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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.99 no.3 São Paulo Sept. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012001200001 

EDITORIAL

 

Cirurgia de revascularização do miocárdio minimamente invasiva

 

 

Robinson Poffo; Alex Luiz Celullare

Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


Palavras-chave: Doença das coronárias/cirurgia; revascularização miocárdica; procedimentos cirúrgicos minimamente invasivos.


 

 

A cirurgia de revascularização do miocárdio (CRVM) é o padrão de referência para o tratamento definitivo da doença coronariana. Com o advento da angioplastia transluminal percutânea, a cirurgia cardíaca perdeu terreno especialmente no tratamento das lesões coronarianas uni e biarteriais, o que fez que os cirurgiões deixassem sua zona de conforto e fossem em busca de novas técnicas cirúrgicas, com o objetivo de se obter, com menores incisões, resultados semelhantes à cirurgia convencional e uma melhor evolução pós-operatória, culminando na chamada cirurgia minimamente invasiva.

Esse tipo de CRVM pode ser encontrado na literatura médica como aquela que se realiza sem o auxílio da circulação extracorpórea; porém, acreditamos que uma melhor denominação seria uma cirurgia realizada por pequenas incisões. Milani e cols.1 descrevem neste trabalho a evolução dos primeiros cem pacientes submetidos a esse tipo de cirurgia em seu grupo.

Os primeiros relatos de CRVM minimamente invasiva datam de 1995, quando Stanbridge e cols.2, Robinson e cols.3, Benetti e Ballester4 e Subramanian e cols.5 descreveram suas técnicas e resultados iniciais. Dentro desse conceito, temos na literatura nacional alguns artigos demonstrando essa técnica realizada por pequenas incisões desde os artigos publicados por Jatene e cols.6-8; mais tarde, Poffo e cols.9 demonstraram a possibilidade de se realizar essa cirurgia associada a outras doenças intracardíacas com acessos mínimos e auxílio de equipamento de videocirurgia.

Apesar de a revascularização do miocárdio uniarterial, por meio de uma pequena incisão com ou sem circulação extracorpórea (CEC), mostrar-se eficaz, com menor índice de transfusão sanguínea, menor tempo de internação em UTI, menor índice de complicações em relação à cirurgia convencional10, ela não foi amplamente empregada. Dentre os fatores que levaram à baixa adesão da técnica estão sua maior complexidade, campo operatório restrito, dificuldade de dissecção completa da artéria torácica interna esquerda e impossibilidade de se realizar anastomoses proximais na aorta ascendente11; em contrapartida, a cardiologia intervencionista apresentou uma rápida evolução, especialmente após a introdução dos stents farmacológicos, o que fez que o paciente com doença coronariana uniarterial dificilmente fosse encaminhado à cirurgia.

Durante as décadas de 1990 e 2000 muito se desenvolveu na área de materiais cirúrgicos para propiciar a realização de cirurgias com menores incisões, permitindo assim ampliar a aplicação da CRVM para casos mais complexos, com lesões triarteriais. No artigo de Milani e cols.1, os autores mostram uma alternativa menos agressiva à esternotomia para os pacientes submetidos a revascularização do miocárdio; não apenas em casos uniarteriais, mas também em casos mais complexos em que haviam duas artérias acometidas. A partir do domínio da técnica utilizando-se modificações propostas por McGinn e cols.12, os autores puderam incorporar variantes técnicas que facilitaram o emprego da minitoracotomia lateral. Realizando-se um acesso mais lateral, melhora-se a exposição, tendo-se acesso não somente à região anterior do coração, mas também à sua região lateral. Com esse acesso mais lateral, há maior mobilidade dos arcos costais, levando a uma melhor exposição do coração e a uma ampliação do campo operatório. Outro ponto é a possibilidade do acesso total à artéria torácica interna esquerda, podendo essa ser dissecada desde a sua origem até a sua bifurcação. Há também a possibilidade de se realizar anastomoses proximais na aorta.

Mesmo havendo seleção de pacientes no estudo em questão, observou-se uma média de 1,53 anastomose distal por paciente, e em alguns casos foi possível a realização de 3 anastomoses distais. O fato de as cirurgias terem sido realizadas sem a utilização da CEC pode ser um fator positivo na redução da ocorrência de eventos cardiovasculares maiores13, como mortalidade e AVC.

Do ponto de vista de complicações pulmonares, que são consideradas frequentes e que podem chegar a ser maiores que 87% nas CRVM convencionais, segundo Ortiz e cols.14, os autores encontraram em sua série um nível relativamente baixo de complicações em torno de 11% (somando pneumonia 8% e reintubações 3%) nas cirurgias minimamente invasivas, corroborando os resultados encontrados no estudo comparativo de Guizilini e cols.15, onde a miniesternotomia se mostrou melhor quanto à preservação pulmonar quando comparado à esternotomia total.

