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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.4 São Paulo Apr. 2012 Epub Mar 08, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000023 

Prevalência de obesidade visceral estimada por equação preditiva em mulheres jovens pernambucanas

 

 

Marina de Moraes Vasconcelos PetribúI; Poliana Coelho CabralI; Alcides da Silva DinizI; Pedro Israel Cabral de LiraI; Malaquias Batista FilhoII; Ilma Kruze Grande de ArrudaI

IUniversidade Federal de Pernambuco, Recife, PE - Brasil
IIInstituto Materno Infantil de Pernambuco, Recife, PE - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O acúmulo de gordura visceral é considerado o principal fator de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas.
OBJETIVO: Determinar a prevalência de obesidade visceral e avaliar sua associação com fatores de risco cardiovasculares em mulheres jovens do Estado de Pernambuco.
MÉTODOS: Estudo transversal, realizado com dados da "III Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição", envolvendo mulheres entre 25 e 36 anos. Avaliaram-se as variáveis: Índice de Massa Corporal (IMC), Circunferência da Cintura (CC), Razão Cintura-Estatura (RCE), Volume de Gordura Visceral (VGV) estimado por equação preditiva, Pressão Arterial Sistólica e Diastólica (PAS, PAD), Colesterol Total (CT), Triglicerídeo (TG), Glicemia de Jejum (GJ).
RESULTADOS: Foram avaliadas 517 mulheres, com mediana de idade de 29 anos (27-32) e prevalência de obesidade visceral de 30,6%. Valores de IMC, PAS, PAD e TG foram superiores no grupo com obesidade visceral: IMC = 28,0 kg/m2 (25,0 - 21,4) vs 23,9 kg/m2 (21,5 - 26,4); PAS = 120,0 mmHg (110,0 - 130,0) vs 112,0 mmHg (100,0 - 122,0); PAD = 74 mmHg (70 - 80) vs 70 mmHg (63 - 80); TG = 156,0 mg/dL (115,0 - 203,2) vs 131,0 mg/dL (104,0 - 161,0), respectivamente, p < 0,01. Idade, PAS, PAD, TG e CT apresentaram correlação positiva e significante com o VGV: r = 0,171; 0,224; 0,163; 0,278; 0,124; respectivamente, p < 0,005.
CONCLUSÃO: Verificou-se uma elevada prevalência de obesidade visceral, estando estatisticamente correlacionada a fatores de risco cardiovasculares.

Palavras-chave: Gordura subcutânea abdominal, prevalência, fatores de risco, doenças cardiovasculares, indice de massa corporal, pressão arterial, dislipidemias, mulheres.


 

 

Introdução

A obesidade abdominal, considerada fator de risco para diversas morbidades1, é composta por dois compartimentos distintos de gordura: subcutânea e visceral2. Vários autores demonstraram que a gordura visceral, e não a subcutânea, encontra-se associada a diversos efeitos deletérios, tais como elevados níveis de Triglicerídeos (TG), baixos níveis de lipoproteína de alta densidade (HDL-C), sensibilidade a insulina3,4, hiperglicemia, peptídeo C4, síndrome metabólica3-5, disfunção endotelial6, esteatose muscular e hepática, baixos níveis de peptina e adiponectina4, além de lipoproteína de baixa densidade (LDL) menor e mais densa7. Dessa forma, o acúmulo de gordura visceral é considerado o principal fator de risco para Doenças Cardiovasculares (DCV) e metabólicas7.

Apesar de o mecanismo molecular exato responsável por tal associação ser desconhecido, o efeito pode ocorrer em razão da localização anatômica da gordura dentro do abdome ou das diferenças nas propriedades metabólicas3.

Sendo assim, a redução da gordura visceral pode ser uma medida preventiva para síndrome metabólica e DCV7. A medida do Tecido Adiposo Visceral (TAV) tem, portanto, implicação particular na saúde pública8, sendo de grande importância clínica a confiabilidade de sua medida9.

Poucos estudos determinaram a prevalência de obesidade visceral em diferentes populações10-12, provavelmente por causa das limitações dos métodos radiológicos, capazes de diferenciar os componentes da gordura abdominal em subcutâneo e visceral, além da inabilidade das medidas antropométricas para representar a área do TAV em particular13. A Tomografia Computadorizada (TC), a Ressonância Magnética Nuclear (RNM) e a Ultrassonografia (USG) apresentam um custo elevado, pouca disponibilidade de aparelhos e submetem os indivíduos a radiação (TC)14,15, tornando-os inviáveis para avaliação em grandes grupos de indivíduos, impossibilitando sua utilização como ferramenta de triagem para a população16.

