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Arquivos Brasileiros de Cardiologia

Print version ISSN 0066-782X

Arq. Bras. Cardiol. vol.102 no.4 São Paulo Apr. 2014  Epub Feb 17, 2014

http://dx.doi.org/10.5935/abc.20140033 

Artigos Originais

Uso de Intervenções Baseadas em Evidências na Síndrome Coronária Aguda – Subanálise do Registro ACCEPT

Ricardo Wang1 

Fernando Carvalho Neuenschwander1 

Augusto Lima Filho1 

Celsa Maria Moreira1 

Elizabete Silva dos Santos2 

Helder Jose Lima Reis3 

Edson Renato Romano4 

Luiz Alberto Piva e Mattos7 

Otávio Berwanger4  5 

Jadelson Pinheiro de Andrade5  6 

1Hospital Vera Cruz, Belo Horizonte, MG - Brasil

2Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, São Paulo, SP - Brasil

3Hospital de Clínicas Gaspar Vianna, Belém, PA - Brasil

4Hospital do Coração/ASS4, São Paulo, SP - Brasil

5Sociedade Brasileira de Cardiologia

6Hospital da Bahia, Salvador, BA - Brasil

7Rede D'or de Hospitais do Brasil, São Paulo/Pernambuco − Brasil


RESUMO

Fundamento:

As diretrizes baseiam-se em evidências para pautar suas recomendações; apesar disso, há uma lacuna entre o recomendado e a prática clínica.

Objetivo:

Descrever a prática de prescrição de tratamentos com indicação baseada em diretrizes para pacientes com síndrome coronariana aguda no Brasil.

Métodos:

Foi realizada uma subanálise do registro ACCEPT, na qual foram avaliados os dados epidemiológicos e a taxa de prescrição de ácido acetilsalicílico, inibidores P2Y12, antitrombóticos, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina/bloqueadores AT1 e estatinas. Além disso, avaliou-se a qualidade da reperfusão coronariana no infarto com supradesnivelamento do segmento ST.

Resultados:

Foram avaliados 2.453 pacientes. As taxas de prescrição de ácido acetilsalicílico, inibidores de P2Y12, antitrombóticos, betabloqueadores, inibidores da enzima conversora de angiotensina/bloqueadores AT1 e estatinas foram, respectivamente, de 97,6%, 89,5%, 89,1, 80,2%, 67,9%, 90,6%, em 24 horas, e, respectivamente, de 89,3%, 53,6, 0%, 74,4%, 57,6%, 85,4%, em 6 meses. Com relação ao infarto com supradesnivelamento do segmento ST, somente 35,9% e 25,3% dos pacientes foram submetidos a angioplastia primária e trombólise, respectivamente, nos tempos recomendados.

Conclusão:

Este registro mostrou altas taxas de prescrição inicial de antiplaquetários, antitrombóticos e estatina, bem como taxas mais baixas de betabloqueadores e de inibidores da enzima conversora de angiotensina/bloqueadores AT1. Independentemente da classe, todos apresentaram queda do uso aos 6 meses. A maioria dos pacientes com infarto com supradesnivelamento do segmento ST não foi submetida a reperfusão coronariana no tempo recomendado.

Palavras-Chave: Prática clínica baseada em evidências; Síndrome coronariana aguda; Registros de doenças; Epidemiologia

ABSTRACT

Background:

The recommendations in guidelines are based on evidence; however, there is a gap between recommendations and clinical practice.

Objective:

To describe the practice of prescribing evidence-based treatments for patients with acute coronary syndrome in Brazil.

Methods:

This study carried out a subanalysis of the ACCEPT registry, assessing epidemiological data and the prescription rate of acetylsalicylic acid, p2y12 inhibitors, antithrombotic drugs, beta-blockers, angiotensin-converting enzyme inhibitors/angiotensin-receptor blockers (IAT1RB), and statins. In addition, the quality of myocardial reperfusion in ST-segment elevation myocardial infarction was evaluated.

Results:

This study assessed 2,453 patients. The prescription rates of acetylsalicylic acid, p2y12 inhibitors, antithrombotic drugs, beta-blockers, angiotensin-converting enzyme inhibitors/IAT1RB, and statins were as follows: in 24 hours - 97.6%, 89.5%, 89.1%, 80.2%, 67.9% and 90.6%; and at six months - 89.3%, 53.6%, 0%, 74.4%, 57.6% and 85.4%, respectively. Regarding ST-segment elevation myocardial infarction, only 35.9% and 25.3% of the patients underwent primary angioplasty and thrombolysis, respectively, within the recommended times.

Conclusion:

This registry showed high initial prescription rates of antiplatelet drugs, antithrombotic drugs, and statins, and lower prescription rates of beta-blockers and angiotensin-converting enzyme inhibitors/IAT1RB. Independently of the class, the use of all drugs decreased by six months. Most patients with ST-segment elevation myocardial infarction did not undergo myocardial reperfusion within the time recommended.

