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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.95 no.6 São Paulo Dec. 2010  Epub Dec 10, 2010

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2010005000157 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise em longo prazo na síndrome coronariana aguda: existem diferenças na morbimortalidade?

 

 

Adolfo Alexandre Farah de Aguiar*; Ricardo Mourilhe-Rocha*; Roberto Esporcatte; Liana Correa Amorim; Bernardo Rangel Tura; Denilson Campos de Albuquerque

Universidade do Estado do Rio de Janeiro - Hospital Universitário Pedro Ernesto, Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A insuficiência cardíaca (IC) tem grande importância como preditor de morbimortalidade em pacientes com síndrome coronariana aguda (SCA).
OBJETIVO: Avaliar os preditores de morbimortalidade na SCA em longo prazo.
MÉTODOS: Foi um estudo de coorte de 403 pacientes consecutivos com queixas de dor torácica. Descreveram-se dados demográficos, clínicos, laboratoriais e terapêuticos, sendo avaliados durante a internação e até oito anos após alta, em relação à presença ou ausência de eventos cardiovasculares e óbitos.
RESULTADOS: Foram 403 pacientes com queixas de dor torácica, em que 65,8% apresentavam diagnóstico de SCA sem supra de ST, 27,8% SCA com supra de ST e 6,5% sem SCA. Destes, foram avaliados os 377 pacientes com SCA, em que 37,9% eram do sexo feminino, e a média de idade foi de 62,2 ± 11,6 anos. A presença de IC antes ou durante a hospitalização influenciou a mortalidade. Dos fatores prognósticos, a creatinina inicial merece destaque, sendo o ponto de corte de 1,4 mg/dl (acurácia = 62,1%; HR = 3,27; p < 0,001). Notamos pior prognóstico para cada acréscimo de dez anos de idade (HR = 1,37; p < 0,001) e para cada incremento de 10 bpm na frequência cardíaca (HR = 1,22 p < 0,001). Quanto às terapias utilizadas antes e após 2002, houve aumento de uso de betabloqueadores, inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECAs), estatinas e antiplaquetários, tendo impacto na mortalidade.
CONCLUSÃO: Presença de IC admissional, creatinina, idade e FC foram preditores independentes de mortalidade. Observou-se que pacientes com IC atendidos antes de 2002 apresentaram pior sobrevida em relação aos atendidos após 2002 e que a mudança na terapia foi a responsável por isso.

Palavras-chave: Sindrome coronariana aguda/mortalidade/tendência, insuficiência cardíaca, morbidade, avaliação de medicamentos.


 

 

Introdução

A síndrome coronariana aguda (SCA) é uma doença antiga e muito frequente, com consequências na sociedade não só na parte econômica, mas também nas taxas de morbimortalidade. Nos Estados Unidos da América (EUA), a doença cardiovascular apresentou prevalência de 71,3 milhões; a doença arterial coronariana, de 13,2 milhões; e a insuficiência cardíaca congestiva, de 5 milhões. A mortalidade global por doença cardiovascular, em 2001, foi de 6 bilhões e 148 milhões, correspondendo a 12,5%; para 2020, há uma projeção de 32% de mortes por doença cardiovascular (DCV) para uma população estimada em 7,8 bilhões; e, para 2030, a projeção é de 33% de mortes por DCV, para uma população de 8,2 bilhões1.

No Brasil, no ano de 2005, o total de óbitos por doença isquêmica do coração, segundo o Datasus, foi 84.945, salientando São Paulo e Rio de Janeiro como os estados com os maiores índices. Independentemente da classe socioeconômica e da região do Brasil, a doença circulatória representa o maior número de óbitos na população brasileira2.

Nos países do primeiro mundo, a doença coronariana apresenta-se como uma das principais causas de insuficiência cardíaca e de morbimortalidade. O prognóstico da insuficiência cardíaca em decorrência do infarto agudo do miocárdio (IAM) vai depender da extensão e da gravidade da disfunção ventricular, perdendo apenas para a idade3. Evidência clínica de insuficiência cardíaca representa geralmente a perda de 20% a 25% de contração do ventrículo esquerdo, com ocorrência de choque cardiogênico, se a perda for superior a 40% da massa muscular4.

