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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.101 no.2 São Paulo Aug. 2013

http://dx.doi.org/10.5935/abc.20130164 

ARTIGO ESPECIAL

 

Recomendações da sociedade brasileira de arritmias cardíacas para serviços de holter

 

 

Adalberto Lorga Filho; Fatima Dumas Cintra; Adalberto Lorga; Cesar José Grupi; Claudio Pinho; Dalmo Antonio Ribeiro Moreira; Dario C. Sobral Filho; Fabio Sandoli de Brito; José Claudio Lupi Kruse; José Sobral Neto

Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC) - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Inúmeros indicadores são utilizados para assegurar a qualidade de um serviço; entretanto, a competência médica e o adequado fluxo de realização de um procedimento são determinantes da qualidade final. Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas pretende recomendar parâmetros mínimos necessários para garantir a excelência dos serviços de monitorização eletrocardiográfica ambulatorial.
OBJETIVOS: Recomendar competências médicas mínimas e as informações necessárias para emissão do laudo de Holter.
MÉTODOS: O documento foi fundamentado no conceito de medicina baseada em evidência, e nas circunstâncias em que a evidência não estava disponível a opinião de uma comissão de redação foi utilizada para a formulação da recomendação. Essa comissão foi formada por profissionais que apresentam vivência nas dificuldades do método e gestão na prestação de serviços nessa área.
RESULTADOS: O profissional responsável pela análise de Holter deve conhecer as patologias cardiovasculares e ter formação consistente em eletrocardiografia, incluindo arritmias cardíacas e seus diagnósticos diferenciais. O laudo deve ser redigido de forma clara e objetiva. Os parâmetros mínimos que devem constar no laudo incluem as estatísticas do exame, assim como quantificação e análise dos distúrbios do ritmo observados durante a monitorização.
CONCLUSÃO: A monitorização eletrocardiográfica ambulatorial deve ser realizada por profissionais com vivência em análise eletrocardiográfica e o laudo deve conter os parâmetros mínimos mencionados nesse documento.

Palavras-chave: Arritmias Cardíacas / diagnóstico; Eletrocardiografia Ambulatorial; Medicina Baseada em Evidências.


 

 

Introdução

A monitorização ambulatorial do eletrocardiograma, designado simplesmente Holter ou Holter de 24 horas, é um método não invasivo largamente utilizado para avaliar anormalidades eletrocardiográficas de pacientes com variadas doenças cardíacas ou não cardíacas e indivíduos normais em condições ou situações especiais. Desenvolvido na década de 1960, sofreu grande desenvolvimento tecnológico nos últimos anos. Atualmente, o sistema de registro e armazenamento utilizado (gravador de Holter) é digital, usualmente com três canais. O tamanho do equipamento é pequeno (aproximadamente 8,5 x 5,3 x 2,0 cm) e leve (pesam de 45 a 90 gramas), operado a bateria, pilha alcalina ou pilha comum. Proteção adicional com resistência para imersão em fluidos é recomendada. O registro é feito através de eletrodos bipolares em três canais (derivações). O gravador deve possuir um botão marcador de eventos, que pode ser ativado pelo paciente em condições especiais, como na ocorrência de um sintoma.

A partir da década de 1980, com a evolução do armazenamento eletrônico, esses equipamentos evoluíram da análise em tempo real para o armazenamento de dados digitalizados. Essas condições permitiram grande incremento na fidelidade dos registros, minimizando distorções possíveis de ocorrer nas gravações em fita, além das imperfeições geradas pelos fatores mecânicos inerentes aos mecanismos responsáveis pela rotação do sistema. A análise dos dados ganhou em acurácia e detalhamento. As frequências de 200 Hz são adequadas para a análise dos desvios do segmento ST e distúrbios do ritmo. Para a obtenção do ECG de alta resolução é indispensável a disponibilidade de frequências de 1000 Hz.

