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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.95 no.3 São Paulo Sept. 2010  Epub Sep 03, 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000117 

ARTIGOS ORIGINAIS
REABILITAÇÃO CARDIOVASCULAR

 

Resposta pressórica após exercício resistido de diferentes segmentos corporais em hipertensos

 

 

Adriana Marques Battagin; Simone Dal Corso; Carmen Lúcia Rondon Soares; Silvia Ferreira; Agnes Letícia; Cintia de Souza; Carla Malaguti

Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O exercício resistido tem sido atualmente recomendado como componente adjunto do exercício aeróbico no programa de treinamento físico direcionado ao tratamento e controle da hipertensão arterial sistêmica (HAS). Entretanto, o mesmo ainda não tem sido amplamente incorporado na prática clínica, possivelmente pela escassez de evidências disponíveis sobre os limites seguros da resposta pressórica aguda nessa modalidade.
OBJETIVO: Investigar o efeito agudo do exercício resistido progressivo, de diferentes segmentos corporais, na resposta pressórica de pacientes com hipertensão arterial sistêmica (HAS) controlada.
MÉTODOS: Vinte e cinco pacientes (14 mulheres) com HAS controlada com medicamentos (64,5 ± 10,8 anos de idade) e sedentários, realizaram três visitas para uma sessão de exercício resistido progressivo aleatória, nos seguintes grupos musculares: quadríceps femoral, grande dorsal e bíceps braquial. Medidas de pressão arterial foram obtidas em todas as visitas no repouso, imediatamente após cada série de exercício e após 5 minutos de recuperação.
RESULTADOS: Imediatamente após o exercício resistido agudo, houve significante aumento das pressões sistólicas, sem modificações significantes das pressões diastólicas, quando comparadas aos níveis pressóricos de repouso, para todos os grupos musculares e para todas as intensidades avaliadas. Adicionalmente, observou-se maior tendência à elevação da pressão sistólica quando o quadríceps femoral foi exercitado em alta intensidade.
CONCLUSÃO: O exercício resistido de diferentes segmentos corporais promoveu aumentos similares e seguros dos níveis de pressão arterial sistólica, embora com tendência a maior resposta desta quando exercitados grandes grupos musculares em cargas elevadas. (Arq Bras Cardiol. 2010; [online]. ahead print, PP.0-0)

Palavras-chave: Hipertensão, exercício/fisiologia, técnicas de exercício e de movimento/tendências.


 

 

Introdução

A hipertensão arterial sistêmica (HAS) constitui atualmente o primeiro fator de risco modificável causador de morbimortalidade por doença cardiovascular em todo o mundo1. Embora sua etiologia ainda não esteja totalmente elucidada, é crescente o número de evidências apontando ser multifatorial2-4. Essas sugerem influências de fatores como genética, sedentarismo, sobrepeso, ingesta excessiva de sódio e álcool e perfil psicossocial, na gênese da HAS2-4.

Uma vez diagnosticada, a primeira escolha de tratamento da HAS, na maioria dos casos, consiste principalmente na mudança do estilo de vida (MEV), crucial para prevenir complicações deletérias da pressão elevada. A MEV inclui ações como manutenção de atividade física regular, dieta alimentar saudável e cessação do tabagismo4.

Atualmente, é consenso que a prática de exercício regular consiste na principal intervenção (não medicamentosa) determinante do sucesso na prevenção da HAS em adultos com níveis pressóricos normais e na redução desta em hipertensos. É bem estabelecido que os exercícios aeróbicos constituem o componente mais efetivo em reduzir os níveis de pressão arterial (PA) em pacientes hipertensos5,6. Seus benefícios estão relacionados à melhora do desempenho metabólico muscular, redução da disfunção endotelial, melhora das anormalidades neuro-hormonais e redução da resistência à insulina, que culminam na redução da resistência vascular sistêmica, promovendo efeitos favoráveis concomitantes nos fatores de risco cardiovascular5,7.

Por outro lado, o treinamento resistido tem sido menos explorado nessa população8-10. Uma metanálise sobre o efeito do treinamento resistido na PA de repouso sugere que o mesmo, realizado em intensidade moderada, pode ser capaz de reduzir os níveis da PA11.

Embora as últimas diretrizes de controle da HAS tenham recomendado que o exercício resistido deva ser componente adjunto do exercício aeróbico no programa de treinamento físico direcionado aos pacientes hipertensos, o mesmo ainda não tem sido amplamente incorporado na prática clínica5,12-14. Adicionalmente, ainda não se sabe se o exercício resistido de diferentes segmentos corporais promove respostas pressóricas distintas.

