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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.95 no.3 São Paulo Sept. 2010  Epub Aug 13, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000104 

ARTIGOS ORIGINAIS
EMERGÊNCIAS

 

Efeito na Ressuscitação Cardiopulmonar utilizando treinamento teórico versus treinamento teórico-prático

 

 

Heberth César MiottoI,II,III; Felipe Ribeiro da Silva CamargosII; Cristiano Valério RibeiroII; Eugenio MA GoulartI; Maria da Consolação Vieira MoreiraI

IUniversidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG - Brasil
IISociedade Mineira de Terapia Intensiva, Belo Horizonte, MG - Brasil
IIIBiocor Instituto, Belo Horizonte, MG - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O conhecimento teórico e a habilidade de realizar ressuscitação cardiopulmonar (RCP) de qualidade são essenciais para a sobrevida do paciente vítima de morte súbita.
OBJETIVO: Determinar se o ensino apenas teórico é capaz de promover o ensino da RCP de boa qualidade e conhecimento em profissionais da área da saúde comparado com curso teórico-prático de suporte básico de vida.
MÉTODOS: Vinte enfermeiras voluntárias participaram do treinamento teórico de RCP e desfibrilação externa automática (DEA) utilizando aula teórica e vídeo usado nos cursos de Suporte Básico de Vida da American Heart Association (BLS-AHA; grupo A). Foram comparadas com 26 alunos profissionais da saúde que participaram de um curso regular teórico-prático de BLS-AHA (grupo B). Após os cursos, os participantes foram submetidos à avaliação teórica e prática como recomendado nos cursos do BLS-AHA. As avaliações práticas foram gravadas e posteriormente pontuadas por três instrutores experientes. A avaliação teórica foi um teste de múltipla escolha usada nos cursos regulares do BLS-AHA.
RESULTADOS: Não houve diferença na avaliação teórica (p = ns), entretanto a avaliação prática foi consistentemente pior no grupo A, evidenciado pelos três examinadores (p < 0,05).
CONCLUSÃO: A Utilização de vídeos de RCP e aulas teóricas não melhoraram a capacidade psicomotora em realizar RCP de boa qualidade, entretanto pode melhorar a capacidade cognitiva (conhecimento). Áreas críticas de atuação são o ABCD primário e o correto uso do DEA.

Palavras-chave: Ressuscitação cardiopulmonar, suporte vital cardíaco avançado, capacitação em serviço.


 

 

Introdução

Suporte Básico de Vida (Basic Life Support - BLS) é um curso criado pela American Heart Association (AHA) que lida com o ensino da emergência cardíaca, particularmente com a ressuscitação cardiopulmonar. É usado em muitos países para o treinamento de médicos, enfermeiras e outros profissionais da saúde para melhora da sobrevida na morte súbita cardíaca1. É um curso prático do tipo hands-on que utiliza manequins na elaboração de cenários clínicos interativos2.

A mortalidade e morbidade das vítimas de parada cardíaca súbita está diretamente relacionada à habilidade dos profissionais de saúde ou leigos em usar apropriadamente seu conhecimento (cognição) e capacidade de realizar a ressuscitação cardiopulmonar (desempenho psicomotor).

Alguns autores relataram o benefício na sobrevida de pacientes que receberam ressuscitação cardiopulmonar pré-hospitalar precoce realizado por leigos3-5.

O objetivo primário deste estudo foi avaliar se aulas expositivas e vídeos, elaborados para treinamento, seriam capazes de ensinar profissionais de saúde a realizar ressuscitação cardiopulmonar de boa qualidade, conforme determinado pela AHA.

