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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.5 São Paulo May 2012  Epub Mar 29, 2012

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000031 

Realce Tardio miocárdico por Ressonância Magnética Cardíaca pode identificar risco para Taquicardia Ventricular na Cardiopatia Chagásica Crônica

 

 

Ronaldo Peixoto de MelloI; Gilberto SzarfIII; Paulo Roberto SchvartzmanV; Edson Minoru NakanoIII; Mariano Martinez EspinosaII; Denis SzejnfeldIII; Verônica FernandesVI; João A. C. LimaVI; Claudio CirenzaIV; Angelo A.V. De PaolaIV

IDepartamento de Cardiologia - Hospital e Pronto Socorro Municipal de Cuiabá
IIDepartamento de Matemática -+ Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá
IIIDepartamento de Radiologia - Hospital São Paulo - Escola Paulista de Medicina
IVDepartamento de Eletrofisiologia - Hospital São Paulo - Escola Paulista de Medicina, São Paulo, SP
VServiço de Radiologia - Hospital Moinhos de Vento, Porto Alegre, Brasil
VIDivisão de Cardiologia, Hospital Johns Hopkins, Baltimore, EUA

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Testes invasivos e não invasivos têm sido usados para identificar risco para Taquicardia Ventricular (TV) em pacientes com Cardiopatia Chagásica Crônica (CCC). Ressonância Magnética Cardíaca (RMC) pela técnica do Realce Tardio (RT) pode ser útil para selecionar pacientes com disfunção ventricular global ou segmentar, com alto grau de fibrose e maior risco para TV clínica.
OBJETIVO: Melhorar a identificação de elementos preditivos de TV em pacientes com CCC.
MÉTODO: Quarenta e um pacientes com CCC foram pesquisados, sendo 30 (72%) do sexo masculino, com média de idade de 55,1 ± 11,9 anos. Vinte e seis pacientes apresentavam histórico de TV (grupo TV), e 15 não apresentavam TV (grupo NTV). Todos os pacientes incluídos tinham RT e disfunção segmentar ventricular. Volume, porcentagem de comprometimento da espessura da parede ventricular em cada segmento, e distribuição de RT foi determinado em cada caso.
RESULTADOS: Não houve diferença estatística em termos de volume de RT entre os dois grupos: grupo TV = 30,0 ± 16,2%; grupo NTV = 21,7 ± 15,7%; p = 0,118. A probabilidade de TV foi maior se duas ou mais áreas contíguas de fibrose transmural estivessem presentes, sendo um fator preditor de TV clínica (RR 4,1; p = 0,04). A concordância entre os observadores foi de 100% nesse critério (p < 0,001).
CONCLUSÃO: A identificação de dois ou mais segmentos de RT transmural por RMC está associado com a ocorrência de TV clínica em pacientes com CCC. Portanto, a RMC melhora a estratificação de risco na população estudada. (Arq Bras Cardiol. 2012; [online].ahead print, PP.0-0)

Palavras-chave: Taquicardia ventricular, cardiomiopatia chagásica, espectroscopia de ressonância magnética.


 

 

Introdução

Taquicardia Ventricular (TV) é uma complicação comum da Cardiopatia Chagásica Crônica (CCC), como consequência de fibrose e disfunção ventricular1-2. Até 70% dos pacientes com CCC apresentam MCS (Morte Cardíaca Súbita) (taxa de mortalidade anual entre 0,2% e 19,2%)1,3-5. Nesses, a recorrência da TV é considerada a causa de morte2-3.