É objetivo do presente estudo avaliar as características demográficas e clínicas de pacientes com síndrome coronariana aguda, admitidos no Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) de agosto de 1999 até 2007. Além disso, também foram determinados os fatores preditores de morbidade e mortalidade em longo prazo durante acompanhamento de até oito anos.

 

Métodos

Avaliou-se uma coorte de 403 pacientes consecutivos e prospectivos, internados em serviço público de cardiologia, no período de agosto de 1999 a dezembro de 2007, com diagnóstico inicial de síndrome coronariana aguda. Em 377 pacientes, foi confirmado o diagnóstico de SCA, por meio de consultas clínicas e telefônicas periódicas. O estudo foi aprovado pelo comitê de ética em pesquisa da instituição em consoante à Declaração de Helsinki, e todos os pacientes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para participar do estudo.

Descreveram-se dados demográficos, comorbidades, história prévia de doença coronariana, relato anterior de angiografia coronariana, intervenção coronariana percutânea ou cirurgia de revascularização miocárdica dessa população.

Comparou-se a estratificação de risco invasiva versus a não invasiva, assim como as diferenças entre o tratamento medicamentoso e o intervencionista, para avaliar a evolução durante a internação e no período de até oito anos após a alta, em relação aos eventos cardiovasculares e óbitos.

Avaliaram-se os diagnósticos de admissão e de alta hospitalar, assim como o número de óbitos e eventos no período de até oito anos.

Os pacientes foram avaliados e acompanhados por consultas clínicas e telefônicas periódicas até dezembro de 2008. Não era obrigatória a realização de métodos complementares, e foram registrados para este estudo apenas os exames realizados pelos pacientes a critério do médico assistente e da disponibilidade do HUPE.

 

Seleção e acompanhamento dos pacientes

Foram considerados os seguintes critérios de inclusão no estudo: pacientes com idade mínima de 18 anos; pacientes que assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE); pacientes que apresentaram diagnóstico de síndrome coronariana aguda como diagnóstico presuntivo; clínica associada ou não a mudanças eletrocardiográficas que justificaram o diagnóstico, tais como supra ou infradesnivelamento do ST ou inversão de ondas T.

Foram considerados os seguintes critérios de exclusão: síndrome coronariana aguda secundária à hemorragia digestiva grave, cirurgia, pós-procedimento invasivo, trauma ou acidente automobilístico. Também consideraram-se os seguintes critérios: pacientes com neoplasia em fase terminal ou doença hepática avançada; incapacidade ou desinteresse para cooperar com o estudo; não concordância em assinar o TCLE; outras condições que dificultassem a participação no estudo.

Análise estatística

Todos os dados numéricos foram descritos com média e desvio padrão ou mediana e distância interquartílica. Os dados categóricos foram expressos por meio de porcentagem.

Foram aplicados o teste t de Student, teste de Mann-Whitney, teste do qui-quadrado e teste exato de Fisher, segundo a indicação.

Para a construção do modelo de sobrevida, foram utilizados inicialmente o método de Kaplan-Meier e o teste de log-rank. O modelo multivariado foi ajustado, utilizando-se o modelo de Cox. Após realizar a análise de sobrevida de Cox, foi feito o diagnóstico do modelo para garantir o pressuposto do risco proporcional. Quando necessário, utilizou-se o modelo de Cox estratificado.

Para escolher o melhor ponto de corte das variáveis numéricas, visando à predição de mortalidade, foi utilizada a curva Receiver operating characteristic (ROC).

Todas as análises foram realizadas utilizando-se o programa R versão 2.9.1. Considerou-se, neste estudo, um nível de significância de 95%, o que corresponde ao valor de p=0,05.

 

Resultados

Características da população amostral

A população amostral deste estudo é composta por 403 pacientes com queixas de dor torácica, sendo 65,8% com diagnóstico de SCA sem supra de ST, 27,8% SCA com supra de ST e 6,5% sem SCA. As características demográficas, clínicas e fatores de risco para DAC estão apresentados nas Tabelas 1 e 2. Nas Tabelas 3 e 4, são apresentadas as principais características clínicas e laboratoriais da população estudada de acordo com a presença de IC.

 

 

 

 

 

 

 

 

Características clínicas e terapias relacionadas à mortalidade

As principais características clínicas e as terapias relacionadas à mortalidade são a classificação de Killip, a alteração da função sistólica no ecocardiograma, a presença de bloqueio de ramo esquerdo (BRE), a presença de IC prévia à internação (ou que tenha aparecido durante a hospitalização) e a terapia utilizada antes e durante a hospitalização.

