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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

versão impressa ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.98 no.5 São Paulo maio 2012 Epub 05-Abr-2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000032 

Qualidade de Vida de pacientes hipertensos e comparação entre dois instrumentos de medida de QVRS

 

 

Michelle Adler Normando Carvalho; Isabela Bispo Santos Silva; Sarah Brito Pinheiro Ramos; Laura Fernandes Coelho; Isabela Dias Gonçalves; José Albuquerque de Figueiredo Neto

Universidade Federal do Maranhão - São Luiz, MA - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: Medir Qualidade de Vida (QV) relacionada à saúde auxilia na avaliação da eficiência de um tratamento e identifica problemas de maior impacto na QV do paciente. No entanto, essas medidas são mais seguras se avaliadas por instrumentos genéricos e específicos conjuntamente, fazendo-se necessário verificar se há compatibilidade entre esses e evitar repetições e contradições entre os domínios.
OBJETIVO: Descrever o perfil de qualidade de vida de pacientes hipertensos e avaliar a compatibilidade de um instrumento específico (MINICHAL) e outro genérico (SF-36).
MÉTODOS: Cem pacientes hipertensos adultos em tratamento ambulatorial entrevistados. A média da QVRS medida pelo MINICHAL foi de 6,64 (DP 6,04) no estado mental e média de 5,03 (DP 4,11) no estado manifestações somáticas. As médias para o instrumento SF-36 foram por ordem de classificação: limitação por aspectos físicos 47,3 (DP 42,9), vitalidade 57,4 (DP 19,7), limitação por aspectos emocionais 58 (DP 44,7), capacidade funcional 58,7 (DP 27,8), dor 60,4 (DP 26,3), estado geral de saúde 60,7 (DP 22,7), saúde mental 66,8 (DP 22,1) e aspectos sociais 78 (DP 26,1).
RESULTADOS: O MINICHAL apresentou correlação significativa (p < 0,001) com o SF-36 em todos os domínios.
CONCLUSÃO: O MINICHAL provou ser um instrumento útil na avaliação da QVRS em pacientes hipertensos. (Arq Bras Cardiol. 2012; [online].ahead print, PP.0-0)

Palavras-chave: Hipertensão, pacientes ambulatoriais, qualidade de vida, questionários.


 

 

Introdução

A Hipertensão Arterial (HA) é, isoladamente, o fator de risco mais importante para as Doenças Cardiovasculares (DCV), principal causa de mortalidade mundial. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)1, no Brasil, no total de óbitos, 20% a 50% são ocasionados por doenças cuja causa está associada à HA. Sua prevalência, com base em inquéritos populacionais, varia de 22,3% a 43,9% da população acima de 18 anos2.

Estudos mostram que os efeitos secundários do tratamento da HA estão associados a menor aderência e a abandono do tratamento medicamentoso, podendo interferir na Qualidade de Vida (QV) desses pacientes.

A OMS3 conceitua qualidade de vida como sendo "a percepção do indivíduo, de sua posição na vida, no contexto da cultura e sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações".

QV serve como indicador nos julgamentos clínicos de doenças específicas, avalia o impacto físico e psicossocial que as enfermidades podem acarretar para as pessoas acometidas, permitindo um melhor conhecimento acerca do paciente e de sua adaptação à condição de estar doente.

Existe uma variedade de instrumentos para avaliar a Qualidade de Vida Relacionada à Saúde (QVRS). Esses permitem avaliar o impacto de uma doença crônica sobre a vida do paciente e oferecem um tipo de resultado do tratamento baseado na percepção do próprio indivíduo sobre seu estado geral de saúde4.

Um instrumento largamente utilizado com a finalidade de refletir a QV dos pacientes em uma ampla variedade de populações, incluindo aspectos como função, disfunção e bem-estar emocional e físico, é o SF-36 (The Medical Outcomes Study 36-item Short-Form Health Survey)5-7. Os instrumentos específicos avaliam conceitos de saúde próprios de uma doença ou de uma intervenção. Em relação à hipertensão, existe um instrumento validado no Brasil: Mini-Questionário de Qualidade de Vida em Hipertensão Arterial (MINICHAL)8,9. O uso simultâneo de ambos os instrumentos (genérico e específico) tem sido utilizado como estratégia para medir de forma completa a QVRS4.

O objetivo deste trabalho foi conhecer e mensurar a QV do paciente hipertenso em tratamento ambulatorial, utilizando dois instrumentos, um genérico e outro específico, além de verificar a concordância entre eles.

