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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.3 São Paulo Mar. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012000300016 

PONTO DE VISTA

 

Por que publicar em periódicos nacionais?

 

 

Max Grinberg; Maria Cecília Solimene; Maria do Carmo Cavarette Barreto

Instituto do Coração do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

A relutância dos autores brasileiros em publicar em revistas brasileiras é histórica e não mais se justifica. Atualmente, vários periódicos brasileiros estão indexados em bases internacionais, cujas versões em inglês permitem a divulgação de nossos estudos a países estrangeiros. Os autores expressam seu ponto de vista quanto à importância da publicação em revistas brasileiras e citam o exemplo do impacto das publicações do Instituto do Coração - InCor- HC-FMUSP nos últimos dois anos.

Palavras-chave: Bibliometria, publicações científicas e técnicas, publicações periódicas, Brasil, avaliação.


 

 

Ponto de Vista

Tornou-se uma prática "cultural" na medicina brasileira tentar exaustivamente publicar em periódicos estrangeiros. O motivo é simples: se o trabalho for assim aceito, terá o mérito reconhecido e a sua leitura e citação darão aos autores, em especial na pós-graduação, "pontos" nas Instituições em que trabalham. Caso contrário, restará ao(s) autor(es) conformar-se com o "subvalor" da publicação em periódico brasileiro.

Essa "cultura", infelizmente, é fomentada nas nossas universidades e instituições de ensino e pesquisa pelos próprios coordenadores, professores e orientadores dos cursos de graduação e pós-graduação; eles são os primeiros a se vangloriar de que seus alunos publicam no "exterior" e, portanto, eles, professores, seriam mais credenciados que seus pares que publicam em território nacional.

A propósito, vale lembrar que a concepção da base Qualis vem passando por processos de reorganização, acompanhando mudanças no processo de avaliação da pós-graduação, o que tem suscitado controvérsias nas diferentes áreas.

Sobre esse assunto, Rocha-e-Silva1, em carta aberta ao presidente da Capes, enfatizou matéria publicada no jornal O Estado de S. Paulo, mostrando que as revistas científicas brasileiras estão em risco de extinção. Concordamos com Rocha-e-Silva que, apesar de ainda estarmos em desvantagem quando comparados a americanos e europeus, nossa ciência cresce a cada dia em quantidade e qualidade1.

Situação semelhante ocorre nas citações: em artigo recentemente publicado no Jornal da Ciência2, Alves enfatizou que, idealmente, a citação bibliográfica demonstra apenas que o autor não ignora determinado trabalho. A mera citação de uma obra nunca revela se está bem ou mal elaborada; mas, com o advento do sistema de citações, qualquer citação passou a contar como ponto positivo. Entretanto, os autores são mais valorizados se forem citados em periódicos de maior impacto - naturalmente, os escritos em idioma estrangeiro -, que valem mais pontos que as citações em periódicos de menor impacto - os brasileiros; ser citado ou não tornou-se um ato de poder político2. E o poder político não consegue enxergar que, ao desprezar o periódico nacional, está desprezando a instituição a que pertence e a si mesmo.

O mundo contemporâneo mudou: não publicar em revista brasileira porque "ninguém lê, por não ter acesso"1 não procede mais. Observa-se tendência à edição eletrônica de artigos científicos, o que facilita a publicação brasileira no idioma inglês, que é a linguagem internacional da ciência. O efeito negativo da comparação de dois currículos pela distribuição em revistas brasileiras e estrangeiras precisa ser revisto. Uma razão é que trabalhos de alta qualidade em revistas brasileiras possuem versões eletrônicas em inglês (Revista da Associação Médica Brasileira) ou até mesmo em inglês e espanhol (Arquivos Brasileiros de Cardiologia).

Não será a mesma comunicação? Ou o que vale é a credibilidade histórica do periódico? Em caso positivo, é imperativo quebrar esse conceito, por meio dos esforços intramuros de potencialização de uma sinergia entre excelência científica, qualidade editorial e comunicação globalizada.

Nesse aspecto, um passo promissor é o entendimento atual de que revistas brasileiras indexadas em base de dados internacionais (Medline, Scopus, Web of Science, Latindex), ou seja, que cumprem pré-requisitos qualificadores e com exposição preferentemente em inglês, sejam classificadas de modo análogo às demais, oriundas de outros países. Por que não admitir a divulgação globalizada de trabalhos realizados em território nacional como incentivo aos pesquisadores brasileiros para considerar as revistas de nosso país como primeira escolha para publicação?3

A partir de 2008, o Serviço de Documentação Científica do Instituto do Coração - InCor-HC-FMUSP - passou a adotar a nova indexação; no biênio 2009-2010, foram publicados 681 trabalhos, 69 (10,1%) em base de dados nacionais, e 612 (89,9%) em base de dados internacionais, dos quais 40,5% (248/612) em revistas brasileiras e 59,5% (364/612) em revistas estrangeiras4.

Mudanças conceituais urgentes no mundo acadêmico se fazem necessárias e a prática "cultural" vigente deve ser definitivamente banida. A mudança de postura deve partir dos mais experientes, pois são eles, os professores, que orientam e dão exemplo aos discípulos, jovens em formação. As novas gerações devem ser incentivadas, desde o início de suas carreiras, a ter produção científica de qualidade e a divulgá-la em território nacional; devem acostumar-se a citar autores brasileiros, desmistificando a crença que apenas o que vem "de fora" é que tem valor. Desse modo, o Brasil será reconhecido no mundo como também referência em ensino e pesquisa; se insistirmos em concorrer para desvalorizar as revistas científicas brasileiras, estaremos trabalhando para extinguir-nos a nós mesmos.

Melhor concepção de pesquisa, tratamento adequado dos resultados, redação comunicativa, filtros editoriais brasileiros eficientes: vamos investir nessa missão nacionalista.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

1. Rocha-e Silva M. O novo QUALIS, que nada tem a ver com a ciência do Brasil. Carta aberta ao Presidente da CAPES. Clinics. 2009;64(8):721-4.         [ Links ]

2. Alves RJV. Impactos do fator de impacto: o darwinismo aplicado ao fomento da ciência. Jornal da Ciência, 19 de agosto de 2010. [Acesso em 2011 fev. 15]. Disponível em: http://www.jornaldaciencia.org.br        [ Links ]

3. Moreira LF. Os Arquivos e a publicação de seu primeiro fator de impacto. Arq Bras Cardiol. 2010:95(1):1-2.         [ Links ]

4. Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Serviço de Biblioteca, Documentação Científica e Didática "Prof.Luiz Venere Décourt". Memória científica InCor: base de dados. São Paulo; 2011.         [ Links ]

 

 

Correspondência
Maria Cecília Solimene
Rua Otávio Nébias, 182/71, Paraíso
04002-011 - São Paulo, SP, Brasil
E-mail: mcsolimene@cardiol.br, maria.solimene@incor.usp.br

Artigo recebido em 31/05/11; revisado recebido em 31/10/11; aceito em 01/11/11

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