Em relação à classificação de Killip, as classes II e III têm mortalidades semelhantes (58,6% vs 55,6%, respectivamente), a classe IV tem 100% de mortalidade e a classe I tem 26% de mortalidade (p=0,00126).

O mesmo foi observado a respeito da alteração da função sistólica do ventrículo esquerdo no ecocardiograma, em que a função normal foi observada em 22,3%, disfunção leve em 37,5%, moderada em 36,6% e grave em 62,95% dos óbitos (p=0,00017).

Quanto à presença de BRE, notamos maior prevalência nos óbitos (36,8%) em relação aos sobreviventes (30,3%), mas sem diferença estatística significativa (p=0,610).

Em relação ao diagnóstico final, a proporção de pacientes que evoluíram para o óbito foi semelhante sem que dependesse da forma de apresentação, seja por SCA com supra de ST (29,8%), seja por SCA sem supra de ST (32,4%) (p=0,467).

A presença de IC prévia influenciou a mortalidade (com IC = 54,2% vs 28% sem IC; p=0,0004), assim como a presença de IC durante a hospitalização (com IC = 65% vs 24,1% sem IC; p=0,00000021).

Na Tabela 5, apresenta-se a sobrevida e a mortalidade em função da terapia utilizada na admissão hospitalar e após seguimento clínico.

 

 

Na fase hospitalar, os pacientes que utilizaram trombolíticos tiveram menor mortalidade e, acerca do uso de diuréticos e inotrópicos, houve maior mortalidade.

No período de seguimento clínico, os pacientes que utilizaram betabloqueador e IECA tiveram menor mortalidade. Ao contrário do que foi observado na fase hospitalar em relação ao uso de diuréticos, os pacientes que mantiveram o uso depois da alta hospitalar apresentaram menor número de óbitos. A utilização de antiplaquetários levou à menor mortalidade.

Quanto à realização de terapia intervencionista, observa-se a ocorrência de mais óbitos nos pacientes submetidos à cirurgia de revascularização miocárdica do que em relação aos tratados por angioplastia (34,3% vs 19,5%; p=0,0448).

Análise da população amostral de acordo com o período do tempo

Procedeu-se à análise dos dados, comparando-se a população antes e após o ano de 2002. Notou-se que 12,10% dos pacientes com SCA apresentaram IC antes de 2002 e 11,16% após 2002; portanto a ocorrência de IC foi semelhante em ambos os momentos.

Comparando os períodos antes e após de 2002, observa-se ter ocorrido uma redução da mortalidade com diferença estatística significativa (19,35% vs 6,32%; p<0,001), porém as reinternações não sofreram diferenças em relação aos períodos, não havendo significância estatística (antes de 2002 = 23,77% vs 27,27% após 2002; p=0,55).

Houve diferenças em função das terapias utilizadas de acordo com o período de tempo e distinção estatística entre os pacientes que foram tratados antes e a partir de 2002.

Nesta coorte estudada, pôde-se observar o aumento após 2002 da utilização prévia de betabloqueadores (5,93% para 32,54%; p<0,001), IECA (35,59% para 45,82%; p=0,071), estatinas (6,0% para 20,63%; p<0,001) e diuréticos (6,52% para 19,44%; p=0,003). Durante a hospitalização, também houve incremento no uso de trombolíticos (37,50% para 44,74%; p=0,46), AAS (73,33% para 86,90%; p=0,002), clopidogrel (4,20% para 14,29%; p=0,004). Outro aspecto relevante foi a maior quantidade de cirurgias de revascularização miocárdica e angioplastias coronarianas (29,84% para 45,06%; p=0,005).

Análise da população amostral de acordo com o período do tempo e com o diagnóstico

Como há claramente dois determinantes da terapia – o período do tempo e o diagnóstico final do paciente – é interessante avaliar a interação entre esses determinantes (Tabelas 6 e 7).

Apesar de não ser estaticamente significante, é importante notar que ocorreu uma inversão da opção pela cirurgia. Antes de 2002, a cirurgia ocorria duas vezes mais na SCA sem supra de ST. Após esse período, essa escolha não interessava mais. Embora não se considerasse as formas da doença, a realização de CAT e ICP aumentou significativamente após 2002.

