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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.100 no.1 São Paulo Jan. 2013  Epub Nov 30, 2012

https://doi.org/10.1590/S0066-782X2012005000112 

Tolerância ao esforço em ratos com estenose aórtica e disfunção ventricular diastólica e/ou sistólica

 

 

Olga Castro MendesI, II; Mario Mateus SugizakiI, III; Dijon Salomé CamposI; Ricardo Luiz DamattoI; André Soares LeopoldoI, IV; Ana Paula Lima-LeopoldoI, IV; Vilmar BaldisseraV; Carlos Roberto PadovaniI; Katashi OkoshiI; Antonio Carlos CicognaI

IDepartamento de Clínica Médica - Faculdade de Medicina - Universidade Estadual Paulista (UNESP) "Júlio de Mesquita Filho", SP, Botucatu, Brasil
IIFaculdades Integradas de Bauru, Bauru, SP, Brasil
IIIInstituto de Ciências da Saúde - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Sinop, MT, Brasil
IVDepartamento de Desportos - Centro de Educação Física e Desportos - Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Vitória, ES, Brasil
VLaboratório de Fisiologia do Exercício - Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: A Tolerância ao Esforço Físico (TEF) é uma medida de condicionamento cardiorrespiratório. A capacidade aeróbica é reduzida na Insuficiência Cardíaca (IC), embora não haja dados disponíveis sobre esse parâmetro em animais com disfunção ventricular e sem sinais de IC.
OBJETIVO: Avaliar a TEF em ratos com disfunção ventricular diastólica isolada ou associada com disfunção sistólica induzida pela Estenose da Aorta ascendente (EAo).
MÉTODOS: Ratos Wistar machos jovens (20-30 dias de idade) foram divididos em Grupo Controle (GC, n = 11) e Grupo EAo (n = 12). Os animais foram avaliados em 6 e 18 semanas após a cirurgia para EAo. O teste ergométrico foi feito até a exaustão e foram avaliadas a velocidade da esteira e a concentração de lactato [LAC] no limiar de lactato, velocidade da esteira e [LAC] na exaustão, e tempo total do teste.
RESULTADOS: Dados ecocardiográficos revelaram remodelação do átrio esquerdo e hipertrofia concêntrica ventricular esquerda em 6 e 18 semanas. A fração de encurtamento endocárdico mostrou-se maior no grupo EAo do que no GC em 6 e 18 semanas. A fração de encurtamento da parede média mostrou-se maior no grupo EAo do que no GC em 6 semanas. O índice cardíaco mostrou-se semelhante no GC e no grupo EAo em 6 e 18 semanas, tendo diminuído entre 6-18 semanas em ambos os grupos. A razão entre a onda E a onda A foi maior no GC do que no grupo EAo em ambos os períodos e não se alterou em ambos os grupos entre a semana 6 e a semana 18. Os parâmetros do teste de esforço na esteira foram semelhantes nos dois grupos tanto na semana 6 quanto na semana 18.
CONCLUSÃO: Embora a EAo promova a disfunção diastólica isolada ou associada à disfunção sistólica, em 6 ou 18 semanas, ela não é suficiente para alterar a tolerância ao esforço físico. (Arq Bras Cardiol. 2012; [online].ahead print, PP.0-0)

Palavras-Chave: Ratos; Exercício; Estenose da Valva Aórtica; Disfunção Ventricular.


 

 

Introdução

O termo Remodelação Cardíaca (RC) tem sido amplamente utilizado e pode ser definido como uma alteração na expressão genética resultando em alterações moleculares, celulares e intersticiais que se manifestam clinicamente como alterações no tamanho, forma e função do miocárdio após a agressão1.

A RC é um importante mecanismo adaptativo para a carga hemodinâmica crônica que permite que o coração mantenha suas funções básicas em resposta ao aumento de carga2, mas é também um fator de risco importante para a disfunção ventricular e insuficiência cardíaca3.

Diversos modelos experimentais têm sido propostos para investigar a RC induzida por sobrecarga de pressão4-6. Mais recentemente, o modelo de estenose da aorta ascendente (EAo) tem sido usado para promover o desenvolvimento gradual da hipertrofia ventricular esquerda em ratos7-9. Nesse modelo, os animais desenvolvem remodelação cardíaca associada, no curto prazo, à disfunção diastólica e melhora da função cardíaca seguida de menor desempenho sistólico e insuficiência cardíaca10,11.