 

Métodos

Vinte enfermeiras voluntárias participaram do treinamento que consistia em aula expositiva de duas horas, seguida de vídeo do BLS, ambos baseados nas diretrizes 2005 da AHA (grupo A). Nenhum participante desse grupo havia participado previamente de um curso regular do BLS, assim como não conhecia nenhum dos instrutores ou examinadores que participaram do estudo. Esse grupo foi comparado com 26 provedores de saúde que participaram de um curso convencional (teórico-prático) do BLS (grupo B). Ambos os grupos concordaram em participar do estudo assinando o termo de consentimento livre e esclarecido e submetendo-se à mesma avaliação teórica e prática ao final do curso. A avaliação teórica utilizada era a mesma dos cursos do BLS, sendo composta de questões de múltipla escolha elaboradas pela AHA. A prova prática foi realizada pela mesma equipe de instrutores, apresentando o mesmo cenário clínico, e foi gravada em DVD para posterior pontuação por três diferentes instrutores experientes em cursos da AHA, seguindo o check-list das avaliações práticas dos cursos de imersão da AHA (Suporte Avançado de Vida em Cardiologia - ACLS), onde constava a avaliação da RCP e a utilização do desfibrilador externo automático (DEA). Esse check-list reforçava a importância da RCP de boa qualidade e o uso correto do DEA, sendo que a pontuação variava de 0 a 16 pontos. O cenário da avaliação prática era o mesmo: "um homem foi achado deitado em um corredor vazio; ele aparentava estar inconsciente e sem respiração". Nenhum dos três instrutores do centro de treinamento da AHA responsáveis pela avaliação prática participou do curso do BLS do grupo B ou da aula teórica e vídeo do grupo A, assim como não tinham conhecimento dos participantes de ambos os grupos deste estudo.

O check-list da avaliação prática foi dividido em três partes para análise de cada variável: i) antes da chegada do DEA (ABCD primário); ii) DEA (avaliação do correto uso do DEA); e iii) manutenção pelo aluno do segundo e terceiro ciclos de RCP. O objetivo da primeira parte foi observar as seguintes ações: checar a não responsividade; chamar por ajuda e pedir o DEA; abrir a via aérea usando a hiperextensão da cabeça e elevação do queixo; checar a respiração (mínimo de 5 segundos e máximo de 10 segundos); fornecer duas respirações de resgate (cada uma com duração de 2 segundos); checar corretamente o pulso carotídeo (até 10 segundos); posicionamento correto das mãos para RCP; fornecer o primeiro ciclo de compressão torácica com frequência adequada (aceitável: menos de 23 segundos para 30 compressões). O objetivo da segunda parte foi o uso adequado do DEA: ligar o DEA; selecionar as pás adequadas; posicionar corretamente as pás; assegurar que ninguém tocasse a vítima durante a fase de análise e deflagrar o choque com segurança (devendo ser visível o posicionamento das pás e o comando verbal do choque - tempo máximo desde a chegada do DEA < 90 segundos). A última fase consistiu de duas etapas: fornecer um segundo ciclo de RCP com correto posicionamento das mãos, duas ventilações (cada uma com duração de 2 segundos) com elevação do tórax visível e fornecer o terceiro ciclo de compressões torácicas com compressão torácica adequada e retorno do tórax à posição original. Todos os itens tiveram o mesmo valor (um ponto) e todos os 16 pontos foram avaliados.

Ética

Este estudo foi aprovado pelo comitê de ética do Biocor Instituto (Minas Gerais - Brasil)

Análise estatística

Os dados inicialmente foram analisados utilizando estatística descritiva e posteriormente sumarizada em tabelas. Avaliação teórica e pontuação prática foram comparadas em ambos os grupos. Subgrupos de idade, tempo de graduação e sexo também foram comparados para estabelecer as similaridades de ambos os grupos. Variáveis contínuas foram analisadas utilizando teste t de Student, ANOVA e Kruskal-Wallis para teste não paramétrico. O chi-quadrado e o teste exato de Fisher foram usados para variáveis categóricas. P < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo para todas as variáveis estudadas.

 

Resultados

O grupo A foi composto por 14 pessoas do sexo feminino enquanto o grupo B foi composto por 21 pessoas num total de 20 e 26 participantes, respectivamente. O grupo A apresentava pessoas mais jovens e com menos tempo de graduação no curso de enfermagem que o grupo B (p < 0,05). Ambos os grupos completaram o treinamento e realizaram as avaliações teóricas e práticas.

