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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.96 no.3 São Paulo Mar. 2011  Epub Feb 25, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2011005000019 

Avaliação inicial do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência na Cidade de Porto Alegre

 

 

Gladis Semensato; Leandro Zimerman; Luis Eduardo Rohde

Serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFRGS, Porto Alegre, RS - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Os Serviços de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) no Brasil têm resultados imediatos pouco conhecidos.
OBJETIVO: Avaliar os preditores clínicos de sobrevida dos pacientes em parada cardiorrespiratória (PCR) no ambiente não hospitalar atendidos pelo SAMU de Porto Alegre.
MÉTODOS: Estudo observacional e prospectivo. Os desfechos avaliados foram sobrevida em 30 dias e até a alta hospitalar, além de escore do Cerebral Performance Category (CPC) I-II.
RESULTADOS: De janeiro a outubro de 2008, foram atendidos 593 pacientes em PCR não traumática e foram realizadas 260 tentativas de ressuscitação cardiopulmonar (RCP). Houve sucesso inicial em 52 (20,0%) casos, estando 16 pacientes vivos no 30º (6,0%) dia, 10 tendo recebido alta hospitalar (3,9%), sendo que 6 (2,3%) com escore CPC I-II. A PCR no domicílio associou-se inversamente com a sobrevida no 30º dia (p = 0,001) e na alta hospitalar (p = 0,02). Um ritmo inicial "chocável" (p = 0,008) associou-se à sobrevida aos 30 dias. O intervalo tempo-resposta e tempo colapso até início da RCP foram significativamente menores em sobreviventes aos 30 dias. Em análise multivariada, foram preditores independentes de mortalidade aos 30 dias um ritmo inicial chocável (razão de chance [RC] = 0,28 e intervalo de confiança [IC] de 95,0% = 0,10 - 0,81; p = 0,02) e PCR no domicílio (RC = 3,0 e IC 95,0% = 1,04 - 8,7; p = 0,04).
CONCLUSÃO: O atendimento pré-hospitalar da PCR em Porto Alegre tem resultados limitados, porém equiparáveis a outras localidades internacionais. É necessário o reforço de cada elo da corrente da sobrevivência para aperfeiçoar o atendimento pré-hospitalar, visando melhora de resultados clinicamente relevantes.

Palavras-chave: Ambulâncias/utilização, resgate aéreo/utilização, serviços médicos de emergência, parada cardíaca, ressuscitação cardiopulmonar.


 

 

Introdução

A parada cardíaca é a cessação abrupta da função mecânica cardíaca, reversível se atendida rapidamente, fatal caso não haja pronta intervenção1. As doenças cardiovasculares são responsáveis por 30,0% dos óbitos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, o que representou 17,5 milhões de mortes em 20052, sendo estimado que mais da metade ocorram de forma súbita. Dois terços desses eventos súbitos ocorrem na comunidade3, com incidência de 0,55/1.000 habitantes4. No Brasil, as doenças circulatórias são responsáveis por 31,0% da mortalidade total, com 302.817 óbitos em 20065.

A reanimação cardiopulmonar depende de uma sequência de ações conhecida como Corrente da Sobrevivência6. Os elos são o reconhecimento do colapso com solicitação de socorro, início de ressuscitação básica, desfibrilação e suporte avançado de vida. Dentre os principais fatores preditores de sobrevida na parada cardíaca fora do hospital, destacam-se o tempo até o inicio de manobras básicas7 e a desfibrilação precoce7,8. O indivíduo em parada cardíaca tem sua sobrevida diminuída entre 7 e 10,0% a cada minuto sem atendimento7. A sobrevida média na parada cardíaca em ambiente não hospitalar é de 6,4%, variando de 1,0% quando o ritmo inicial é assistolia, chegando até a 16,0%, quando o ritmo inicial é fibrilação ventricular9. Tal índice sofre influência de diversos fatores e se encontram relatos de sobrevida tão baixos quanto 0,2% na cidade de Detroit (EUA)10, ou tão elevados quanto 74,0% em pacientes com fibrilação ventricular desfibrilados em menos de três minutos11.

