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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.96 no.5 São Paulo May 2011  Epub Apr 15, 2011

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2011005000042 

ARTIGO ORIGINAL

 

Quantificação da dilatação ventricular esquerda na cintilografia miocárdica perfusional

 

 

Mauren B. Azambuja Gonzalez; Roberto Alves Azambuja; Luiz Carlos Bodanese

Serviço de Cardiologia do Hospital São Lucas da PUCRS; Programa de Pós-Graduação em Medicina e Ciências da Saúde - Clínica Médica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS; Hospital São Vicente de Paulo, Rio de Janeiro, RJ - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O índice de dilatação transitória pode ser determinado através de teste ergométrico ou estresse farmacológico. Desconhece-se se o tipo de estresse tem impacto sobre os valores médios do índice de dilatação transitória.
OBJETIVO: Comparar os valores médios do índice de dilatação transitória na cintilografia com 99mTc-sestamibi, em pacientes submetidos a teste ergométrico em esteira, versus estresse com dipiridamol. O objetivo secundário foi avaliar o impacto sobre o valor médio do índice exercido pelas características demográficas, pelos fatores de risco para doença arterial coronariana e a gravidade da isquemia.
MÉTODOS: O estudo transversal incluiu 200 pacientes, entre 40 e 70 anos, portadores ou não de fatores de risco para cardiopatia isquêmica, com ou sem diagnóstico prévio de cardiopatia isquêmica. A separação entre grupos foi sequencial. O software 4D-MSPECT calculou o índice de dilatação transitória e forneceu um sistema de escores para análise da perfusão.
RESULTADOS: O valor do índice de dilatação transitória médio do grupo submetido a teste ergométrico foi de 1,06 (±0,23). O do grupo submetido ao estresse com dipiridamol foi de 1,10 (±0,22);(p = 0,200). Não houve associação entre o tipo de estresse e os valores médios do índice de dilatação transitória. Encontrou-se associação entre os valores médios do índice e a faixa etária somente para os pacientes do grupo do teste ergométrico (p = 0,009).
CONCLUSÃO: Os resultados do nosso estudo demonstram que o índice de dilatação transitória não difere quando os pacientes são submetidos a estresse pelo teste ergométrico em esteira ou estresse farmacológico pelo dipiridamol.

Palavras-chave: Dilatação, função ventricular esquerda, teste de esforço, cintilografia, dipiridamol.


 

 

Introdução

A cintilografia miocárdica perfusional (CMP) é executada associada ao teste ergométrico em esteira, ou ao estresse farmacológico com dipiridamol, adenosina, ou dobutamina1.

A CMP fornece uma avaliação relativa da perfusão na análise do grau da captação do radiofármaco pelas paredes ventriculares. Na estenose triarterial balanceada, os defeitos perfusionais induzidos pelo exercício podem distribuir-se homogeneamente pelo miocárdio, podendo causar um falso negativo2,3.

A CMP avalia a dilatação da cavidade ventricular esquerda, induzida pelo estresse, quantificada pelo índice de dilatação transitória (IDT). Considera-se a dilatação presente quando a cavidade ventricular esquerda é maior após o estresse, em relação à imagem do repouso4.

A dilatação foi inicialmente descrita na cintilografia de repouso com tálio-201 e estresse ergométrico com 99mTc-sestamibi, quando o IDT maior que 1,22 teve 71,0% de sensibilidade e 95,0% de especificidade no diagnóstico de estenoses coronarianas a partir de 90,0% do lúmen vascular5. Foi ainda descrita com os protocolos 99mTc-sestamibi stresse/repouso6 e 99mTc-tetrofosmin estresse/repouso7. No exame associado ao estresse ergométrico, as imagens são realizadas entre 30 a 60 minutos após o estresse, dando ao miocárdio tempo de recuperação da disfunção mecânica causada por ele. Mas, no exame associado ao dipiridamol, quando o miocárdio não é submetido a um estresse real, o IDT também foi descrito8.

Embora o IDT venha sido descrito há anos, ainda não foi avaliado se o tipo de estresse, ergométrico ou farmacológico, afeta o seu valor médio em grupos homogêneos.

