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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.4 São Paulo Apr. 2012 Epub Mar 15, 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000018 

Prevalência de hipertensão arterial em Adventistas do Sétimo Dia da capital e do interior paulista

 

 

Leilane Bagno Eleutério da Silva; Stael Silvana Bagno Eleutério da Silva; Amanda Garcia Marcílio; Ângela Maria Geraldo Pierin

Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Sabe-se que hábitos de vida inadequados favorecem a hipertensão, e os adventistas preconizam hábitos saudáveis.
OBJETIVO: Avaliar a prevalência da hipertensão nos adventistas do sétimo dia na capital e no interior paulistas.
MÉTODOS: Foram estudados 264 adventistas (41,17 ± 15,27 anos, 59,8% mulheres, com alto nível de religiosidade avaliada pela escala Duke-DUREL). A medida da pressão arterial foi realizada com aparelho automático validado. Nível de significância adotado foi p < 0,05.
Resultados: A prevalência total de hipertensão foi 22,7%, (27,4% no interior e 15% na capital). Os adventistas da capital diferiram dos do interior (p < 0,05), respectivamente, quanto: escolaridade superior (62% vs 36,6%); ter vínculo empregatício (44%) vs autônomos (40,9%); renda familiar (8,39 ± 6,20 vs 4,59 ± 4,75 salários mínimos) e renda individual (4,54 ± 5,34 vs 6,35 ± 48 salários mínimos); casal responsável pela renda familiar (35% vs 39,6%); vegetarianismo (11% vs 3%); pressão arterial (115,38 ± 16,52/68,74 ± 8,94 vs 123,66 ± 19,62/74,88 ± 11,85 mmHg); etnia branca (65% vs 81,1%); casados (53% vs 68,9%); menor apoio social no domínio material (15,7 ± 5,41 vs 16,9 ± 4,32) e lembrar da última vez que mediu a pressão arterial (65% vs 48,8%). A análise multivariada associou hipertensão com: 1) vegetarianismo (OR 0,051, IC95% 0,004-0,681), 2) escolaridade (OR 5,317, IC95% 1,674-16,893), 3) lembrar quando mediu a pressão (OR 2,725, IC95% 1,275-5,821), 4) aposentado (OR 8,846, IC95% 1,406-55,668), 5) responsável pela renda familiar (OR 0,422, IC95% 0,189-0,942).
CONCLUSÃO: A prevalência de hipertensão dos adventistas foi menor se comparada com estudos nacionais, sendo menor na capital em relação ao interior possivelmente por melhores condições socioeconômicas e hábitos de vida.

Palavras-chave: Hipertensão, prevalência, protestantismo, hábitos alimentares, estilo de vida.


 

 

Introdução

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "nas próximas duas décadas, serão as doenças crônicas que, dentre as afecções não comunicáveis, ocuparão a liderança das causas de incapacidades. As doenças cardiovasculares são responsáveis por 30% das mortes no mundo"1. Dentro desse contexto, destaca-se a hipertensão arterial como um dos principais fatores de risco cardiovascular. A hipertensão é altamente prevalente em nosso meio, estimando-se que acometa cerca de 30% dos adultos, duplicando esse valor nos idosos2. Porém, o controle da doença ainda é muito baixo, apesar da comprovação de medidas efetivas do tratamento medicamentoso e não medicamentoso.

As VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão2 preconizam a adoção de hábitos e estilos de vida saudáveis não só como forma de tratamento, mas também na prevenção da doença. Dentre eles destacam-se controle de peso corporal, estilo alimentar, redução do consumo de sal, abstinência de fumo, moderação na ingestão de bebida alcoólica e atividade física.

Membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia já foram alvos de vários estudos internacionais3,4 em razão das práticas de saúde distintas que possuem. Eles são orientados por seus líderes religiosos a adotarem uma dieta saudável, preferencialmente vegetariana (isenta do consumo de produtos de origem animal), abstinência de tabagismo e etilismo, como forma de expressão da sua religiosidade baseado no princípio bíblico de que "o corpo humano é o templo (morada) do Espírito Santo de Deus", conforme escrito em I Coríntios 6:19. Embora orientados, observa-se que o número de vegetarianos nessa população não é maior que o de ovolactovegetarianos (não consomem carnes, mas consomem leite e ovos) e onívoros (consomem alimentos de origem animal, inclusive produtos industrializados).