O Teste de Esforço Físico (TEF), um dos métodos mais utilizados para a avaliação não invasiva da doença cardiovascular, pode detectar anormalidades da função cardíaca não observáveis em repouso12,13. A tolerância ao TEF, uma medida normativa do condicionamento cardiorrespiratório e capacidade aeróbica, é a capacidade de realizar atividades dinâmicas durante o esforço físico. Essa capacidade é comumente reduzida em pacientes e animais com Insuficiência Cardíaca (IC)14,15. No entanto, informações sobre pacientes e animais com disfunção ventricular e sem sinais de IC não são encontradas na literatura.

O objetivo deste estudo foi testar a hipótese de que a tolerância ao esforço físico é prejudicada na presença de disfunção ventricular diastólica isolada ou associada com disfunção sistólica e ausência de insuficiência cardíaca induzida por estenose aórtica.

 

Métodos

Todos os experimentos e procedimentos foram realizados de acordo com o Manual sobre cuidados e uso de animais de laboratório publicado pelo Conselho Nacional de Pesquisa (1996), tendo sido aprovados pelo Comitê de Ética em Experimentação Animal da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Júlio Mesquita Filho (Unesp), em 19 de outubro de 2005 (número do protocolo 506/2005).

Animais

Vinte e três ratos machos jovens Wistar foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: controle (GC, n = 11) e estenose da aorta ascendente (EAo, n = 12). No grupo EAo, a estenose aórtica foi induzida por meio da colocação de um anel de prata na aorta. O GC sofreu a mesma cirurgia, sem a colocação de faixa. Todos os animais foram alojados em gaiolas individuais numa sala mantida a 23 °C em um ciclo de luz-escuridão de 12:12-h e alimentados com ração Purina® padrão e água ad libitum.

Indução da estenose da aorta ascendente

A remodelação cardíaca foi induzida pela EAo de acordo com o método usado por diversos autores5,7,9. Os animais, pesando 70-90 g, com 20-30 dias de idade, foram submetidos à toracotomia mediana sob anestesia com cloridrato de cetamina (60mg/kg e cloridrato de xilidina (10mg/kg) via intraperitoneal. A aorta ascendente foi dissecada e uma fita de prata com diâmetro interno de 0,6 mm foi colocada a aproximadamente 3 mm da raiz da aorta. Os animais do GC foram submetidos à mesma cirurgia, mas sem a colocação de fita.

De acordo com estudos anteriores, os animais começam a desenvolver disfunção ventricular diastólica isolada ou associada com disfunção sistólica em 6 e 18 semanas após a cirurgia, respectivamente5,7,9. Assim, todos os animais foram avaliados nos seguintes períodos: 6 semanas (disfunção diastólica) e 18 semanas (disfunção diastólica associada sistólica).

Avaliação ecocardiográfica

As funções diastólica e sistólica do ventrículo esquerdo, bem como a estrutura do miocárdio, foram avaliadas ecocardiograficamente de acordo com o método utilizado no nosso laboratório7,16. Os animais foram anestesiados com cloridrato de cetamina (60mg/kg e cloridrato de xilidina (10mg/kg) via intraperitoneal (50 mg/kg) e cloridrato de xilidina (1 mg/kg) para o exame ecocardiográfico em Modo M (Philips®, modelo HDI 5000), equipado com um transdutor eletrônico de 12 MHz para medir o diâmetro do átrio esquerdo (AE) e os seguintes parâmetros do ventrículo esquerdo: diâmetro diastólico e sistólico (DDVE e DSVE, respectivamente), espessura da parede posterior diastólica e sistólica (EDPVE e ESPVD, respectivamente), espessura do septo interventricular diastólico e sistólico (EDSIV e ESSIV) e massa do ventrículo esquerdo (massa do VE). O índice de massa do ventrículo esquerdo (IMVE) foi determinado através da normalização da massa do VE para o peso corporal (PC). A espessura relativa da parede do ventrículo esquerdo (ERPVE) foi estimada dividindo a EDPVE pelo DDVE.

A função sistólica do VE foi determinada pela porcentagem de encurtamento endocárdico (ΔD endo) e da fração de encurtamento da parede média (ΔD mid) e índice cardíaco (IC). A ΔD mid foi calculada utilizando a fórmula ({[(DDVE + ½ EDPP + ½ EDSIV) - (DSVE + ½ ESPP + ½ ESSIV)]/(DDVE + ½ EDPP + ½ EDSIV)}). A ΔD endo foi calculada pela fórmula ([(DDVE - DSVE)/DDVE x 100].