Na prática clínica, a comparação entre os métodos pode direcionar os pacientes ao tipo de estresse que mais afeta o valor médio do IDT, podendo minimizar as limitações da CMP, como em casos de pacientes portadores de coronariopatia triarterial balanceada e de estenose do tronco da artéria coronária esquerda. À análise visual da perfusão, essas duas situações são causas já estabelecidas de falso negativo na cintilografia2,3.

 

Métodos

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre (registro 08/04461) e os participantes assinaram o Termo de Consentimento.

A hipótese operacional afirma que mecanismos de esforços diferentes induzem respostas diferentes do ventrículo esquerdo ao estresse.

O objetivo principal do estudo foi comparar os valores médios do IDT na CMP em pacientes submetidos a estresse ergométrico, em esteira com o protocolo Ellestad, e os valores médios do IDT em pacientes submetidos a estresse farmacológico com dipiridamol.

O objetivo secundário foi avaliar o impacto sobre o valor médio do IDT exercido pela cintilografia normal ou não, segundo o summed stress score (SSS). A análise incluiu o impacto dos fatores: sexo, idade, índice de massa corporal, hipertensão arterial sistêmica, diabete melito, dislipidemia e fumo sobre o IDT médio de cada um destes parâmetros nos grupos.

A amostra foi recrutada a partir dos pacientes encaminhados pelos seus médicos assistentes para realizar cintilografia na rotina do serviço.

Para comparar o efeito do estresse farmacológico versus o estresse ergométrico, tomando como base uma diferença mínima significativa de 0,5 desvio-padrão, foi estimada uma amostra de 86 pacientes por grupo, mantendo-se α = 0,05 e poder estatístico de 90,0% (β = 0,10). Para possibilitar o ajuste estatístico e estimar o impacto de fatores de confusão, o tamanho da amostra foi aumentado em aproximadamente 15,0%, totalizando 100 pacientes por grupo.

A cintilografia foi realizada nos pacientes com diagnóstico prévio de cardiopatia isquêmica coronariana, ou não. Foram incluídos pacientes de ambos os sexos, com idade entre 40 a 70 anos, portadores ou não de diabete melito, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia, fumantes ou não. Foram considerados diabéticos todos os pacientes que relataram usar hipoglicemiantes orais ou insulina. Foram considerados hipertensos todos pacientes que relataram usar medicações hipotensoras, e dislipêmicos todos pacientes em uso de fármacos hipolipemiantes. Foram considerados fumantes todos os que afirmaram já ter fumado mais de 100 unidades de cigarro em toda a sua vida.

Os pacientes foram separados em um grupo submetido à cintilografia associada a estresse ergométrico em esteira versus o segundo grupo, submetido à cintilografia associada a estresse com dipiridamol. A separação entre os grupos foi sequencial. A randomização não foi possível, pois analisamos os pacientes que realizaram a cintilografia na rotina do serviço. Realizamos 100 cintilografias seguidas em cada grupo.

A cintilografia foi executada conforme a primeira diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia sobre Cardiologia Nuclear1.

Os pacientes foram orientados a suspender: aminofilina e medicações com xantinas, 36 horas antes da cintilografia; betabloqueadores e antagonistas dos canais do cálcio, 72 horas antes; nitratos, 24 horas antes; e medicações com cafeína, 24 horas antes. Os pacientes foram orientados a não consumir cafeína e seguir dieta pobre em xantinas 24 horas antes1.

Nos dois grupos, a cintilografia foi feita utilizando o protocolo de um dia com 99mTc-sestamibi, administrado por via endovenosa, em atividade de 296 a 370 MBq em repouso e em atividade de 925 a 1110 MBq na fase do estresse, para os pacientes dos dois grupos1.

Aproximadamente duas horas após o estudo de repouso, os pacientes do primeiro grupo foram submetidos a estresse ergométrico em esteira pelo protocolo de Ellestad. Administramos o radiofármaco quando o paciente atingiu pelo menos 85,0% da frequência cardíaca máxima para a idade, determinada pela fórmula (220-idade)1.

Aproximadamente duas horas após o estudo de repouso, os pacientes do segundo grupo receberam por via endovenosa 0,14 mg/kg/minuto de dipiridamol, durante 04 minutos. Administramos o radiofármaco entre o 7º e o 9º minutos após o início da infusão do dipiridamol1.