Diante de tais constatações, este estudo objetivou investigar o efeito agudo do exercício resistido progressivo, de diferentes segmentos corporais, na PA de pacientes com hipertensão arterial sistêmica controlada.

 

Material e método

Amostra

Foram avaliados 29 pacientes com diagnóstico clínico de hipertensão arterial controlada por medicamentos e com estratificação de médio risco, de acordo com o risco cardiovascular, níveis de pressão arterial, presença de fatores de risco, lesões de órgãos-alvo e doença cardiovascular. Os pacientes foram triados pela fila de espera de um ambulatório de reabilitação cardiovascular e de um ambulatório de acompanhamento clínico de geriatria.

Todos os pacientes envolvidos no estudo eram acompanhados em ambulatório por médico clínico, ou cardiovascular, há pelo menos um ano precedente ao estudo, apresentando história clínica, exame físico com medidas repetidas da pressão arterial em diferentes visitas e com exames clínicos laboratoriais de rotina, que confirmaram o diagnóstico de hipertensão arterial sistêmica essencial. Os critérios de inclusão foram: diagnóstico clínico de HAS, encaminhamento e liberação médica para programa de treinamento físico, doença estável e controlada por medicamento (ausência de modificação na medicação nas últimas 4 semanas). Os critérios de exclusão foram: presença de diabete, insuficiência cardíaca congestiva, doença cardíaca isquêmica, uso regular de nitrato, uso de suplementação hormonal, tabagismo atual, problemas locomotores limitantes ao exercício e estar previamente envolvido em programas de treinamento físico.

No período do estudo, sessões externas de exercícios ou atividades físicas extraordinárias extenuantes foram controladas, assim como hábitos nutricionais (café, chá, chocolates, álcool) que pudessem interferir nos resultados do estudo.

O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa institucional (processo nº 126325/2007), e todos os participantes forneceram o consentimento livre e esclarecido.

Procedimentos

Medidas antropométricas

A avaliação antropométrica constou de mensuração de peso e estatura. Os pacientes foram orientados a descalçarem os sapatos, permanecendo com roupas leves (calça e camisa). A tomada de peso corpóreo foi realizada utilizando-se balança mecânica antropométrica da marca Welmy®, com capacidade para 140 quilogramas (kg) e com divisões a cada 100 gramas. Para a verificação da estatura, a medida foi realizada após inspiração profunda, mantendo a posição ereta. Os pés foram mantidos paralelos e com o peso do corpo distribuído igualmente entre eles.

A partir das medidas de peso e estatura obtidas, calculou-se o índice de massa corpórea (IMC) = peso/altura2 (kg/m2) para a classificação do estado nutricional14.

Medidas da pressão arterial

As medidas da pressão arterial (sistólica e diastólica) foram obtidas por meio do esfigmomanômetro aneroide Welch-Allyn® Maxi Stabil com dimensões da bolsa de borracha para braço de adultos e com capacidade de até 300 mmHg, calibrado e validado de acordo com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Para as medidas da pressão arterial, foram seguidos os procedimentos padrões, recomendados pelas diretrizes de HAS15, sempre realizadas pelo mesmo examinador e no mesmo período do dia. Estas medidas foram obtidas no repouso, imediatamente após o término do exercício e após 5 minutos de repouso no final da sessão de exercício resistido em cada visita. As medidas da pressão arterial obtidas imediatamente após o término do exercício foram tomadas até no máximo 30 segundos após o término do trabalho muscular para todos os grupos musculares avaliados. A pressão arterial considerada de repouso foi o valor da média das medidas basais realizadas nas três visitas que envolviam o estudo.

Protocolo de exercícios resistidos

Todos os participantes realizaram 4 visitas ao ambulatório de reabilitação cardiovascular. Na primeira visita, foi realizado o teste de uma repetição máxima pela técnica crescente, para determinação da contração voluntária máxima (CVM), a qual consistiu na maior carga (peso) que o indivíduo pudesse deslocar durante o movimento completo sem compensações8. Posteriormente, nas demais visitas, uma sessão de exercício resistido aleatória foi realizada nos seguintes grupos musculares: quadríceps femoral, grande dorsal e bíceps braquial (Figura 1). Em cada visita, somente um grupo muscular foi exercitado, a fim de se evitar qualquer influência do efeito cumulativo de exercício de diferentes grupos musculares na resposta pressórica. Sendo assim, cada grupo muscular foi exercitado, aleatoriamente, com 48 horas de intervalo, permitindo o efeito "wash-out".