Imagens de Ressonância Magnética Cardíaca (RMC) usando a técnica do Realce Tardio (RT) têm demonstrado ser um importante marcador de risco tanto na Cardiopatia Isquêmica (CI) quanto na Cardiopatia Não Isquêmica (CNI)6,7. Nesses doentes com cardiopatia estrutural, TV clínica e fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) ≤ 40% são dois importantes preditores independentes de morte cardíaca8-12. Por outro lado, testes não invasivos e invasivos tais como o Estudo Eletrofisiológico (EEF) têm mostrado indutibilidade e reprodutibilidade insatisfatórias para identificar indivíduos com maior risco de TV13-15. Em contrapartida, as imagens fornecidas pela RMC usando a técnica do RT permitem delimitar e quantificar a fibrose miocárdica, estimar a função ventricular16-18, avaliar a movimentação regional, com forte correlação com a fibrose anatômica19-21. Nesse contexto, a RMC pode ser uma importante ferramenta de estratificação de risco, identificando um grupo de pacientes portadores de alto grau de RT e disfunção ventricular com maior risco para TV e morte cardíaca arrítmica22. Nossa hipótese é que o padrão de distribuição e a extensão do RT avaliado pela RMC podem ser úteis na identificação de elementos preditores para TV clínica na CCC.

 

Método

População

Analisamos prospectivamente 50 pacientes, com pelo menos 18 anos de idade, de ambos os sexos, com sorologia positiva para infecção prévia pelo Trypanosoma cruzi e portadores de CCC caracterizada pela presença de disfunção ventricular e/ou alterações eletrocardiográficas típicas da doença (BRD (bloqueio do ramo direito) associado a BDASE (bloqueio divisional ântero-superior esquerdo) encaminhados aos serviço entre abril de 2004 e novembro de 2007. Indivíduos com a forma indeterminada da doença foram excluídos do estudo. O protocolo de estudo foi revisado e aprovado pela comissão de ética da instituição local e todos os pacientes inscritos assinaram o termo de consentimento livre esclarecido. Pacientes atendidos na unidade de emergência por TV clínica e recuperados de MCS por TV foram incluídos no grupo TV. Pacientes sem antecedente de eventos associados a TV, assintomáticos ou com sintomas de insuficiência cardíaca, foram incluídos no grupo NTV (sem taquicardia ventricular). Pacientes com queixas de palpitações ou síncope inexplicada foram avaliados por exames não invasivos e submetidos a estudo eletrofisiológico durante o qual não houve indução de TV também foram incluídos no grupo NTV. Cardiomiopatia Isquêmica (CMI) foi investigada em todos os pacientes por angiografia coronariana ou Tomografia Computadorizada (TC) de 64 canais multidetectores23,24.

Daquele grupo inicial, seis pacientes foram excluídos por claustrofobia ou por baixa qualidade da imagem, e três pacientes foram excluídos por coronariopatia significativa. O grupo final totalizou 41 pacientes com anormalidade segmentar do ventrículo esquerdo (VE) e RT positivo nas imagens de RMC. Vinte e seis pacientes foram incluídos no grupo TV, e 15 pacientes no grupo NTV. Todos os pacientes do grupo TV foram referidos ao serviço por TV clínica, para realização de ablação de TV por radiofrequência e/ou prevenção de MCS por Cardiodesfibrilador Implantável (CDI). Dezessete participantes apresentavam queixas de palpitações (13 no grupo TV e 4 no grupo NTV) e 15 pacientes apresentavam sintomas de dispneia (9 no grupo TV e 6 no grupo NTV). Cinco pacientes do grupo NTV eram assintomáticos. As características ou variáveis dos pacientes estão apresentadas na tabela 1.

RMC

Os pacientes do estudo foram submetidos a RMC para avaliar a função e análise do RT após infusão intravenosa de 0,2 mmol/kg de ácido gadolínio tetra-azociclododecano-tetra-acético (Dotarem®, acido gadoterico, Gerbet Produtos Médicos, Rio de Janeiro, Brasil) para detectar áreas de fibrose. Os procedimentos foram realizados em aparelho de 1,5 Tesla (Sonata, Siemens, Erlanger, Alemanha) com o paciente na posição de supina. As imagens foram registradas em duas etapas utilizando sequências repetidas de 10-20 segundos de apneia. Imagens de eixo longo e curto foram obtidas do ápice para a base para o estudo da função cardíaca usando os seguintes parâmetros: tempo de repetição 3,0 ms; tempo de eco 1,5 ms, imagem matricial 256 x 128; campo de visão 300-400 mm; espessura do corte 8 mm; espaçamento de 2,0 mm, ângulo de deflexão 60° . As imagens de RT foram realizadas em eixo curto com 8 mm de espessura, da base para o ápice do VE após 5-20 minutos após administração do gadolínio usando os seguintes parâmetros: tempo de repetição de dois intervalos RR; tempo de excitação 4 a 4,8 ms; imagem da matriz 256 x 192; campo de visão 300-400 mm; espaçamento 2,0 mm; ângulo de deflexão 30° ; tempo de inversão 200-300 ms ajustados caso a caso com o objetivo de anular o sinal do miocárdio normal.

