseou-se na proposta da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) por meio do Critério de Classificação Econômica Brasil (CCEB), que leva em conta o poder de compra das pessoas e famílias e a escolaridade do chefe da família21. Os entrevistados foram classificados em classes A, B ou C (melhores condições econômicas) e D ou E (piores condições econômicas).

Tabagismo - tabagismo atual (fuma atualmente ou parou de fumar há 12 meses ou menos) e nunca fumou ou ex-tabagista (sem histórico de tabagismo ou parou de fumar há mais de 12 meses).

Ingestão de bebidas alcoólicas - categorizada em: consumo regular (ingestão em pelos menos três dias na semana) e consumo irregular ou não ingestão (demais casos). Não foi avaliada a quantidade diária consumida.

Atividade física - considerou-se atividade física regular a realização de exercícios dinâmicos (caminhada, corrida, ciclismo, dança, natação) com uma frequência mínima de três vezes na semana, com duração mínima de 30 minutos cada sessão, conforme recomendações das V Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial6.

Comorbidades (autorreferidas) - foram considerados, se respondidas afirmativamente pelo entrevistado, diabete, colesterol elevado e doenças cardiovasculares (antecedentes de infarto e/ou acidente vascular cerebral).

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (UEL), sob o parecer 286/06. Os entrevistados foram orientados quanto aos objetivos da pesquisa e, após leitura, entendimento e assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, responderam às questões do instrumento de coleta de dados e tiveram as medidas verificadas.

Todos os formulários foram codificados, duplamente digitados em banco de dados criados no programa Epi Data 3.1 para Windows, e comparados nesse mesmo programa para a correção dos erros de digitação. A tabulação dos dados foi realizada com o uso do programa Epi Info, versão 3.3.2, inicialmente com a distribuição das frequências das variáveis e medidas de tendência central e variabilidade, seguida da verificação das associações entre as variáveis qualitativas utilizando o teste Qui-quadrado ou exato de Fisher, quando recomendado.

 

Resultados

Dos 390 hipertensos elegíveis, quatro não foram localizados, um recusou-se a participar da pesquisa e em sete não foi possível realizar as medidas de cintura e quadril. Ao final, foram estudados 378 indivíduos (96,9%), sendo 139 (36,8%) homens e 239 mulheres (63,2%), com idade média de 58,7 anos para ambos os sexos. Os adultos (193) apresentaram idade média de 49,2 anos ± 8,1, e os idosos (185), 68,6 anos ± 5,5.

Quanto ao estado civil, 63,3% eram casados; 49,5% tinham, no máximo, três anos de estudo; e 45,8% se enquadravam na classificação econômica D ou E. A distribuição das variáveis socioeconômicas, demográficas, estilo de vida e co-morbidades referidas, por sexo, está apresentada na tabela 1. Nota-se, nessa tabela, baixa frequência de atividade física regular entre os hipertensos estudados (20,1%), porém mais alta entre homens (26,6%) do que entre mulheres (16,3%) - p < 0,05.

A média da relação cintura-quadril foi 0,96 ± 0,07 para os homens e 0,94 ± 0,08 para as mulheres. A circunferência abdominal teve uma média de 98,4 cm ± 11,3 e 99,5 cm ± 12,9 para homens e mulheres, respectivamente.

A prevalência de obesidade abdominal identificada pela RCQ e CA foi maior no sexo feminino (87,9% e 82,8%, respectivamente; p < 0,001) do que no masculino (30,2% e 36,0%, respectivamente). Comparando as faixas etárias, as prevalências de RCQ e CA aumentadas não mostraram diferenças: 65,3% e 68,1% (RCQ) e 66,8% e 64,3% (CA) para adultos e idosos, respectivamente, considerando ambos os sexos.

As prevalências de RCQ e CA elevadas por sexo e idade podem ser verificadas na figura 1. Observam-se semelhanças entre as prevalências de obesidade abdominal para as duas medidas no sexo feminino e em homens idosos, mas em indivíduos homens adultos nota-se diferença entre as prevalências identificadas pela RCQ e CA: 24,6% e 40,0%, respectivamente.

Na tabela 2 verificam-se as prevalências de obesidade abdominal medidas pela RCQ e CA no sexo masculino. Percebe-se que não houve diferença significativa nas prevalências de obesidade abdominal medida pela RCQ para as variáveis analisadas. Quanto à circunferência abdominal, homens com diabete tiveram maior prevalência de CA aumentada, enquanto aqueles que praticam atividade física regular apresentaram menor prevalência (16,0%).