A organização do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) na cidade de Porto Alegre (RS, Brasil) iniciou em 1993, através da cooperação técnica entre os governos Francês e Brasileiro. Em 1995, foram realizados os primeiros atendimentos e, a partir de 2002, o governo brasileiro expandiu o projeto do SAMU para várias localidades do país, abrangendo mais de 100 milhões de habitantes, através de 135 serviços habilitados até 200912. Esse sistema fornece as condições para o tratamento precoce das vítimas de morte súbita na comunidade, no entanto, os resultados deste atendimento em nosso meio são pouco conhecidos.

Este estudo teve como objetivo avaliar a sobrevida dos pacientes em parada cardíaca, no ambiente não hospitalar, atendidos pelo SAMU na cidade de Porto Alegre, bem como identificar possíveis preditores de sucesso dos procedimentos de RCP. O conhecimento dos resultados do atendimento pré-hospitalar de RCP poderá auxiliar na definição de políticas de saúde que proponham as mudanças necessárias para qualificar este tipo de estratégia de tratamento.

 

Métodos

Realizamos um estudo observacional prospectivo com pacientes em parada cardiorrespiratória não traumática, atendidos primariamente pelo SAMU, na cidade de Porto Alegre, no período de 26 de janeiro a 21 de outubro de 2008.

A cidade de Porto Alegre tem área de 497 km2 e possui 1.420.667 habitantes, de acordo com estimativa do IBGE em 200713. A cidade é atendida por um serviço de atendimento pré-hospitalar móvel público - SAMU - e outros de caráter privado. O SAMU dispõe de 15 unidades de atendimento, sendo três avançadas, uma de apoio rápido e as demais unidades de atendimento básico.

A equipe básica é composta por condutor e técnico de enfermagem com capacidade para suporte básico de vida e uso do desfibrilador externo automático (DEA). A equipe avançada é constituída por condutor, enfermeira e médico com capacidade para suporte avançado de vida. O veículo rápido é composto por condutor, médico e material de suporte avançado para apoio a uma unidade básica. A escolha da equipe de atendimento é feita de acordo com critérios de proximidade e presumível gravidade da ocorrência. Havendo retorno de circulação espontânea sustentada, o paciente é removido a uma emergência hospitalar.

O atendimento segue um protocolo padronizado, elaborado pelo serviço de acordo com as diretrizes publicadas pelo International Liaison Committee on Resuscitation (ILCOR) e pela American Heart Association (AHA) em 200514,15. O questionário utilizado na coleta de dados do presente protocolo, a definição das variáveis explanatórias e desfechos e o relato dos resultados seguiram o modelo de Utstein16.

Medidas e desfechos

O desfecho primário foi a sobrevida dos pacientes até a alta hospitalar e os desfechos secundários foram: 1) a sobrevida em trinta dias; e 2) a sobrevida considerada neurologicamente favorável, de acordo com o escore do Cerebral Performance Category (CPC) I ou II na alta hospitalar17.

Os potenciais preditores dos desfechos clínicos analisados foram:

1. dados demográficos, como idade e sexo da vítima;

2. circunstâncias do evento, como local (domiciliar, público ou outros), presença de testemunha (se o colapso foi visto ou ouvido por alguém), realização de manobras de ressuscitação por circunstante (realização de compressão e/ou ventilação por leigo testemunhada pela equipe de atendimento quando da chegada ao local); e

3. características do atendimento, como tempo-resposta (intervalo de tempo entre a chamada e a chegada da equipe ao local), tempo colapso-início de manobras (intervalo entre a estimativa do colapso quando testemunhado e o início de manobras pela equipe do SAMU), equipe inicial de atendimento (básica ou avançada) e ritmo inicial da parada cardíaca (primeira avaliação do ritmo através do DEA ou do monitor convencional).

Definimos com "ritmo chocável" os diagnósticos presuntivos de fibrilação ventricular e taquicardia ventricular. Esses diagnósticos presuntivos foram considerados quando, na primeira análise do ritmo do DEA, havia indicação para "choque" pelo operador ("ritmo chocável"), porém o equipamento de DEA utilizado no presente estudo não informa diretamente se o ritmo era fibrilação ventricular ou taquicardia ventricular. Quando o ritmo inicial era verificado a partir de cardioversor-desfibrilador convencional, o médico intervencionista fazia o diagnóstico no local, anotando-o no formulário pertinente.