 

Análise das imagens

Os dados foram analisados por uma estação de trabalho off-line (Leonardo, Siemens Inc, Berlin). A parede do miocárdio foi planimetrada em todas as imagens de eixo curto para determinar o volume, diâmetro, fração de ejeção e massa (densidade = 1,05 g/cm3) do VE. RMC determinou o tamanho do infarto por imagens de RT e isso foi demonstrado como a porcentagem da massa ventricular esquerda (%VE); essa distribuição da medida segmentar e transmural também foi registrada. As imagens foram analisadas por dois observadores independentes separadamente de forma cega para os dados clínicos. O VE foi dividido em 17 segmentos utilizando um método padrão25. As imagens de RT foram classificadas por técnicas de visualização usando os eixos curtos e longos. O protocolo de RT foi visualmente classificado como subendocárdico, endocárdico, subepicárdico ou transmural. A massa total foi estimada utilizando dois métodos: escore e planimetria. Primeiramente, para facilitar a extensão do RT transmural, calculamos a massa de fibrose utilizando o método de escore descrito por Comte e cols.26. Cada segmento foi alocado em um grau de 0 a 4 de acordo com a extensão transmural de RT: 0 = 0%; 1 = 1% - 25%; 2 = 26% - 50%; 3 = 51% - 75%; 4 = 76% - 100%. RT transmural foi definida pela presença de RT em 75% do segmento cardíaco. O escore resultante foi a soma das notas encontrados em cada segmento. O escore máximo possível entre os participantes desse estudo foi 68. O escore total de RT para cada paciente foi posteriormente dividido por 68 e multiplicado por 100, fornecendo a porcentagem de fibrose ventricular. Posteriormente, foi também aplicada a segunda técnica de quantificação do realce pela planimetria em todas as imagens de eixo curto. Imagens dinâmicas da cine foram utilizadas para determinar ou excluir a presença de fibrose em ápice. Em consequência, imagens em realce tardio foram avaliadas em eixo longo para melhor visualização e quantificação da fibrose em ápice e somadas ao resultado da planimetria padrão. Por fim, o resultado final foi expresso automaticamente em gramas pelo programa e convertido manualmente para percentagem em relação à massa ventricular total. Os resultados das massas de RT foram posteriormente comparados estatisticamente. Paralelamente, consideramos a distribuição e extensão das lesões transmurais.

Análise estatística

Estatísticas descritivas são apresentadas para as variáveis quantitativas e qualitativas, sendo utilizadas a média ± Desvio Padrão (DP) para o caso quantitativo e percentagens para o caso qualitativo ou variáveis categóricas. Diferenças entre grupos para o caso quantitativo foram avaliadas por análises da variância (ANOVA). O teste de qui-quadrado (χ2) e exato de Fisher foram considerados para os dados categóricos. A técnica de regressão linear foi utilizada para avaliar a concordância entre os observadores na quantificação do RT, enquanto a comparação entre os métodos da planimetria e escore foi executada pela análise de Bland-Altman. As variáveis foram ajustadas usando o modelo de regressão multivariada para determinar os preditores independentes para ocorrência de TV. Posteriormente, taxas de risco para cada fator significante foram calculadas e isso foi expresso como Taxa de Risco (TR); com intervalo de confiança de 95% (IC). O valor de P < 0,05 foi considerado estatisticamente significante para a análise.