Considerando a possibilidade de a prevalência da hipertensão arterial ser influenciada pelos hábitos alimentares e estilos de vida e pela falta de pesquisas desse tipo no Brasil, os objetivos deste estudo foram avaliar a prevalência da hipertensão arterial em membros batizados da Igreja Adventista do Sétimo Dia na cidade da cidade de São Paulo e no interior de São Paulo e identificar variáveis associadas.

 

Métodos

Tratou-se de um estudo comparativo, transversal, de campo, descritivo e de abordagem quantitativa, com 264 membros das Igrejas Adventistas do Sétimo Dia (100 da capital e 164 membros do interior paulista). Para o cálculo do tamanho da amostra utilizou-se a estimativa da prevalência de hipertensão de 25%, variação de 8%, 5% de erro tipo I, e 80% de poder do teste. Com esses parâmetros o tamanho da amostra estabelecido foi de 242 participantes.

Os critérios de inclusão foram: ter 18 anos ou mais; ser membro batizado e frequente às atividades religiosas; saber ler e escrever; e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE). Na capital paulista, as igrejas sorteadas pertenciam à região sul da cidade, por se tratar da zona urbana com maior concentração de adventistas por habitante, de acordo com dados fornecidos pela Associação Paulista Sul da Igreja Adventista. As escolhidas foram: Santo Amaro e Campo Limpo. No interior, as igrejas sorteadas pertenciam à Associação Paulista Sudoeste (sede em Sorocaba). As cidades englobadas no estudo foram Itapeva e Itararé, cujas características socioeconômicas e das igrejas são bastante semelhantes permitindo a equiparação dos indivíduos da pesquisa. Foram incluídas todas as igrejas nos dois municípios. A seleção dos participantes também foi feita mediante sorteio aleatório, por computador, utilizando-se a lista de membros batizados fornecida pela secretaria de cada igreja. Após o sorteio, os indivíduos foram convidados pessoalmente a participar do estudo assinando o TCLE. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética sob nº 803/2009.

Foram avaliadas as variáveis bio-sócio-econômicas incluindo idade, sexo, estado civil, etnia (autorreferida), ocupação, moradia, tempo de batismo na Igreja, renda pessoal e familiar. Em estilos de vida foram contemplados: tipo de alimentação (vegetariano ou não), tabagismo, ingestão de bebida alcoólica e atividade física. O aspecto social foi avaliado pela Escala de Apoio Social5 composta por 19 questões com cinco domínios: material, afetivo, emocional, informação e interação social positiva. Para cada resposta, são atribuídos escores que variam de 1 (nunca) a 5 (sempre), efetuando-se, em seguida, a soma dos pontos obtidos em cada pergunta. O total de pontos possíveis variou entre 19 pontos (mínimo) e 95 pontos (máximo). Após o cálculo da mediana, a média de pontos ficou estabelecida em 38, sendo considerado baixo apoio social os participantes que obtiveram de 19 a 38 pontos, e alto apoio social os que obtiveram de 39 a 95 pontos.

O peso (em kilograma) foi verificado com o uso de balança digital (Tanita Solar Scale HS 301) e a altura (em centímetros) foi mensurada com o uso de fita métrica não distensível, posicionada formando um ângulo de 90º com o chão, numa parede sem rodapé, a um 1 (um) metro do chão. Solicitou-se ao participante a retirada do sapato, pés unidos contra a parede a fim de apoiar os cinco pontos do corpo (calcanhar, panturrilha, glúteos, escápulas e a cabeça) e que mantivesse seu corpo ereto olhando para o horizonte. Utilizando-se régua de 30 cm posicionada no alto da cabeça foi realizada a leitura da medida da altura. Tais medidas possibilitaram o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC) (peso/altura2), classificado de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) @[sigla já explicitada. Usar aqui apenas a sigla: OMS]@ em: normal (<25 kg/m2), sobrepeso (25 a 29,9 kg/m2) e obeso (≥ 30 kg/m2)6. Por ser um forte preditor de eventos cardiovasculares, foi verificada a medida da circunferência abdominal e classificada de acordo com a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica7, sendo o limite considerado normal em homens < 95 cm e em mulheres < 80 cm.