Recentemente, foram disponibilizados no mercado gravadores digitais com opção de aquisição dos dados em 12 derivações, por meio de um cabo com 10 eletrodos ou apenas 5 eletrodos quando associadas as derivações ortogonais (X, Y, e Z) da vetocardiografia. O software gera o registro do eletrocardiograma com as 12 derivações convencionais, em qualquer momento da análise.

A obtenção de um registro eletrocardiográfico de qualidade é a condição fundamental para que o exame proposto possa ser útil e confiável, fornecendo as informações pretendidas. Quando declina a qualidade do exame, diminui também a quantidade de informação e cresce enormemente o tempo para a edição necessária.

 

Aplicação clínica e tipos de monitorização ambulatorial do eletrocardiograma

Tipicamente, a monitorização ambulatorial eletrocardiográfica é classificada de acordo com a forma de monitorização em gravações contínuas e intermitentes. De modo geral, as gravações contínuas ocorrem por 24h a 48h e as gravações intermitentes acontecem por períodos maiores. Os aparelhos destinados a gravações intermitentes, denominados monitor de eventos, incorporam uma alça de memória (loop) que permite o armazenamento de traçados aleatórios ou motivados por algum sintoma clínico. Apesar de não haver estudos clínicos que avaliem o perfil de pacientes que melhor se beneficiem da gravação contínua ou intermitente, a frequência com que esse sintoma ocorre é o parâmetro utilizado para escolha entre os dois métodos. Dessa forma, em pacientes com sintomas esporádicos, o uso do gravador de eventos pode ser o mais adequado, especialmente para a avaliação de pré-síncope; síncope e palpitações esporádicas1.

O monitor de eventos implantável está disponível no mercado para documentação de sintomas de ocorrência rara. Trata-se de pequenos dispositivos introduzidos no subcutâneo da região infraclavicular, que podem manter a monitorização eletrocardiográfica circular por longos períodos.

A utilização do Holter de 24 horas 3 canais, digital na prática clínica, tem como objetivo caracterizar e diagnosticar ocorrências de comportamento elétrico anormal do coração durante atividades diárias (sono, trabalho, exercícios, estresse emocional, repouso etc.). Dessa forma, sua utilização é voltada principalmente, mas não exclusivamente, para arritmias cardíacas, sintomáticas ou não; entretanto, a avaliação do segmento ST com ou sem arritmias associadas (pré-excitação intermitente, alterações tipo Brugada, isquemia silenciosa ou não, QT curto ou longo, transitório ou não etc.) e a análise do sistema nervoso autônomo por meio da variabilidade da frequência cardíaca também estão disponíveis em uma análise de Holter2. Além da avaliação diagnóstica, podemos utilizar o Holter para verificar a eficácia terapêutica dos distúrbios do ritmo cardíaco quer sejam farmacológicas ou invasivas, e também para estratificação de risco de morte súbita (Quadro 1).

 

 

As medidas da variação da frequência cardíaca batimento a batimento, em condições basais ou em resposta a um dado estímulo padronizado, podem constituir uma medida objetiva e não invasiva de quantificação do estado autonômico em condições fisiológicas e patológicas3. As técnicas de análises mais frequentemente utilizadas para a determinação da variabilidade da frequência cardíaca são obtidas no domínio do tempo e no domínio da frequência.

As medidas no domínio do tempo são usualmente realizadas em 24 horas. Nesses registros, os complexos QRS são detectados sendo excluídos os artefatos e batimentos ectópicos, para não prejudicarem as análises estatísticas. Os ciclos de frequência entre os complexos QRS são determinados e as distribuições estatísticas de todos os ciclos são calculadas, como a média e o desvio padrão. O domínio da frequência constitui outra forma de análise da variabilidade da frequência cardíaca, cujo princípio reside no fato que todo intervalo NN pode ser decomposto em uma série de componentes oscilatórios, com diferentes freqüências e amplitudes.

As principais arritmias cardíacas que podem ser diagnosticadas pelo Holter de 24 horas 3 canais digital estão descritas no Quadro 2.