Este estudo objetivou, portanto, determinar a prevalência de obesidade visceral de mulheres jovens do Estado de Pernambuco, Brasil, a partir de uma equação preditiva, além de avaliar a associação da gordura visceral com os fatores de risco para as DCV.

 

Métodos

Estudo transversal, de base populacional, realizado com dados da "III Pesquisa Estadual de Saúde e Nutrição (III PESN)", realizada em áreas urbanas e rurais do Estado de Pernambuco entre maio e outubro de 2006.

O presente estudo envolveu adultos do sexo feminino entre 25 e 36 anos de idade. Para o cálculo amostral, considerou-se uma prevalência de obesidade visceral de 28,7%11, erro de estimação de 4% e nível de confiança de 95%, totalizando 491 indivíduos. O banco de dados da III PESN contém 669 mulheres entre 25 e 36 anos, porém, dessas, 152 foram excluídas por apresentarem ausência de dados clínicos, sendo utilizado o universo de 517 mulheres que dispunham de todas as variáveis utilizadas no presente estudo. A III PESN adotou como critério de exclusão gestantes e mulheres portadoras de limitação física que comprometesse a aferição das medidas antropométricas.

A altura foi determinada com estadiômetro portátil (Alturaexata, Ltda.), com precisão de 1 mm. Os indivíduos foram colocados em posição ereta, descalços, com membros superiores pendentes ao longo do corpo, os calcanhares, o dorso e a cabeça tocando a coluna de madeira. O peso foi obtido utilizando-se balança digital (Modelo MEA-03200/Plenna), com capacidade de 150 kg e escala de 100 gramas, com o indivíduo descalço e indumentária mínima. Para garantir a acurácia das mensurações foram aferidas duas medidas de peso e altura, e quando a diferença excedia 0,5 cm para altura e 100 g para peso, repetia-se a mensuração e anotavam-se as duas medições com valores mais próximos, utilizando-se a média dessas.

Para classificação do estado nutricional pôndero-estatural utilizou-se o Índice de Massa Corporal (IMC), adotando-se os limites de corte recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), 199817.

A Circunferência da Cintura (CC) foi aferida em duplicidade no ponto médio entre a última costela e a crista ilíaca, com fita métrica inextensível, seguindo o protocolo da OMS, 199818, considerando-se elevados valores iguais ou superiores a 80 cm18.

A Razão Cintura-Estatura (RCE) foi determinada pela divisão da CC (cm) pela altura (cm) e o ponto de corte adotado para discriminação da obesidade abdominal e risco cardiovascular foi > 0,5319.

As dosagens de Colesterol Total (CT), TG e Glicose de Jejum (GJ) foram avaliadas em sangue venoso, mediante punção cubital com as mulheres em jejum noturno de 12 horas. As concentrações plasmáticas de CT e TG foram determinadas por fotometria de absorção com método enzimático. Foram adotados como referência os valores preconizados pela III Diretriz Brasileira de Dislipidemia20. A dosagem de GJ foi realizada com o equipamento ACCUTREND GCT, de leitura imediata, após punção venosa, adotando-se os pontos de corte recomendados pela American Diabetics Association, 201021.

A Pressão Arterial Sistólica e a Diastólica (PAS e PAD) foram verificadas com esfigmomanômetro aneroide devidamente calibrado (Premium CE 0483), adotando-se o protocolo e a classificação da VI Diretriz Brasileira de Hipertensão (2010)22.

O Volume de Gordura Visceral (VGV) foi estimado a partir da equação preditiva proposta por Petribú23 que utilizam como variáveis independentes a RCE e a GJ, como segue:

VGV = -130,941 + (198,673 x RCE) + (1,185 x GJ);

Tal equação, elaborada a partir de uma análise de regressão múltipla adotando-se a USG como padrão de referência, é capaz de predizer o VGV em aproximadamente 45%, com erro padrão de estimativa de ± 15,19 cm2. A validação foi realizada comparando-se o VGV aferido pela equação e o medido pela USG em um grupo de mulheres não participantes da etapa de desenvolvimento da equação utilizando-se o teste t de Student para amostras pareadas, não havendo diferença estatisticamente significante entre os valores (54,28 ± 9,79 vs 53,36 ± 7,94, respectivamente, p = 0,760)23. Em uma etapa adicional, para a avaliação da concordância entre os dois métodos, realizou-se o teste de Bland Altman, verificando-se uma boa concordância, com viés próximo a zero (fig. 1). Adotou-se o ponto de corte de 100 cm2 para o diagnóstico da obesidade visceral24.