A função diastólica foi avaliada por ondas E e A, a razão entre as ondas E e A (E/A).

Avaliação da tolerância ao esforço físico

Testes de esforço físico

Os testes de esforço físico foram realizados utilizando-se uma esteira para ratos construída pelo Centro Tecnológico de Engenharia Clínica - Universidade Estadual Júlio Mesquita Filho (Unesp) de Botucatu, São Paulo, Brasil. O protocolo utilizado para o teste incremental com multiestágios foi adaptado a partir do teste anteriormente descrito por Carvalho e cols.17. Cada animal foi testado individualmente. O teste consistiu de um aquecimento inicial de 5 minutos a 5m/min. Após 1 minuto de recuperação passiva, o animal foi submetido a um exercício incremental a uma velocidade de 6m/min seguido de aumentos de 3m/min a cada 3 minutos até a exaustão. A exaustão foi determinada quando o animal se recusava a executar, mesmo após estimulação sonora ou quando o animal se mostrava incapaz de coordenar passos. Depois de cada incremento de carga, o animal foi retirado manualmente da esteira por 1 min para a coleta de sangue18.

Protocolo experimental

A figura 1 mostra a representação esquemática de um protocolo de teste. Todos os ratos foram submetidos a um período de adaptação para se familiarizar com o protocolo de ensaio caminhando diariamente 5 m/min durante uma semana antes do teste. O teste de esforço físico foi realizado 6 e 18 semanas após a cirurgia nos grupos CG e EAo, isto é, pela disfunção diastólica isolada ou associada à disfunção sistólica, respectivamente.

Parâmetros avaliados

Velocidade da esteira (VLL, m/min) e concentração de lactato ([LAC]LT, mmol/L) no limiar de lactato

Para a avaliação da VLL e [LAC]LT, foi necessário determinar o limiar de lactato (LL), definido como a intensidade do exercício em que a concentração de lactato começa a aumentar substancialmente na corrente sanguínea durante o exercício incremental19. As amostras de sangue (25 uL) foram coletadas a partir da cauda dos animais em repouso e após cada aumento de carga. A coleta foi realizada com lâminas de vidro para microscopia 25x75x1mm (Sigma Chemical Company® - EUA, modelo Techware S 8902) e micropipetas digitais de (Nichiryo Co.® - Japão, modelo Nichipet NPX 200) com pontas descartáveis que foram trocadas depois de cada coleta. O sangue coletado foi imediatamente armazenado em tubos Eppendorf de 1,5 mL com tampa contendo 50 uL de fluoreto 1%, anticoagulante e inibidor da enzima enolase para suprimir a atividade glicolítica. As amostras de sangue foram refrigeradas durante a coleta e, em seguida, mantidas em congelador até a sua utilização. A concentração de lactato foi determinada pelo método eletroenzimático usando um lactímetro (Yellow Springs Instruments®, 1500 Sport - EUA) de propriedade do Laboratório de Fisiologia do Exercício do Departamento de Ciências Fisiológicas - Universidade Federal de São Carlos, São Paulo, Brasil. O aparelho foi calibrado de acordo com as instruções do fabricante. As concentrações de lactato foram plotadas contra a velocidade de fase. O LL foi considerado como o ponto em que os níveis de lactato começaram a se elevar em função da velocidade, conforme detectado por inspeção visual. A velocidade e a concentração de lactato encontradas nesse ponto foram consideradas como a velocidade e a concentração de lactato no limiar de lactato (VLL e [LAC]LT, respectivamente). Os gráficos foram analisados por dois investigadores experientes com concordância interobservador de 96%. Quando ocorria discordância sobre o LL, utilizou-se a média dos valores indicados por cada observador. A figura 2 apresenta o gráfico que representa os resultados de um dos animais.

Velocidade da esteira (VEx, m/min) e concentração de lactato ([LAC]EX, mmol/L) na exaustão

Esses parâmetros foram determinados como descrito acima, porém até à exaustão.

Tempo total do teste (TTT, seg)

O TTT foi a soma de todos os tempos de estágio até a exaustão. Os intervalos entre os estágios não foram levados em consideração.

