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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.94 no.6 São Paulo June 2010  Epub May 28, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000054 

ARTIGO ORIGINAL
ERGOESPIROMETRIA

 

Equações para a previsão da potência aeróbia (VO2) de jovens adultos brasileiros

 

 

Paula MagraniI, II; Fernando Augusto Monteiro Saboia PompeuI, II

IUniversidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ - Brasil
IIHospital dos Servidores do Estado, Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O VO2 pode ser previsto, com base em parâmetros antropométricos e fisiológicos, para determinadas populações.
OBJETIVO: Propor modelos preditivos do VO2 submáximo e máximo para jovens adultos brasileiros.
MÉTODOS: Os 137 voluntários (92 homens) foram submetidos ao teste progressivo de esforço máximo (GXT) no ciclo ergômetro (Monark®, Br). Medidas de trocas gasosas e ventilatórias foram realizadas em circuito aberto (Aerosport® TEEM 100, EUA). Em outro grupo, 13 voluntários foram submetidos ao GXT e a um teste de onda quadrada (SWT), para avaliar a validade externa das fórmulas do ACSM, de Neder et al e do nomograma de Åstrand-Ryhming. Adotou-se o delineamento experimental de validação cruzada e o nível de significância de p < 0,05.
RESULTADOS: Para homens durante esforços submáximos deduziu-se um modelo matemático, com base na carga de trabalho, massa corporal e idade, que explicou 89% da variação do VO2 com o EPE (erro padrão da estimativa) = 0,33 l.min-1. Para a carga máxima do grupo masculino outro modelo, com as mesmas variáveis, explicou 71% da variação VO2 com EPE = 0,40 l.min-1. Para as mulheres foi possível explicar 93% da variação VO2 com EPE = 0,17 l.min-1, no esforço submáximo e máximo, com apenas uma equação que empregava as mesmas variáveis independentes.
CONCLUSÃO: Os modelos derivados no presente estudo demonstraram ser acurados para a previsão do VO2 submáximo e máximo em jovens adultos brasileiros.

Palavras-chave: Ventilação voluntária máxima, esforço físico, exercício, teste de esforço.


 

 

Introdução

A tolerância ao exercício é um importante preditor da saúde cardiovascular, pulmonar, metabólica e músculo-articular. A capacidade dos músculos de consumir oxigênio durante o esforço é também um índice de aptidão física1. Para mensuração desse parâmetro (VO2) geralmente realiza-se um teste de esforço máximo, contínuo e escalonado (GXT) na esteira ou no ciclo ergômetro2. No Brasil utiliza-se em maior escala a esteira ergométrica, porém muitos laboratórios também utilizam o ciclo ergômetro. Esse equipamento apresenta vantagem no caso de lesão ortopédica e proporciona poucos artefatos no eletrocardiograma e na medida de pressão arterial. O ciclo ergômetro mecânico é também vantajoso pelo menor custo, peso e por não necessitar de eletricidade3.

A potência aeróbia (VO2) é uma medida prioritária no teste ergométrico por sua estreita correspondência com o débito cardíaco, pelo princípio de Fick, e por sua aplicação na calorimetria indireta1,4. A calorimetria indireta é um método não invasivo utilizado para a medição do VO2 através de um ergoespirômetro5. O acesso pouco frequente e o alto custo da avaliação ergoespirométrica, no entanto, fazem com que os métodos preditivos sejam mais utilizados que a ergoespirometria na avaliação da capacidade funcional6. Consequentemente foram propostas várias equações para estimar o consumo de oxigênio, máximo e/ou submáximo, baseadas em variáveis morfofuncionais facilmente mensuráveis, tais como: massa corporal, idade, gênero, estatura, percepção de esforço, tempo da caminhada, tempo da corrida e carga em watt1,7-15. Essas equações podem ser usadas para determinar a intensidade do exercício. Esses métodos, no entanto, apresentam consideráveis erros (15-20%)1, que são incrementados de forma imprevisível quando aplicados em populações diferentes daquela utilizada para desenvolvê-los. Até o presente momento, as equações geralmente utilizadas neste país provêm de populações com características antropométricas, cardiopulmonares e biomecânicas diferentes da brasileira.