A sessão de exercício resistido consistiu de contrações dinâmicas (isoinerciais), com intensidades progressivas derivadas de valores relativos de 50, 60 e 70,0% da CVM. Foram realizadas 10 repetições em cada intensidade relativa, respeitando um período adequado de um segundo de trabalho muscular e dois segundos de repouso em cada contração, com intervalo de um minuto entre cada série de exercício16. Tanto na determinação da CVM quanto no treinamento resistido, foram utilizados pesos livres tipo halter e caneleira. Especial atenção foi dada às influências do posicionamento, do ângulo articular e da velocidade de contração para não afetar diretamente a produção de força em todos os grupos musculares avaliados. Da mesma forma, foi solicitado aos pacientes não realizarem apneia durante as contrações musculares, evitando os desfechos adversos associados à manobra de valsalva14.

Análise estatística

Os dados coletados foram analisados em um programa específico para análise estatística (SPSS - Statistical Package for the Social Sciences®, versão 13.0). As variáveis foram expressas como médias e desvio-padrão. As diferenças entre os valores pressóricos basais, imediatamente após o exercício e na recuperação, foram analisadas por análise de variância e teste de contraste de Tukey. As diferenças entre os desfechos de valores pressóricos, imediatamente após o exercício de cada intensidade relativa de exercício resistido em cada grupo muscular, foram analisadas por análise de variância, bem como a comparação entre os três diferentes segmentos (bíceps braquial, quadríceps femoral e grande dorsal) em cada intensidade. A probabilidade de erro tipo I foi estabelecida em 5,0% para todos os testes (p < 0,05).

 

Resultados

Dos 29 pacientes recrutados para este estudo, 4 foram retirados durante a avaliação inicial, devido a comorbidades associadas: obesidade (IMC3 34,9 kg/m2; n = 1); doença arterial coronária (n = 1); diabete melito (n = 1) e osteoartrose limitante ao exercício (n = 1). Assim, vinte e cinco pacientes com diagnóstico de HAS foram envolvidos no estudo.

As características demográficas e antropométricas da amostra estudada estão demonstradas na Tabela 1. A média de idade dos pacientes foi de 64,5 anos, com maior predomínio de idosos (68,0%), ou seja, com idade igual ou superior a 60 anos. A amostra pode ser considerada homogênea quanto ao sexo, embora com discreta predominância do sexo feminino (56,0%).

 

 

Em relação ao estado nutricional, a amostra foi predominantemente caracterizada como sobrepeso leve (IMC = 28,2), sendo apenas um quarto da mesma caracterizada como eutróficos.

Todos os pacientes encontravam-se com a pressão arterial controlada à custa de diuréticos e betabloqueadores (Tabela 1).

Todos os pacientes avaliados foram capazes de realizar a avaliação da CVM, assim como o treinamento nas cargas relativas em todos os grupos musculares avaliados, sem qualquer desconforto ou efeito adverso relacionado ao exercício resistido. Adicionalmente, houve excelente aderência às visitas requeridas para a realização do protocolo de estudo.

Na Tabela 2, podem ser observados os valores médios pressóricos sistólicos e diastólicos nos períodos basais, tomados imediatamente após as intensidades relativas de 50, 60 e 70,0% da CVM e, depois de 5 minutos de recuperação, nos diferentes sítios musculares exercitados (flexores de cotovelo, extensores de joelhos e abdutores de ombros). Nenhuma diferença foi observada nos valores de pressão sistólica de repouso e recuperação de 5 minutos em todos os grupos musculares avaliados. Entretanto, esses valores (pressão arterial sistólica de repouso e de recuperação) diferiram daqueles obtidos imediatamente após o exercício, independente das intensidades relativas (50, 60 e 70,0% da CVM), nos diferentes grupos musculares exercitados (Tabela 2 e Figura 2). Por outro lado, nenhuma diferença foi observada nos valores médios das pressões diastólica em qualquer momento, ou em qualquer grupo muscular avaliado (Tabela 2).

 

 

Quando comparados os níveis de pressão sistólica elicitados numa mesma intensidade relativa entre os diferentes grupos musculares, pode-se observar uma tendência dos músculos extensores dos joelhos de desencadearem maiores níveis de pressão sistólica na intensidade relativa de 70,0% da CVM, quando comparados aos grupos de flexores de cotovelo e abdutores dos ombros (149,50 ± 18,26 versus 140,95 ± 16,09 versus 140,56 ± 15,51, p = 0,09, respectivamente).

