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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.100 no.6 São Paulo June 2013  Epub May 14, 2013

http://dx.doi.org/10.5935/abc.20130101 

Comportamento da síndrome coronariana aguda. Resultados de um registro brasileiro

 

 

Leopoldo Soares PiegasI; Álvaro AvezumI; Hélio Penna GuimarãesI; Antonio José MunizII; Helder J. L. ReisIII; Elizabete Silva dos SantosI; Marcos KnobelIV; Roberta de SouzaI

IInstituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP
IISanta Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, Juiz de Fora, MG
IIIHospital das Clínicas Gaspar Vianna, Belém, PA
IVHospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, SP - Brasil

Correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTO: O Brasil carece de registros multicêntricos publicados de síndrome coronariana aguda.
OBJETIVO: O Registro Brasileiro de Síndrome Coronariana Aguda é um estudo multicêntrico nacional com objetivo de apresentar dados representativos das características clínicas, e manejo e evolução hospitalares dessa síndrome.
MÉTODOS: Participaram 23 hospitais de 14 cidades. Foram elegíveis pacientes que se apresentaram com suspeita de síndrome coronariana aguda nas primeiras 24 horas, com quadro clínico sugestivo, associado a alterações eletrocardiográficas compatíveis e/ou marcadores de necrose. O seguimento foi realizado até o óbito ou a alta hospitalar.
RESULTADOS: Entre os anos de 2003 e 2008, foram incluídos 2.693 pacientes com diagnóstico de síndrome coronariana aguda, sendo 864 (32,1%) mulheres. O diagnóstico final foi de angina instável para 1.141 (42,4%) pacientes, com mortalidade de 3,06% deles; de infarto agudo do miocárdio sem supradesnível de ST para 529 (19,6%) pacientes, com mortalidade de 6,8% deles; e de infarto agudo do miocárdio com supradesnível de ST para 950 (35,3%) pacientes, com mortalidade de 8,1% deles; tiveram diagnóstico não confirmado 73 (2,7%) pacientes, com mortalidade de 1,36% deles. A mortalidade global foi de 5,53%. O modelo de regressão logística múltipla identificou o gênero feminino (OR=1,45), o diabetes melito (OR=1,59), o índice de massa corporal (OR=1,27) e a intervenção coronariana percutânea (OR=0,70) como fatores de risco de óbito, para demografia e intervenções. Um modelo para óbito por complicações maiores identificou choque cardiogênico/Edema Agudo de Pulmão (OR=4,57), reinfarto (OR=3,48), acidente vascular cerebral (OR=21,56), sangramento grave (OR=3,33), parada cardiorrespiratória (OR=40,27) e classe funcional de Killip (OR=3,37).
CONCLUSÃO: Os dados do Registro Brasileiro de Síndrome Coronariana Aguda não diferem de outros coletados fora do país. Seus achados poderão ajudar a promover um melhor planejamento e manejo do atendimento da síndrome coronariana aguda a nível público e privado.

Palavras-Chave: Síndrome Coronariana Aguda, Estudos Multicêntricos como Assunto, Registros de Doenças, Infarto do Miocárdio, Evolução Clínica.


 

 

Introdução

No ano de 2010, as doenças do aparelho circulatório, terceira causa de internação hospitalar, com 210.046 internações por doença isquêmica do coração, foram responsáveis, no Brasil, por 29% das mortes, de um total de 1.133.761. O número absoluto de óbitos por doenças isquêmicas do coração naquele ano foi de 99.408 óbitos ou 52,11 óbitos/100 mil habitantes, e os óbitos por doenças cerebrovasculares foi de 99.159 ou 51,98 óbitos/100.000 habitantes1. A prevalência da Doença Arterial Coronariana (DAC) na população adulta está estimada em 5 a 8%2.

Em 2010, foram registrados 79.954 óbitos associados à Síndrome Coronariana Aguda (SCA). Esses números totalizam os óbitos por angina e Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), correspondendo a 7,05% do total de óbitos no ano, ou 24,67% dos óbitos por doenças do aparelho circulatório1.

As SCA representam importante causa de internação, sendo o IAM, em 2009, a terceira causa de hospitalização no Sistema Único de Saúde (SUS). Representou 10,2% das internações, número que ultrapassa 25% na população com mais de 50 anos de idade.