A complicação mais frequente nesta série de 100 pacientes foi a fibrilação atrial (17%), seguida da pneumonia (8%); e os fatores de risco foram: idade avançada, euroscore alto e tempo de ventilação mecânica prolongada. Dentre esses fatores, os autores acreditam que, com uma maior experiência, o tempo total de cirurgia possa ser diminuído de forma significativa, a ponto de reduzir-se a incidência de infecção pulmonar.

Outra questão abordada foi a melhor evolução do paciente, com curto período de internação hospitalar e retorno precoce às atividades habituais, não sendo necessário aguardar os 45 dias para voltar a dirigir, fato que ocorre após a esternotomia.

Os autores apresentaram uma excelente opção para o tratamento de casos menos complexos, em que o grande objetivo é prover uma cirurgia segura, com resultados duradouros superponíveis aos encontrados na técnica tradicional com um baixo índice de complicações, e menor tempo de recuperação desses pacientes.

 

Referências

1. Milani RM, Brofman P, Guimarães M, Olandoski M, Meister Filho H, Baggio T, et al. Minimally-invasive vídeo assisted coronary-artery bypass grafting. Arq Bras Cardiol.2012;99(1):596-604.         [ Links ]

2. Stanbridge R L, Symons G V, Banwell P E . Minimal-acess surgery for coronary artery revascularization. Lancet. 1995;346(8978):837.         [ Links ]

3. Robinson MC, Gross DR, Zeman W, Stedje-Larsen E. Minimally invasive coronary artery bypass grafting: a new method using an anterior mediastinotomy. J Card Surg. 1995;10(5):529-36.         [ Links ]

4. Benetti FJ, Ballester C. Use of thoracoscopy and a minimal thoracotomy, in mammary-coronary bypass to left anterior descending artery, without extracorporeal circulation: experience in 2 cases. J Cardiovasc Surg. 1995;36(2):159-61.         [ Links ]

5. Subramanian VA, Sani G, Benetti FJ, Calafiore AM. Minimally invasive coronary bypass surgery; a multi-center report of preliminary clinical experience. Circulation. 1995;92(Suppl1):1645.         [ Links ]

6. Jatene FB, Pêgo-Fernandes PM, Arbulu HEVD, Hayata ALS, Kalil R, Molnár L, Jatene AD. Cirurgia de revascularização do miocárdio minimamente invasiva com uso de enxerto composto: relato de caso. Rev Bras Cir Cardiovasc. 1996;11(4):307-10.         [ Links ]

7. Jatene Fb, Fernandes PM, Stolf NA, Kalil R, Hayata AL, Assad R, et al. Cirurgia de revascularização do miocárdio minimamente invasiva com utilização da videotoracoscopia. Arq Bras Cardiol. 1997;68(2):107-11.         [ Links ]

8. Jatene FB, Pêgo-Fernandes PM, Assad RS, Dallan LA, Hueb W, Arbulu HE, et al. Cirurgia de revascularização do miocárdio minimamente invasiva: resultados com o uso da videotoracoscopia e do estabilizador de sutura. Rev Bras Cir Cardiovasc. 1998;12(3):233-8.         [ Links ]

9. Poffo R, Pope RB, Toschi AP. Correção cirúrgica da comunicação interatrial e revascularização do miocárdio minimamente invasiva videoassistida. Rev Bras Cir Cardiovasc. 2009;24(4):586-9.         [ Links ]

10. Diegeler A, Walther T, Metz S, Falk V, Krakor R, Autschbach R, Mohr FW. Comparison of MIDCAB versus conventional CABG surgery regarding pain and quality of life. Heart Surg Forum.1999;2(4):290-5.         [ Links ].

11. Poffo R. Cirurgia cardíaca minimamente invasiva. einstein. Educ Contin Saúde. 2009;7(4 Pt 2):206-10.         [ Links ]

12. McGinn JT Jr, Usman S, Lapierre Harry, Pothula VR, Mesana TG, Ruel M. Minimally invasive coronary artery bypass grafting. Dual-Center experience in 450 consecutive patients. Circulation. 2009;120(11Suppl):S78-S84.         [ Links ]

13. Godinho AS, Alves AS, Pereira AJ, Pereira TS. Cirurgia de revascularização miocárdica com circulação extracorpórea versus sem circulação extracorpórea: uma metanálise. Arq Bras Cardiol. 2012;98(1):87-94.         [ Links ]

14. Ortiz LDN, Schaan CW, Leguisamo CP, Tremarin K, Mattos WLLD, Kalil RA, et al. Incidência de complicações pulmonares na cirurgia de revascularização do miocárdio. Arq Bras Cardiol. 2010;95(4):441-7.         [ Links ]

15. Guizilini S, Bolzan DW, Faresin SM, Alves FA, Gomes WJ. Miniesternotomia na cirurgia de revascularização miocárdica preserva função pulmonar pós-operatória. Arq Bras Cardiol. 2010;95(5):587-93.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Robinson Poffo
Avenida Albert Einstein, 627, Morumbi
CEP 05652-901, São Paulo, SP - Brazil
E-mail: drpoffo@einstein.br

Artigo recebido em 02/08/12; revisado em 02/08/12; aceito em 02/08/12.

 

 

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