 

Métodos

Realizou-se estudo observacional transversal com pacientes hipertensos acompanhados na Liga de Hipertensão Arterial, do Hospital Universitário Presidente Dutra, no período de março a maio de 2009.

Neste estudo, os pacientes foram incluídos independentemente do sexo a que pertencem, desde que maiores de 18 anos. A escolha dos pacientes foi por conveniência, sendo questionado a todos quais concordariam em participar da pesquisa. Foram excluídos os pacientes com diagnóstico psiquiátrico de doença mental, pacientes com problemas associados ao uso de álcool ou outras drogas e mulheres grávidas ou em período de lactância.

Foram convidados para participar da pesquisa 109 pacientes hipertensos: 9 recusaram-se a participar, ficando um total de 100 participantes, sendo 61 mulheres e 39 homens.

Foram analisados dados sociodemográficos (idade, sexo, anos de estudo, estado civil e cor da pele, nível socioeconômico) e clínicos (pressão arterial sistólica e diastólica, tempo de diagnóstico de HAS, levantamento de comorbidades e fatores de risco cardiovascular como diabetes, dislipidemia, histórico de infarto, histórico de AVC, depressão, obesidade e problema renal), que foram coletados por meio de entrevista estruturada e os pacientes relatavam suas comorbidades. Nos casos de dúvida os dados eram confirmados no prontuário do paciente. A medida do peso na faixa ideal foi obtida pelo Índice de Massa Corporal (IMC), calculado a partir do peso e altura dos pacientes. A classificação empregada foi da OMS10. A pressão arterial foi medida três vezes consecutivas para cada paciente, com intervalo mínimo de 3 minutos entre as medidas. Foi utilizado o aparelho automático digital da marca OMRON HEM - 722C (OMRON Healthcare Inc., Kyoto, Japão), validado pelos protocolos da Association for the Advancement of Medical Instrumentation e British Hypertesion Society para pesquisas internacionais11.

Para a realização de análises, os valores da PA foram estratificados conforme os estágios de HAS, seguindo as diretrizes brasileiras de hipertensão, em controlados (PA < 140/90 mmHg), hipertensão estágio 1 (PAS entre 140-159 e PAD entre 90-99); estágio 2 (PAS entre 160-179 e PAD entre 100-109) e estágio 3 (PAS > 180 e PAD > 110)12.

O conhecimento sobre a doença foi avaliado mediante 10 perguntas, com respostas do tipo sim/não, padronizado por Strelec e cols.13 e utilizado em publicações nacionais8,14. O conhecimento considerado satisfatório foi para os pacientes que obtinham notas > a 7, e insatisfatório, para aqueles que obtinham notas < 78.

Os instrumentos de avaliação da QV foram administrados em uma única entrevista para cada paciente.

Questionários para medir a qualidade de vida relacionada a saúde

Para avaliação da QVRS foram utilizados um instrumento específico de avaliação da QV em hipertensão (MINICHAL) e um instrumento genérico para avaliação da QV (SF-36), ambos validados no Brasil. O MINICHAL foi desenvolvido na Espanha em 2001 e contém 16 itens. Dez itens estão agrupados no domínio estado mental, e seis itens, no domínio manifestações somáticas. O domínio estado mental inclui as questões de 1 a 9 e possui pontuação máxima de 27 pontos. O domínio manifestações somáticas inclui as questões de 10 a 16, com pontuação máxima de 21 pontos15. Tanto a versão original em espanhol como a brasileira incluem uma última questão relativa ao impacto geral da HAS na QV do paciente.

Na entrevista com os pacientes foi solicitado que respondessem baseando-se nos últimos sete dias. A escala de pontuação é do tipo Likert com quatro possíveis respostas (0 = não, absolutamente; 1 = sim, um pouco; 2 = sim, bastante; 3 = sim, muito). Os pontos variam de 0 (melhor nível de saúde) a 30 (pior nível de saúde) para a dimensão estado mental e para a dimensão manifestações somáticas variam de 0 (melhor nível de saúde) a 18 (pior nível de saúde)16.

O MINICHAL foi originalmente desenvolvido para ser autoadministrado; entretanto, neste estudo, em razão da baixa escolaridade dos pacientes, o instrumento foi aplicado mediante entrevista estruturada.