Key words: Evidence based practice; Acute coronary syndrome; Disease registries; Epidemiology

Introdução

No Brasil, as doenças cardiovasculares são responsáveis por aproximadamente 30% dos óbitos de pacientes na faixa etária dos 20 aos 59 anos1. O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) foi, em 2009, a segunda principal causa de morte, com incidência de 48 mortes por 100 mil habitantes1, o que representou 96.386 mortes2. Não somente a simples perda de vidas, mas também os custos sociais devem ser levados em conta; por exemplo, a dor torácica foi causa de aproximadamente 100 mil atendimentos em unidades básicas1 e mais de 200 mil internações em 20103. Esses números têm aumentado ao longo dos anos4.

A maioria das mortes por IAM ocorreu fora do ambiente hospitalar, e 80% destas nas primeiras 24horas5. A mortalidade hospitalar varia de 3 a 20%5, e a morbidade, isto é, insuficiência cardíaca pós-IAM varia de 5 a 15% no pós-infarto1. A grande variação dessa mortalidade se deve à qualidade assistencial1. O tratamento correto precoce propicia melhora da sobrevida e da qualidade de vida. As diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia5 , 6 (SBC) e de outras sociedades internacionais7 , 8 têm como objetivo guiar a prática médica, sugerindo condutas baseadas em evidências e pautadas no rigor científico para sua indicação. Esse instrumento tem se mostrado eficaz na melhora da qualidade assistencial9, e centros onde as suas recomendações são mais empregadas apresentaram menores taxas de eventos. No entanto, existe uma lacuna entre a prática médica e as diretrizes. O objetivo deste trabalho foi avaliar o tratamento realizado no registro Acute Coronary Care Evolution of Practice Registry (ACCEPT) e comparar com as diretrizes brasileiras e americanas de síndrome coronariana aguda.

Métodos

O registro ACCEPT foi idealizado pela SBC. Sua metodologia, organização e coleta de dados foram descritas em detalhes previamente10. De maneira sucinta, 65 centros no Brasil contribuíram para realização do registro. Esses centros foram reunidos por meio de dois critérios: convite e busca ativa (por meio da página eletrônica da SBC). O registro ACCEPT tentou ser o mais abrangente possível, tanto na cobertura territorial do Brasil, quanto no perfil dos pacientes atendidos (sistema público e privado). Os dados foram coletados no período de janeiro de 2011 a dezembro de 2012. Os resultados de 30 dias do registro foram previamente publicados11.

Este artigo é uma subanálise pré-especificada no planejamento do registro. Participaram deste estudo todos os pacientes do registro, cujos critérios de inclusão foram: pacientes com síndrome coronariana sem supradesnivelamento do segmento ST (angina instável e IAM sem Supradesnivelamento do Segmento ST − IAMSSST, caracterizado por clínica mais alteração eletrocardiográfica − ECG ou alteração de enzimas cardíacas); e IAM com Supradesnivelamento do Segmento ST − IAMCSST, caracterizado por clínica mais ECG com supradesnivelamento do segmento ST. Foram excluídos pacientes com dados incompletos.

O objetivo primário foi avaliar a taxa de uso de medicamentos que sabidamente têm impacto na taxa de eventos cardiovasculares, dentre eles: antiplaquetários (Ácido Acetilsalicílico − AAS − e inibidores P2Y12), betabloqueadores, Inibidores da Enzima Conversora de Angiotensina (IECA) ou Bloqueadores do Receptor de Angiotensina (IAT1) e estatinas. Constituiu o objetivo secundário a avaliação do impacto dessa terapêutica na taxa de eventos cardiológicos maiores (morte, IAM, parada cardiorrespiratória, acidente vascular encefálico (AVE) e sangramento maior).

O estudo teve aprovação do comitê de ética e pesquisa do Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital do Coração de São Paulo (IEP/HCOR), com registro número 117/2010. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido, e o estudo seguiu as diretrizes e normas da Resolução 196/96, de boas práticas médicas e da Declaração de Helsinque.

O registro ACCEPT é de propriedade da SBC, utilizando recursos financeiros próprios da sociedade. O IEP/HCOR foi contratado para operacionalizar a execução desse registro, sob a coordenação da SBC.

Análise estatística

As variáveis contínuas foram descritas por média e desvio padrão; as variáveis categóricas foram descritas em forma de frequência absoluta e relativa. Para efeito de comparação, foi utilizado o teste qui-quadrado, exceto para comparação das médias de idade, para a qual foi utilizado teste F da ANOVA. Na comparação da continuidade da prescrição de drogas ao longo do tempo, foi ajustado um modelo por Equações de Estimação Generalizada (EEG) para dados binários, para considerar a dependência entre as observações. As análises estatísticas foram realizadas com auxílio do programa estatístico R 2.15.3. Foi considerado um nível de significância de 5%.

Resultados

No período de agosto de 2010 a dezembro de 2011, foram incluídos 2.584 pacientes; destes, 2.453 pacientes completaram 1 ano de seguimento e 40 pacientes foram excluídos por terem os dados de seguimento incompleto, com perda de 2,6%.