A RCP atendida por circunstante foi definida como aquela realizada por pessoa que não faça parte do sistema de emergência médica pré-hospitalar organizada para o atendimento da PCR. Profissionais da área de saúde que estivessem realizando as manobras, mas não fizessem parte da equipe organizada para aquele momento, foram incluídos nessa categoria.

Embora houvesse discriminação entre FV e TV, para fins de análise, optamos por agrupá-los todos como ritmo chocável.

Outras informações obtidas foram os procedimentos de suporte avançado realizados e intervalos de tempo entre colapso e chamada telefônica, de regulação até envio, deslocamento da ambulância ao local e até o início da RCP.

O preenchimento do questionário pelo funcionário responsável (médico, enfermeiro ou técnico de enfermagem na dependência do tipo de equipe), a partir de informações fornecidas por testemunhas e/ou responsáveis pelo paciente, dava-se logo após o término do atendimento. Um pesquisador (G.S.) realizou a avaliação dos desfechos de sobrevida aos 30 dias e na alta hospitalar, com verificação do escore neurológico funcional através de entrevista com paciente, e/ou familiares e/ou médico responsável. Nos óbitos, obtivemos informações da equipe de atendimento hospitalar ou por revisão de prontuário.

Aprovação do comitê de ética

O projeto foi aprovado pelo comitê de ética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre com a concordância do Serviço de Atendimento Móvel de Porto Alegre e da comissão de ética da Secretaria Municipal de Porto Alegre. O termo de consentimento livre e esclarecido foi obtido de familiar ou responsável pelo paciente.

Análise estatística

Para descrição de variáveis contínuas, utilizamos mediana e intervalo interquartílico e as categóricas como número total e porcentagens. Nas análises bivariadas, utilizamos o teste de Mann-Whitney, o teste qui-quadrado com correção de Yates, ou o teste exato de Fisher quando indicado. A análise multivariada foi realizada para sobrevida aos 30 dias, visto não haver preditores suficientes com significância estatística na alta hospitalar. Foram colocadas no modelo, a localização, ritmo inicial em FV e o tempo-resposta. Tempo colapso-início de RCP não foi utilizado por ter sido obtido em apenas 53,0% dos atendimentos.

Calculamos ser necessário estudar 240 pacientes submetidos à reanimação cardiopulmonar para detecção de proporção populacional com estimativa da taxa de sobrevida em 6,0% ± 3,0%. Foi utilizado o pacote estatístico SPSS versão 16 para as análises. Consideramos resultados como significativos quando valor p < 0,05.

 

Resultados

No período em estudo (janeiro a outubro de 2008), foram realizados 593 atendimentos por parada cardíaca não traumática com 260 pacientes sendo submetidos à ressuscitação cardiopulmonar. Nos casos não tratados com ressuscitação cardiopulmonar (RCP), a principal justificativa foi à presença de sinais de óbito evidente (Figura 1). Um paciente foi excluído do grupo geral por ausência de dados do atendimento e um segundo foi retirado da avaliação dos desfechos de sobrevida 30 dias e alta hospitalar por perda de seguimento, após reanimação inicial com sucesso, sendo analisados os demais 259 pacientes.

 

 

Dos pacientes inicialmente submetidos à RCP, em 52 (20,0%) houve sucesso inicial da reanimação, com 16 pacientes vivos no 30º dia (6,0%) e 10 tendo alta hospitalar (3,9%). A avaliação neurológica funcional realizada na alta verificou escore CPC I ou II em 6 pacientes, totalizando 2,3% do grupo que recebeu RCP.

A Tabela 1 descreve as características basais dos pacientes com diagnóstico de parada cardíaca. Observou-se proporção maior do sexo masculino, ambiente não domiciliar, presença de testemunha, origem cardíaca e reanimação por leigo entre os que receberam RCP. Esse grupo também apresentou idade média e tempo-resposta significativamente menor do que aqueles que não receberam RCP.

 

 

As Tabelas 2 e 3 descrevem as características dos grupos que receberam RCP em relação aos desfechos sobrevida aos 30 dias e na alta hospitalar, respectivamente. Os pacientes vivos no 30º dia e na alta hospitalar foram mais jovens do que os que evoluíram a óbito, no entanto, esta diferença não atingiu significância estatística.