Por fim, foi utilizado o questionário genérico SF-36 para avaliar aspectos qualitativos e quantitativos da QV dos pacientes6. Esse instrumento é um questionário multidimensional formado por 36 itens, englobados em 8 escalas: capacidade funcional (10 itens), aspectos físicos (4 itens), dor (2 itens), estado geral de saúde (5 itens), vitalidade (4 itens), aspectos sociais (2 itens), aspectos emocionais (3 itens), saúde mental (5 itens) e mais uma questão de avaliação das alterações de saúde ocorridas no período de um ano e que, embora não seja usado para pontuar nenhuma das oito escalas anteriores, é de suma importância para o conhecimento da doença do paciente.

Para avaliação de seus resultados é dado um escore para cada questão, que posteriormente são transformados numa escala de 0 a 100, onde zero corresponde a um pior estado de saúde e 100, a um melhor, analisando cada dimensão separadamente. Propositalmente, não existe um único valor que resuma toda a avaliação, traduzindo-se num estado geral de saúde melhor ou pior, justamente para que, numa média de valores, evite-se o erro e não se identificar os verdadeiros problemas relacionados à saúde do paciente ou mesmo de subestimá-los17.

Como o trabalho presente propõe-se a correlacionar o SF-36 com o questionário MINICHAL, é necessário fazer a descrição do SF-36 em dois componentes. Ware e cols.18 propuseram a classificação dos domínios do SF-36 em dois grandes componentes: componente físico envolve os domínios capacidade funcional, aspectos físicos, dor e estado geral de saúde; e componente mental envolvendo os domínios saúde mental, aspectos emocionais, aspectos sociais e vitalidade. Os domínios estado geral da saúde e vitalidade também podem estar de forma indireta relacionados ao outro componente. Essa separação tem por finalidade visualizar, de forma genérica, esses dois grandes componentes que podem estar envolvidos de maneira distinta nas diversas doenças.

Na análise estatística, inicialmente, foi feita a análise descritiva (média, desvio padrão, máximo, mínimo, quartis, mediana) das variáveis numéricas, bem como tabelas de frequência e gráficos. Posteriormente, foi feita regressão múltipla entre as variáveis dependentes PAS e PAD e as variáveis independentes idade, sexo, tempo de diagnóstico, comorbidades, fatores de risco e número de medicamentos. Foi feita análise de variância (ANOVA) entre as variáveis PAS e PAD e, quando houvesse diferenças significativas (p < 0,05), realizado teste de Turkey para comparar as médias duas a duas. A correlação de Pearson foi realizada entre os domínios do MINICHAL e do SF-36. O nível de significância estatística utilizado foi de 5%.

A pesquisa foi submetida e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HUUFMA), sendo realizada conforme as exigências da Resolução CNS nº 196/96, onde os sujeitos envolvidos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), assegurando assim, sua participação na pesquisa.

 

Resultados

Foram entrevistados 100 pacientes hipertensos em tratamento ambulatorial, sendo 39 homens e 61 mulheres. Na tabela 1 encontra-se o perfil clínico e sociodemográfico desses pacientes.

 

 

A média de idade dos pacientes foi de 61,7 anos (DP 12,4); variando de 20 a 82 anos, onde 59% da população deste estudo eram idosos (> 60 anos). A escolaridade foi em média 5,4 anos formais de estudo.

Quanto ao tempo de diagnóstico da HAS, a média foi de 9,39 anos (DP 7,32). A PAS apresentou média de 143,43 mmHg (DP 24,1) e a PAD, de 83,62 mmHg (DP 12,6). No que se refere ao controle da PA, 46% dos pacientes estão com a PA controlada. Quanto ao estágio da PA, 30% dos pacientes encontravam-se no estágio I; 17%, no estágio II; e 7%. no estágio III da doença.

Em relação à variável Conhecimento sobre a Hipertensão Arterial Sistêmica, a tabela 2 traz os acertos obtidos para cada pergunta com suas frequências.

Na tabela 3 estão relacionados os domínios e os escores dos instrumentos SF-36 e MINICHAL.

Não houve diferença significativa entre os níveis de PA e os domínios que avaliam a QV pelos instrumentos SF-36 e MINICHAL.

Em relação à variável sexo, houve diferença significativa (p < 0,05) no domínio estado mental do MINICHAL e nos domínios de capacidade funcional, dor, limitação por aspectos emocionais e saúde mental do SF-36 (tab. 4).