A aquisição da imagem ocorreu entre 15 a 30 minutos após estresse ergométrico, 45 a 60 minutos após o estresse farmacológico e entre 45 a 60 minutos após a injeção do traçador em repouso1.

A cintilografia foi realizada na gama-câmara E-Cam SIEMENS®, com colimador LEHR e janela de energia centrada em 140 keV (±15%), matriz de 64 por 64 pixels e rotação pelo método passo a passo. Os pacientes foram posicionados em decúbito dorsal horizontal, com os braços elevados. Foi feita uma imagem tomográfica com arco de rotação de 180°, em órbita elíptica e em sentido anti-horário, com aquisição de 64 projeções de 20 segundos de duração cada, em repouso, e de 64 projeções de 25 segundos de duração cada, após cada estresse. As imagens das duas fases foram sincronizadas ao eletrocardiograma (ECG). Cada ciclo cardíaco foi dividido em 16 porções. O ECG determinou o intervalo R-R de cada paciente no momento do exame. A partir da média do intervalo R-R, criou-se uma janela de aceitação de 15,0%, excluindo os batimentos fora desta janela. O processamento das imagens usou o filtro Butterworth, seguido da reconstrução das imagens através da técnica da retroprojeção filtrada1.

Usamos o software 4D-MSPECT® no processamento da cintilografia por um operador cego para o cálculo automático do IDT, através da divisão do volume da superfície endocárdica da cavidade ventricular esquerda após o estresse, sobre o volume da superfície endocárdica da cavidade em repouso. O software estimou o volume do ventrículo esquerdo a partir das imagens tridimensionais fornecidas pela cintilografia. O algoritmo segmenta o ventrículo esquerdo e determina os limites da superfícies endocárdica e epicárdica e do plano valvar para as imagens do estresse e do repouso. Então, calcula-se o IDT pela razão (volume da cavidade ventricular pós-estresse/volume da cavidade ventricular em repouso)5,9.

A análise da perfusão usou sistema de escores que divide o miocárdio em 17 segmentos e considera uma escala numérica com os seguintes valores: zero = normal; um = tênue hipocaptação do radiofármaco; dois = moderada hipocaptação; três = acentuada hipocaptação; 04 = ausência de captação do radiofármaco. Os escores três e 04 associam-se a estenoses coronarianas superiores a 90,0%. Cada um dos 17 segmentos recebe um valor entre zero e 04. Calcula-se o somatório dos valores atribuídos a cada segmento, representativo da fase de estresse e denominada SSS (summed stress score). Valores numéricos de SSS menores ou iguais a três são considerados normais, entre 04 e 08 discretamente anormais, entre 09 e 13 moderadamente anormais e a partir de 14 francamente anormais1.

Foram excluídos indivíduos com: ritmo cardíaco não sinusal; diagnóstico prévio de quaisquer outras doenças cardíacas (miocardiopatias ou valvulopatias); volume sistólico final menor que 15 mililitros e com amputação de extremidades.

A cintilografia não foi realizada quando o cardiologista julgou o paciente inapto a realizar esforços. A única contraindicação absoluta foi a gestação.

Os pacientes não foram expostos à radiação para fins acadêmicos. Analisamos pacientes que realizaram a cintilografia por solicitação do seu médico assistente, sem financiamento.

 

Resultados

O grau de obesidade dos pacientes foi avaliado pelo cálculo do índice de massa corporal (IMC), obtido pela razão entre o peso do paciente, em quilogramas, sobre a altura em metros ao quadrado. Os pacientes com IMC entre 18,5 e 24,9 foram considerados normopesos; entre 25,0 e 29,9 foram considerados sobrepesos; indivíduos com IMC maior ou igual a 30,0 foram considerados obesos. Dos pacientes, 64,0% apresentaram perfusão normal à cintilografia, segundo o SSS. A Tabela 1 mostra que os grupos foram homogêneos (p > 0,05).

 

 

Para descrever dados quantitativos, usamos a média ± desvio-padrão. Dados categóricos foram expressos por contagens e percentuais. A comparação do IDT entre grupos foi por regressão linear múltipla. Dados categóricos foram comparados pelo procedimento do qui-quadrado. O nível de significância adotado foi de α = 0,05. Os dados foram analisados e processados com o auxílio do programa SPSS, versão 17.