 

 

 

 

Sexo masculino, presença de sintomas, testemunha, causa cardíaca e equipe inicial não se mostraram preditoras de sobrevida no 30º dia pós-admissão, nem na alta hospitalar. A ocorrência da parada cardíaca no domicílio associou-se inversamente com a sobrevida tanto no 30º dia (p = 0,001) quanto na alta hospitalar (p = 0,02). Aproximadamente um terço dos pacientes recebeu ressuscitação por circunstante, com compressão torácica isolada em 62,0% e compressão torácica associada à ventilação boca-a-boca em 38,0% dos casos. Houve proporção maior de tentativa de reanimação por leigo entre sobreviventes aos 30 dias (p = 0,13) e na alta hospitalar (p = 0,07), porém sem significância estatística. O ritmo inicial permitia a realização de choque elétrico externo em 25,0% dos pacientes e mostrou-se associada à sobrevida aos 30 dias (p = 0,008), mas não na alta hospitalar. A presença de RCP por circunstante não se mostrou preditor de sobrevida em quaisquer dos desfechos considerados.

A via aérea avançada foi estabelecida em 84,0% dos casos, o acesso venoso e o uso de medicamentos intravenosos foram realizados em 90,0% dos pacientes e 46,0% foram desfibrilados pela equipe avançada, no decorrer do atendimento. Não houve associação de tais procedimentos com a sobrevida aos 30 dias e na alta hospitalar.

Aos 30 dias, tanto o intervalo tempo-resposta quanto tempo do colapso até o início da RCP foram significativamente menores em sobreviventes. Na alta hospitalar, apenas o tempo do colapso até o início da RCP esteve associado com sobrevida. Em relação aos 6 pacientes com escore neurológico funcional adequado - CPC I ou II - na alta hospitalar (Tabela 4), os preditores que se associaram com este desfecho foram o tempo colapso até o início de RCP de 7 minutos comparados com 18 minutos nos outros 134 pacientes (p = 0,01) e a localização não domiciliar da parada cardíaca em 67,0% dos pacientes (p = 0,04).

 

 

Em análise multivariada, apenas a presença de ritmo cardíaco inicial que permitisse choque elétrico (razão de chance [RC] de 0,28 e intervalo de confiança [IC] de 95,0% de 0,10 a 0,81; p = 0,02) e PCR no domicílio (RC de 3,0 e IC 95,0% 1,04 a 8,7; p = 0,04) permaneceram como preditores independentes de mortalidade em 30 dias.

A Tabela 5 descreve os tempos intermediários entre colapso até o início da RCP.

 

 

Discussão

No presente estudo, avaliamos prospectivamente a taxa de sucesso de uma estratégia de reanimação cardiopulmonar no ambiente não hospitalar de pacientes atendidos de forma consecutiva pelo SAMU, na cidade de Porto Alegre, durante aproximadamente 10 meses. Observamos que cerca de 20,0% dos pacientes submetidos à RCP obtiveram sucesso imediato, chegando vivos ao hospital; 6,0% permaneciam vivos 30 dias após o evento e 3,9% tiveram alta hospitalar, sendo que apenas 2,3% com status neurológico considerado adequado. Esses dados, embora possam ser considerados pouco expressivos, refletem os resultados encontrados por outros serviços de atendimento móvel de urgência no resto do mundo11,18,19. Em nossa análise, os principais determinantes de sobrevida foram a presença de ritmo cardíaco inicial que permitisse choque elétrico e a PCR no domicílio.

A proporção média de pacientes com alta hospitalar após RCP em ambiente não hospitalar é próximo a 6,0%, variando de 1,0% quando o ritmo inicial for assistolia, próximo a 16,0% quando fibrilação ventricular10. Nossos dados mostram uma sobrevida relativamente baixa, embora equiparável a diversos outros Serviços de Atendimento Móvel de Urgência no mundo20. Recentemente, por exemplo, ensaio clínico randomizado comparou o uso de adrenalina com uso de vasopressina como droga vasopressora inicial nas manobras avançadas de RCP por SAMUs na França21. Em tal estudo, a taxa de sobrevida na alta hospitalar foi de apenas 2,0%, com apenas 0,9% de casos com recuperação neurológica adequada.