Os autores obtiveram acesso total e tiveram total responsabilidade pela integridade dos dados. Todos os autores leram e concordaram com o texto escrito. Não houve financiamento para o estudo.

 

Resultados

Características clínicas

As características clínicas dos participantes deste estudo são mostradas na tabela 1. Dos 41 pacientes com CHD, 30 (73,2%) eram homens, a idade média foi 55,1 ± 11,9 anos. Vinte e nove (70,7%) pacientes exibiram a classificação funcional I da New York Heart Association (NYHA-CF). No grupo TV 22 (82%) pacientes referia antecedente de síncope enquanto que no grupo NTV apenas 5 (33%); nesses últimos um estudo eletrofisiológico (EEF) foi negativo (sem efeitos antiarrítmicos) em todos os casos.

Achados RMC

Todos os pacientes apresentaram áreas de RT. O volume de RT não apresentou diferença significativa entre os dois grupos: grupo TV = 30,0 ± 16,2%; grupo NTV = 21,7 ± 15,7%; p = 0,118. Realce tardio não correlacionou com o alargamento QRS, bloqueio do ramo direito ou bloqueio divisional anterior esquerdo (BRD ou BRE) no eletrocardiograma (ECG) em repouso (tab. 1). Foi encontrada uma diferença na FEVE: grupo TV = 36,2 ± 14,5%; grupo NTV = 45,5 ± 12,7%; p = 0,046. Um típico ECG em repouso e morfologia de TV clínica para CCC é mostrada na figura 1. Um estudo eletrofisiológico foi realizado em 23 (88%) pacientes do grupo TV. Porém, em apenas 5 (19%) casos foi possível confirmar por mapeamento que o sítio de origem da TV era coincidente com a lesão transmural. Nos demais casos não houve estabilidade hemodinâmica suficiente que permitisse mapeamento adequado do sitio de origem da TV. Volumes de RT determinados pelos métodos de escore (R2 = 0,40; p < 0,001) e planimetria (R2 = 0,74; p < 0,001) foram compatíveis entre os dois observadores. A análise Bland-Altman mostrou correlação entre os métodos de planimetria e escore: (R2 = 0,46; p < 0,001; fig. 2).

Distribuição do RT

Encontros típicos na distribuição do RT na nossa série estão exemplificadas na figura 3. Realce tardio foi predominante em ambos os segmentos ínfero-lateral basal e apical do VE em 29 (70,1%) pacientes. No grupo TV, RT foi apical em 5 (19%) e em 21 (81%) nos segmentos basais, enquanto no grupo NTV RT localizava-se ápice em 6 (23,1%) e em 20 (76,9%) nos segmentos basais. Não houve associação da distribuição da RT com TV clínica (p = 0,251). Analisamos 646 segmentos e encontramos 270 (39%) segmentos ventriculares comprometidos. Nenhuma diferença foi encontrada nem na análise de localização (fig. 4) nem na transmuralidade RT (fig. 5).

Análise simultânea segmentar e transmural e eventos no segmento clínico

Lesões transmurais foram mais prevalentes no grupo TV (n = 70, 79%) do que no grupo NTV (n = 19, 21%), p = 0,082. Todos os pacientes do grupo TV apresentavam lesões transmurais. Criamos uma variável categórica adicional composta pela uma análise combinada da transmuralidade e a segmentação caracterizada pela presença de dois ou mais segmentos contínuos contendo lesões transmurais. Na análise univariada essa nova variável foi significativamente correlacionada com a ocorrência de TV clínica. Esse padrão de distribuição foi encontrada em 19 pacientes (73,1%) grupo TV e 6 (40,0%) do grupo NTV (p = 0.036). O modelo de regressão multivariada ajustado pela FEVE ≤ 40%, idade, sexo e porcentagem RT mostrou que dois ou mais segmentos transmurais foram preditores da ocorrência de TV (RR 4,1; CI 1,06 - 15,68; p = 0,04; tab. 2). Os observadores concordaram com a presença ou a ausência desse padrão de distribuição em 41 (100%) pacientes com significante reprodutibilidade (p < 0,001). Esse padrão contíguo e compacto de distribuição de RT e fibrose transmural esteve presente no ápice em 13 pacientes (50,0%) grupo TV e 5 (33,3%) do grupo NTV; e nos segmentos ínfero-lateral basal em 10 pacientes (38,5%) grupo TV e 8 (53,3%) do grupo NTV (p = 0,385). A figura 6 resume a frequência e a distribuição preferencial das lesões transmurais dos pacientes no estudo.

