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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.96 no.4 São Paulo Apr. 2011 Epub Apr 01, 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2011005000034 

Doença periodontal em portadoras de valvopatia durante a gravidez - estudo clínico e microbiológico

 

 

Walkiria Samuel ÁvilaI; Lilia TimermanII; Giuseppe Alexandre RomitoIII; Sílvia Linard MarcelinoIII; Itamara Lúcia Itagiba NevesI; Marcelo ZugaibIV; Max GrinbergI

IInstituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP - Brasil
IIInstituto Dante Pazzanese de Cardiologia - São Paulo, SP - Brasil
IIIDisciplina de Periodontia do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP - Brasil
IVDepartamento de Obstetrícia e Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo - São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A doença periodontal representa risco à gestante portadora de valvopatia reumática, seja para contrair endocardite infecciosa, seja por propiciar complicações obstétricas.
OBJETIVO: Estudar a frequência da doença periodontal em portadoras de valvopatia reumática durante a gravidez.
MÉTODOS: Foram estudadas 140 gestantes, comparáveis quanto a idade e o nível socioeconômico, divididas em: 70 portadoras de doença valvar reumática e 70 mulheres saudáveis. Todas se submeteram a: 1) avaliação clínica odontológica que incluiu a análise dos seguintes parâmetros: 1.1) profundidade à sondagem, 1.2) distância da linha esmalte-cemento à margem gengival, 1.3) nível clínico de inserção, 1.4) índice de sangramento, 1.5) índice de placa bacteriana, e, 1.6) comprometimento de furca; e, 2) exame microbiológico nas amostras de saliva e do cone que considerou o controle positivo para as cepas das bactérias Porphyromonas gingivalis, Tannerella forsithia e Aggregobacter actinomycetemcomitans.
RESULTADOS: A lesão valvar mitral foi prevalente (65 casos = 92,8%) dentre as gestantes cardiopatas. A comparação entre os grupos mostrou não haver diferenças entre idade e a paridade, e embora tenham sido verificadas diferenças entre as medidas da distância da linha esmalte-cemento à margem gengival (p = 0,01) e o índice de placa (p=0,04), a frequência da doença periodontal identificada em 20 (14,3%) gestantes, não foi diferente entre os grupos (p = 0,147). O exame microbiológico mostrou uma proporção maior da bactéria P. gingivalis na saliva de gestantes saudáveis (p = 0,004).
CONCLUSÃO: O estudo clínico e microbiológico periodontal durante a gravidez demonstrou igual frequência da doença periodontal em portadoras de valvopatia reumática quando comparada às mulheres saudáveis.

Palavras-chave: Periodontite, gengivite, doenças das valvas cardíacas, doença valvar reumática, gravidez.


 

 

Introdução

A doença periodontal compreende um amplo espectro de alterações dos tecidos periodontíticos de origem inflamatória e/ou infecciosa que podem acontecer durante a gravidez, quando modificações fisiológicas da cavidade oral, atribuíveis a mecanismos hormonais da gestação, causam o que se denomina gengivite gravídica1, caracterizada por inflamação de gengiva, cemento e ligamento periodontal, e que predispõe a gestante à periodontite.

A periodontite que acomete cerca de 15,0% da população brasileira2,3 é uma situação clínica mais grave, porque, além de comprometer o osso alveolar, associa-se a micro-organismos, na maioria bacilos anaeróbicos gram-negativos, destacando-se as bactérias Porphyromonas gingivalis (P. gingivalis), Tannerella forsythia (T. forsythia), e Aggregobacter actinomycetemcomitans (A. actinomycetemcomitans)4.

No âmbito da gravidez, o permanente estado inflamatório e infeccioso da cavidade oral5 representa riscos potenciais, seja por favorecer a infecção por endocardite infecciosa, seja por propiciar complicações obstétricas, tais como aborto espontâneo e prematuridade6.

Nesse sentido, o objetivo deste trabalho foi estudar a frequência da doença periodontal em mulheres portadoras de valvopatia reumática durante a gravidez.