Com a finalidade de melhorar a predição do consumo de oxigênio, para a nossa população, dois estudos foram realizados. O objetivo do estudo 1 foi desenvolver equações para a previsão do VO2 no GXT, em intensidades submáximas e/ou máximas, com a mesma ou superior validade externa das equações desenvolvidas por Storer e cols.15. O estudo 2 teve o objetivo de confrontar a validade externa das equações aqui desenvolvidas com as previsões obtidas pelo ACSM8 , Neder e cols.14 e Åstrand-Ryhming16.

 

Métodos

Estudo 1 - Proposta de modelo preditivo do VO2

Foram sujeitos deste estudo 137 voluntários adultos aparentemente saudáveis, não tabagistas e não atletas. Os sujeitos foram ordenados através da massa corporal e divididos em dois grupos, por amostragem aleatória sistemática. Setenta e sete homens (24 ± 5 anos, 76,6 ± 10,9 kg, 178,4 ± 6,8 cm, VO2 = 3,68 ± 0,74 l.min-1, Wmáx = 271 ± 57 watts e LAn = 1,63 ± 0,31) e trinta mulheres (25 ± 6 anos, 58,4 ± 6,9 kg, 162,7 ± 7,1 cm, VO2 = 2,29 ± 0,48 l.min-1 e Wmáx = 184 ± 39 watts e LAn = 1,13 ± 0,22) foram sorteados para o grupo de validade interna (VI), e quinze homens (27 ± 7 anos, 75,6 ± 9,3 kg, 176,9 ± 6,7 cm, VO2 = 3,92 ± 0,70 l.min-1, Wmáx = 273 ± 44 watts e LAn = 1,67 ± 0,34) e quinze mulheres (25 ± 6 anos, 59,3 ± 7,9 kg, 161,9 ± 8,1 cm, VO2 = 2,22 ± 0.55 l.min-1, Wmáx = 182 ± 35 watts e LAn = 1,08 ± 0,23) formaram o grupo de validade externa (VE). Antes da realização dos testes, os voluntários preencheram um Termo de Consentimento e Esclarecimento. O protocolo experimental deste ensaio foi aprovado pela Comissão de Ética para Estudos com Seres Humanos da instituição a que pertence o nosso laboratório. Recomendou-se, para o dia prévio ao exame, a abstinência de atividades físicas extenuantes (> 5 METs) e a manutenção da dieta mista. Recomendou-se, também, evitar cafeína e alimentos nas três horas antecedentes ao esforço.

Protocolo de teste

Empregou-se o protocolo escalonado contínuo e máximo17 (GXT), constituído do repouso inicial por seis minutos, sentado sobre o ciclo ergômetro (Monark®, Brasil), seguido pelo aquecimento de quatro minutos, pedalando sem carga, e pela etapa progressiva, com incrementos de 10%VO2máx por min18. A carga máxima foi estimada por parâmetros antropométricos19. A fase escalonada teve duração máxima ocorrendo entre 8 e 12 minutos e a cadência do pedal não foi alterada durante o esforço (aprox. 1,23 Hz). O teste que não foi interrompido por fadiga na faixa de tempo estabelecida foi descartado.

As variáveis de trocas gasosas e ventilatórias foram computadas a cada 20 segundos e medidas por um analisador metabólico (Aerosport® TEEM 100, EUA) com pneumotacógrafo (Hans Rudolph®, EUA). A frequência cardíaca (FC) foi medida por um cardiotacômetro (Polar® Vantage NV, Finlândia) a cada cinco segundos.

Os procedimentos de calibragem dos equipamentos foram feitos previamente à realização de cada teste. Todos os testes foram realizados no mesmo ciclo ergômetro e a cadência do pedal controlada por meio de um metrônomo audiovisual. Calibrou-se o ergoespirômetro através de uma mistura certificada de gases (AGA®, Brasil) contendo 17,01% de oxigênio, 5,00 % de dióxido de carbono e balanceada com nitrogênio. O fluxo foi calibrado através de uma seringa de três litros (Hans Rudolph®, EUA) e o ciclo ergômetro por meio de um lastro de 3kg.

Os testes foram considerados máximos quando observados pelo menos três dos seguintes critérios, conforme Howley e cols.4: platô no VO2 (aumento < 150ml.min-¹ ou 2 ml.kg-¹.min-¹), RER (respiratory exchange ratio) > 1,15, FCmáx > 90% da prevista pela idade (220 - idade), índice de percepção de esforço > 18, e fadiga voluntária máxima com incapacidade de manutenção do ritmo preestabelecido. O VO2máx foi determinado como o valor mais alto obtido durante o esforço máximo. No presente estudo, a carga máxima foi definida como aquela observada no VO2máx. O limiar anaeróbio (LAn) foi determinado a partir do método V-slope20, determinando-se o ponto de inflexão na curva VO2 x VO221. As medições referidas foram feitas por dois observadores independentes e o LAn foi a média das duas observações.