Características morfológicas do corpo e do miocárdio

Até o fim do experimento, os animais foram anestesiados com pentobarbital de sódio intraperitoneal (50 mg/kg) e decapitados. As seguintes variáveis foram avaliadas: peso corporal final (PC), peso do VE, peso do VD, peso atrial (A) (direito + esquerdo), VE/PC, A/PC. Os fragmentos do fígado (FÍGADOl/s) e pulmão (PULMÃOl/s) foram pesados antes e depois de terem sido postos em um forno a 60°C por 48 h para se obter a razão peso líquido/peso seco.

Análise estatística

Os resultados são relatados como medidas de posição e variabilidade de acordo com a distribuição dos dados. Os parâmetros morfológicos foram analisados utilizando o teste t de Student, quando a variável demonstrou aderência à distribuição de probabilidade normal, e utilizando o teste de Mann-Whitney, quando da ausência dessa característica. As comparações entre os grupos foram feitas utilizando ANOVA bifatorial de medidas repetidas com repetição de um fator seguidas do procedimento de comparações múltiplas de Bonferroni. Para parâmetros não paramétricos, foram utilizados o teste de Friedman e ANOVA por postos. O nível de significância para todos os testes foi definido a 5% (p < 0,05). Os cálculos estatísticos foram realizados utilizando o programa SigmaStat 3.5 para Windows (Copyright© 2006, Systat Software Inc.).

 

Resultados

A tabela 1 resume os dados morfológicos. O peso corporal revelou-se similar no grupo controle (CG) e no grupo de estenose da aorta ascendente (EAo). VE/peso corporal, VD/peso corporal e A/peso corporal encontravam-se elevados no grupo EAo em comparação com o GC. Não houve diferença nos fragmentos de FÍGADOl/s e PULMÃOl/s.

A tabela 2 mostra os dados ecocardiográficos seriais dos parâmetros estruturais e funcionais em 6 e 18 semanas no GC e no grupo EAo. O índice de massa do ventrículo esquerdo diminuiu entre a semana 6 e a semana 18 no GC e permaneceu inalterado no grupo EAo; esse parâmetro se apresentou mais elevado no grupo EAo do que no GC nas semanas 6 e 18. A espessura relativa da parede do ventrículo esquerdo permaneceu inalterada no GC, mas se apresentou mais elevada na semana 6 e na semana 18 no grupo EAo; essa variável se apresentou mais elevada no grupo EAo do que no GC nas semanas 6 e 18. A razão AE/PC diminuiu em ambos os grupos na semana 18 em comparação com a semana 6, tendo se apresentado mais elevada no grupo EAo do que no GC nos dois tempos avaliados. A fração de encurtamento endocárdico (ΔD endo) e da parede média (ΔD meso) não se alterou com o tempo no GC, mas ambas diminuíram entre a semana 6 e 18 no grupo EAo; a ΔD endo foi maior no grupo EAo do que no GC nas semanas 6 e 18; A ΔD meso da parede média apresentou-se maior no grupo EAo do que no GC na semana 6 e similar em ambos os grupos na semana 18. O índice cardíaco diminuiu em ambos os grupos entre a semana 6 e 18, tendo sido semelhante entre os dois grupos nos dois tempos avaliados. E/A mostrou-se semelhante nos dois grupos entre as semanas 6 e 18, no entanto, mostrou-se mais elevado no CG do que no grupo EAo nos dois momentos.

A tabela 3 mostra os resultados da avaliação da tolerância ao esforço físico. Nenhum dos grupos apresentou diferença significativa na velocidade na exaustão, tempo total do teste, velocidade no limiar de lactato, concentrações de lactato na VLL e VEx entre as semanas 6 e 18 . Esses parâmetros foram semelhantes entre o GC e EAo em ambos os momentos.

 

Discussão

A estenose aórtica utilizada neste estudo promoveu precoce hipertrofia ventricular e do átrio esquerdo, o que persistiu até ao final do experimento. Tal fato foi observado por meio da massa atrial e ventricular na análise morfológica e ecocardiográfica. O aumento da espessura relativa da parede ventricular esquerda no grupo da estenose indica hipertrofia concêntrica. Os dados estão de acordo com estudos anteriores que mostraram a remodelação cardíaca nesse modelo experimental5,9,11,20. A remodelação da câmara esquerda consiste em uma resposta adaptativa ao aumento da pressão ventricular; o aumento da espessura da parede e diminuição do volume da cavidade normalizam o estresse parietal e, em consequência, a função ventricular esquerda1,21. Não foram observados sinais clínicos e morfológicos de insuficiência cardíaca, ou seja, taquipneia associada a edema, ascite, derrame pleuropericárdico, trombose no AE ou hipertrofia do VD. O achado isolado de um aumento da razão VD/PC não indica que os ratos do grupo EAo desenvolveram insuficiência cardíaca, o que foi confirmado pelo fato de que FÍGADOl/s e PULMÃOl/s mostraram-se semelhantes nos grupos controle e EAo.