 

Métodos

No período de janeiro de 2005 a julho de 2008, realizou-se um estudo transversal que selecionou 140 mulheres grávidas com idades entre 18 e 35 anos, atendidas consecutivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O grupo de portadoras de doença valvar reumática foi composto por 70 gestantes atendidas no ambulatório de Cardiopatia e Gravidez da Unidade de Cardiopatias Valvares do Instituto do Coração (InCor). O grupo de mulheres saudáveis correspondeu a 70 gestantes acompanhadas no ambulatório de pré-natal do Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Quando da inclusão no estudo, os grupos de gestantes reumáticas e gestantes saudáveis foram comparáveis quanto à idade, níveis socioeconômico e cultural, e idade gestacional. Todas as pacientes obedeceram a um protocolo que incluiu avaliação clínica periódica e exame clínico odontológico, que visou a identificação de doença periodontal e o estudo microbiológico da cavidade oral. No grupo das gestantes reumáticas, dentre as medicações de indicação cardiológica, foi mantida a aplicação intramuscular de penicilina G benzatina, na dose de 1.200.000 UI a cada 21 dias, para profilaxia secundária da doença reumática. Não foram incluídas mulheres com outras morbidades, tais como hipertensão arterial, diabete melito, doenças infecciosas, ou aquelas que tivessem utilizado antibióticos num período inferior a três meses.

Entre os dados da anamnese, destacou-se, para o estudo, o questionamento sobre os hábitos da higiene bucal. As pacientes foram submetidas à avaliação clínica periodontal que utilizou o espelho clínico e uma sonda milimetrada para registro dos seguintes parâmetros: a) profundidade clínica de sondagem (PCS) que corresponde à distância (mm) compreendida entre a margem gengival e o fundo do sulco gengival ou da bolsa periodontal; b) distância da linha esmalte-cemento à margem gengival (LEC/MG); c) nível clínico de inserção (NCI) que é a diferença aritmética dos valores de PCS e LEC/MG; d) índice de sangramento (IS) nas 4 faces de cada dente avaliado; e) índice de placa bacteriana (IP); e f) comprometimento de furca. O diagnóstico de doença periodontal firmou-se nos critérios de Tonetti e Claffey7.

Para a análise microbiológica das amostras de saliva e do cone, foram aplicadas as técnicas de extração do ácido desoxirribonucleico (DNA) e da reação de polimerase em cadeia. Os controles positivos foram cepas cultivadas das bactérias P. gingivalis, T. forsythia e A. actinomycetemcomitans, de acordo com a técnica de Ashimoto8.

A análise estatística dos resultados utilizou as frequências absolutas e relativas dos dados, as medidas de tendência central (média e mediana) e a dispersão dos valores (mínimo, máximo e desvio-padrão). Os testes de associação (qui-quadrado de Pearson e exato de Fisher) foram calculados para avaliar a relação entre a presença de doença periodontal e as variáveis qualitativas. Na avaliação da condição periodontal, foram considerados os parâmetros clínicos: PCS, NCI, LEC/MG, IS e IP. Os testes não paramétricos de Mann-Whitney e qui-quadrado de Pearson foram utilizados para a comparação entre as gestantes reumáticas e as saudáveis. Adotou-se o nível de significância de 5,0% para rejeição da hipótese de nulidade.

O estudo foi aprovado pelas Comissões de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina (CAPPesp - processo nº 199/05) e do InCor (processo nº 2557-04/177) da Universidade de São Paulo, e pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. As pacientes foram incluídas no protocolo após obtenção da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, de acordo com as normas da Resolução nº 196, de 10 de outubro de 1996, do Conselho Nacional de Saúde.

 

Resultados

Eram primigestas 61 pacientes (43,6%) e a média da idade materna não foi diferente (p < 0,451) entre os grupos, sendo de 27 ± 4,6 anos nas reumáticas e de 27 ± 5,1 anos nas mulheres saudáveis. A análise da distribuição da lesão valvar no grupo de gestantes reumáticas mostrou que 45 (32,1%) delas apresentavam valvopatia mitral, 5 (3,6%) valvopatia aórtica e 20 (28,5%), lesão combinada mitral e aórtica. Quinze das 70 gestantes reumáticas já haviam sido submetidas à cirurgia cardíaca de substituição valvar por prótese biológica.