A principal fonte de cobertura de saúde no país é dada pelo SUS, sendo os planos de saúde responsáveis por 25,9% (Intervalo de Confiança de 95% - IC95% = 25,4-26,4) da população no ano de 2008. As SCA foram responsáveis pelo maior gasto com internações, correspondendo a um total de R$1,9 bilhão ou 19% do custo total com hospitalizações3.

Pelo SUS, em 2011, a estimativa de custo direto da SCA era de R$ 522.286.726,00, correspondendo a 0,77% do orçamento total e, pelo Sistema Suplementar, de R$ 515.138.617,00, sendo os custos indiretos de R$ 2,8 bilhões, estimando-se em R$ 3,8 bilhões o custo total4.

O conhecimento do comportamento hospitalar dos pacientes com SCA é fundamental para a estratificação do risco hospitalar imediato e, a longo prazo, para os sobreviventes do episódio agudo, além de mostrar como estes pacientes são tratados em nosso meio.

Inúmeros registros internacionais de SCA têm sido publicados, alguns inclusive com participação de centros brasileiros5-8. Registros nacionais são escassos e incluíram pacientes de um único centro, não representativo da cultura nacional9. O Registro Brasileiro de Síndromes Coronariana Agudas (RBSCA), parcialmente apresentado em congressos nacionais10 e internacionais11, pretende preencher essa lacuna, municiando os interessados com tais informações em falta. Tem por objetivo apresentar os resultados de um volumoso registro nacional, multicêntrico, representativo das características, manejo e evolução hospitalar da SCA no país.

 

Métodos

Delineamento do estudo

O RBSCA é um estudo prospectivo, nacional, multicêntrico, não financiado, delineado para captar as informações hospitalares de pacientes com suspeita de SCA, internados em serviço de emergência de hospitais convidados a participar do estudo, em distintas partes do território brasileiro, de modo a refletir o comportamento da SCA em hospitais com as características descritas adiante. Os hospitais convidados deveriam ter prévia experiência em estudos clínicos, assim como os investigadores principais, tradição na área de pesquisa.

Hospitais, investigadores e população

Participaram do RBSCA 23 hospitais, localizados em 14 cidades, sendo quatro privados, 15 filantrópicos e quatro públicos. Destes, seis não atendiam o SUS. Todos dispunham de unidade coronariana ou sala de emergência com monitorização eletrocardiográfica, laboratório de hemodinâmica e estavam capacitados a realizar procedimentos de intervenção coronariana percutânea e cirurgia cardíaca (Anexo 1).

Os investigadores principais tinham titulo de especialista20 pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e/ou titulação acadêmica14.

A população alvo era composta pelos pacientes internados em serviço de emergência ou unidade coronariana com diagnóstico de SCA.

Elegibilidade

Foram elegíveis aqueles pacientes que se apresentassem para atendimento de emergência com suspeita de SCA, com quadro clínico sugestivo, associado a alterações eletrocardiográficas compatíveis e/ou marcadores de necrose alterados. Foram incluídos apenas pacientes com até 24 horas do início dos sintomas. O seguimento foi realizado até a alta hospitalar ou óbito, o que ocorresse primeiro.

Critérios de inclusão

Para IAM com Supradesnível de ST (IAMST):

• alterações definitivas de Eletrocardiograma (ECG) indicando IAMST: elevação persistente de ST (> 0,2 mV em duas derivações precordiais contíguas, ou > 0,1 mV em pelo menos duas derivações de membro), ou novo bloqueio de ramo esquerdo, ou alterações de ECG indicando Infarto do Miocárdio posterior verdadeiro;

• elevação dos marcadores bioquímicos de necrose;

Para IAM sem Supradesnível de ST (IAMST):

• alterações características no ECG compatíveis com isquemia (por exemplo: depressão ST > 1 mm em pelo menos duas derivações adjacentes, ou inversão de onda T > 3 mm, ou qualquer alteração dinâmica no segmento ST, ou elevação transitória de ST);

• elevação dos marcadores bioquímicos de necrose.

Angina Instável (AI):

• alterações características no ECG compatíveis com isquemia (por exemplo: depressão ST > 1 mm em pelo menos duas derivações adjacentes, ou inversão de onda T > 3 mm, ou qualquer alteração dinâmica no segmento ST, ou elevação transitória de ST).;

• ausência de elevação dos marcadores bioquímicos de necrose.

Todos

consentimento informado assinado;

início dos sintomas sugestivos de SCA < 24 horas.