Em relação à terapêutica medicamentosa, antes de 2002, apenas o uso do hipoglicemiante foi diferente entre os diagnósticos. A partir de 2002, apenas o uso dos antagonistas de cálcio foi diferente.

Entretanto, no tratamento dos dois diagnósticos, a partir de 2002, deve-se salientar o aumento do uso de betabloqueador, antiplaquetários e IECA.

Análise de sobrevida

Com o intuito de avaliar o impacto prognóstico da IC na admissão dos pacientes, realizou-se a análise univariada de sobrevida, utilizando variáveis clínicas e terapêuticas. A creatinina inicial foi muito relacionada ao prognóstico, portanto, optou-se por utilizar a curva ROC para escolher o melhor ponto de corte, que foi de 1,4 mg/dl, com acurácia de 62,1%. De todos os tratamentos analisados, somente o uso de diurético prévio foi significativo.

Na análise univariada, os parâmetros com significância estatística foram infarto do miocárdio prévio (p=0,015), insuficiência cardíaca prévia (p<0,001), hipertensão arterial prévia (p=0,011), admissão antes de 2002 (p=0,001), creatinina > 1,4 mg/dl (p<0,001), cada incremento de dez anos de idade (p<0,001) e cada incremento de 10 bpm de frequência cardíaca (p=0,001).

Foi utilizada a análise de sobrevida de Cox para determinar os preditores independentes da sobrevida,que foi estratificada pelo período de internação (antes de 2002 ou a partir de 2002) para garantir o pressuposto do risco proporcional.

Todas as variáveis univariadas com valor de p<0,05 foram incluídas no modelo, porém apenas quatro variáveis foram consideradas preditores independentes, que foram a presença de IC na admissão (HR=2,73, p<0,001), creatinina inicial > 1,4 mg/dl (HR=2,33. p=0,004), os acréscimos de dez anos na idade (HR=1,37, p<0,001) e os acréscimos de dez batimentos na FC (HR=1,22, p<0,001).

Para melhor compreensão do significado desse resultado, deve-se observar a Figura 1, que mostra a sobrevida dos pacientes com e sem IC na admissão, ajustada pelas outras três variáveis. Como existem dois estratos de risco, cada classe é representada por duas curvas diferentes. É relevante salientar que os pacientes sem IC na admissão evoluem com o mesmo prognóstico, independentemente do ano de atendimento. Entretanto, a presença de IC na admissão está relacionada a um pior prognóstico. O prognóstico dos pacientes admitidos com IC que foram atendidos antes de 2002 é pior do que o dos pacientes do outro período.

 

Discussão

A mortalidade hospitalar varia conforme o grupo de risco analisado, entre 1,8% e 23,6%, correspondendo respectivamente ao grupo de baixo risco e ao de alto risco5, com taxas de reinternação em torno de 50%, em seis meses, por piora da função renal6. Comparando o presente estudo à literatura, observa-se que não se encontra um p significativo no que se refere à reinternação, embora tenha sido encontrado na mortalidade hospitalar.

A partir do prognóstico desses pacientes, a extensão da disfunção ventricular esquerda após a ocorrência do infarto do miocárdio é o segundo fator mais importante de mortalidade cardiovascular, perdendo apenas para a idade3.

Houve diferença de comportamento da população estudada antes e depois de 2002. Embora não tenha havido randomização da população estudada, pode-se supor que a diferença tenha encontrado explicação pela terapêutica utilizada e como foi utilizada. A explicação mais plausível é que os resultados obtidos apresentaram melhor resposta a partir de 2002, provavelmente em decorrência do tratamento mais direcionado pelas Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que se modificaram ao longo dos anos. Entretanto, isso é apenas uma especulação.

Os betabloqueadores apresentaram uma boa relação com a melhora dos sintomas, da capacidade funcional, do remodelamento cardíaco e da função ventricular esquerda7-13. Sabe-se, por estudos realizados, que a prescrição de betabloqueadores é prioridade em pacientes com disfunção ventricular sistólica de qualquer etiologia e de qualquer classe funcional7-13.