Cabe ressaltar, entretanto, que fatores prognósticos, como sexo, idade, etiologia cardíaca, local do evento, presença de testemunha, ressuscitação por leigo e ritmo inicial foram semelhantes aos de outros locais com resultados superiores22-24. É possível que esse fenômeno se explique pela presença de outros fatores, como perfil demográfico, comorbidades e condições socioeconômicas não adequadamente avaliados no presente protocolo. No entanto, é bem estabelecido que a sobrevida na parada cardíaca fora do hospital está ligada à presença de ritmo de fibrilação ventricular, bem como à rapidez com que se fornece o choque desfibrilatório após o colapso.

Em nosso trabalho, a presença de fibrilação ventricular como ritmo inicial mostrou-se associada com a possibilidade de estar vivo no 30º dia e ter alta hospitalar. Um ritmo passível de terapia elétrica aumenta em até 5 vezes as chances de sobrevida25 e é detectada como ritmo inicial entre 20,0% a 40,0% dos eventos8,26,27. Observa-se uma tendência a diminuição na incidência desse ritmo nas últimas décadas, podendo dever-se a redução da mortalidade por cardiopatia isquêmica26. Numa visão menos favorável, a maior proporção de ritmos "não chocáveis" pode dever-se a um retardo entre o colapso e o início da ressuscitação e é possível que este fator tenha determinado em parte a detecção de fibrilação ventricular em apenas 26,0% de nossa amostra, achado sugerido pelo prolongado tempo-resposta.

Em relação à sobrevida dos pacientes encontrados em fibrilação ventricular, o tempo até o choque desfibrilatório é fator fundamental. Série de casos realizada em Cassinos nos EUA encontrou sobrevida na alta hospitalar de 74,0%, quando a PCR foi testemunhada, causada por fibrilação ventricular e atendida nos primeiros três minutos12. Devido à imprecisão da determinação do momento do colapso, utiliza-se o tempo resposta que é mais facilmente obtido, sendo sugerido como dado central pelo Comitê de Utstein17. Esse intervalo não leva em conta o tempo entre o colapso e a chamada telefônica e entre a chegada do veículo ao local e o início da reanimação, o que pode afetar sua associação com a sobrevida. Apesar disso, é o marcador temporal mais frequentemente relatado na reanimação fora do hospital e esforços devem ser realizados para obtê-lo com precisão.

No estudo OPALS II, houve um aumento de 33,0% na proporção de pacientes vivos na alta hospitalar com a otimização do tempo-resposta, uma vez que 92,0% das equipes com DEA apresentaram tempo-resposta menor do que 8 minutos28. Herlitz e cols.25, em coorte prospectiva de mais de 19 mil pacientes, estimaram um aumento de 3,6 vezes nas chances de sobrevida quando o tempo-resposta fosse menor do que 6 minutos25.

Em nossos dados, a mediana do tempo resposta no grupo geral foi 13 minutos, e nos sobreviventes, foi de 11 minutos, bem acima dos tempos recomendados para o atendimento de PCRs. É provável que o tempo prolongado tenha propiciado deterioração de ritmos passíveis de terapia elétrica em ritmos "não chocáveis", diminuindo as chances de sobrevida e o impacto de outros fatores preditores, como presença de testemunha, ressuscitação por leigo e causa cardíaca.

A possibilidade de alta com boa função neurológica também se relaciona com o tempo de retardo para o tratamento, considerando o conceito que "tempo é cérebro". Observamos que todos os pacientes, com escore neurológico CPC I ou II já nos primeiros dias, tiveram alta hospitalar, contrastando com apenas 4 daqueles com escore CPC III ou IV. Dentre os últimos, o óbito aconteceu precocemente por falência múltipla de órgãos ou, tardiamente, por complicações de internação prolongada. Embora o tempo resposta não tenha mostrado associação significativa com a sobrevida, a estimativa do intervalo entre o colapso e o início de ressuscitação pela equipe do SAMU mostrou forte associação tanto aos 30 dias quanto na alta hospitalar, sendo que, no grupo de sobreviventes com CPC I ou II, este tempo foi de apenas 7 minutos. Com um tempo resposta adequado, os demais fatores relacionados ao paciente, às circunstâncias do evento e à organização do sistema de emergência assumem importância na possibilidade de sobrevida dos pacientes29.

Outro fator importante a ser ressaltado em nossos resultados é que o tempo estimado entre o colapso e a chamada por socorro foi de 4 minutos. Essa etapa corresponde exatamente à fase elétrica no modelo de Weisfeldt30 e seria a etapa de melhor resposta à terapêutica. Adiciona-se a isso a realização de RCP por leigo em apenas 28,0% da população, que foi posteriormente submetida à RCP pelo SAMU, e que, muito provavelmente, iniciou, na grande maioria dos casos, após o encerramento da chamada telefônica.