Critérios de exclusão

Foram critérios para exclusão de pacientes deste estudo:

• idade inferior a 18 anos;

• admissão no hospital com sintomas suspeitos de apresentar uma SCA, porém não confirmada pela história clínica, exame físico e exames complementares (marcadores bioquímicos de necrose).

Coleta de dados

As informações foram recolhidas em formulário eletrônico e enviadas via internet ao Centro Coordenador, localizado no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Esse formulário, com 182 quesitos, abrangeu identificação, antecedentes pessoais, demografia, diagnóstico, evolução hospitalar, complicações, tratamento farmacológico, intervenções hospitalares e condições de alta. Quando detectadas discrepâncias em relação aos dados recebidos, era feito contato com Centro Investigador.

O Protocolo do Estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética dos hospitais participantes, e os pacientes incluídos assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme resolução no. 196 do Conselho Nacional de Saúde, de 10 de outubro de 1996.

Análise estatística

Fatores (medidas qualitativas) e covariáveis (medidas quantitativas) foram comparados na presença ou na ausência de óbito. As medidas qualitativas foram resumidas em estatísticas descritivas de frequências absoluta (n) e relativa (n), nas categorias nos grupos com ausência e presença de óbito. A associação isolada (univariada) entre essas medidas e o óbito foi avaliada por teste do qui-quadrado de Pearson ou exato de Fisher12. As medidas quantitativas (variáveis contínuas) foram expressas por mediana e intervalo interquartílico (IIQ) = (percentil 25 - percentil 75). Para a comparação isolada (univariada) dessas medidas entre os grupos, foram aplicados testes não paramétricos de Mann-Whitney13. Para melhor entender os preditores de risco de óbito, foram realizadas duas análises de modelos de regressão logística múltipla14: uma para identificar fatores da demografia e das intervenções hospitalares associadas, e outra para identificar a influência das complicações maiores no óbito. Efeitos ou diferenças foram considerados estatisticamente significativos quando encontrados valores de p < 0,05. Todas as análises estatísticas foram realizadas com auxílio do programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 19.

 

Resultados

Entre os anos de 2003 e 2008, foram incluídos 2.693 pacientes com diagnóstico de SCA, sendo 864 (32,1%) mulheres. A mediana da idade foi de 63 anos. O diagnóstico final foi de AI para 1.141 (42,4%) pacientes, IAMNST para 529 (19,6%), IAMST para 950 (35,3%) e diagnóstico não confirmado para 73 (2.7%).

A comparação das características basais entre sobreviventes e óbitos durante a internação hospitalar é apresentada na Tabela 1. As diferenças significativas das variáveis dos sobreviventes em relação ao que foram a óbito foram mediana da idade (62 versus 71 anos), gênero feminino (31,6 versus 41,6%), história familiar de DAC (29,5% versus 44,5%), acidente vascular cerebral (4,9 versus 10,1%), ICC (7,2 versus 18,8%), diabetes melito (27,2 versus 38,3%), intervenção coronária percutânea (ICP) prévia (18,2 versus 11,4%), frequência cardíaca (75 versus 82 bpm), pressão arterial sistólica (130 versus 120 mmHg), pressão arterial diastólica (80 versus 70 mmHg), índice de massa corpórea (26,1 versus 25,4), fração MB creatinoquinase do músculo cardíaco - CKMB (70.4 versus 12) e fração de ejeção (50 versus 55%).

Na Tabela 2, que analisa o uso de fármacos, observa-se que maior mortalidade esteve relacionada à utilização de betabloqueadores por via intravenosa (8,2 versus 16,8%), nitratos (66,4 versus 80,5 %), Heparina de Baixo Peso Molecular (HBPM) (55,0 versus 69,8%), tirofiban (10,4 versus 36,9%), amiodarona (6,8 versus 28,9%), lidocaína (2,3 versus 6,7%) e diuréticos (27,2 versus 52,3%). Houve redução na mortalidade relacionada ao uso de betabloqueadores orais (79,1 versus 38,9%); bloqueadores dos canais de cálcio (10,1 versus 4,7%); Heparina Não Fracionada (HNF) (31,3 versus 23,5%); clopidogrel (63,7 versus 49,7%); Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina (IECA) (67,3 versus 56,4%); IECA e/ou Bloqueadores dos Receptores de Angiotensina (BRA) (70,5 versus 57,7%) e estatinas (78,8 versus 48,3%); além das associações aspirina, betabloqueadores orais e estatina (63,2 versus 22,1%) e aspirina, betabloqueadores orais, estatina e IECA (45,4 versus 16,1%).