 

Aspectos técnicos do método

Apesar de a colocação de eletrodos parecer um fator pouco significante no Holter, trata-se de um aspecto fundamental para o sucesso do procedimento. A pele deve ser adequadamente limpa com álcool para a remoção de oleosidade e seca antes da aplicação dos eletrodos. Os eletrodos devem ser pressionados nas áreas adesivas periféricas e não no centro para evitar o deslocamento do gel. Um eletrodo de boa qualidade é custo-efetivo, uma vez que assegura uma melhor qualidade do traçado e menor irritação na pele. As recomendações técnicas para a realização do Holter de 24h estão descritas no Quadro 3.

 

 

O Holter deve ser realizado com mínimo de 3 canais bipolares. Se por um lado o aumento no número de eletrodos aumenta o desconforto do paciente, por outro lado a localização da origem de algumas arritmias é possível com um maior número de derivações. Apesar de a individualização dos casos ser necessária, na prática clínica o uso de 3 derivações parece atender a maioria dos casos.

A escolha das derivações deve ser padronizada para permitir máxima informação em relação a morfologia e com boa amplitude para evitar a falha de captura do batimento. Os canais eletrocardiográficos utilizados para a monitorização usualmente são as derivações bipolares modificadas: V5; V3 e derivação inferior4.

A recomendação para a densidade de artefatos durante a monitorização é de no máximo 5%. Valores superiores a isso devem ser analisados em relação à necessidade de repetição da gravação. Em alguns casos em que a onda T é apiculada pode ocorrer detecção indevida como batimento e a necessidade de excluir esses complexos ocasionando uma taxa de artefatos superestimada que não interfere na analise global do exame.

A variabilidade na distribuição de arritmias dia a dia é uma realidade5-7. A maioria dos estudos clínicos com arritmias utiliza a duração de 24 horas; entretanto, a utilização de períodos mais prolongados de monitorização ou repetição de monitorização pode aumentar a acurácia do exame8. A Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas preconiza monitorização por no mínimo 18 horas, incluindo os períodos de vigília e sono para análise e laudo da monitorização ambulatorial eletrocardiográfica.

 

Conhecimento e treinamento mínimo necessários para análise de traçados de monitorização eletrocardiográfica

O profissional responsável pela análise de Holter, além do conhecimento das patologias cardiovasculares, deve ter formação consistente específica em eletrocardiografia, incluindo arritmias cardíacas e seus diagnósticos diferenciais. A correta interpretação das alterações do segmento ST, isquemia cardíaca e variabilidade da frequência cardíaca também constitui atributo necessário para emissão de um laudo de Holter. O Quadro 4 resume os pontos principais de conhecimento médico para avaliação a monitorização ambulatorial eletrocardiográfica.

 

Comprovação da competência

A avaliação e interpretação do traçado da monitorização ambulatorial eletrocardiográfica é um ato médico a ser realizado exclusivamente por médicos inscritos no Conselho Regional de Medicina e aptos ao exercício profissional. A recomendação da Sociedade Brasileira de Arritmias cardíacas (Sobrac) é de que o profissional possua título de especialista de arritmia clínica ou eletrofisiologia com experiência supervisionada vivenciada em no mínimo 150 traçados9, além de julgar-se competente em relação ao conhecimento médico necessário listado no Quadro 4.

 

Papel do técnico em Holter

A atuação do técnico em Holter em um determinado serviço está na dependência da preferência do médico responsável. Suas atribuições são listadas no Quadro 5. Vale lembrar que é proibida a atuação isoladamente do técnico sem o respaldo e supervisão de um profissional médico apto conforme as recomendações do quadro 4.

A habilitação desse profissional deve ser feita por instituições reconhecidas ou estágio com profissional reconhecido na área com experiência vivenciada em um mínimo de 1000 traçados.