A maioria dos episódios de parada cardíaca na comunidade ocorre no domicílio, no entanto, é o local público que se associa com melhor sobrevida imediata e em 6 meses31, duplicando as chances de ter alta hospitalar vivo25. Em nossa amostra, a localização pública esteve associada ao melhor desfecho aos 30 dias e na alta hospitalar, confirmando os relatos prévios. O tempo-resposta e a realização de ressuscitação por leigo foram semelhantes em ambas localizações.

É provável que um dos fatores responsáveis por essa relação tenha sido a maior proporção de eventos testemunhados nos espaços públicos, o que pode ter determinado um acionamento mais precoce do serviço de emergência, e mesmo do início ou da qualidade da ressuscitação por circunstante. Outro fator sugerido como associado ao melhor prognóstico em locais públicos, e que não podemos afastar, seria melhor condição de saúde prévia da vítima31. A menor sobrevida dos pacientes com parada cardiorrespiratória no domicílio sugere dificuldades no primeiro elo da corrente da sobrevivência, como o reconhecimento dos sinais de parada cardíaca e o acionamento do serviço de emergência. Essas são etapas sensíveis à modificação através de campanhas de educação populacional.

Dentre as limitações do presente trabalho, reconhecemos que o número amostral é relativamente pequeno, reduzindo o poder estatístico para identificar diferenças de menor magnitude.

Cabe ressaltar também que não houve padronização no cuidado pós-ressuscitação nos hospitais para os quais os pacientes foram encaminhados. A maioria dos pacientes permaneceu as primeiras 12 h em salas de emergência de hospitais de grande porte da cidade, posteriormente sendo transferidos para unidade de tratamento intensivo. É de se mencionar que não observamos condutas diferentes da recomendação habitual para suporte aos pacientes críticos, como estabilização hemodinâmica e ventilatória, além de investigação etiológica. Não foi realizado hipotermia nas primeiras horas pós PCR.

Entre as variáveis estudadas em nosso protocolo, reconhecemos que pode ter ocorrido imprecisão na aferição do tempo-resposta, pois a chegada ao local era informada verbalmente por rádio de uso comum para todas as equipes. A presença de ressuscitação por leigo foi constatada pela equipe, no entanto, não verificamos a qualidade e nem o momento do início deste procedimento, fatores importantes para a efetividade das manobras, mas de raro relato na literatura. A simples presença desse fator geralmente se correlaciona com melhora da sobrevida32,33.

Nossos dados permitem concluir que o atendimento pré-hospitalar dos pacientes vítimas de parada cardíaca na comunidade atendidos pelo SAMU de Porto Alegre tem resultados limitados, porém equiparáveis a muitas outras localidades. A monitoração desses resultados é passo inicial fundamental para o aprimoramento de tal sistema de atendimento. Para isto, há a necessidade de integração entre a comunidade, o serviço de atendimento móvel de urgência e o atendimento hospitalar, objetivando a otimização dos resultados atuais.

Na comunidade, é fundamental a educação para o reconhecimento dos sinais de gravidade de um colapso, para o acesso e comunicação ao serviço de emergência e para a técnica de realização de manobras básicas de reanimação, além de programas de colocação de DEAs em locais de grande circulação com treinamento de primeiro-respondente. Para que essas medidas forneçam os resultados adequados, torna-se importante a informação dos diversos sistemas sobre os resultados obtidos na prática.

Muito pode e deve ser feito para que as vítimas de parada cardíaca na comunidade possam voltar a ter vidas satisfatórias e produtivas, e, no Brasil, a introdução do SAMU foi o passo inicial fundamental para que alcancemos tal objetivo.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de dissertação de Mestrado de Gladis Semensato pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Referências

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Correspondência:
Luís Eduardo Rohde
Serviço de Cardiologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
Rua Ramiro Barcelos, 2350, Sala 2061, 2º andar
90003-035 - Porto Alegre, RS - Brasil
E-mail: lerohde@terra.com.br

Artigo recebido em 03/02/10; revisado recebido em 11/05/10; aceito em 21/07/10.

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