Dentre as comorbidades/fatores de risco CV: obesidade, depressão, histórico de infarto, histórico de AVC, insuficiência renal em tratamento conservador, história familiar de DCV, diabetes, dislipidemia e tabagismo, as que tiveram diferença significativa (p < 0,05) com a QV foram: depressão, obesidade e histórico familiar de DCV. Os dados se encontram nas tabelas 5, 6 e 7.

O MINICHAL e o SF-36 apresentaram correlação significativa entre si (p < 0,001) em todos os domínios (tabela 8).

 

Discussão

Avaliar a QV é de extrema importância, pois esse conceito serve como um indicador nos julgamentos clínicos de doenças específicas, avalia o impacto físico e psicossocial que as enfermidades podem acarretar para as pessoas acometidas, permitindo melhor conhecimento acerca do paciente e de sua adaptação à condição de estar doente. Roca-Cusachs e cols.19 relataram que pacientes hipertensos possuíam diminuição significativa da QV quando comparados com normotensos.

Nesse estudo, 46% dos pacientes estão com a PA controlada. A PAS apresentou média de 143,4 mmHg e a PAD, de 83,6 mmHg. No Brasil, estudos de prevalência que relatam pacientes com PA controlada utilizando tratamento anti-hipertensivo apresentam taxa de variação de 20% a 33%2.

Observou-se que a amostra, apesar de apresentar baixo nível de escolaridade, possuía conhecimento satisfatório sobre a doença. A maioria deles obteve acerto em sete ou mais quesitos no questionário específico para avaliação do conhecimento da doença. Resultado similar foi encontrado em outro estudo, realizado no sul do país, que também apresentava uma amostra com nível educacional baixo, o que sugere que o conhecimento da doença não é afetado pela baixa escolaridade20. Em nosso caso, por se tratar de uma Liga Acadêmica de Hipertensão Arterial, existe uma preocupação especial em fornecer ao paciente um grande número de informações sobre a doença.

Em relação à Avaliação da QV pelo questionário genérico SF-36, os domínios tiveram os seguintes resultados:

Capacidade Funcional (CF). Em relação aos escores, o valor médio para CF foi de 58,7 (DP 27,8). No estudo realizado por Silqueira7, a média para esse domínio foi de 68,0. Já no estudo de Lima21, a média para o domínio CF foi de 75,0. Fazendo uma comparação do nosso estudo com os demais citados, percebe-se que no nosso existe uma pior QV no domínio CF, quando comparado a esses estudos, tais resultados podem ser atribuídos a alta prevalência de comorbidades obtida em nossa amostra.

Limitação por Aspectos Físicos (AF). Esse domínio foi o que apresentou o menor escore, revelando maiores dificuldades dos pacientes em razão de limitações nos AF. O valor médio encontrado foi de 47,2 (DP 42,9). Comparando esse resultado a outros estudos, o que obteve resultado aproximado foi o de Cavalcante5, com o valor médio de 55,7. Nos estudos de Gusmão e Pierin22, Silqueira7 e Magnobosco23, a média foi de 72. A presença de comorbidades influencia também negativamente as limitações físicas dos pacientes7, o que pode justificar o baixo escore obtido nesse domínio, já que nossa prevalência de comorbidades é similar à obtida por Cavalcante5, 89% e 87%, respectivamente. O estudo de Silqueira7 excluiu pacientes com história atual ou pregressa de patologias associadas.

Dor. O valor médio desse domínio foi de 60,4 (DP 26,3). Em outros estudos, a média dos resultados foi semelhante, variando de 56,6424 a 69,07. A HAS, apesar de ser uma doença crônica, é considerada silenciosa e assintomática, pois a dor não é um sintoma que acompanha os pacientes hipertensos. Black e Matassarin-Jacobs24 discorrem que a dor, normalmente, aparece no paciente quando esse apresenta outras doenças, ou quando apresenta alguma outra complicação cardiovascular como infarto agudo do miocárdio. Dessa forma, a alta prevalência de comorbidades e fatores de risco CV na nossa amostra também pode ter sido um agravante para um escore no domínio da dor baixo.

Estado Geral de Saúde (EGS). O escore médio encontrado foi de 60,7 (DP 22,7). No estudo de Silqueira7, o valor médio encontrado foi de 77,8; no de Gusmão e Pierin22 a média foi de 73,0; e no de Cavalcante5, o escore obtido foi de 72,0. No estudo de Brito e cols.25, o EGS foi o que obteve o menor escore, 53,5. Os autores acreditam que esse resultado provavelmente se deu em decorrência das manifestações clínicas relacionadas à etiologia da HA e ao tratamento instituído; ainda segundo os autores, os pacientes perceberam a hipertensão como uma situação grave; essa ideia é corroborada no nosso estudo.