 

Discussão

Os resultados deste estudo mostram que o exercício resistido progressivo de diferentes segmentos corporais parece elicitar aumentos modestos e seguros da resposta aguda pressórica de pacientes com hipertensão arterial sistêmica controlada. Adicionalmente, o exercício resistido de diferentes segmentos corporais promoveu aumentos similares dos níveis de pressão arterial sistólica, embora tenha ocorrido uma tendência a maior resposta desta quando exercitado os extensores de joelho em cargas elevadas.

É consensual que o exercício resistido não tenha sido a primeira escolha terapêutica para atividade física, mas deva ser incorporado em um programa de treinamento para pacientes hipertensos, desde que este promova respostas pressóricas dentro de limites seguros.

Comparado ao exercício aeróbico, a literatura abordando o efeito do exercício resistido nos níveis de pressão arterial ainda é escassa e conflitante. Uma recente metanálise sugere que o treinamento de exercício resistido em intensidade moderada não seja contraindicado para hipertensos e seja capaz de reduzir de forma modesta, mas significante, os níveis de pressão arterial8,16. No entanto, a literatura disponível tem focado, predominantemente, nos efeitos crônicos do exercício resistido sequencial10,17. Por isso, torna-se relevante o estudo da resposta pressórica aguda desencadeada pelo exercício resistido, uma vez que é sabido que picos elevados de pressão arterial podem ocasionar rompimentos de aneurismas, isquemia cerebral e miocárdica.

Nas últimas diretrizes para o manejo da HAS, considerou-se que o exercício de levantamento de pesos com intensidades elevadas e de natureza isométrica tem efeitos pronunciados em elevar os níveis pressóricos e deve, portanto, ser evitado18. Nesse sentido, este estudo buscou avaliar a resposta pressórica aguda, imediatamente após o exercício resistido isotônico em diferentes intensidades e segmentos corporais de pacientes hipertensos controlados.

O exercício resistido realizado de forma isotônica tem sido recomendado, principalmente na terceira idade, com foco primário na prevenção e reabilitação da osteoporose e sarcopenia relacionada à idade, e com indicações emergentes para modificação de fatores de riscos metabólicos19-23. Por outro lado, ainda é passível de discussão se o exercício resistido pode modular a complacência arterial.

Duas diferentes hipóteses têm sido levantadas: uma sugere que o espessamento e a hipertrofia da parede arterial presentes na HAS, associado ao exercício resistido, possam ser uma adaptação benéfica contra o risco de rupturas; a outra sugere que a redução da complacência arterial possa resultar em uma má adaptação arterial, promovendo aumento do risco cardiovascular24.

Uma possível explicação fisiológica para a adaptação benéfica é a resposta "luta ou fuga", ou seja, associado ao aumento da atividade simpática e à liberação de norepinefrina, ocorre uma resposta aguda que facilita a coagulação do sangue para evitar perdas em ferimentos, o que fortalece a parede arterial contra o risco de ruptura, mas, se sustentada, pode levar a aumento na pressão arterial25. Em contrapartida, a má adaptação do sistema cardiovascular ao exercício resistido pode ser devido à redução da complacência arterial por imposição de limites crônicos na parede arterial, durante um maior tônus simpático26,27.

Adicionalmente, um aumento de produtos metabólicos finais e das ligações cruzadas de colágeno na parede arterial é sugerido, favorecendo o espessamento27.

Estudos têm especulado se o grau de adaptação arterial pode ser maior em resposta aos exercícios resistidos de longa duração e em intensidades moderadas do que em elevadas, e ainda mais significativo em indivíduos de meia idade24,28. Em tal linha de raciocínio, Bertovic e cols. 29 observaram que, em atletas competitivos, o exercício resistido, praticado em intensidades elevadas, esteve associado à menor complacência arterial do que em indivíduos sedentários29.

É sabido que, durante cada repetição do exercício de resistência, pode ocorrer aumento da pressão arterial, entretanto, como a resistência não é sustentada, esta volta aos valores basais, sem oferecer risco substancial ao paciente. Durante a execução do exercício resistido, o aumento da pressão no sistema cardiovascular dependerá da intensidade relativa da resistência e do ciclo de contração/relaxamento. Com o intuito de que não haja sobrecarga cardiovascular, o presente estudo baseou-se na recomendação da AHA, determinando contrações de um segundo e períodos de repouso entre as contrações de dois segundos13. Esses parâmetros foram assegurados com supervisão e instruções apropriadas aos pacientes durante as séries de exercício resistido devido à moderada intensidade relativa de esforço.