Na presente coorte, observou-se um p estatisticamente significativo quanto à mortalidade, comparando as terapias utilizadas antes e após o ano de 2002, quando foram utilizados previamente: diurético, betabloqueador, IECA, estatina, AAS e clopidogrel. Essa mortalidade é coerente com a literatura, como se pode observar nos estudos: SOLVD-tratamento6, MERIT-HF14, CIBIS-II8, US-CARVEDILOL12, COPERNICUS9, CONSENSUS I15, V-HEFT-II16 e COMET10.

No presente estudo, não houve diferença estatística quanto ao uso do IECA antes e depois de 2002. A maior diferença foi com o uso de diuréticos, betabloqueadores, estatina, AAS e antiplaquetários. Foram encontrados resultados estatisticamente significativos quanto ao uso de clopidogrel, em que foi possível comprovar resultados semelhantes.

A frequência cardíaca associou-se de forma estatisticamente significativa à morte cardiovascular de maneira inversa, ou seja, cada incremento de 10 bpm (HR: 1,22 p<0,001) associou-se a pior prognóstico da condição de sobrevida. Isso foi confirmado no estudo de Rassi e cols.17, os quais observaram que, em insuficiência cardíaca com início recente de sintomas, a FC também estava associada de forma estatisticamente significativa a cada incremento de 10 bpm (RR: 1,58 (IC 95%; 1,23-2,04)17. Isso permitiu analisar a ativação simpática da IC e supor, tendo em vista que este estudo não é randomizado e que frequências cardíacas elevadas estão associadas a pior prognóstico em doença cardiovascular, embora seja um dado de exame físico pouco descrito em publicações. O mesmo foi confirmado no estudo EPICAL18, em que a frequência cardíaca foi identificada pela análise multivariada como preditor independente de morte, tanto na cardiopatia isquêmica quanto na cardiopatia dilatada17,19.

A creatinina sérica também foi preditor independente de mortalidade cardiovascular e muito relacionada com o prognóstico (HR: 1,17 para cada 1 mg/dl, p=0,005), por isso, optou-se por utilizar a curva ROC para escolher o melhor ponto de corte. Desse modo, foi encontrado 1,4 mg/dl, com uma acurácia de 62,1% e HR: 3,27 (p<0,001), o que parece estatisticamente significativo, no modelo multivariado de sobrevida. Esse achado está de acordo com o estudo observado por Cowie e cols.20. Nesse estudo, foi determinada a prevalência e os fatores de riscos que pioraram a função renal entre pacientes hospitalizados por descompensação de IC e associação com subsequentes re-hospitalizações e mortalidade. O mecanismo dessa associação não é muito claro, mas a piora da função renal está relacionada à alta mortalidade. Observou-se que a piora da função renal estava independentemente associada a níveis séricos de creatinina na admissão (HR: 3,02, CI 95%, 1,58 - 5,76), edema pulmonar (HR: 0,35 CI 95%, 1,79 - 6,27), história de fibrilação atrial (HR: 0,35 CI 95%, 0,18-0,67) e, portanto, maior mortalidade cardiovascular.

Assim como o estudo de Cowie e cols., vários outros estudos têm relatado a associação entre o desenvolvimento da piora da função renal em pacientes internados com descompensação da IC e piores resultados clínicos. O mecanismo permanece ainda obscuro, entretanto, de acordo com Rassi e cols.17, a creatinina sérica foi também preditor independente de mortalidade, estando associada 1,6 vezes mais com a mortalidade cardiovascular a cada incremento de 0,25 mg/dl (CI 95% 1,33 - 1,92). Rassi e cols.17 também supuseram que a persistência em níveis elevados de creatinina sérica denotaria a existência de doença renal de base, pois, após a compensação clínica da IC de longa duração, deve-se ter uma quase normalização da creatinina sérica17.

No presente estudo, houve diferença no que tange à presença de IC na admissão: os pacientes com IC na admissão tiveram pior prognóstico do que aqueles que não tiveram IC, o que está de acordo com a literatura21-23. No que se refere ao ano de 2002, também houve diferença: os pacientes que, na admissão, possuíam IC antes de 2002 apresentaram um pior prognóstico em relação àqueles que foram admitidos depois de 2002. Como o presente estudo não foi randomizado, e tendo em vista que as duas diretrizes para o diagnóstico e tratamento de IC da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 1999 sofreram uma revisão em 2002, aliado ao tratamento invasivo mais evidente após 2002, pode-se supor que o tratamento clínico foi otimizado, evidenciando uma diferença estatística em relação ao melhor prognóstico de sobrevida a partir de 2002. Ainda em relação à ausência de IC na admissão, não houve diferença quanto ao prognóstico, independentemente do ano de atendimento, o que pode evidenciar a ausência de IC como fator de melhor prognóstico.