 

 

No sexo feminino, observa-se maior prevalência de obesidade abdominal (medida pela RCQ) em mulheres com colesterol elevado (94,7%) e que estudaram até a 3ª série (94,6%). Mulheres que realizam atividade física regular e têm trabalho remunerado apresentaram menores prevalências de RCQ aumentada. Com relação à obesidade abdominal medida pela CA, mulheres com diabete (92,6%) e que nunca fumaram (70,3%) apresentaram maiores prevalências de CA elevada (tabela 3).

 

Discussão

Este estudo identificou uma alta prevalência de obesidade abdominal nessa população de hipertensos, medida tanto pela RCQ como pela CA.

Tais resultados foram obtidos de hipertensos cadastrados em uma Unidade de Saúde da Família, e sua seleção baseou-se na análise de três fontes de informação (Hiperdia, Siab e aprazamento), garantindo maior representatividade da população de hipertensos da área. Além disso, a população investigada é composta em sua grande parte por indivíduos de baixo nível econômico e escolaridade, mostrando-se semelhante a grande parte da sociedade brasileira, especialmente em regiões periféricas22.

Nota-se, na caracterização da população, baixa frequência de realização de atividade física de forma regular (20,1%). Considerando que essa população é portadora de hipertensão, a prática regular de atividade física contribuiria para o controle dos níveis pressóricos23, bem como para o da obesidade6. Contudo, estudos diversos identificam o sedentarismo como altamente prevalente em nossa sociedade, tanto em indivíduos portadores como não portadores de hipertensão arterial3,6,24,25.

É importante destacar que as médias da circunferência abdominal e da relação cintura-quadril identificadas foram elevadas. As médias de CA (98,4 e 99,5 cm para homens e mulheres, respectivamente) estão acima de valores encontrados em outros estudos26-29. Quanto às médias de RCQ (0,96 para homens e 0,94 para mulheres), estudo realizado com hipertensos acima dos 45 anos identificou valor semelhante para o sexo masculino (0,97), mas inferior para o feminino (0,84)30. Em outros estudos27-29, as médias de RCQ, tanto entre homens como entre mulheres, mostraram-se inferiores às encontradas no presente estudo.

É interessante observar que Picon e cols.31 identificaram médias de RCQ de 0,93 e 0,98 para mulheres e homens, respectivamente, e médias de CA de 96,9 cm para mulheres e 99,4 cm para homens. Esses são resultados mais próximos aos deste estudo. Tais semelhanças podem estar relacionadas ao fato de que ambos os estudos investigaram pessoas já portadoras de um fator de risco para a síndrome metabólica: este a hipertensão; aquele, o diabete.

Ademais, a prevalência de obesidade abdominal, identificada tanto pela RCQ como pela CA, mostrou-se mais elevada no sexo feminino. Essa maior prevalência entre mulheres também foi identificada em trabalho realizado com funcionários de uma indústria em Jaraguá do Sul (SC), no qual a circunferência da cintura elevada foi verificada em 33% da população, sendo em 49% das mulheres e em 26% dos homens8. Outros estudos também verificaram maior prevalência de obesidade abdominal entre mulheres27,30,32. Todavia, na presente investigação, a prevalência de obesidade abdominal no sexo feminino foi muito superior à observada nos estudos citados, sugerindo que essa população está mais exposta a riscos cardiovasculares.

Neste estudo, tanto o sexo masculino como o feminino tiveram a CA elevada associada à presença de diabete, o que também foi identificado por Cabrera e Jacob Filho33 em pacientes com 60 anos ou mais.

Também foi identificada, entre homens, associação da CA elevada com a não realização de atividade física regular, semelhante ao encontrado por Olinto e cols.32. Já estudo realizado com pacientes de 20 a 69 anos encontrou média de CA maior naqueles que não praticavam atividade física ou que o faziam três vezes ou mais na semana, enquanto aqueles que praticavam num intervalo menor que três vezes na semana tinham menor média da CA26, o que pode ser reflexo da causalidade reversa, limitação inerente de estudos transversais26.

Destaca-se que as mulheres que realizam atividade física apresentaram menor prevalência de RCQ aumentada. Estudo realizado com mulheres de 55 a 69 anos mostrou que a relação cintura-quadril esteve associada de forma inversa com a prática de atividade física34. Mudanças no estilo de vida, como o aumento da atividade física, levando à adoção de um estilo de vida mais saudável, devem ser estimuladas por todo profissional de saúde, tanto para a prevenção da hipertensão arterial29, como para o controle da obesidade.