Estudo 2 - Validade externa dos modelos do ACSM8, Neder e cols.14 e de Åstrand-Ryhming16 para previsão do VO2

Participaram do segundo estudo 13 voluntários adultos, oito homens (24 ± 3 anos, 81,5 ± 13,6 kg, 181,9 ± 5,6 cm) e cinco mulheres (22 ± 3 anos, 63,2 ± 11,7 kg, 163,9 ± 2,2 cm), aparentemente saudáveis, não tabagistas e não atletas.

Protocolo de teste

Seguindo os mesmos procedimentos de calibragem e controle usados no estudo 1, os sujeitos foram submetidos ao GXT e a um teste de onda quadrada1 (SWT), entremeados pelo período de 1 a 14 dias. O SWT foi composto por duas cargas, sendo a primeira submáxima (SWTsub) e a segunda máxima (SWTmax). Os indivíduos pedalaram por 6 minutos com a carga submáxima e a média da FC medida nos 2 últimos minutos foi utilizada para estimar o VO2máx através do nomograma de Åstrand-Ryhming16. Após descansar por 10 minutos, sentado sobre o ciclo ergômetro e conectado ao ergoespirômetro, iniciou-se a segunda carga com 110% a 115% da carga estimada para o VO2máx. A última carga foi manipulada durante o esforço para gerar exaustão entre dois e três minutos.

Análise estatística

O tratamento estatístico foi realizado por meio dos aplicativos Statistical Package for the Social Sciences® (SPSS, EUA) e Microsoft Excel® para Windows XP® (EUA). Empregou-se a estatística descritiva com a média ± desvio padrão (DP). Derivou-se para o grupo VI equações de regressão para a predição do VO2 em diversas intensidades do esforço. A validade externa das equações derivadas foi testada, em validação cruzada, aplicando-as no grupo VE. Os valores previstos e medidos foram confrontados por meio do teste t pareado. A validade externa das equações de Storer e cols.15 para homens e mulheres (03M e 03F, respectivamente), propostas para o mesmo protocolo GXT, foram analisadas no grupo VE através da ANOVA two-way, e teste post-hoc de Tukey-HSD. Com os valores máximos obtidos do grupo VI foi derivada também uma equação de regressão específica para a previsão do VO2máx para o grupo masculino. A validade externa dessa equação foi testada no grupo VE, tendo os valores previstos e medidos confrontados por meio da ANOVA two-way e teste post-hoc de Tukey-HSD, juntamente com os valores máximos previstos para o mesmo grupo pela equação de Storer e cols.15.

Os limites de concordância de Bland e Altman22 foram empregados entre os resultados medidos e calculados. O erro da predição também foi observado por meio do erro técnico da medida (s = D.P.dif ÷Ö2) e do coeficiente de variação (CV).

Os valores medidos no GXT e no SWT foram comparados, por meio da ANOVA two-way e teste post-hoc de Tukey-HSD, com o VO2máx estimado através do nomograma de Åstrand-Ryhming16 utilizando a carga de trabalho (06M-NC e 06F-NC) e utilizando o valor de VO2 medido (06M-NV e 06F-NV). As estimativas do nomograma de Åstrand-Ryhming16 corrigidas pela idade através das equações propostas por Siconolfi e cols.23 (07M e 07F) também foram confrontadas com os valores medidos. A acurácia do VO2máx e do VO2 estimados pelas equações recentes (05M e 05F) e antigas (04M e 04F) propostas pelo ACSM8 foi checada. O modelo de Neder e cols.14 (08M e 08F), para a população Brasileira, foi confrontado apenas com os valores medidos no SWT. O nível de significância adotado para todos os teste estatísticos foi < 0,05.