A base de dados foi compilada no Programa Epi Info versão 6.04 (CDC/WHO, Atlanta, GE, USA), com dupla entrada, e posterior uso do modo validate para checar eventuais erros de digitação. Para as análises estatísticas, empregou-se o SPSS versão 10.0 (SPSS Inc., Chicago, IL, USA). As variáveis contínuas foram testadas segundo a normalidade da distribuição pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Quando apresentaram distribuição não normal foram transformadas ao seu logaritmo natural e retestadas quanto à normalidade (idade, peso, PAS, PAD, GJ, TG, CT, IMC, VGV). Quando mantiveram a distribuição não normal (idade, PAS, PAD, GJ, CT), foram descritas na forma de mediana e intervalo interquartílico e os testes não paramétricos foram aplicados.

A comparação entre as medianas foi realizada pelo teste não paramétrico de Mann Whitney. A associação entre as variáveis contínuas foi realizada pelo teste de correlação linear de Spearman. Foi adotado o nível de significância de 5% para rejeição da hipótese de nulidade.

O projeto de Pesquisa da III PESN foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), em 12 de janeiro de 2006 (protocolo nº 709/2006). As mulheres que concordaram em participar da pesquisa assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.

Este estudo foi financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processos nº 505540/2004-5 e 501989/2005-4), sendo um estudo colaborativo das seguintes instituições: Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), IMIP e Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco.

 

Resultados

As mulheres apresentaram mediana de idade de 29 anos (IC 27 a 32). De forma geral, observa-se uma população com sobrepeso de acordo com o IMC além de elevada concentração de gordura abdominal, evidenciada por meio da CC e RCE. Em relação a PAS e PAD, aos parâmetros laboratoriais (GJ, TG e CT) e ao VGV estimado pela equação preditiva, os valores correspondentes à média ou mediana se mostraram abaixo da referência (tab. 1).

Com relação ao estado nutricional, observa-se baixa prevalência de baixo peso e elevada prevalência de sobrepeso e obesidade a partir do IMC. Cerca de 30% das mulheres apresentaram obesidade visceral e mais da metade, obesidade abdominal segundo a CC e a RCE (tab. 2).

Cerca de 10% das mulheres apresentaram PAS e/ou PAD alterada. A prevalência de hiperglicemia se aproximou dos 30%, enquanto quase 40% apresentaram TG aumentado. Em relação ao CT, apenas 13% apresentaram hipercolesterolemia (tab. 3).

A tabela 4 apresenta a comparação entre as medianas de IMC, PAS, PAD, TG e CT em mulheres com e sem obesidade visceral. Com exceção do CT, todos os parâmetros foram maiores no grupo com obesidade visceral (p < 0,002).

As correlações entre PAS, PAD, TG e CT e o VGV estimado por meio da equação encontram-se descritas na figura 2. Todas as variáveis apresentaram correlação positiva e significativa com o VGV, porém tais correlações se mostraram fracas. Além dessas, a idade também apresentou correlação positiva e significativa com o mesmo (r = 0,171; p < 0,0001).

 

Discussão

A população analisada no presente estudo foi classificada como sobrepeso segundo a média de IMC apresentada, além de possuírem valores médios de CC e RCE superiores aos pontos de corte na avaliação da obesidade abdominal. Apesar disso, apresentaram média de VGV inferior a 100 cm2. Dados similares foram observados por Piernas Sánchez e cols.11, que aplicaram uma equação preditiva , em uma população de 230 mulheres, com idade média de 39 ± 12 anos e IMC médio de 29 ± 5 Kg/m2, e observaram que, apesar de apresentar sobrepeso, elevado percentual de gordura corporal e alto risco cardiovascular segundo a CC e a RCQ, as mulheres apresentaram gordura subcutânea e não visceral. Tais autores chamam a atenção para o fato de que mulheres tendem a ganhar mais gordura subcutânea na região abdominal, o que poderia justificar tais achados11.