Vitalidade (VIT). Esse domínio apresentou o segundo menor escore, com média de 57,3 (DP 19,7). No estudo de Lima21, o domínio vitalidade apresentou o pior escore, com média 56,0. Um baixo escore em vitalidade aponta certo comprometimento dos pacientes hipertensos em relação a ânimo e disposição para enfrentamento de situações cotidianas7. No estudo de Gusmão e Pierin22, o resultado foi semelhante ao presente estudo, com média de 56,0. No estudo de Cavalcante5, esse domínio obteve uma média de 68,8. O estudo que obteve o escore mais baixo foi o de Souza14, com média de 45,1. No estudo de Brito e cols.25, obteve-se o valor médio de 63,3, os autores ainda sugerem que conviver com a hipertensão interfere na disposição, ressalvados os comentários relacionados à fadiga ligada à idade, tempo de doença e outros.

Aspectos Sociais (AS). Dentre os demais, esse domínio apresentou o maior escore, com valor médio de 77,8 (DP 26,1), em concordância com outros estudos, nos quais esse domínio também apresentou o maior escore, com valores entre 69,3 a 77,05,21,25. A influência da HA nesse aspecto pode ser em razão da necessidade de mudar o estilo de vida, incluindo o hábito alimentar, o que algumas vezes implica a ausência a reuniões familiares para evitar a ingestão de alimentos inadequados. Assim, a condição crônica de saúde pode levar a diversas perdas nos relacionamentos sociais, nas atividades de lazer e de prazer, conduzindo o paciente ao comprometimento da QV25.

Aspectos Emocionais (AE). A média nesse domínio foi de 58,3 (DP 44,7), indicando prejuízo na QV dos pacientes. Conforme Maciel26, outro aspecto que se faz necessário enfatizar é a frequência entre médicos e pacientes de rotularem a doença hipertensiva como "emocional" e "nervosa", evidenciando uma explicação reducionista da doença. Dessa forma, os pacientes parecem se isentar da responsabilidade de controlar a pressão, mantendo a crença de que seu estado emocional depende dos outros. Isso, provavelmente, implicará o comprometimento da QV.

Saúde Mental (SM). Em relação aos escores encontrados, o valor médio foi de 66,8 (DP 22,1). A HAS, por sua cronicidade, pode interferir diretamente em diversos aspectos da vida do paciente. A autoestima pode ser abalada levando a sentimentos negativos como depressão e ansiedade27. Apenas o fato de o indivíduo ser rotulado como hipertenso pode conduzi-lo a manifestações de ansiedade e insegurança, sendo o esclarecimento da doença um ponto fundamental na redução dessas manifestações28.

Em relação à avaliação da QV pelo questionário específico MINICHAL, os resultados dos domínios foram os seguintes:

Estado Mental (EM). Em relação aos escores encontrados, o valor médio foi de 6,6 (DP 6). Quando comparada ao resultado encontrado no estudo de Schulz e cols.15, média de 5,3, demonstra uma menor QV nos nossos pacientes. No estudo de validação do MINICHAL na Espanha16, a média obtida foi de 6,8, similar à encontrada neste estudo.

Estado Somático (ES). O valor médio foi 5,0 (DP 4,1). Outros estudos encontraram valores de 1,819 e de 2,816, demonstrando que no estudo atual os pacientes apresentam um comprometimento maior na QV.

Não houve correlação entre os níveis de PA e a QV avaliada pelos instrumentos SF-36 e MINICHAL, o que está em acordo com outros trabalhos realizados no Brasil8,23. Entretanto, esses resultados diferem de um estudo chinês29 de base populacional, o qual verificou que em hipertensos com níveis pressóricos controlados a QV era superior à daqueles com níveis pressóricos não controlados.

Em relação à variável sexo, houve diferença significativa no domínio estado mental do MINICHAL e nos domínios de capacidade funcional, dor, limitação por aspectos emocionais e saúde mental do SF-36, demonstrando menor QV no sexo feminino. Esse resultado também foi observado no estudo original do MINICHAL, no qual o sexo feminino obteve pior pontuação no domínio estado mental16, assim como no estudo de tradução e validação do MINICHAL para o português (Brasil)15. Um estudo condizente com a pesquisa atual foi o de Liberman30 que, utilizando o SF-36, demonstrou que os pacientes do sexo masculino apresentaram valores maiores, com diferença significativa, em quase todos os domínios desse instrumento.