A pressão arterial foi verificada no salão de reuniões da própria igreja, utilizando-se aparelho automático validado (OMROM HEM 705CP), segundo as orientações das VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão2 sendo: três medidas consecutivas com intervalo de 1 minuto entre elas; descanso prévio de, pelo menos, 5 minutos; posição sentada; costas apoiadas e pernas descruzadas; uso de manguito adequado ao tamanho do braço; bexiga urinária vazia; não ter fumado e/ou ingerido bebidas alcoólicas, café e alimentos há, pelo menos, 30 minutos. Para a análise foi considerada a média das duas últimas medidas, classificando os indivíduos como hipertensos quando os valores da pressão estivessem ≥ 140 e/ou ≥ 90 mmHg. A prevalência da hipertensão referida foi identificada pelo preenchimento afirmativo da pergunta "algum profissional da saúde já disse que você tem pressão alta?".

A religiosidade foi avaliada pela Escala de Religiosidade Duke (Durel)8, composta por cinco questões que avaliam as dimensões organizacional, não organizacional e religiosidade intrínseca, que mais se relacionam com o desfecho da saúde. As pontuações nas três dimensões foram analisadas separadamente e seus escores não foram somados em um escore total, segundo orientação dos autores que validaram o instrumento no Brasil. Na análise estatística utilizou-se o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS) versão 18, com auxílio de assessor estatístico. As variáveis classificatórias descritivas são apresentadas em frequências absolutas (n) e relativas (%) e os dados contínuos em média e desvio padrão. Os testes Qui-quadrado e o exato de Fischer foram usados quando pertinentes. O valor de p < 0,05
foi considerado estatisticamente significante. As variáveis que apresentaram significância na análise univariada foram submetidas à regressão logística.

 

Resultados

A caracterização dos 264 participantes mostrou que o tempo médio de batismo na Igreja Adventista foi de 19,53 ± 14,97 anos, predomínio do sexo feminino, morando em casa própria e com média de idade de 41,17 ± 15,27 anos. Os participantes da capital foram significativamente diferentes (p < 0,05) em relação ao interior, respectivamente, nas seguintes variáveis: etnia branca (65% vs 81,1%), casados (53% vs 68,9%), escolaridade superior (62% vs 36,6%), ter vínculo empregatício (44%) vs autônomos (40,9%), casal responsável pela renda familiar (35% vs 39,6%), renda individual (4,54 s.m vs 6,35 s.m) e renda familiar (8,39 s.m vs 4,59 s.m) (tab. 1). Verificaram-se, ainda, menores níveis tensionais nos indivíduos da capital quando comparados aos do interior, e maior índice de massa corporal e circunferência abdominal nos participantes do interior, tanto nas mulheres quanto nos homens (tab. 2).

Em relação a hábitos e estilos de vida, houve comportamento distinto (p < 0,05) da capital em relação ao interior, respectivamente, quanto a maior proporção de vegetarianos (11% vs 3%), e menor de ovolactovegetarianos (9% vs 15,9%). Ressalta-se que a maioria referiu nunca ter sido tabagista e praticar atividades físicas regularmente (tab. 3).

A prevalência de hipertensão arterial identificada foi de 22,7%, sendo estatisticamente menor (p < 0,05) na capital em relação ao interior (15% vs 27,4%), o mesmo ocorrendo com a prevalência referida (13% vs 20,1%). A maioria (60,6%) referiu não ter o hábito de medir a pressão. Entretanto, entre os que mediam houve diferença significativa (p < 0,05) em relação ao local de medida. A maior parte dos participantes do interior media em unidade básica de saúde (45,9% vs 20,9%) enquanto os da capital mediam em casa (39,5% vs 21,3%). Quanto a se lembrarem de quando foi realizada a última medida da pressão, os participantes da capital se lembravam mais, diferindo-se significativamente dos participantes do interior (65% vs 48,8%, p < 0,05%) (tab. 3).

Na avaliação do apoio social, os participantes do interior apresentaram apoio significativamente maior no domínio material quando comparados aos participantes da capital (16,9 ± 4,32 vs 15,7 ± 5,41) (fig. 1).

Em relação à religiosidade, não houve comportamento distinto entre os participantes da capital e do interior. No aspecto organizacional e não organizacional, respectivamente, a maioria referiu frequentar a igreja, templo ou encontro religioso mais do que uma vez por semana (68,2%) e a maior parte se dedicar às atividades religiosas individuais uma vez por semana (47,3%). Quanto à religiosidade intrínseca, a maioria relatou ser totalmente verdade a afirmação: "em minha vida, eu sinto a presença de Deus (ou do Espírito Santo)" (90,5%); "as minhas crenças religiosas estão realmente por trás de toda a minha maneira de viver" (77,3%) e "eu me esforço muito para viver a minha religião em todos os aspectos da vida" (80,6%) (tab. 4).