 

Resultados

Os valores submáximos medidos do VO2 e Watt para o grupo VE foram 2,01 (±1,11) l.min-1 e 273 (±44) watts para os homens e 1,25 (±0,63) l.min-1 e 182 (±35) watts para as mulheres. A equação para a predição do consumo de oxigênio derivada para o grupo masculino foi:

Equação 01M

VO2 = -0,131 + (0,01103 x Watt) + (0,007786 x Massa Corporal) - (0,00617 x Idade)

R2 = 0,89 e EPE = 0,33 l.min-1

Para o grupo feminino foi:

Equação 01F

VO2 = -0,461 + (0,01043 x Watt) + (0,007096 x Massa Corporal) + (0,01006 x Idade)

R2 = 0,93 e EPE = 0,17 l.min-1

Sendo: R2 - coeficiente de determinação; EPE - erro padrão da estimativa.

Os resultados das predições por meio das equações 01M, 01F e 03F para os valores submáximos não diferiram significativamente dos valores medidos no grupo VE. A diferença significativa entre os valores submáximos medidos e preditos foi detectada para a equação 03M (p = 0,02). No pico do esforço, as equações 01F e 03F também não apresentaram diferença significativa entre os valores medidos e preditos. Já as equações 01M e 03M, quando utilizadas para a predição do VO2máx, apresentaram diferenças significativas (p = 0,001 e p = 0,04, respectivamente). A validade externa das equações 01M, 03M, 01F e 03F encontram-se nas Figuras 01 e 02. Para determinar a qualidade das equações 01M e 01F em outras intensidades, confrontaram-se os valores medidos e preditos em três cargas submáximas. Não foram encontradas diferenças significativas para a equação 01M a 40%VO2máx (p = 0,40), 60%VO2máx (p = 0,72) e 80%VO2máx (p = 0,13); nem para a equação 01F a 40%VO2máx (p = 0,06), 60%VO2máx (p = 0,15) e 80%VO2máx (p = 0,70). A fim de aprimorar a predição do VO2máx para o grupo masculino foi derivada outra equação a ser aplicada no esforço máximo:

Equação 02M

VO2máx = 0,518 + (0,01016 x Wattmáx) + (0,01482 x Massa Corporal) - (0,0292 x Idade)

R2 = 0,71 e EPE = 0,40 l.min-1

Não houve diferença significativa entre os valores máximos medidos e preditos no grupo VE quando a equação 02M foi utilizada.

No segundo estudo os valores submáximos do VO2 e da carga obtidos no SWTsub foram 1,55 (±0,46) l.min-1 e 100 (±19) watts para os homens, e 0,93 (±0,35) l.min-1 e 70 (±21) watts para as mulheres. Os valores submáximos de VO2 preditos por todos os modelos não diferiram significativamente dos valores medidos (Tabela 1). O valor máximo de consumo de oxigênio (VO2máx) obtido no teste GXT foi 3,09 (±0,99) e 1,49 (±0,13) l.min-1 para homens e mulheres, respectivamente. Para o grupo feminino, não houve diferença significativa entre os valores de VO2máx preditos e medidos no GXT. Para o grupo masculino, os valores de VO2máx medidos no GXT foram diferentes estatisticamente dos valores previstos por 07M-NV (p = 0,04, CV = 35,31%, s = 0,90 l.min-1, r2 = 0,46) e por 07M-NC (p = 0,03, CV= 39,3%, s = 1,01 l.min-1, r2 = 0,25) quando a correção de Siconolfi e cols.23 foi aplicada no nomograma de Åstrand-Ryhming16. O VO2máx e Wmáx obtidos no teste SWTmáx foram 3,12 (±0,73) l.min-1 e 215 (±46) watts para os homens, e 1,63 (±0,14) l.min-1 e 139 (±22) watts, para as mulheres. Para o grupo feminino, não houve diferença significativa entre os valores de VO2máx preditos e medidos em SWTmáx. Já o grupo masculino, no teste SWTmáx, obteve valores de VO2máx estatisticamente diferentes dos valores previstos por 07M-NV (p = 0,01) e por 07M-NC (p = 0,01), quando a correção de Siconolfi e cols.23 foi aplicada no nomograma de Åstrand-Ryhming16. O grupo masculino, além disso, obteve valores de VO2máx estatisticamente diferentes dos valores preditos pela equação 08M (p = 0,02). A Tabela 1 apresenta os resultados da análise realizada com os métodos preditivos do VO2máx comparados com os valores medidos no SWTmáx.

 

Discussão

Apesar do grande número de equações para predição do VO2 são raras as que não são específicas para uma determinada população. A alta correlação e o moderado erro padrão da estimativa, encontrados no presente estudo, mostraram que o VO2 pode ser previsto com satisfatória acurácia utilizando a massa corporal, a idade e a carga de trabalho como variáveis independentes.