Mulheres referem mais frequentemente sentimentos de insatisfação e frustração, o que influi na QV, especialmente no domínio psicológico31. Além disso, homens têm em geral melhor capacidade para tolerar doenças crônicas sem serem afetados emocionalmente32.

Dentre as comorbidades e fatores de risco CV avaliados, as que estiveram associadas a uma menor QV foram: depressão, obesidade e história familiar de DCV. Indivíduos com diagnóstico de depressão mostraram pior avaliação da QV tanto no SF-36 (nos domínios capacidade funcional, estado geral de saúde, vitalidade, aspectos sociais e saúde mental) como nos dois domínios do MINICHAL. Esse resultado é semelhante ao estudo de Melchiors8, onde depressão foi a única variável que influenciou significativamente no resultado da QVRS em todos os domínios de ambos os instrumentos por ela utilizados (MINICHAL e WHOQOL-bref). Isso reforça o forte impacto da depressão na QVRS dos pacientes como já foi observado no Epidemiological Follow-up Study (NHEFS) of the first National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES I)33.

Quanto à obesidade, os pacientes apresentaram pior avaliação da QV tanto no SF-36 (os domínios vitalidade, aspectos sociais e saúde mental) como nos dois domínios do MINICHAL. No estudo de Magnobosco23, obesidade e diabetes parecem influenciar a QVRS dos participantes. Os participantes que não possuíam nenhuma dessas comorbidades apresentaram médias maiores dos escores em todos os domínios do SF-36. Quanto à obesidade isoladamente, apenas os domínios aspectos físicos, estado geral de saúde e aspectos emocionais apresentaram resultados estatisticamente significantes. No estudo de Melchiors8, pacientes obesos obtiveram um comprometimento na QV nos seguintes domínios: estado mental e estado somático (MINICHAL) e domínio físico (WHOQOL-bref). Alguns estudos mostram que obesos têm uma pior percepção da QV34 e verificou-se que melhora na dieta dos pacientes e perda de peso estiveram relacionadas a melhor QV35.

Indivíduos com história familiar de DCV apresentaram pior avaliação no SF-36 no domínio aspectos físicos, estado geral de saúde, aspectos sociais e limitação por aspectos emocionais. No MINICHAL, o estado somático foi o único afetado. No estudo de Melchiors8, indivíduos com história familiar de DCV apresentaram diferença significativa para o domínio psicológico do instrumento genérico WHOQOL-bref.

Quanto à análise de validade concorrente do MINICHAL, por meio dos índices de correlação, pode-se verificar que o MINICHAL apresentou correlação significativa com o SF-36 em todos os domínios. Houve correlação entre o domínio estado mental (MINICHAL) e o componente mental (domínios saúde mental, aspectos emocionais, aspectos sociais e vitalidade) do SF-36. Essa mesma correlação também foi observada em relação ao domínio manifestações somáticas (MINICHAL) e componente físico (domínios capacidade funcional, aspectos físicos, dor e estado geral de saúde) do SF-36. O MINICHAL demonstrou ser um instrumento útil para avaliação da QV em pacientes hipertensos, cujos resultados apresentaram correlação significativa com o instrumento genérico SF-36.

 

Limitação do estudo

É necessário enfatizar que os resultados obtidos neste trabalho possuem um diferencial por se tratar de pacientes que pertencem a uma Liga de Hipertensão de um Hospital Universitário, onde provavelmente se encontrem mais informados e assistidos clinicamente, o que pode ter concorrido, por exemplo, para uma maior frequência de pacientes com a PA controlada e um alto nível do conhecimento da doença. No entanto, apesar dessa melhor assistência, os pacientes apresentaram uma diminuição na QV, o que está de acordo com outros estudos que avaliaram QV em hipertensos.

 

Conclusão

O MINICHAL apresentou correlação significativa com o SF-36 em todos os domínios, demonstrando ser um instrumento útil para a avaliação da QV em pacientes hipertensos, onde essas medidas de avaliação podem ser úteis no auxílio da escolha do tratamento mais adequado para pacientes hipertensos e em estudos populacionais que visem avaliar a QV dessa população.

 

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Correspondência:
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Artigo recebido em 25/10/11, revisado recebido em 25/10/11; aceito em 21/01/12.