A Tabela 3 analisa complicações/procedimentos associadas ao óbito: choque cardiogênico/edema pulmonar (3,5 versus 75,8%), insuficiência cardíaca (7,75 versus 59,1%), Killip classe II (10,8 versus 14,0%); Killip classe III (2,8 versus 15,1%), Killip classe IV (1,7 versus 65,5%), disfunção ventricular esquerda moderada (22,0 versus 31,7%) e grave (8,9 versus 26,8%), IAM/novo IAM (1,4 versus 11,4%), angina recorrente (6,1 versus 14,1%), arritmias necessitando de tratamento (6,0 versus 53,7%), acidente vascular cerebral (0,5 versus 4,0%), sangramento maior (4,0 versus 22,8%), parada cardíaca (1,0 versus 62,4%), complicações mecânicas (0,4 versus 3,4%), cirurgia de revascularização miocárdica (10,9 versus 22,1%), marca-passo (1,4 versus 14,1%) e balão intra-aórtico (0,6 versus 7,4%). Estiveram associadas à sobrevida angiografia coronariana (85,1 versus 75,0%), função ventricular esquerda normal (38,9 versus 12,2%) e discreta (30,2 versus 29,3%) e intervenção coronariana percutânea (53,6 versus 36,8%).

O diagnóstico final mais frequente foi AI, seguido por IAMST e IAMNST, conforme observado na Tabela 4.

O modelo de regressão logística múltipla dos fatores da demografia e das intervenções hospitalares associadas ao óbito, apresentados na Tabela 5, mostrou aumento de risco do gênero feminino (OR = 1,45; IC95% = 1,16-1,81), diabetes melito (OR = 1,59; IC95% 1,27-1,98) e IMC (OR = 1,27; IC95% = 1,23-1,30) e fator protetor da intervenção coronariana (OR = 0,70; IC95% = 0,57-0,86). A Tabela 6 mostra as estimativas do risco de óbito das complicações maiores intra-hospitalares: choque cardiogênico/EAP, reinfarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, sangramento grave, parada cardiorrespiratória e classe funcional de Killip.

 

Discussão

Os registros clínicos constituem excelente oportunidade para avaliar a apresentação clínica, o comportamento, o tratamento e a evolução de uma doença e dos pacientes por ela afetados. Estudos clínicos randomizados, embora também forneçam informações clínicas, seguem critérios de inclusão específicos, limitando a amostra. Já nos registros, os pacientes não são selecionados e seus achados refletem com mais propriedade o chamado "mundo real", no qual os cardiologistas trabalham e vivenciam sua rotina diária.

Nesta abordagem do banco de dados do RBSCA, procurou-se analisar, em conjunto, todo o espectro da SCA, sem individualizar os três quadros clínicos (AI, IAMNST e IAMST). Foram incluídos 2.693 pacientes e procurou-se estabelecer a importância das principais variáveis analisadas e relacioná-las com as complicações e óbitos observados durante a internação.

Semelhante a outros registros contemporâneos de SCA, neste, a AI foi também o diagnóstico mais frequente (42%), com mortalidade de 3,06%, seguido pelo IAMST (35%), com mortalidade de 8,10%, IAMNST (20%), com mortalidade de 6,80%, e diagnóstico não comprovado 2,7%, com mortalidade 1,36%. A mortalidade global da SCA foi de 5,53%.

Registro recente de um hospital nacional especializado identificou mortalidade hospitalar em AI/IAMNST de 4,8% e mortalidade no IAMST de 6,4%, sem diferença significativa entre esses diagnósticos9. Em outro registro nacional unicêntrico, que incluiu 411 pacientes, a mortalidade intra-hospitalar para angina instável foi de 4,1%, IAM de 12,5% e total de 9,0%15.

No Brazilian Registry on Acute Coronary Syndromes (BRACE), foram analisadas as diferenças regionais sobre utilização de fármacos e terapêuticas de reperfusão (fibrinolíticos e angioplastia primária) em 1.150 pacientes16.

O Registro Brasileiro da Prática Clínica em Síndromes Coronariana Agudas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (ACCEPT-SBC) é um registro observacional, prospectivo, que visa documentar a prática clínica hospitalar da SCA efetivada em hospitais públicos e privados brasileiros. Incluiu 24 hospitais e 2.475 pacientes com diagnóstico confirmado de SCA17,18. A Tabela 7 compara as principais diferenças disponíveis em relação ao Registro Brasileiro da Prática Clínica em Síndromes Coronariana Agudas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (ACCEPT-SBC) e o RBSCA.