Diferentemente do exposto, Onat e cols.25 encontraram em seu estudo, que também envolveu mulheres classificadas como sobrepeso e obesidade abdominal segundo a média de IMC e CC, respectivamente, uma média de VGV bastante superior à da presente pesquisa (120,5 ± 58 cm2). Vale ressaltar que o estudo foi realizado em uma população com média de idade de 49 ± 8,7 anos e com elevada prevalência de síndrome metabólica (34%)25. Os referidos autores ressaltaram aumento significativo do TAV com a idade e média 42% superior no grupo com síndrome metabólica25, o que pode explicar a diferença encontrada quando comparado com a presente pesquisa, que envolveu mulheres mais jovens, com menor probabilidade de apresentar síndrome metabólica. Em relação ao aumento do VGV de acordo com a idade, tais resultados também foram descritos por Pascot e cols.26, que encontraram uma média de VGV de 63,7 ± 40,9 cm2 em mulheres jovens (27,4 ± 7,5 anos) e 116,1 ± 67,5 cm2 em mulheres em idade média (49,5 ± 5,3 anos), sendo essa diferença significante. A presente pesquisa também observou correlação positiva entre a idade e o VGV.

A literatura relata que a prevalência de obesidade abdominal tem aumentado na última década e que hoje ultrapassa a prevalência de obesidade global, com taxas de 61,3% em mulheres27,28. Tal evidência também foi verificada na presente pesquisa, que encontrou prevalência de obesidade global de 17% e de obesidade abdominal segundo a CC de 62,9%. A prevalência de obesidade visceral foi inferior à de obesidade abdominal, o que já era esperado, tendo em vista que a CC encontra-se mais fortemente relacionada com a gordura subcutânea do que com a gordura visceral, e que o processo de envelhecimento está associado com perda de gordura subcutânea e aumento de gordura no depósito visceral29, ou seja, a população do estudo, constituída exclusivamente por adultos jovens, provavelmente possui uma maior quantidade de gordura abdominal subcutânea do que visceral. Além disso, Pou e cols.29 chamam a atenção para o fato de que, em seu estudo, aproximadamente um quarto dos indivíduos obesos ou com elevada CC não apresentou elevado TAV, enquanto 10% das mulheres e 20% dos homens com CC normal apresentaram TAV elevado, sugerindo que existem erros de classificação entre as categorias de adiposidade clínica29.

A prevalência de obesidade visceral encontrada na presente pesquisa foi similar à descrita por Piernas Sánchez e cols.11, que encontraram prevalência de 28,7% entre mulheres. Pou e cols.29, ao avaliarem 3.348 participantes da pesquisa Framingham Heart Study Offspring and Third Generation Cohort com média de idade de 52,2 ± 9,9 anos, encontraram prevalência de obesidade visceral de 44% no sexo feminino. No entanto, além de a população ser mais velha do que a da presente pesquisa, os autores usaram um ponto de corte para classificação da obesidade visceral diferenciado29, podendo ter influenciado na elevada prevalência observada.

Concordando com os achados de Tadokoro e cols.10, observou-se que os valores de IMC foram superiores no grupo com obesidade visceral. Tal achado também foi descrito por Pou e cols.29, que observaram que a prevalência de TAV aumentou com o aumento da categoria do IMC.

Quando comparados os valores de TG e CT entre os grupos com e sem obesidade visceral, verificaram-se valores estatisticamente mais elevados no primeiro grupo apenas em relação ao TG. Tal achado pode ser explicado pelo fato de que, com o aumento do TAV, os ácidos graxos livres são facilmente direcionados para o fígado para uma maior produção de glicose, TG e lipoproteína de muito baixa densidade (VLDL)30. Outros estudos também observaram níveis séricos de TG superiores em indivíduos com elevado TAV4,29,31. No entanto, tais estudos encontraram valores de HDL inferiores nesses indivíduos4,29,31. Uma limitação da presente pesquisa foi o fato de não ter estudado as frações do colesterol (HDL, LDL e VLDL), pois o fato de o CT não ter sido diferente entre os dois grupos pode ter ocorrido por uma possível diminuição do HDL no grupo com obesidade visceral. Tadokoro e cols.10 e Reyes e cols.31 também não observaram diferença significante entre os valores de CT entre os dois grupos.