Comparando a média do escore na prova teórica, os grupos não diferiram significativamente (80,3 ± 11,5 e 86,3 ± 15,3 respectivamente, p > 0,05). Entretanto, as notas da avaliação prática no grupo B foram significativamente melhores na observação dos três examinadores comparando com o grupo A (7,7 ± 2,3 versus 12,5 ± 2,9; 11,7 ± 1,5 versus 13,9 ± 3,3; 12,3 ± 1,8 versus 14,2 ± 2,2 respectivamente, p < 0,05) (Tabelas 1 e 2).

 

 

 

 

Os alunos do grupo A foram mais ineficientes nas seguintes áreas: abertura correta de vias aéreas, checagem correta da respiração, insuflação boca-a-boca em 1 segundo, checagem do pulso carotídeo e posicionamento correto das mãos no tórax para a realização das compressões torácicas (p < 0,05). Após a chegada do DEA, os alunos do grupo A tiveram dificuldade em ligá-lo, acionar a análise do ritmo e deflagrar o choque, embora conseguissem colocar adequadamente as pás na comparação com o grupo B (p < 0,05). Os alunos do grupo apenas teórico não forneceram adequadamente o 2º e 3º ciclos de RCP (p < 0,05) (Tabela 3).

 

 

Discussão

Uma ressuscitação cardiopulmonar de boa qualidade e precoce influencia a evolução, mas, a melhor maneira de preparar e manter as habilidades de leigos e dos profissionais da saúde continua controversa6-9.

Dorth e cols. testaram o ensino da RCP à distância por telefone para leigos idosos pelo regulador local da emergência e encontraram uma RCP de muito baixa qualidade10. Utilizando um vídeo de autotreinamento com um manequim especial (Laerdal Family CPR TrainerTM), Braslow e cols. mostraram que esse método foi igual ou superior ao curso BLS padrão para aquisição de habilidade para realizar RCP para leigos, mesmo após 60 dias do treinamento11. Batcheller e cols.12 demonstraram a superioridade dos vídeos de autotreinamento sobre os cursos tradicionais na performance de RCP, particularmente em voluntários maiores de 40 anos de idade. Isbye e cols.13 chegaram à mesma conclusão utilizando um DVD com duração de 24 minutos e um manequim de baixo custo (MiniAnne mannequin). Caffrey e cols.14 mostraram que leigos podiam usar desfibriladores externos automáticos (DEA) e realizar RCP, melhorando a sobrevida, após 3 minutos de um vídeo auto-explicativo, em local público, exibidos a cada 30 minutos nos monitores de TV nas áreas de espera do aeroporto de Chicago. Esse vídeo indicava a disponibilidade dos DEA, explicava seu propósito e encorajava seu uso enquanto também eram distribuídos folhetos impressos14.

Miotto e cols.15,16 demonstraram que provedores de saúde mais velhos apresentam diminuição do aprendizado da habilidade psicomotora e cognitiva assim como sua retenção. Entretanto, o grupo que recebeu treinamento convencional em BLS (grupo B) apesar de ser mais velho, mostrou uma melhor performance na avaliação prática (Tabela 2).

Aulas e vídeos podem produzir RCP de boa qualidade, o que pode melhorar a sobrevida na parada cardíaca dentro e fora do hospital. Por outro lado, nós demonstramos que treinamento somente teórico não foi capaz de produzir RCP de boa qualidade, principalmente manobras como abertura de vias aéreas, posicionamento correto das mãos, compressão adequada do tórax, ventilação e ciclos de ventilação-compressão adequados. Uma revisão do conceito de que leigos ou profissionais da área de saúde podem ser ensinados, utilizando somente treinamento teórico (através de folders, vídeos etc) pode ser necessária.

 

Agradecimentos

Os autores gostariam de agradecer os voluntários que participaram do estudo.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte da tese de Doutorado de Heberth César Miotto pela Universidade Federal de Minas Gerais.

 

Referências

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Correspondência:
Heberth César Miotto
Rua Paracatu, 1555/1202 - Santo Agostinho
30180-091 - Belo Horizonte, MG - Brasil
E-mail: hcmiotto@cardiol.br, hcmiotto@terra.com.br

Artigo recebido em 25/08/09; revisado recebido em 23/10/09; aceito em 15/12/09.

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