A Tabela 2 mostra que o estudo não encontrou associação entre o tipo de estresse e os valores médios do IDT. Encontrou-se associação entre os valores médios do IDT e as faixas etárias dos pacientes do grupo do teste ergométrico (p = 0,009). Houve ainda associação significativa entre os valores médios do IDT para os pacientes do tercil mais jovem, cujo IDT do grupo do dipiridamol teve valor médio maior (p = 0,010).

 

 

Discussão

A CMP é associada ao teste ergométrico em esteira, ou ao estresse com dipiridamol, adenosina, ou dobutamina1. A presença de defeitos perfusionais extensos e severos, a redução da fração de ejeção ventricular esquerda após o estresse e a dilatação ventricular esquerda induzida pelo estresse são indicadores de mau prognóstico à cintilografia10.

O exercício físico tem efeitos inotrópicos e cronotrópicos positivos sobre o coração e aumenta a pressão sanguínea arterial. Em artérias coronárias saudáveis, o aumento da necessidade de oxigênio é compensado pela vasodilatação fisiológica arterial, que aumenta o fluxo sanguíneo arterial duas a três vezes acima do basal. Assim, o estresse cardíaco causa isquemia em artérias coronárias estenosadas ou incapazes de dilatar-se (com comprometimento da reserva coronariana), resultando em distúrbios da cinesia e da perfusão das paredes ventriculares e do traçado do eletrocardiograma, bem como em sintomas como a dor torácica11.

O dipiridamol possui efeito vasodilatador indireto por bloquear a recaptação da adenosina para o meio intracelular. Nas coronárias com obstrução a partir de 50,0% do lúmen vascular, para manutenção do fluxo, há intensa dilatação arteriolar distal à obstrução em repouso. Nas coronárias obstruídas, o dipiridamol causará pouca dilatação. As arteríolas das coronárias normais terão dilatação máxima. A reserva coronariana começa a diminuir devido a estenoses de 45,0% a 50,0% do lúmen vascular. O fluxo coronariano basal mantém-se normal até o diâmetro do vaso alcançar estreitamentos maiores que 70,0%. Portanto, a causa dos defeitos de perfusão após a administração de dipiridamol é a heterogeneidade do fluxo miocárdico regional, com importante aumento do fluxo nas artérias normais e pequeno ou inexistente aumento nas artérias com estenose. O fenômeno do "roubo" coronariano após injeção de dipiridamol ocorre somente quando o fluxo distal à estenose é reduzido, por desvio de parte do fluxo sanguíneo para outro território coronariano (competição induzida pela vasodilatação máxima), habitualmente do subendocárdio para o subepicárdio: as arteríolas subepicárdicas mantêm ainda reserva residual de vasodilatação, enquanto a reserva subendocárdica já foi esgotada1.

A dilatação ventricular induzida pelo estresse foi descrita em protocolos cintilográficos, como repouso/estresse com 99mTc-sestamibi, repouso/estresse com 99mTc-tetrofosmin, ou repouso com tálio-201 e estresse com 99mTc-sestamibi. A dilatação também já foi descrita em situações de estímulo com o dipiridamol4. Como nenhum estudo ainda havia avaliado o impacto do tipo de estresse sobre os valores médios do IDT, este foi o objetivo principal de nosso estudo.

A CMP avalia a dilatação da cavidade ventricular esquerda induzida pelo estresse, quantificada pelo IDT. Considera-se a dilatação presente quando a cavidade ventricular é maior após o estresse, em relação à imagem basal4.

Vários mecanismos fisiopatológicos podem estar associados ao aumento do IDT. O IDT pode estar associado à hipoperfusão subendocárdica e à disfunção ventricular sistólica. A coronariopatia multivascular associa-se à isquemia subendocárdica difusa, que compromete a perfusão do endocárdio, resultando na menor concentração endocárdica do traçador. Outra explicação seria a isquemia causar uma disfunção sistólica que resultaria no aumento da cavidade ventricular, devido ao aumento do volume sistólico final do ventrículo esquerdo. A disfunção sistólica também causa a impressão de dilatação da cavidade ventricular4.