A associação da obesidade abdominal identificada pela RCQ com o colesterol elevado autorreferido nas mulheres concorda com estudo realizado por Cabrera e Jacob Filho33, ainda que esse estudo tenha sido realizado apenas com idosos. Investigação realizada com voluntários no município de Viçosa (MG) encontrou maiores proporções de mulheres com CA aumentada entre aquelas com colesterol total elevado35.

Em síntese, entre mulheres, a RCQ elevada mostrou-se mais frequentemente associada a outros fatores de risco cardiovasculares ou socioeconômicos (colesterol elevado, inatividade física, baixa escolaridade e trabalho remunerado) em comparação à CA aumentada (associação, apenas, com diabete e tabagismo). Entre homens, a RCQ não se associou a qualquer dos fatores estudados, enquanto a CA elevada foi sensível para identificar presença simultânea de diabete e inatividade física. Esses resultados podem indicar que há diferenças entre essas duas medidas antropométricas, para homens e mulheres, na identificação de outros riscos à saúde, particularmente em populações mais velhas, pelas alterações senescentes da composição corporal e pelas diferenças de acúmulo de gordura abdominal entre os sexos36,37. Fuchs e cols.38 destacam ainda que, embora a medida da circunferência abdominal apresente a vantagem de ser mais simples, seu ajustamento pela altura ou pela circunferência do quadril aumenta o poder de predição de incidência de hipertensão arterial, o que também pode ocorrer com outras condições mórbidas e outras situações de risco à saúde.

Apesar de muitos estudos brasileiros ainda utilizarem os pontos de corte para RCQ e CA recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), como no presente estudo, há ainda dúvidas sobre sua utilização para a população brasileira16,39, especialmente em mulheres acima de 45 anos40. Publicação recente41, com resultados de uma investigação realizada em Porto Alegre-RS, identificou os pontos de cortes da CA de 87 cm e 80 cm para homens e mulheres, respectivamente, como os mais adequados para a predição da hipertensão arterial, em um tempo médio de seguimento de 5,5 anos. No entanto, essa pesquisa trabalhou com indivíduos que apresentaram idade média inferior à apresentada pelos hipertensos estudados no presente trabalho.

Os valores antropométricos de gordura abdominal, provavelmente, apresentam diferenças em relação à idade. Sabe-se que, com o envelhecimento, há um esperado aumento senescente do tecido gorduroso abdominal. Assim, a elevada prevalência de obesidade abdominal identificada na presente investigação poderia ser parcialmente justificada pela alta idade dos indivíduos amostrados (idade média = 58,7 anos). Entretanto, não se pode desprezar a elevada prevalência desse tipo de obesidade, especialmente entre as mulheres.

Ressalte-se que, neste estudo, foi realizada apenas uma medida da cintura e quadril, e as demais informações colhidas foram autorreferidas, podendo subestimar ou superestimar a prevalência de algumas situações42. Para reduzir potenciais vieses, houve exaustivo treinamento dos entrevistadores e teste piloto previamente à realização do estudo, bem como re-entrevista de 10% da amostra e dupla digitação dos dados.

A obesidade abdominal está associada a doença aterosclerótica10, a qual tem como complicações os eventos coronarianos agudos e o aneurisma cerebral. Dessa forma, os altos níveis de obesidade abdominal identificados em pacientes portadores de hipertensão arterial e, consequentemente, com um fator de risco para síndrome metabólica já instalado, justificam a utilização de estratégias visando a uma maior atenção a esses pacientes, bem como a adoção de atividades de promoção à saúde a esse grupo populacional.

 

Conclusão

Os resultados do presente estudo mostram uma alta prevalência de obesidade abdominal, especialmente no sexo feminino, reforçando a necessidade de estratégias que promovam a diminuição da obesidade abdominal entre hipertensos. Para isso, a identificação da obesidade abdominal, por meio dessas medidas simples e de baixo custo, deveria fazer parte das ações rotineiras de atenção básica à saúde dos hipertensos.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Edmarlon Girotto pela Universidade Estadual de Londrina - UEL.

 

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Correspondência:
Edmarlon Girotto
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Artigo recebido 02/05/09; revisado recebido em 18/08/09; aceito em 09/10/09.