A função sistólica do VE, avaliada pela ΔD endo e ΔD meso, mostrou-se elevada no grupo EAo quando comparado com o GC na semana 6, e se deteriorou durante a remodelação no grupo EAo (tab. 2). A ΔD endo observada na semana 6 mostrou-se semelhante à relatada por Bregagnollo e cols.7,22, Ribeiro e cols.11 e Litwin e cols.9, que encontraram melhora na função sistólica nesse momento. Além disso, esses autores também observaram piora após 18 ou 21 semanas. A melhora da função sistólica observada no grupo EAo, em comparação com o GC na semana 6 pode estar relacionada com o desenvolvimento de hipertrofia concêntrica, normalização da tensão sistólica da parede, e manutenção do consumo de oxigênio do miocárdio em sua gama fisiológica9. A perda progressiva da função sistólica pode estar relacionada com a remodelação adversa da geometria ventricular, alterações na composição do miocárdio, insuficiência progressiva de contratilidade ou com todos esses elementos combinados22-24.

Diferentemente da função sistólica, o desempenho diastólico piorou precocemente no grupo EAo em comparação com o GC. Na semana 6, houve uma redução na razão E/A, que se manteve observável na semana 18. A razão E/A no grupo EAo, que se apresentou menor do que no GC, sugere a presença de disfunção diastólica. Nossos resultados diferem do autor9 que não observou mudanças na razão E/A 6 semanas após a indução de EAo em ratos e investigadores que encontraram aumento da razão E/A nas semanas 12, 18 ou 21 após a indução de EAo7,9,22. Resultados conflitantes podem ocorrer devido aos diferentes níveis de hipertrofia ventricular esquerda ou dificuldades técnicas de obtenção de imagens adequadas para a análise do efeito Doppler; a alta frequência cardíaca em ratos funde as ondas E e A, dificultando a medição da função diastólica25. Apesar dos resultados inconsistentes encontrados na avaliação da função diastólica usando E/A de 6 semanas, um aumento no diâmetro do AE observado no presente estudo indica disfunção diastólica no VE, tendo em vista que uma melhora na função diastólica foi observada no grupo EAo em comparação com os controles. Durante a diástole ventricular, o AE está diretamente exposto a pressões intraventriculares através da valva mitral. Eventuais aumentos na pressão diastólica ventricular aumentam a pressão atrial e, assim, a remodelação da câmara. Estudos experimentais sobre a EAo têm associado a rigidez do miocárdio com um aumento das fibras de colágeno e alterações nas proteínas envolvidas na captação de cálcio para o meio intracelular, particularmente a bomba de cálcio do retículo sarcoplasmático24. Assim, a depressão da função diastólica observada 6 e 18 semanas após a EAo pode estar relacionada com alterações nas propriedades elásticas e distúrbios no manuseio de cálcio.

Embora os dados ecocardiográficos tenham mostrado alterações funcionais e estruturais nas semanas 6 e 18, o teste de tolerância ao esforço não detectou alteração na capacidade funcional em ambos os grupos. De acordo com o nosso conhecimento, esta é a primeira pesquisa que avaliou a tolerância ao exercício físico em ratos com estenose da aorta ascendente. O TTT foi o único parâmetro que mostrou uma forte tendência de diminuição em animais com EAo (0,05 < p < 0,10). Respostas semelhantes ao esforço podem se dar em virtude de: 1) protocolo inadequado; 2) Parâmetros insensíveis para detectar mudanças na capacidade funcional; e 3) grau de disfunção ventricular. Com relação ao primeiro item, o teste de esforço físico utilizado pode ser considerado adequado pelas seguintes razões: i) métodos semelhantes têm sido utilizados em outros estudos experimentais17,26; ii) o teste permite submeter os animais a um programa de esforço físico individualizado; iii) o aumento gradual da carga interrompeu o padrão linear da curva de concentração de lactato e permitiu determinar o nível de LL; iiii) não ocorreram óbitos durante o teste ou imediatamente após o teste, o que indica que, embora se trata de um teste máximo, ele pode ser usado no modelo experimental de EAo. Os parâmetros utilizados foram consideradas adequados porque: i) VLL e/ou VEx foram utilizados com sucesso em diversos trabalhos experimentais em ratos normais17,27,28, em ratos com estenose aórtica abdominal ou infarto do miocárdio18,27; ii) O TTT também tem sido usado para avaliar a capacidade funcional em animais infartados ou hipertensos26,29; em pacientes assintomáticos com EAo, foi considerado um bom preditor do aparecimento de sinais de insuficiência cardíaca30; iii) [LAC]LT e [LAC]EX têm sido utilizados em estudos experimentais em seres humanos como marcador de intensidade de treino físico28. Em relação ao item 3, a literatura mostra que o teste de esforço detectou redução da capacidade funcional em animais com disfunção ventricular diastólica induzida por hipertensão arterial29 ou, mais comumente, com insuficiência cardíaca induzida por infarto do miocárdio26. Além disso, relata-se que o teste é negativo em ratos com estenose da aorta abdominal e hipertrofia ventricular compensada27, e em um modelo de ratos com hiperadrenalinemia induzida por comprimidos de adrenalina.