O controle de qualidade das medidas, através dos procedimentos de calibragem e da operação dos equipamentos por técnicos experientes24, é fundamental para que os parâmetros de trocas gasosas e ventilatórias sejam reproduzidos com precisão. Testes em que esses cuidados são tomados, há baixa variação nas medidas repetidas em momentos próximos24,25. O ergoespirômetro aqui adotado foi validado por outro grupo26. Já a qualidade das medidas realizadas pelo nosso equipamento foi determinada por meio do coeficiente de correlação intraclasse para medidas de teste e reteste das trocas gasosas e ventilatórias, que foram: 0,91 para VE; 0,95 para o VO2 e 0,93 para o VO2. Esses dados foram obtidos em cargas de 15 a 340 watts no ciclo ergômetro. A diferença na precisão da medida obtida por meio dos equipamentos mais sofisticados do que o nosso (3,8%27 versus 5,5%) pode levar a um pequeno erro na aplicação das nossas fórmulas que não pôde ser determinado.

Os resultados obtidos pela validação cruzada das equações 01M e 01F (estudo 1), demonstraram uma predição acurada do VO2. Quando utilizadas as equações 01M e 03M para a predição do VO2máx, foi observada diferença significativa entre os valores medidos e preditos. Diferentemente do resultado encontrado para o grupo masculino, as equações 01F e 03F foram acuradas para a previsão do VO2máx do grupo feminino. Esse resultado pode ser explicado pela maior agressividade masculina durante o esforço máximo, elevando o componente anaeróbio e a ativação de fibras musculares rápidas, consequentemente aumentando a produção de força e alterando a relação linear VO2/watt28. A fim de melhorar a predição do VO2máx para o grupo masculino a equação 02M foi proposta e esta demonstrou ser superior a equação 03M.

Malek e cols.29 analisaram a validade externa das equações de Storer e cols.15 para predição do VO2máx de indivíduos aerobiamente treinados e elas apresentaram o menor erro padrão da estimativa (EPE) dentre as equações por eles analisadas. O EPE encontrado por Malek e cols.29 foi de 0,32 e 0,27 l.min-1 para homens e mulheres, respectivamente, enquanto no estudo original, Storer e cols.15 encontraram EPE de 0,20 e 0,13 l.min-1 para homens e mulheres, respectivamente. No presente estudo, o EPE encontrado para essas equações foram de 0,41 e 0,15 l.min-1, respectivamente para homens e mulheres. Esses valores foram próximos aos encontrados para as equações 01F e 02M aqui derivadas.

Os resultados obtidos no estudo 2 demonstraram acurácia na predição dos valores de VO2 pelas equações 01M, 01F e 02M. As equações 01M e 01F demonstraram ser tão boas quanto às do ACSM8 e de Neder e cols.14 (04M, 04F, 05M, 05F, 08M e 08F) para a predição de valores submáximos (Tabela 1). Na tentativa de analisar a aplicabilidade das equações 01M, 01F e 02M, em diferentes protocolos, foram realizados dois testes máximos, sendo um escalonado (GXT) e um de onda quadrada (SWTmáx). Nos dois protocolos as equações 01M, 01F e 02M previram o VO2máx com acurácia. A equação 02M, porém, foi superior por apresentar menor coeficiente de variação e erro total (ET= - 0,10 l.min-1), quando comparados com a equação 01M (ET= 0,39 l.min-1). Os valores máximos obtidos em GXT e em SWTmáx diferiram apenas dos valores preditos pelo nomograma de Åstrand-Ryhming16, usando a carga de trabalho (NC) e o VO2(NV), quando corrigidos pela equação 07M. Siconolfi e cols.23 derivaram equações (07M e 07F) que modificam os valores de VO2máx obtidos pelo método original do nomograma de Åstrand-Ryhming16. Percebemos que a equação 07M piora a predição original, feita pelo método de Åstrand-Ryhming16, produzindo um erro total de 1,03 l.min-1. Os altos incrementos da carga de trabalho em estágios de 1 min de duração e o critério de platô de 250 ml.min-1 e RER > 1,00 no esforço máximo podem ter subestimado o VO2máx no estudo de Siconolfi e cols.23. Houve também uma significativa diferença entre os valores medidos e preditos de VO2máx quando a equação 08M foi aplicada14. Este método, que foi desenvolvido para a população brasileira, não apresentou acurácia na predição do VO2máx de sujeitos ativos no SWT.