Em relação à pressão arterial, verificaram-se valores de PAS e PAD superiores no grupo com obesidade visceral. No entanto, tal achado não foi observado em outros estudos4,10,31,32. Romero-Corral e cols.6 chamam a atenção para o fato de que o aumento da gordura visceral está associado à disfunção endotelial, mesmo na ausência de alterações na pressão arterial. Uma possível explicação para o aumento na pressão encontrada nos indivíduos com obesidade visceral é o fato de as adipocinas e citocinas viscerais poderem contribuir para a resistência insulínica33. A hiperinsulinemia pode elevar a pressão arterial por intermédio da ativação do sistema nervoso simpático, do comprometimento da vasodilatação periférica, da maior resposta à angiotensina e do aumento da reabsorção renal de sódio e água, com consequente sobrecarga de volume34.

O VGV esteve positivamente correlacionado com múltiplos fatores de risco metabólicos na presente pesquisa (PAS, PAD, TG e CT). Tal achado também foi verificado por outros autores32,35. Kotronen e cols.32 encontraram correlação positiva e significativa entre a gordura visceral e os níveis de TG, PAS e PAD (r = 0,36; 0,28 e 0,24, respectivamente) e correlação negativa com o HDL (r = -0,38). Hayes e cols.35 encontraram entre mulheres muito obesas (IMC 31 a 67 Kg/m2) correlação significante e positiva entre a gordura intra-abdominal e a PAS (r = 0,35), a PAD (r = 0,31), e negativa com o HDL (r = -0,34). A correlação com o TG se aproximou de uma significância estatística (r = 0,31; p = 0,054)35. Fox e cols.36, estudando indivíduos com idade média de 50 anos do Framingham Heart Study, encontraram associação significativa entre PAS (r = 0,30), PAD (r = 0,28), GJ (r = 0,34), TG (r = 0,46) e HDL (r = -0,35) com o TAV em mulheres. Por sua vez, Tadokoro e cols.10 encontraram uma correlação positiva e significativa entre a gordura visceral e a PAS e TG apenas no sexo masculino, enquanto o CT e a PAD não apresentaram correlação significativa com a gordura visceral em ambos os sexos. Foi observada ainda uma correlação negativa entre o HDL e a gordura visceral no sexo feminino, porém tal estudo foi desenvolvido com adolescentes, com idade média de aproximadamente 15 anos10, o que pode ter contribuído para tais achados.

O presente estudo apresentou como ponto positivo o fato de os participantes serem adultos jovens, permitindo a avaliação da relação entre o compartimento de gordura e os fatores de risco cardiovasculares na ausência de comorbidades significativas. Como limitações do estudo destacam-se dois fatores. Primeiramente, o fato de não ter sido utilizado métodos de imagem na determinação da gordura visceral (CT, RNM ou USG), por causa do elevado custo desses métodos; no entanto, a equação proposta foi previamente validada para uso em mulheres jovens brasileiras. Em segundo lugar, a pesquisa possuiu um desenho transversal; portanto, as associações não são prospectivas e a causalidade não pode ser inferida.

A prevalência de obesidade visceral encontrada (30,6%) chama a atenção pelo fato de se tratar de uma população jovem e do sexo feminino que geralmente possui menos gordura na região visceral, quando comparada a pessoas mais velhas e ao sexo masculino. O estudo mostra ainda que a gordura visceral esteve correlacionada com a idade e com fatores de risco para desenvolvimento das DCV (PAS, PAD, CT, TG). A redução da gordura visceral pode, portanto, contribuir para uma menor incidência de DCV em idades mais avançadas. Mais estudos são necessários para avaliar prospectivamente o impacto da redução do TAV na incidência dos fatores de risco relacionados à síndrome metabólica e às DCV.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi financiado pelo CNPq.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de Doutorado de Marina de Moraes Vasconcelos Petribú pela Universidade Federal de Pernambuco.

 

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Correspondência:
Marina de Moraes Vasconcelos Petribú
Rua Professor José Brandão, 269 / 201 - Boa Viagem
51020-180 - Recife, PE - Brasil
E-mail: mpetribu@hotmail.com

Artigo recebido em 28/04/11
Revisado recebido em 28/04/11
Aceito em 02/12/11.