Embora uma comparação estatística não seja possível, devido aos dados do BRACE e ACCEPT-SBC não estarem disponíveis de maneira individualizada, as comparações numéricas disponíveis não apresentam grandes discordâncias (Tabela 7). Apenas as mortalidades no ACCEPT-SBC e RBSCA são diferentes (2,75 e 5,53%), respectivamente, provavelmente devido às características dos hospitais e pacientes, visto que apenas 50% dos hospitais do ACCEPT-SBC atendiam o SUS, enquanto no RBSCA esse número atingiu 74%. No ACCEPT-SBC, a cinecoronariografia foi realizada em 80,6%, ICP em 50,8% e cirurgia de revascularização miocárdica (CRM) em 6,1%; no RBSCA, esses números foram de 84,5%, 52,7%, 11,6%, respectivamente.

No registro espanhol Mascara19, que incluiu 7.923 pacientes, a mortalidade total hospitalar foi de 5,7%, sendo na AI/IAMNST de 3,9%, no IAMST de 7,6% e na SCA não classificada de 8,8%. Dados do registro GRACE, de 2002, mostraram uma mortalidade hospitalar na AI de 3%, IAMNST de 5% e no IAMST de 7%. No registro norte-americano Action20, que incluiu 22.025 com IAMST, a mortalidade hospitalar foi de 6,0% e, no IAMNST, que incluiu 32.741 pacientes, a mortalidade foi de 4,0%. Esses dados mostraram um alinhamento dos achados do RBSCA com outros registros.

No RBSCA, os riscos mais frequentemente associados ao aparecimento da SCA e que tiveram prevalência > 40% foram hipertensão arterial, angina prévia, dislipidemia, história familiar de DAC e tratamento farmacológico para DAC. Outras condições basais associadas à mortalidade, embora menos frequentes (< 40%), foram: gênero feminino, tabagismo (negativa), acidente vascular cerebral, insuficiência cardíaca, insuficiência renal crônica, diabetes melito, intervenção coronariana percutânea. Frequência cardíaca, pressão arterial sistólica e diastólica, IMC e diagnóstico de alta estiveram associados a uma maior mortalidade hospitalar.

As complicações relacionadas ao óbito foram: choque cardiogênico/edema agudo de pulmão, insuficiência cardíaca, novo infarto, angina recorrente, arritmias necessitando tratamento, acidente vascular cerebral, sangramento maior, parada cardíaca e complicações mecânicas. Aqueles que necessitaram de cirurgia de revascularização miocárdica, marca-passos e balão intra-aórtico (possivelmente casos de maior gravidade), também foram à óbito com maior frequência. A intervenção coronariana percutânea comportou-se como procedimento protetor.

Dos fármacos de uso intra-hospitalar, destacaram-se como mais frequentemente utilizados a aspirina, os betabloqueadores, os nitratos, o clopidogrel, as heparinas, as estatinas e os IECA. Fizeram uso da associação aspirina, betabloqueadores orais e estatina 60,9%, enquanto 43,8% associaram IECA a esses medicamentos. Redução na mortalidade esteve associada ao uso de betabloqueadores orais, bloqueadores dos canais de cálcio, HNF, clopidogrel, IECA, estatinas, associação aspirina, betabloqueadores orais e estatina e associação aspirina, betabloqueadores orais, estatina e IECA. Essas duas associações são padrões no tratamento da SCA, sendo a associação com IECA mais utilizada na presença de disfunção ventricular esquerda. A mortalidade foi significativamente maior nos que receberam betabloqueadores por via intravenosa, nitratos, tirofiban, amiodarona e lidocaína, diuréticos. Neste tipo de estudo, é difícil caracterizar-se medicações como protetoras ou não. A indicação de determinados fármacos, como diuréticos e antiarrítmicos, está, muitas vezes, associada a gravidade do quadro clínico. Observa-se que a orientação terapêutica tem seguido as orientações preconizadas pelas diretrizes nacionais21,22.

Limitações do registro

Embora os investigadores convidados fossem todos experientes em pesquisa clinica (Anexo 1) não houve monitorização nem auditoria local para verificação das informações, pela falta de recursos financeiros. Todas as informações coletadas foram relatadas pelos serviços participantes. Apenas dados discrepantes ou faltantes foram averiguados.

