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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.4 São Paulo Apr. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012000400015 

RELATO DE CASO

 

Efeito de um programa de exercício físico em portador da Síndrome Marfan com disfunção ventricular

 

 

Wladimir Musetti MedeirosI,II; Paulo Alberto PeresI; Antônio Carlos CarvalhoI; Carlos GunII; Fábio Augusto De LucaII

IUniversidade Federal de São Paulo - UNIFESP; Brasil
IIUniversidade de Santo Amaro - UNISA, São Paulo, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

A Síndrome de Marfan (SM) é uma desordem autossômica dominante que afeta múltiplos órgãos e sistemas. Diversas alterações cardíacas estão presentes, sendo as principais a dilatação da raiz da aorta e da aorta ascendente, o Prolapso de Valva Mitral e a dilatação do Ventrículo Esquerdo (VE). O exercício aeróbico tem-se mostrado um recurso terapêutico não medicamentoso, por promover efeito de antirremodelamento em pacientes com insuficiência cardíaca. Este relato de caso descreve as alterações ecocardiográficas de um paciente com Síndrome de Marfan durante quatro anos de um programa de fisioterapia cardiovascular.

Palavras-chave: Síndrome de Marfan, exercício, cardiomegalia, disfunção do ventrículo esquerdo.


 

 

Introdução

A Síndrome de Marfan (SM) é uma desordem autossômica dominante que afeta múltiplos órgãos e sistemas. Relativamente frequente (1:10.000), é causada por uma mutação no gene que codifica a fibrilina-1 e 2, um importante constituinte da matriz extracelular. Ocorre em todas as raças e grupos étnicos e distribui-se igualmente entre ambos os sexos. Diversas alterações cardíacas estão presentes, e as principais são: dilatação da raiz da aorta e da aorta ascendente, prolapso de valva mitral e dilatação do ventrículo esquerdo (VE), habitualmente secundária à insuficiência mitral ou aórtica1. SM com dilatação de VE apresenta mais frequentemente morte súbita, alterações de repolarização e arritmias ventriculares fatais. Na SM, também estão presentes alterações musculoesqueléticas que, somadas às outras disfunções, reduzem a capacidade funcional, tornando a prescrição do exercício físico (EF) um desafio nessa população1.

O treinamento físico aeróbico, quando realizado por longos períodos, promove efeito de antirremodelamento em pacientes com hipertrofia cardiaca e disfunção ventricular2,3, assim como na insuficiência cardíaca4, destacando-se o Leipzig Heart Failure Training Trial (LHFTT)5. Essas alterações são obtidas com exercícios de moderada intensidade (60% VO2pico)2-4. Entretanto, não se encontram, na literatura, pesquisas que abordem o impacto de um programa de exercícios sobre o remodelamento cardíaco na SM.

Este relato de caso descreve o histórico ecocardiográfico de um paciente com SM apresentando dilatação e hipertrofia do VE e a reversão dessas alterações no curso de um programa de fisioterapia cardiovascular durante quatro anos.

 

Relato do caso

Paciente do gênero masculino, 33 anos, sem alteração de perfil lipídico e hematológico. Após quadro de angina em 1999, recebeu diagnóstico de SM e realizou cirurgia para a colocação de endoprótese na aorta torácica e abdominal, tratamento medicamentoso à base de beta-bloqueador (Atenolol 50 mg/dia), inibidor de ECA (Enalapril 20mg/dia) e antagonista de cálcio (Nifedipina 10 mg 2/dia), sem alterações nos últimos três anos.

No período pré-fisioterapia, o paciente evoluiu com dispneia aos pequenos esforços e alterações na geometria e função cardíaca (Tabela 1).

Encaminhado à fisioterapia em janeiro de 2005, apresentou peso de 65kg; altura de 202cm; IMC de 15,9kg/cm2; percentual de gordura de 17,9%; peso gordo de 11,63kg; peso magro de 53,3kg e reduzida capacidade física ao Teste Ergométrico (Modifed Bruce; sintoma limitado): VO2máx de 21ml/kg/min estimado (VO2 = vel x 0,1 + vel x incl x 1,8). Iniciou fisioterapia cardiovascular 3 vezes por semana em fevereiro de 2006, realizando exercícios aeróbicos com 50% a 75% da frequência cardíaca de reserva e exercícios resistidos com 60% da carga máxima. Durante os exercícios físicos, pressão arterial, frequência cardíaca e auscultas cardíaca e pulmonar mantiveram-se dentro do esperado. Os quatro anos do programa de EF foram supervisionados pelo mesmo fisioterapeuta, com caráter crescente e interrompido apenas nos meses de julho e dezembro.

A geometria cardíaca e a função do VE foram avaliadas por Ecocardiografia Doppler, Marca GE, modelo Ving Med SFM 800, transdutor de 3,5 MHz. A função e as medidas cardíacas foram obtidas em repouso (Figura 1). Avaliações foram realizadas pelo mesmo ecocardiografista, diminuindo o efeito de variabilidade, e obtidas nas seguintes datas e intervalos de tempo em relação ao TTO fisioterapêutico:

(A) - 15/01/2003 - 2 anos pré; (B) - 18/12/2003 - 1 ano pré; (C) - 11/12/2004 - 1 mês pré; (D) - 06/11/2006 - 1 ano e 10 meses pós; (E) - 10/09/2008 - 3 anos e 8 meses pós; (F) - 01/05/2009 - 4 anos e 4 meses pós.