Exame clínico-odontológico

A análise das informações dos hábitos de higiene bucal mostrou que o uso de fio dental foi maior (p = 0,02) no grupo das gestantes reumáticas (48 = 68,5%) quando comparado ao saudável (32 = 45,7%), enquanto que o hábito de enxaguar a boca com antisséptico foi 2,3 vezes maior entre as gestantes saudáveis. Os exames odontológico e microbiológico foram realizados em idade gestacional semelhante (p = 0,801), sendo em média durante a 27,8ª ± 6,6 semana de gestação no grupo de reumáticas e na 29,8ª ± 7,6 semana no saudável.

A média do número de dentes preservados foi de 24,1 dentes no grupo das reumáticas e 24,0 no grupo saudável. A doença periodontal foi identificada em 20 (14,3%) gestantes, sendo que 7 (10%) delas eram reumáticas e 13 (18,6%) saudáveis, não havendo diferença estatística (p = 0,147) na comparação entre os grupos. A análise dos parâmetros periodontais demonstrados na Tabela 1 verificou diferenças entre os grupos quanto às medidas LEC/MG (p = 0,01) e IP (p = 0,04).

 

 

Exame microbiológico

A análise comparativa entre os grupos mostrou que a proporção da P. gingivalis foi significativamente maior na saliva de gestantes saudáveis em comparação às reumáticas (p = 0,004), mas não houve diferença quanto às bactérias T. forsythia e A. actinomycetemcomitans tanto nas amostras de saliva quanto nas do cone (Tabela 2). Análise da distribuição dos tipos de bactérias entre as 20 gestantes que apresentaram doença periodontal mostrou que a proporção de P. gingivalis e de A. actinomycetemcomitans foi significativamente maior nas amostras de saliva e do cone, respectivamente (Tabela 3).

 

 

 

 

Dados obstétricos

Não houve complicação obstétrica materna durante a gestação e o parto. A idade gestacional do parto, calculada em semanas de gestação, variou entre 36 e 42 anos (média = 38,54 ± 6,65) nas gestantes reumáticas e entre 32 e 42 anos (média = 39,28 ± 7,65) nas saudáveis. O peso dos recém-nascidos variou entre 3.017 e 4.488 g (média = 3.069 g ± 455) no grupo de gestantes reumáticas, e entre 3.290 e 4.260 g (média = 3.286 g ± 455) no das saudáveis. A análise comparativa mostrou que a idade gestacional do parto e o peso dos recém-nascidos foram menores no grupo das gestantes reumáticas, com significância estatística (respectivamente p = 0,0036 e p = 0,034).

 

Discussão

O presente estudo provê dados originais aos conhecimentos atuais sobre o envolvimento da doença periodontal em duas situações especiais: gravidez e valvopatia reumática.

Modificações hormonais da gestação, mudanças no estilo de alimentação e higiene bucal precária são fatores que favorecem a manifestação da gengivite gravídica, habitual no ciclo gravídico-puerperal9,10. Acresce que a falta de acesso ao tratamento odontológico e os mitos sobre a segurança no tratamento dentário predispõem à doença periodontal durante a gestação11.

Embora a população considerada neste estudo estivesse exposta a todos esses fatores, o registro de 14,0% de doença periodontal não foi diferente do percentual encontrado na população geral12. Entre as explicações para tal achado estão as características da casuística: pacientes jovens (média de idade de 27 anos) que sabidamente13 apresentam menor risco de doença periodontal quando comparadas aos idosos; exclusão de tabagistas e de portadoras de diabete melito, condições de reconhecido e elevado risco para doença periodontal na população geral14,15. Deve-se ressaltar, entretanto, que os conhecimentos atuais carecem de mais estudos sobre a incidência da doença periodontal em cardiopatas portadores de valvopatia reumática.

O presente estudo mostrou que a proporção de 13 (18,6%) casos de doença periodontal no grupo saudável e 7 (10,0%) no grupo de reumáticas não resultou em significância estatística. Entretanto, verificou-se no exame clínico que parâmetros, como a distância entre a linha esmalte-cemento (LEC) e a margem gengival (MG) e o índice de placa bacteriana (IP), foram diferentes na gestante saudável.