A análise dos limites de concordância revelou que há uma tendência para superestimar o VO2máx quando é utilizado o nomograma de Åstrand-Ryhming16 no grupo feminino (Tabela 1). Zwiren e cols.30 analisaram a validade externa do nomograma de Åstrand-Ryhming16 em mulheres entre 30 e 39 anos com VO2máx de 2,4 (± 0,45) l.min-1 e os autores concluíram que o método de Åstrand-Ryhming16 superestimou o VO2máx em 20%. Quando o nomograma de Åstrand-Ryhming16 foi utilizado para inferência desse parâmetro no grupo masculino os valores preditos não diferiram significativamente dos medidos. Por outro lado, a Tabela 1 mostra que 06M-NC e 06M-NV apresentaram maiores coeficiente de variação, erro típico da medida, e menor correlação, quando comparados com as equações masculinas 01M e 02M. Davies e cols.31, em um grupo masculino de 22 (± 2) anos e com maior VO2máx (50,7 ml.kg-1.min-1), encontraram o intervalo de confiança (IC = 95%) de -0,96 (±0,47) l.min-1 (FC = 120<140bpm) e -0,64 (±0,39) l.min-1 (FC = 140<180), preditos pela carga de trabalho, usando o nomograma de Åstrand-Ryhming. Para Davies e cols.31 esse método tem o CV de 15% para estimativa através do VO2 e de 21% pela carga.

Estudos recentes mostraram que a relação entre o consumo de oxigênio e a carga de trabalho é linear até a intensidade de 50% a 60%VO2máx. Após esse ponto a função torna-se exponencial32. Nós analisamos esta relação através do modelo linear com uma ou com duas fases. No último, entende-se que há uma função linear até o ponto de transição, a partir do qual o VO2 passa a aumentar numa função exponencial. Para o grupo masculino, o modelo linear obteve R2 = 0,88, EPE = 0,34 e quadrado médio dos resíduos (MSE) = 0,12. O modelo com duas fases obteve o ajuste de R2 = 0,80, EPE = 0,34 e MSE = 0,11. Esses resultados foram bem similares e sugerem que o modelo com duas fases não foi superior.

Conclui-se que, os modelos derivados no presente estudo demonstraram ser acurados para a previsão do VO2 submáximo e máximo em jovens adultos brasileiros. Com base no estudo 1, a equação 01M não demonstrou ser válida em intensidades máximas. As demais equações (01F e 02M) podem ser utilizadas com satisfatória validade externa no pico do esforço. A predição do VO2máx melhorou significativamente para o grupo masculino quando a equação 02M foi utilizada. As equações derivadas por Storer e cols.15 não apresentaram maior acurácia na previsão do VO2máx. No estudo 2 as equações derivadas foram válidas tanto para intensidades submáximas quanto máximas. A equação proposta por Siconolfi e cols.23 (07M), para corrigir o método de Åstrand-Ryhming16, e as equações de Neder e cols.14, para homens, não mostraram um resultado satisfatório para a população local. Conclui-se também que as equações derivadas nesse estudo apresentam satisfatória validade externa em protocolos com ou sem steady state.

Limitações

Fatores como: variação na eficiência mecânica numa dada carga de trabalho, ingestão de medicamentos ou de álcool, calor, ambientes hipobáricos e indivíduos portadores de patologias ou com massa corporal e idades distintas dos aqui estudados podem aumentar o erro das previsões. Logo, esse estudo não apresenta uma forma de substituir, com a mesma precisão, a medida direta do VO2. Recomenda-se que outras equações sejam derivadas para as demais faixas etárias e para os diversos grupos de pacientes.

 

Agradecimentos

À Associação dos Amigos do Centro de Estudos e Aperfeiçoamento do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, pela contribuição significativa para a realização deste trabalho, e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro - FAPERJ. Agradecemos aos colegas Lucenildo Cerqueira e Fernando Nogueira, pela valiosa ajuda técnica.

 

Referências

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Correspondência:
Fernando A. M. S. Pompeu
Av. Carlos Chagas Filho, 540 - Ilha do Fundão
21941-599 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
E-mail: pompeu_fernando@hotmail.com

Artigo recebido em 31/01/09; revisado recebido em 24/08/09; aceito em 22/10/09.

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