Durante uma média de 500 ± 303 dias de acompanhamento os pacientes do grupo NTV sem lesões transmurais e aqueles com menos de 6% de fibrose no miocárdio de segmentos ventriculares não apresentaram eventos. Contudo, 3 pacientes desse mesmo grupo que apresentavam pelo menos uma lesão transmural apresentaram MCS no segmento clínico, e dois deles eram totalmente assintomáticos. O terceiro paciente tinha realizado um estudo eletrofisiológico durante o qual não houve indução de TV.

 

Discussão

O resultado do nosso estudo demonstra que a presença de dois ou mais segmentos contíguos com fibrose transmural foi um preditor independente de TV em CCC. Esse achado foi associado com 4,1 vezes de maior risco para desenvolvimento de TV. Isso indica que RMC com a técnica do RT pode melhorar a identificação de pacientes com CCC e alto risco para TV. Pelo nosso conhecimento, este é o primeiro estudo a comparar a extensão transmural por segmentos e a ocorrência de TV.

Análise de substrato

Fibrilação Ventricular (FV) e TV são considerados as mais comuns causas de MCS na CCC1,3. Fibrose e reentrada são respectivamente os mais importantes substratos e mecanismos para TV nesse grupo2,27. A RMC pela técnica de RT oferece uma excelente correlação com a fibrose18,19, incluindo a identificação de processo inflamatório pela CCC via biopsia endocárdica28. Aqueles encontros suportam a hipótese de que a RMC pode ser uma importante ferramenta na avaliação da fibrose na ccc. A aplicabilidade da RMC para a estratificação de risco na prática clínica tem sido estudada por outros autores. Na CMI, Wu e cols.29 demonstraram aumento de eventos com o aumento e maior extensão do RT em pacientes com mais de 18% de RT. Kwong e cols.8 mostraram que, na CMI, mesmo em pacientes com baixo volume de RT (média de 1,4 ± 1,1%), houve incremento de sete vezes na taxa de eventos quando comparados a pacientes sem RT. O volume de RT > 15% e área de infarto > 100 cm2 30 e RT envolvendo 26% a 75% da espessura do miocárdio ventricular31 foi preditor de indutibilidade de TV.

Em contrapartida, no caso especifico da CCC, áreas de fibrose transmural parecem ser necessárias para a ocorrência de TV clínica. Rochitte e cols.6 estudaram 51 pacientes pela RMC e envolveram pacientes com a forma indeterminada da doença. Naquele estudo, 68% dos pacientes tinham RT e esse foi mais exuberante nos pacientes do grupo TV.

O presente estudo incluiu apenas pacientes com fibrose miocárdica, anormalidade segmentar, comparando pacientes com e sem TV clínica. Cem por cento dos pacientes tinham RT detectável e foi encontrado que todos os pacientes com TV apresentavam lesão transmural confirmando os dados de Rochitte e cols.6. Em adição, um padrão típico de RT expresso pela presença de dois ou mais segmentos transmurais contíguos foi significantemente associado com TV. Aqueles achados demonstraram que a análise do RT, a quantificação da fibrose miocárdica e a identificação de lesões transmurais, em especial quando essas lesões são coalescentes formando placas extensas de fibrose ocupando pelo menos dois segmentos contíguos, podem selecionar um grupo com maior risco de TV.