Outros estudos sugerem que a doença cardíaca hipertensiva severa seja outra causa de isquemia subendocárdica difusa na ausência de estenoses coronarianas, pois se associa ao retardo no relaxamento diastólico, à disfunção endotelial das artérias coronárias, à redução da densidade capilar no miocárdio hipertrofiado e ao aumento da pressão diastólica final ventricular esquerda. Embora em casos de hipertrofia ventricular severa possa haver dilatação compensatória das artérias coronárias epicárdicas, o miocárdio parece sofrer isquemia transmural, sem relação com qualquer estenose coronariana12.

Robinson e cols.13 avaliaram 237 cintilografias consecutivas e constataram dilatação transitória ventricular em 23 delas. Nove entre 23 pacientes apresentaram dilatação na ausência de defeitos segmentares perfusionais à imagem e na ausência de estenoses coronarianas. Em 07 desses 09 pacientes, atribui-se a dilatação exclusivamente à hipertrofia ventricular esquerda. Assim, a dilatação transitória não é um marcador específico para DAC em populações com alta prevalência de cardiopatia hipertensiva, associada à hipertrofia ventricular13. Nossa pesquisa não avaliou a prevalência de hipertrofia ventricular no subgrupo portador de hipertensão desta amostra. Porém, como a prevalência de hipertensão foi similar nos dois grupos, acreditamos que esse fator não tenha comprometido os resultados.

Emmet e cols.10 avaliaram o impacto da hipertrofia ventricular esquerda e do diabete melito na prevalência do IDT. A amostra (n = 103) foi submetida à cintilografia, ao ecocardiograma transtorácico e ao cateterismo. Foram considerados anormais IDT > 1,22 e parede ventricular com espessura > 11 mm. Os fatores SSS > 14, hipertrofia e diabete foram preditores independentes do IDT anormal. Em pacientes com estenoses > 90,0% do lúmen vascular, a presença da hipertrofia ou do diabete aumentou significativamente a prevalência do IDT anormal (p < 0,005).

Assim, o aumento do IDT associa-se à DAC severa e a associação é magnificada na presença de hipertrofia ventricular esquerda ou de diabete. A hipertrofia estaria associada à isquemia subendocárdica difusa. O diabete estaria associado ao comprometimento da reserva coronariana secundário à doença microvascular10. Nosso estudo não encontrou essa associação no subgrupo dos diabéticos, talvez devido ao pequeno número de pacientes diabéticos dessa amostra (n = 36).

Na ausência de estenoses coronarianas epicárdicas, a dilatação transitória foi descrita em pacientes com miocardiopatia dilatada. Sugere-se que a limitação da reserva coronariana desses pacientes seja a explicação14. Nossa pesquisa excluiu pacientes com diagnóstico prévio de qualquer miocardiopatia.

A dilatação da cavidade ventricular induzida pelo estresse foi inicialmente descrita na cintilografia de repouso com tálio-201 e estresse ergométrico (protocolo de Bruce) com 99mTc-sestamibi. Este estudo analisou a associação entre o aumento do IDT e a presença de estenoses coronarianas ao cateterismo. O valor da positividade do IDT correspondeu a 1,22 (±2). No diagnóstico de estenoses coronarianas a partir de 70,0% do lúmen vascular, o IDT maior ou igual a 1,22 teve 40,0% de sensibilidade e especificidade superior a 90,0%. O IDT maior que 1,22 teve 71,0% de sensibilidade e 95,0% de especificidade no diagnóstico de estenoses coronarianas maiores ou iguais a 90,0% do lúmen.

Trinta e três por cento dos pacientes com SSS entre 04 e 08 apresentaram IDT elevado, 38% com SSS entre 09 e 13 e 48% dos pacientes estavam com SSS maior ou igual a 14. Entre os pacientes portadores de estenoses maiores ou iguais a 90,0% em duas artérias coronárias, 34,0% apresentaram SSS acima de 8,0 e 76,0% apresentaram aumento do IDT. Portanto, o IDT permitiu a identificação de pacientes com estenoses coronarianas extensas e severas, que teriam sido subestimadas na análise isolada do SSS5.