 

Laudo mínimo em Monitorização Ambulatorial Eletrocardiográfica

O laudo deve ser redigido de forma clara e objetiva. Recomenda-se o seu arquivamento digital por período mínimo de cinco anos, sendo recomendados dez anos. Os parâmetros que devem constar no laudo encontram-se no Quadro 6.

 

Lista completa dos autores:

Adalberto Lorga Filho, Fatima Dumas Cintra, Adalberto Lorga, Cesar Grupi, Claudio Pinho, Dalmo Moreira, Dario Sobral, Fabio Sandoli de Brito, Jose Claudio Lupi Krusi, Jose Sobral Neto, Olga Ferreira de Souza, José Tarcísio Medeiros de Vasconcelos.

 

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Lorga Filho A, Lorga A; Obtenção de dados: Lorga Filho A, Cintra FD; Análise e interpretação dos dados: Cintra FD; Redação do manuscrito: Cintra FD, Grupi C, Pinho C, Moreira D, Sobral Filho DC, Brito FS, Krusi JCL, Sobral Neto J; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual: Lorga Filho A, Cintra FD, Lorga A, Grupi C, Pinho C, Moreira D, Sobral Filho DC, Brito FS, Krusi JCL, Sobral Neto J.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

1. Edvardsson N, Frykman V, van Mechelen R, Mitro P, Mohii-Oskarsson A, Pasquié JL, et al; PICTURE Study Investigators. Use of an implantable loop recorder to increase the diagnostic yield in unexplained syncope: results from the PICTURE registry. Europace. 2011;13(2):262-9.         [ Links ]

2. Scanavacca MI, de Brito FS, Maia I, Hachul D, Gizzi J, Lorga A, et al; Sociedade Brasileira de Cardiologia. Guidelines for the evaluation and treatment of patients with cardiac arrhythmias. Arq Bras Cardiol. 2002;79(Suppl 5):1-50.         [ Links ]

3. Cerutti S, Bianchi AM, Mainardi LT. Spectral analysis of heart rate variability signal. In: Malik M, Camm AJ. (editors). Heart rate variability. New York: Futura Publishing Company, Inc; 1995. p. 63-74.         [ Links ]

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6. Pratt CM, Theroux P, Slymen D, Riodar-Bennett A, Morisette D, Galloway A, et al. Spontaneous variability of ventricular arrhythmias in patients at increased risk for sudden death after acute myocardial infarction: consecutive ambulatory electrocardiographic recordings of 88 patients. Am J Cardiol. 1987;59(4):278-83.         [ Links ]

7. Mulrow JP, Healy MJ, McKenna WJ. Variability of ventricular arrhythmias in hypertrophic cardiomyopathy and implications for treatment. Am J Cardiol. 1986;58(7):615-8.         [ Links ]

8. Bass EB, Curtiss EI, Arena VC, Hanusa BH, Cecchetti A, Karpf M, et al. The duration of Holter monitoring in patients with syncope: is 24 hours enough? Arch Intern Med. 1990;150(5):1073-8.         [ Links ]

9. Kadish AH, Buxton AE, Kennedy HL, Knight BP, Mason JW, Schuger CD, et al; American College of Cardiology/American Heart Association/American College of Physicians-American Society of Internal Medicine Task Force; International Society for Holter and Noninvasive Electrocardiology. ACC/AHA clinical competence statement on electrocardiography and ambulatory electrocardiography: A report of the ACC/AHA/ACP-ASIM task force on clinical competence (ACC/AHA Committee to develop a clinical competence statement on electrocardiography and ambulatory electrocardiography) endorsed by the International Society for Holter and noninvasive electrocardiology. Circulation. 2001;104(25):3169-78.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Fatima Dumas Cintra
Alameda Taurus, 146, Residencial Genesis I, Alphaville
CEP 06543-670, Santana de Parnaíba, SP - Brasil
E-mail: fatimacintra@cardiol.br, fatimadc@einstein.br

Artigo recebido em 27/05/13; revisado em 21/06/13; aceito em 24/06/13.

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