Impacto clínico

Até a presente data, nenhum teste diagnóstico isoladamente foi capaz de identificar pacientes com alto risco para ocorrência de TV. Sabemos que TV clínica e FEVE ≤ 40% são os mais importantes preditores independentes de morte cardíaca9-12. Recentemente, um novo método de escore para estratificação de risco têm sido validado para identificar pacientes com alto risco de morte usando dados clínicos como NYHA-CF > II, gênero masculino, anormalidades da mobilidade da parede pelo ecocardiograma, presença de TV não sustentada no Holter de 24h, cardiomegalia na radiografia de tórax e baixa voltagem no ECG de repouso32. Por outro lado, testes invasivos tais como o EEF têm mostrado baixo poder de indutibilidade, reprodutibilidade e Valor Preditivo Positivo (VPP)13,33,34. Em um estudo com pacientes com CCC, o EEF registrou VPP e VPN de 24% e 98% para TV clínica, respectivamente. A indutibilidade teve VPP e VPN de 46% e 85% para mortalidade cardíaca35. Em outro estudo, a indutibilidade de TV sustentada não tolerada (TV) em paciente com CCC após impregnação previa com antiarrítmico classe III (amiodarona e/ou sotalol) teve VPP e VPN 49% e 94% para MCS, respectivamente36.

RMC melhora a identificação de paciente com FEVE reduzida, mais extensa e compacta fibrose para quem um tratamento individualizado poderia ser indicado37,38, haja vista que pacientes com CCC são habitualmente mais jovens1,31 do que aqueles com CMI37 e nesses pacientes a MCS pode ser o primeiro evento1,31. O método visual usado neste estudo pode ser facilmente aplicável e reprodutível. Além disso, o alto índice de correlação entre os observadores no que tange à identificação de mais compacta, transmural e extensa fibrose indica que esse método pode ser rotineiramente aplicável na prática clínica.

Limitações

Algumas limitações do estudo deverão ser citadas. Primeiro, a impossibilidade de provar que a TV clínica origina-se do mesmo local da lesão transmural. Um modo eletrofisiológico para provar a relação entre TV e fibrose anatômica deveria ser requerido. Por outro lado, a correlação entre ECG de 12 derivações durante TV e sua origem é baixa.

Segundo, pacientes com síncope inexplicada e palpitação foram incluídos no grupo NTV após investigação não invasiva e um EEF sem indução de TV. Entretanto, não há método capaz de excluir TV com segurança e de forma definitiva em pacientes com cardiopatia estrutural.

Terceiro, lesões em ápice são frequentemente vistas em pacientes com CCC. Aqueles segmentos não são facilmente visíveis em eixo curto, e por esse motivo não podem ser adequadamente planimetrados em eixo curto, impondo mudança na técnica de quantificação da fibrose26.

Quarto, o pequeno número de pacientes arrolados no estudo, associado a um intervalo de confiança muito amplo na determinação do risco relativo e a característica especifica envolvendo pacientes muito graves com mais de 50% dos indivíduos com antecedente de TV e 100% contendo RT, nos leva a concluir que o VPP e o risco relativo dessa série encontram-se superestimados. O método atual, se aplicado a uma população maior e assintomática, poderá evidenciar um VPP e um RR menores para a ocorrência de TV. Porém, nossos achados estão de acordo com os da literatura.

Quinto, nenhuma análise de eventos foi possível em razão do tamanho da amostra no grupo NTV e da baixa incidência de eventos em curto prazo na CCC. Novos estudos serão necessários para confirmar nossos encontros.

 

Conclusão

Este estudo indica que a RMC melhora a estratificação de risco de pacientes com CCC e identifica pacientes com maior suscetibilidade para TV. Neste grupo, a identificação de dois ou mais segmentos contíguos de RT transmural está associada a maior probabilidade de TV clínica. Tal resultado evidencia a RMC como uma importante ferramenta para identificar pacientes portadores de CCC com maior risco de TV, caracterizados pela presença de disfunção ventricular e extensa área de fibrose transmural ocupando pelo menos dois segmentos coalescentes. Mais estudos são necessários para corroborar esses encontros e devem incluir pacientes assintomáticos em longo tempo de segmento clinico.

 

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Artigo recebido em 17/04/11;
revisado recebido em 09/08/11;
aceito em 01/11/11

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