Neste estudo, não foram observados sinais de insuficiência cardíaca, muito embora o desempenho diastólico e sistólico estivesse prejudicado na EAo durante a remodelação. Uma vez que a literatura mostra que o teste de esforço é significativamente positivo em animais com insuficiência cardíaca14,15, a ausência de alterações observada aqui pode estar relacionada ao grau de disfunção ventricular, provavelmente moderado. Os dados semelhantes de índice cardíaco indicam perfusão do fluxo sanguíneo periférico equivalente entre os grupos. Outra explicação sobre a ausência de diferença entre os grupos pode estar relacionada à velocidade de exaustão dos ratos controle. O protocolo de teste de esforço físico mostrou baixos valores de velocidade de exaustão (15 m/min) e velocidade no limiar de lactato (9,0 m/min) em ratos controle.

De acordo com a literatura, seriam esperados valores mais elevados desses parâmetros. Ferreira e cols.31 observaram a velocidade na exaustão de 28 m/min e velocidade no limiar de lactato de 15 m/min em ratos que não se submeteram a testes de esforço físico. Carvalho e cols.17 observaram a velocidade na exaustão de 19,5 m/min e velocidade no limiar de lactato de 14,9 m/min em ratos que não se submeteram a testes de esforço físico. Apesar dos dados controversos, a concentração de lactato no momento da exaustão observada por nós foi semelhante a 18 m/min à velocidade observada por Ferreira e cols.31 e na velocidade de exaustão (19,5 m/min) observada por Carvalho e cols.17. Portanto, isso significa que os nossos ratos atingiram esforço máximo ou chegaram perto do esforço máximo durante o teste ergométrico.

Os mecanismos responsáveis pela redução da capacidade de exercício ainda não foram completamente elucidados. Dentre os possíveis fatores, podemos citar o fluxo insuficiente para o músculo esquelético secundário à disfunção sistólica e/ou diastólica e alterações no metabolismo da musculatura periférica29. Uma vez que a resposta ao esforço físico permaneceu inalterada durante os testes incrementais, os fatores mencionados acima ou estavam ausentes ou de magnitude insuficiente nos ratos com EAo avaliados neste estudo.

Algumas limitações sobre essa pesquisa devem ser citadas: 1) Teste de exercício físico máximo em ratos com hipertrofia ventricular podem ser perigosos devido ao risco de óbito, portanto, nossos ratos podem ter realizado esforço submáximo durante o teste; 2) Falta de parâmetros funcionais que estimam a intensidade do exercício durante o teste físico (ou seja, frequência cardíaca, pressão arterial, consumo de oxigênio); 3) Falta de dados da literatura sobre o tempo, corrida de velocidade, lactato em condições experimentais similares.

Em conclusão, não houve alterações na tolerância ao esforço físico na presença de disfunção diastólica isolada ou associada à disfunção sistólica. O grau de disfunção ventricular esquerda parece ser o principal determinante sobre os resultados do presente estudo. São necessários estudos adicionais, incluindo animais com disfunção ventricular maior ou insuficiência cardíaca, bem como a análise dos mecanismos que podem alterar a relação de tolerância ao esforço/remodelação cardíaca.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Este artigo é parte de tese de mestrado de Olga de Castro Mendes da Silva pela Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho.

 

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Correspondência:
Mario Mateus Sugizaki

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Recebido em 25/04/12, revisado recebido em 04/07/12, aceito em 31/07/12.

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