Na última avaliação, observou-se peso de 78kg; altura de 202cm; IMC de 19,1kg/cm2; percentual de gordura de 16,8%; peso gordo de 13,1kg; peso magro de 64,9kg e capacidade física normal para a faixa etária (VO2 máximo de 30,7ml/kg/min).

 

Discussão

O remodelamento cardíaco é definido como alterações reversíveis ou não das estruturas e dos fenômenos bioquímicos dos compartimentos musculares e/ou intersticiais do miocárdio, sendo de caráter adaptativo, porém seguido de deterioração funcional6.

O efeito dos betabloqueadores sobre o remodelamento cardiaco já é conhecido, prevenindo a hipertrofia e a dilatação do VE. Entretanto, é importante salientar que o paciente já fazia uso dessa opção terapêutica dois anos antes de iniciar o tratamento fisioterapêutico, e os efeitos da terapia betabloqueadora sobre a reversão do remodelamento cardiaco já podem ser observados com dois meses de tratamento7.

Os inibidores ECA promovem antirremodelamento cardíaco principalmente quando administrados nas fases iniciais do pós-IAM. Esses efeitos talvez sejam secundários à redução da atividade neuro-humoral, efeito antiisquêmico e redução das metaloproteinases 2 e 9, fatores que, isolados ou associados, contribuem para a ocorrência de hipertrofia cardíaca8.

O efeito dos antagonistas de cálcio sobre a hipertrofia cardíaca se mostra dependente da redução da hipertensão arterial9. No presente relato, o paciente não apresentava histórico de hipertensão arterial, não se justificando, assim, um efeito da terapia com antagonistas de cálcio sobre a redução da hipertrofia cardíaca. Soma-se a isso o fato de que a hipertrofia cardíaca decorrente da HA é de caráter cocêntrico e, no presente relato, o paciente apresentava hipertrofia excêntrica.

O remodelamento pode ser explicado pelas alterações tróficas nos cardiomiócitos. Porém, uma população de miócitos seria capaz de reingressar ao ciclo celular e replicar-se quando exposta a estímulos específicos, dentre os quais se destaca o EF, em que os efeitos sobre o antirremodelamento cardíaco vêm ganhando atenção em diferentes doenças, com aumentos significativos da FE e redução de massa, espessura e diâmetros ventriculares2-5.

O efeito de antirremodelamento na IC através do EF parece depender do tempo de intervenção, um mínimo de seis meses2-5,10. O antirremodelamento cardíaco induzido pelo EF parece ser fortemente influenciado pela síntese/atividade do óxido nítrico11, porém a produção de NO encontra-se normal nos pacientes com SM. Outros possíveis mecanismos por meio dos quais o EF desencadeia antirremodelamento é o efeito antiadrenérgico, menor duplo produto e melhora do barorreflexo, desencadeados pela melhora da eficiência contrátil. Uma análise retrospectiva mais recente do Leipzig Heart Failure Training Trial (LHFTT) atribui, em parte, a redução da hipertrofia cardíaca ao aumento do volume sistólico em repouso (observado no presente relato) e durante o exercício físico, assim como à redução da pós-carga por redução da resistência vascular periférica12. O EF promove melhora na velocidade de relaxamento e encurtamento da musculatura cardíaca, através do aumento da síntese da proteína transportadora de cálcio (SERCA-2), do aumento da concentração de cálcio e da sensibilidade ao cálcio pelos cardiomiócitos, contribuindo significativamente para a melhora da função ventricular13. Dessa forma, o antirremodelamento cardíaco parece depender da melhora da função ventricular, que, por sua vez, depende de diversos fatores.

O EF vem-se revelando uma opção terapêutica de múltiplos aspectos, e sua eficiência e sua segurança na SM já foram investigadas. Inúmeras pesquisas demonstram o efeito do antirremodelamento cardíaco promovido pelo EF, principalmente em pacientes com disfunção ventricular, porém não estão devidamente esclarecidos os mecanismos envolvidos, principalmente em pacientes com SM.

 

Conclusões

Na Síndrome de Marfan, há uma recomendação expressa, de Diretrizes, de se evitarem esforços físicos. Esse fato, com frequência, é confundido com o comportamento de não se fazer exercício algum. Este relato de caso é extremamente interessante porque situa o benefício de um programa de EF em um paciente com Síndrome de Marfan em uma situação ainda mais desfavorável, em que o remodelamento cardíaco com hipertrofia é sobejamente deletério.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Wladimir Musetti Medeiros
Av. Sgt. Geraldo Santana, 660 / 212-C - Jardim Marajoara
04674-225 - São Paulo, SP, Brasil
E-mail: wmusettimedeiros@hotmail.com, wmm.d.ed@epm.br

Artigo recebido em 18/03/11; revisado recebido em 25/04/11; aceito em 18/05/11.