Os hospitais participantes, concentrados , nas Regiões Sul e Sudeste, são hospitais terciários, equipados para procedimentos de intervenção, percutânea ou cirúrgica, representando um perfil diferenciado para o atendimento da SCA.

Embora solicitado que a inclusão fosse contínua, é possível que isso não se tenha ocorrido, assim como podem não ter sido incluídos aqueles que faleceram no atendimento inicial.

Implicações clínicas

O RBSCA é um registro robusto, com uma amostra significativa de pacientes com SCA internados em 23 hospitais brasileiros. Esse registro se preocupou em identificar a totalidade de pacientes internados, fugindo da individualização unitária dessa síndrome, o que poderia comprometer resultados, pela dificuldade muitas vezes encontrada na caracterização diagnóstica. Os dados foram coletados por via da internet, uniformizando as informações e evitando erros frequentemente cometidos pela coleta escrita. Por serem terciários os hospitais participantes, tais dados devem refletir o que de melhor se faz para o tratamento desses pacientes em nosso meio.

 

Conclusão

Esse registro de SCA anteriormente teve seus achados parciais divulgados tanto a nível nacional10,20 como internacional11,21. Seus resultados, embora com as habituais limitações de comparações, não diferem de dados coletados em outros registros, dentro e fora do país, sendo consistentes com estes.

O entendimento de seus achados pode ajudar no mapeamento de nossas inconsistências e na melhoria do planejamento do atendimento público e privado da SCA.

 

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Piegas LS, Avezum A, Guimarães HP; Obtenção de dados: Piegas LS, Avezum A, Guimarães HP, Muniz AJ, Reis HJL, Santos ES, Knobel M, Souza R; Análise e interpretação dos dados: Piegas LS, Avezum A, Guimarães HP, Souza R; Análise estatística: Piegas LS, Souza R; Obtenção de financiamento e Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual: Piegas LS; Redação do manuscrito: Piegas LS, Avezum A, Souza R.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes.

Fontes de Financiamento

O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.

 

Referências

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Correspondência:
Leopoldo Soares Piegas
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Artigo recebido em 09/04/12, revisado em 24/09/12, aceito em 19/11/12.

 

 

Anexo 1 - Hospitais, inclusões e investigadores

Bahia: Salvador - Fundação Bahiana de Cardiologia (24) (A Rabelo Jr, E C Porto); Hospital Português (19) (M S Teixeira, J P Esteves). Minas Gerais: Belo Horizonte - Hospital Socor (2) (L R A Castro, J C F Garcia); Hospital Madre Tereza (173) (R L Marino, B C A Marino); Juiz de Fora - Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora (567) (A J Muniz). Pará: Belém - Fundação Pública Estadual Hospital de Clínicas Gaspar Vianna (450) (H J L Reis, M S Carneiro). Paraná: Maringá - Hospital Santa Rita - Associação Beneficente Bom Samaritano (73) (R D Mora Jr, E K Hayashi); Curitiba - Hospital Universitário Evangélico de Curitiba (192) (P R F Rossi, C M C Branco). Pernambuco: Recife - Hospital Agamenon Magalhães (11) (J B M X Moraes Jr); Real Hospital Português (S T Montenegro) (9) . Rio de Janeiro: Rio de Janeiro - Hospital Barra D`Or (48) (A C B S Figueiredo, M A N Rati). Rio Grande do Sul: Passo Fundo - Hospital São Vicente de Paulo (19) (R T Tumelero, N T Duda); Porto Alegre - Hospital Mãe de Deus (30) (CP Jaeger, E R Manenti); Hospital São Francisco - ISCMPA (6) (P E Leães, C Blacher); Hospital São Lucas de PUCRS (104) (L C Bodanese, A V Azevedo). São Paulo: São Paulo - Hospital Israelita Albert Einstein (255) (M Knobel, M Makdisse); Instituto do Coração - HCFMUSP (12) (J C Nicolau, L M Baracioli); Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (439) (E S Santos, M P Pereira); Hospital do Coração - HCOR (17) (I M R Fernandes, E R Romano); São José do Rio Preto - Hospital de Base/Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (96) (L N Maia, M A B T Lemos); Instituto de Moléstias Cardiovasculares - IMC (60) (G V Greque, J C A Ayoub); Campinas - Hospital e Maternidade Celso Pierro - PUC Campinas (63) (J F K Saraiva, M L Paiva); Marília - Instituto do Coração e Santa Casa de Misericórdia de Marília (24) (A Rodrigues, J C F Braga).

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