Deve-se salientar o aumento da utilização do betabloqueador, antiplaquetários, IECAs e das estatinas como fatores responsáveis pelo maior sucesso do tratamento a partir de 2002. No que tange aos betabloqueadores, sua maior utilização ocorreu depois de 2002, o que pode ser evidente comparando-se a SCACSST e a SCASSST antes e depois de 2002 (Tabela 6).

Em relação aos antiplaquetários observou-se o mesmo resultado em relação aos períodos anterior e posterior à 2002. Para os IECA/BRA também houve evidência significativa nos períodos.

Outra variável que foi considerada preditor de sobrevida pelo modelo multivariado de sobrevida foi a idade, presente também em outros estudos19,22-25. A cada acréscimo de dez anos de idade, o prognóstico foi pior, com HR: 1,37 e p<0,001.

A creatinina como fator preditivo de prognóstico pode ser mais bem avaliada pela curva ROC, em que o melhor ponto de corte foi de 1,4 mg/dl, com HR: 2,33 com p<0,004. Da mesma maneira como o estudo EPICAL e o registro OPTIMIZE-HF comprovaram a relação entre creatinina e a sobrevida, Rassi e cols.17 e Cowie e cols.20 confirmaram esse mesmo resultado, em que se considerou a creatinina um importante fator de prognóstico em relação à sobrevida17,20,21,25.

Na Figura 1, pode-se observar que os pacientes sem IC na admissão não tiveram diferença quanto à evolução, independentemente do ano de atendimento, entretanto a presença de IC difere quanto ao ano de atendimento: antes ou a partir de 2002. Ambos tiveram um prognóstico pior, mas os pacientes atendidos a partir de 2002 tiveram melhor prognóstico comparando-se àqueles que foram atendidos antes. A partir da consideração de uma coorte, isso poderia ser atribuído em parte ao tratamento preconizado pelo serviço de Cardiologia, que se direcionou mais às Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ao longo dos anos, acompanhando a sua evolução e as suas mudanças. Como não foi um estudo randomizado, esse fato não pode ser confirmado.

Limitações do estudo

São considerados limitações no presente estudo:

a) prontuários preenchidos com dados incompletos, faltando informações.

b) a falta de cooperação de alguns pacientes.

c) dificuldades inerentes ao estudo que foi, em parte, retrospectivo.

d) registros iniciais da população obtidos por observadores diferentes.

 

Conclusão

Os pacientes com IC atendidos antes de 2002 apresentaram pior sobrevida do que os pacientes atendidos a partir de 2002.

Mesmo com a diferença de sobrevida relacionada ao momento da internação, o impacto das variáveis clínicas e laboratoriais foi igual independente do momento da admissão.

A presença de IC na admissão, creatinina inicial > 1,4 mg/dl, idade e FC dos pacientes internados com SCA são preditores independentes de mortalidade.

 

Agradecimentos

Este artigo é parte do projeto de dissertação de Mestrado no programa de Pós-graduação da FCM/UERJ (PGCM/FCM/UERJ) de Adolfo Alexandre Farah de Aguiar.

Este trabalho fez parte do projeto PREV-IC do PROATEC/UERJ e recebeu verba da FAPERJ, pelo Programa de Apoio a Grupos Emergentes de Pesquisa no Estado do RJ - Projeto INOVACOR.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi financiado pelo Programa PREV-IC do PROATEC/UERJ e parcialmente financiado pelo Projeto Inovador - FAPERJ.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Adolfo Alexandre Farah de Aguiar pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

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Correspondência:
Ricardo Mourilhe-Rocha
Rua Voluntários da Pátria, 445/1401 e 1402 - Botafogo
22270-000 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
E-mail: rmourilhe@cardiol.br, ricardomourilhe@gmail.com

Artigo recebido em 18/12/09
revisado recebido em 13/05/10
aceito em 16/06/10

 

 

* Ambos os autores contribuíram igualmente neste trabalho

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