Nosso estudo encontrou valores médios do IDT menores que os relatados por este estudo com duplo isótopo, mesmo nos pacientes com perfusão anormal segundo o SSS, o que pode ser atribuído ao fato dos dois estudos terem sido realizados com radiofármacos diferentes3. Porém, como nossa pesquisa não realizou cateterismo cardíaco para comprovar a presença de estenose coronariana nos pacientes desta amostra, a presença e o grau das eventuais estenoses não puderam ser avaliados. Nossa pesquisa não encontrou diferença significativa entre os valores médios do IDT nos pacientes com SSS anormal, nos diferentes métodos de esforço. Talvez isso se deva ao número pequeno de pacientes nesses subgrupos, uma vez que 64,0% da amostra apresentou perfusão normal (SSS < 3,0).

Um estudo avaliou o valor médio do IDT em 356 pacientes submetidos à CMP com adenosina, no protocolo de estresse com 99mTc-sestamibi e repouso com tálio-201. O IDT de 1,36 (± 2) teve 71,0% de sensibilidade e 86,0% de especificidade no diagnóstico de estenoses coronarianas maiores ou iguais a 70,0% do lúmen vascular. Já a análise visual da perfusão teve sensibilidade e especificidade de 87,0% e 49,0%, respectivamente. A análise da perfusão foi através da associação do SSS e da extensão percentual do miocárdio hipoperfundido. O IDT foi anormal em: 12,2% dos pacientes com perfusão normal; em 28,2% dos pacientes com hipoperfusão discreta; em 29,4% dos pacientes com hipoperfusão moderada; e em 40,3% dos pacientes com hipoperfusão acentuada15. Assim, o IDT associado à presença de DAC teve valor numérico superior ao descrito no protocolo com teste ergométrico em esteira (1,22)5. Na nossa pesquisa, os valores globais médios do IDT foram numericamente superiores no grupo do dipiridamol, confirmando os achados de estudos prévios.

Nossa pesquisa encontrou associação entre os valores médios do IDT e as faixas etárias dos pacientes do grupo do teste ergométrico (p = 0,009). Houve ainda associação significativa entre os valores médios do IDT para os pacientes do tercil mais jovem, cujo IDT do grupo do dipiridamol teve valor médio maior (p = 0,010). Esses achados ainda não haviam sido referidos na literatura e não encontramos teorias que pudessem explicá-los. Talvez estudos com ressonância magnética cardíaca possam elucidar a prevalência e a importância relativa dos mecanismos associados ao aumento do IDT no estresse farmacológico16.

A perfusão ventricular pode ser avaliada pela tomografia por emissão de pósitrons com rubídio-82, associada ao dipiridamol. Nesse protocolo, a administração do estressor farmacológico antecede a administração do rubídio-82 e as imagens podem ser adquiridas durante o pico do estresse17. Um estudo aferiu o IDT em pacientes submetidos a estresse farmacológico no exame com rubídio-82 e, posteriormente, submetidos à cineangiocoronariografia em até 15 dias. O limite superior da normalidade do IDT foi de 1,15(±2), com alta especificidade no diagnóstico da estenose de vaso único e multivascular (100,0% e 93,0%, respectivamente). Assim, mostrou-se que a dilatação associada ao estresse farmacológico é evidente antes do tempo habitual da aquisição da imagem da CPM convencional18.

Deve haver cautela na análise da cintilografia associada à dilatação transitória do ventrículo esquerdo, pois o IDT pode estar associado a doenças não coronarianas, como miocardiopatia hipertrófica ou dilatada. O IDT pode ser potencializado pelo diabete melito. Além disso, o IDT pode estar falsamente aumentado em corações pequenos, devido a limitações técnicas inerentes à cintilografia19.

O nosso estudo apresentou algumas limitações, como a não randomização, pois alguns pacientes não conseguiriam desenvolver o esforço por limitação física. Os pacientes não foram submetidos à cineangiocoronariografia de rotina, pois estavam fazendo exames avaliativos de isquemia miocárdica e devido também à ausência de recursos. Deste modo, não relacionamos os achados com a presença e grau de comprometimento coronariano.

 

Conclusão

O índice de dilatação transitória não difere quando os pacientes são submetidos a estresse pelo teste ergométrico em esteira quando comparado ao estresse farmacológico pelo dipiridamol, demonstrando a mesma capacidade avaliativa.

 

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Correspondência:
Mauren B. Azambuja Gonzalez
Departamento de Medicina Nuclear do Hospital São Vicente de Paulo
Rua Teixeira Soares 808
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Artigo recebido em 23/06/10; revisado recebido em 24/10/10; aceito em 11/01/11

 

 

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