Na análise de regressão logística as variáveis que se mantiveram no modelo de associação com a presença de hipertensão arterial foram: ser vegetariano, em relação a não ser vegetariano (OR 0,051, IC95% 0,004-0,681) e ser o casal responsável pela renda familiar, quando comparado ao participante como responsável (OR 0,422, IC95% 0,189-0,942) tiveram efeito protetor para a hipertensão. Em contrapartida, ter baixa escolaridade, quando comparado a ter ensino superior; ser aposentado, em relação a ter vínculo empregatício e não lembrar quando mediu a pressão, aumentou, respectivamente, em 5,3 vezes, 8,8 vezes e 2,75 vezes a chance de ter hipertensão (tab. 5).

 

Discussão

Inquéritos populacionais nacionais realizados nas duas últimas décadas indicam que a prevalência de hipertensão arterial vem aumentando, com índices acima de 30%2 e o principal achado do presente estudo mostrou que a prevalência total identificada (22,7%) foi um pouco menor. Comparando-se as prevalências obtidas nas cidades estudadas do interior do estado de São Paulo (Itapeva e Itararé) com a da capital, o percentual mais elevado no interior (27,4%) aproximou-se do estimado para o país, enquanto na capital (15%) ficou bem abaixo dos achados nacionais. Destaca-se a menor prevalência na capital paulista, pois acreditava-se que a alta exposição a agentes estressores e maior possibilidade de estilos e hábitos de vida inadequados, próprios de uma cidade grande, poderiam contribuir para uma maior prevalência de hipertensão. Estudos nacionais apontam maiores prevalências de hipertensão em cidades maiores, como as capitais dos Estados de Goiás (36,4%)9, Mato Grosso do Sul (41,4%)10 e Brasília (37.9%)11 quando comparadas às cidades menores, como Sinop no interior do Mato Grosso (23,2%)12, São José do Rio Preto no Estado de São Paulo (25,2%)13, e Luzerna em Santa Catarina (14,7%)14.

A maior prevalência de hipertensão no interior paulista pode estar associada à presença de fatores socioeconômicos desfavoráveis, que foram distintos da capital, como baixa escolaridade, menor renda familiar e ocupação não qualificada. Estudos evidenciam a relação entre baixa renda e escolaridade com a hipertensão15,16 bem como sua influência no processo de adesão ao tratamento9,17. A escolaridade foi uma variável tão importante que se manteve no modelo final de regressão logística para a hipertensão arterial, pois os que sabiam ler/escrever e com primeiro grau tiveram mais chances de apresentar a doença, quando comparados aos de nível superior. Menor poder aquisitivo e menor escolaridade dos participantes do interior poderiam ser agentes dificultadores para a adoção de hábitos e estilos de vida saudáveis, detecção precoce da doença e, consequentemente, o tratamento anti-hipertensivo. Provavelmente, os adventistas da capital, por possuírem escolaridade mais elevada e ocupação com predomínio de vínculo empregatício, garantiam maior renda familiar mensal. A condição de ser aposentado entre os adventistas estudados elevou em quase nove vezes mais a chance de apresentar hipertensão arterial em relação aos que tinham vínculo empregatício.

Além de fatores socioeconômicos desfavoráveis que contribuíram para a presença de hipertensão, merece destaque a influência do hábito alimentar, pois na análise de regressão logística a alimentação vegetariana teve efeito protetor para a hipertensão. Considera-se o padrão alimentar dos adventistas um diferencial dos demais grupos religiosos por sua abstinência e/ou uso reduzido de alimentos de origem animal, além de serem abstêmios de bebida alcoólica e fumo de qualquer espécie. A expressiva maioria dos estudos internacionais envolvendo os adventistas enfatiza questões alimentares, pois essas estão ligadas às orientações promovidas pela Igreja para serem adotadas por seus membros. Acredita-se que essas recomendações alimentares interfiram nos resultados encontrados nos estudos. Investigação18 com adventistas afro-americanos mostrou que a pressão arterial foi significativamente maior nos não vegetarianos. Da mesma forma, outros estudos19,20 mostraram que tanto homens quanto mulheres que consomem carne apresentaram maiores valores pressóricos, índice de massa corporal, colesterol e triglicérides quando comparados aos vegetarianos.