O aumento da pressão arterial durante a execução do exercício resistido se faz, primordialmente, pelo aumento da resistência vascular periférica, porém o aumento do débito cardíaco também é um fator envolvido. Por isso, a elevação da pressão arterial parece ser exacerbada em hipertensos não medicados. Entretanto, os hipertensos sob terapêutica medicamentosa de betabloqueadores apresentam redução do débito cardíaco pela diminuição da resposta cronotrópica e inotrópica à estimulação simpática21,30. Assim, é possível sugerir que o uso dessa medicação reduza o aumento da pressão arterial durante os exercícios resistidos.

Embora uma metanálise sobre os efeitos crônicos do treinamento resistido progressivo tenha mostrado eficácia de tal intervenção em reduzir os níveis pressóricos31, ainda são escassos os estudos avaliando o efeito agudo do exercício resistido na PA de adultos com HAS controlada. Porém, esses estudos avaliaram a resposta pressórica após uma ou duas horas de sessão de exercício envolvendo vários grupos musculares. No estudo de Hill e cols. foi observada significante redução da pressão arterial diastólica, sem nenhuma mudança na sistólica, após uma hora de finalizada a sessão de exercício resistido de 11-18 minutos22.

O'Connor e cols.23 avaliaram os efeitos de 30 minutos de exercício resistido na PA de mulheres adultas após duas horas da sessão. Embora nenhuma alteração tenha sido observada na PAD, houve significante elevação da PAS no primeiro e 15º minuto após o exercício na intensidade de 80,0% da CVM23.

Harris e Holly24 observaram aumento modesto da pressão arterial de hipertensos leves durante o exercício resistido. Por outro lado, Palatini e cols.32 verificaram aumentos notáveis, alcançando valores de 345/245 em um dos pacientes. No entanto, cabe ressaltar que, em ambos os estudos, os pacientes hipertensos não usavam medicação anti-hipertensiva32.

Em contrapartida, o presente estudo mostrou que o exercício resistido progressivo, de diferentes segmentos corporais, parece produzir aumentos seguros da pressão arterial sistólica, sem modificações substanciais da pressão diastólica, o que pode sugerir que, em pacientes com HAS controlada com medicamentos, a terapêutica por exercícios resistidos nas intensidades relativas avaliadas possa ser realizada.

De modo interessante, o exercício resistido de extensores de joelhos na intensidade de 70,0% da CVM tendeu a apresentar níveis mais elevados da pressão sistólica. Essa tendência poderia ser explicada por tal grupo apresentar maior massa muscular, o que recruta maior fluxo sanguíneo, determinando maior volume diastólico final, maior débito cardíaco com subsequente aumento da pressão arterial. Nessa linha de raciocínio, exercícios resistidos de grandes grupos musculares realizados em intensidades superiores a 70,0% da CVM devem ser monitorizados pela possibilidade de desencadear eventuais picos pressóricos em pacientes com potenciais riscos.

Este estudo apresentou algumas limitações: primeiro, não foi um estudo placebo-controlado e o examinador não estava cego à intervenção; segundo, embora todos os pacientes fizessem uso de diuréticos e betabloqueadores, e tivessem a mesma estratificação de risco segundo a classificação de risco usual, nenhuma descrição das características farmacoterapêuticas foi registrada, assim, se estes apresentavam diferenças intragrupo neste aspecto, é plausível ter havido alguma influência da medicação. E terceiro, embora o exercício resistido pareça ser seguro na população avaliada, o número de pacientes é pequeno, e o estudo deveria ser repetido em um número maior.

A principal implicação clínica deste estudo é que a terapia por exercícios resistidos em pacientes hipertensos controlados com medicamentos deve ser monitorizada, principalmente, quando exercitados grandes grupos musculares em altas intensidades. Dessa forma, é provável que estes pacientes atinjam de forma segura mais benefícios de um programa de treinamento físico.

Em conclusão, nossos resultados indicam que, em pacientes com hipertensão arterial sistêmica controlada, o exercício resistido progressivo de diferentes segmentos corporais promove aumentos modestos na pressão arterial sistólica e parece ser seguro, sem repercussão na pressão arterial diastólica.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

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Correspondência:
Carla Malaguti
Av. Francisco Matarazzo, 612 - Água Branca
05001-000 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: carlamalaguti@uninove.br, c_malaguti@yahoo.com.br

Artigo recebido em 03/11/09; revisado recebido em 16/03/10; aceito em 12/04/10.

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