Tais achados talvez possam ser explicados pela melhor higiene bucal efetuada pelas gestantes reumáticas, as quais utilizavam fio dental com maior frequência. Embora de nível socioeconômico semelhante, as mulheres com valvopatia são, provavelmente, mais bem informadas sobre os potenciais riscos cardíacos associados à má saúde bucal, fruto da educação continuada recebida no decorrer do seguimento cardiológico.

Nesse sentido, tem sido reforçado na prática diária que o estado inflamatório e infeccioso crônico da boca contribui para a bacteriemia intermitente e para o risco de endocardite infecciosa em portadores de valvopatias. De fato, Hull16 e Holmstrup17 demonstraram que a cavidade bucal é a principal porta de entrada para agentes etiológicos da endocardite infecciosa.

No que diz respeito aos tipos de agentes microbianos na doença periodontal, as dificuldades no reconhecimento de sua especificidade fundamentam-se no expressivo número de espécies, observando-se que cerca de 300 a 400 delas são encontradas no biofilme bacteriano18. Desse espectro, possivelmente, algo entre 10 a 20 espécies participam da patogenicidade e da destruição periodôntica na doença periodontal19, prevalecendo bacilos anaeróbicos gram-negativos, dentre eles o A. actinomycetemcomitans (grupo Hacek), a P. gingivalis e a P. intermedia, com predomínio nas amostras de gengiva20.

A identificação de maior proporção de P. gingivalis na saliva de gestantes saudáveis em comparação à reumática (54,3% vs 29,20%; p = 0,004) reforça a explicação sobre a melhor condição bucal das pacientes cardiopatas comparada à das gestantes saudáveis.

Considere-se, entretanto, a possível influência positiva da penicilina benzatina no grupo das gestantes reumáticas. Assim, a recomendação de manter a administração desse antibiótico a cada 21 dias, durante a gravidez, com o intuito de prevenir novos surtos reumáticos, pode representar um benefício adicional na melhoria da saúde oral e na prevenção da doença periodontal durante a gravidez.

No presente estudo, a prevalência da P. gingivalis nas amostras de saliva nas pacientes que tiveram a doença periodontal corrobora os relatos de Dietrich e Takeuchi19, que demonstraram ser a P. gingivalis um agente patógeno de forte virulência e que a sua detecção deve ser utilizada como indicador clínico para doença periodontal.

Quanto à evolução obstétrica, nossos resultados não permitiram correlacionar a doença periodontal com os efeitos adversos para a gravidez. Embora a literatura tenha chamado a atenção para a associação de doença periodontal com o baixo peso ao nascer e a prematuridade, em decorrência do estado sistêmico inflamatório, ainda não há evidências suficientes para permitir a correlação de efeitos da doença periodontal com desfechos obstétricos adversos21.

Por outro lado, a significativa proporção de recém-nascidos de baixo peso e a menor idade gestacional quando do parto, verificadas no grupo de gestantes reumáticas, são explicadas pelas restrições ao débito cardíaco materno e ao fluxo placentário, acrescidas da ação da eventual terapêutica com diuréticos e betabloqueadores utilizados nas gestantes reumáticas.

No âmbito materno, a ausência de complicações no ciclo gravídico-puerperal é atribuível à não inclusão de pacientes portadoras de hipertensão arterial, diabete melito e outras morbidades, aliada ao rigor da assistência pré-natal multidisciplinar.

 

Conclusão

O estudo clínico-microbiológico da cavidade oral durante a gravidez demonstrou que a frequência da doença periodontal em mulheres portadoras de valvopatia reumática não foi diferente quando comparada às gestantes saudáveis.

 

Agradecimentos

A pesquisa teve apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (processo 57931-2).

À equipe do atendimento de pré-natal do Centro de Saúde Geraldo de Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo pelo apoio à formação da casuística que incluiu as gestantes saudáveis.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi financiado pela FAPESP.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de Doutorado de Lilia Timerman pelo Incor.

 

Referências

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Correspondência:
Walkiria Samuel Ávila
Rua Apiacás, 688/31 - Perdizes
05017-020 - São Paulo, SP - Brasil
E-mail: wsavila@cardiol.br, walkiria@incor.usp.br

Artigo recebido em 24/02/10; revisado recebido em 26/07/10; aceito em 28/07/10.