A lembrança da última vez que mediu a pressão arterial é um forte indicador de que os hipertensos estariam preocupados e possivelmente mais envolvidos com o tratamento, já que essa variável permaneceu no modelo de regressão logística. Um dos grandes desafios relacionados à hipertensão é a falta de controle dos níveis tensionais dos hipertensos. Considera-se que apenas cerca de 30%21,22 dos hipertensos estejam com sua pressão arterial controlada (PA≤ 140/90 mmHg) e grande parte do problema relaciona-se à falta de adesão ao tratamento. O comparecimento a um serviço de saúde para consulta, recebimento dos medicamentos, no caso das Unidades Básicas de Saúde, ou até mesmo somente para medida da pressão arterial denotariam maior envolvimento com sua saúde e consequentemente adesão ao tratamento.

A prevalência de hipertensão também pode ser influenciada pela etnia, apesar de os dados do presente estudo mostrarem que no interior predominou a cor branca. Estudos realizados em nosso meio23,24 mostraram que, em geral, os não brancos são mais hipertensos que os brancos. Entre adventistas americanos25 verificou-se que 33,6% dos negros eram hipertensos, enquanto a prevalência nos brancos foi de 25,4% (p < 0,05). Além dos maiores níveis de pressão arterial nos negros, pardos e mulatos, verifica-se ainda menor controle e adesão ao tratamento. Tal situação poderia ser explicada pelo contexto menos favorável de condições de vida a que essas pessoas estão sujeitas. Outra variável que revelou diferenças entre os grupos do interior e da capital refere-se ao estado civil. Em ambos os grupos predominou ser casado e o casal como responsável pela renda familiar, este último exercendo ação protetora para a hipertensão. Além disso, o suporte familiar oferecido não só pelo cônjuge, mas pelos demais membros da família serviria como apoio para o hipertenso, motivando-o no envolvimento do seu tratamento e no entendimento de sua doença.

Em relação ao apoio social, os participantes do interior indicaram ter mais apoio no domínio material. Apesar dessa variável não ter permanecido no modelo de regressão logística esse fato é relevante. O alto envolvimento dos membros dessa comunidade religiosa com as atividades da Igreja e, portanto, a conservação de estreitos laços sociais pode ajudar na manutenção da saúde. Ressalta-se que embora não tenha havido diferença entre a capital e o interior, a religiosidade avaliada dos adventistas mostrou-se elevada em todos os questionamentos do instrumento usado. Meta-análise26 mostrou que envolvimento religioso e espiritualidade estão associados com melhores índices de saúde, incluindo maior longevidade, habilidades de manejo e qualidade de vida, e menos casos de ansiedade, depressão e suicídio.

 

Conclusão

Estudos transversais não possibilitam atribuir causalidade às associações encontradas, já que analisam desfecho e exposição simultaneamente, podendo essa ser uma das limitações do presente estudo. Porém, os achados têm o ineditismo em nosso meio de mostrar a influência da dieta vegetariana na hipertensão arterial, além de ratificar mais uma vez que condições socioeconômicas desfavoráveis podem ser condicionantes para a doença. Verifica-se a estreita relação entre hábitos e estilos de vida como fatores que influenciam nos níveis da pressão arterial, indicando que a adoção de um estilo de vida saudável é de suma importância na prevenção e controle da hipertensão. Os profissionais de saúde devem direcionar ações que permeiem todas as etapas do processo saúde doença, com estratégias direcionadas à prevenção da doença, identificação precoce da elevação da pressão arterial, proposição do tratamento farmacológico e não farmacológico e controle dos hipertensos. Porém, sempre considerando o contexto socioeconômico da população, haja vista que o mesmo é um fator extremamente importante na gênese da doença e na condução de seu tratamento.

 

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

 

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

 

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de Dissertação de Mestrado de Leilane Bagno Eleutério da Silva pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.

 

Referências

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Correspondência:
Angela Maria Geraldo Pierin
Rua Heitor Penteado, 250 / 63, Sumaré
05438-000
São Paulo, SP, Brasil
E-mail: pierin@usp.br

Artigo recebido em 06/05/11; revisado recebido em 13/10/11; aceito em 09/11/11.