O perfil epidemiológico dos pacientes está na Tabela 1. A idade média variou entre 61 e 65 anos. O gênero predominante foi o masculino em todos os quadros clínicos: 58,9%; 73,4% e 70% para angina instável, IAMSSST e IAMCSST, respectivamente. Os pacientes com angina instável, comparados com outros quadros, tiveram, dentre os fatores de risco, maior incidência de dislipidemia, hipertensão, tabagismo e maior prevalência de Insuficiência Cardíaca (IC): 67,3%; 84,1%; 30,4% e 15%, respectivamente. No grupo com IAMSSST, destacamos menores taxas de dislipidemia (44,4%), IAM prévio (18,2%) e diabetes melito (23,6%), enquanto que o IAMCSST tinha a menor média de idade (61 ± 12 anos) e alta taxa de diabéticos (37,5%) e tabagistas (29,3%). O AVE teve taxa semelhante nos três grupos.

Tabela 1  Perfil epidemiológico 

  Angina instável (767) Infarto sem Supra de ST (800) IAM com Supra de ST (846) p
Idade (média ± DP) 64 ± 12 65 ± 12 61 ± 12 < 0,001
Gênero masculino, n (%) 452 (58,9) 587 (73,4) 592 (70) < 0,001
Dislipidemia, n (%) 516 (67,3) 355 (44,4) 490 (57,9) < 0,001
IAM prévio, n (%) 275 (35,9) 146 (18,2) 304 (35,9) < 0,001
HAS, n (%) 645 (84,1) 544(68) 66 (78,8) < 0,001
Diabetes melito, n (%) 246 (32,1) 189 (23,6) 317 (37,5) < 0,001
Insuficiência cardíaca, n (%) 119 (15,5) 54 (6,8) 92 (10,9) < 0,001
Obesidade, n (%) 272 (35,5) 261 (32,6) 270 (31,9) 0,285
Tabagismo, n (%) 233 (30,4) 199 (24,9) 248 (29,3) < 0,001
Acidente vascular encefálico, n (%) 68 (8,9) 53 (6,6) 68 (8) 0,247

IAM: infarto agudo do miocárdio; DP: desvio padrão; HAS: hipertensão arterial sistêmica.

Dos medicamentos que têm impacto na síndrome coronariana aguda, observamos que a AAS foi a droga mais prescrita, com taxas de 97,6% à admissão e de 89,3% em 6 meses (Figura 1). As estatinas também tiveram alta taxa de prescrição à admissão: 90,6%. No entanto, quando analisamos os betabloqueadores, IECA/IAT1, antitrombóticos (heparina não fracionada, heparina de baixo peso molecular e fondaparinux) e inibidor P2Y12, observamos taxas abaixo de 90% à admissão: 80,2%, 67,9%, 89,1% e 88,7%, respectivamente.

Figura 1 Uso de medicação na síndrome coronariana aguda, nas primeiras 24 horas, na alta hospitalar e após 6 meses.§ Exceto AAS; * redução significativa (p<0,05) em todos os momentos; † redução significativa apenas em 6 meses; ‡ crescimento significativo na alta hospitalar em relação às primeiras 24 horas e redução significativa em 6 meses. Antiagregante: inibidores P2Y12.AAS: ácido acetilsalicílico; ECA: enzima conversora de angiotensina. 

Na alta hospitalar e no sexto mês, observamos diminuição da prescrição em todas as medicações, com queda mais acentuada na classe dos IECA/IAT1, inibidores P2Y12 e betabloqueadores: redução absoluta de 10% (67,6% para 57,6%), 24,5% (77,5% para 53%) e 6,7% (81,1% para 74,4%), respectivamente, comparando a taxa de administração à alta, com 6 meses após evento índice (Figura 1).

Quando avaliamos a taxa do uso de medicamentos de acordo com quadro clínico, os antiplaquetários (inibidor P2Y12) foram mais prescritos nos pacientes com IAMCSST, seguidos dos pacientes com IAMSSST e angina instável: 95% vs. 88,3% vs. 82,5%, respectivamente. Os antitrombóticos foram mais usados no IAMSSST: 88,1% vs 93,4% vs 85,5% respectivamente. As demais medicações tiveram taxas de prescrição semelhantes nos três quadros (angina instável, IAMSSST e IAMCSST, respectivamente), sendo AAS 96,9% vs. 97,5% vs. 98,5%; IECA: 68,2% vs. 66% vs. 69,8%; betabloqueador: 81,7% vs. 81,2% vs. 77,6%; e estatina: 90,1% vs. 90,7 vs. 91,1%. Somente AAS e estatinas tiveram taxas de utilização acima de 90% nos diferentes quadros clínicos (Figura 2). Na alta hospitalar (Figura 3), no geral, a taxa de prescrição de estatina aumentou, passando de 90,6% para 93%. A prescrição de AAS se manteve estável, mas a redução da taxa de IECA e de betabloqueadores foi maior na angina instável, com queda de 4,3% e 3,4% absolutos, respectivamente.

Figura 2 Taxa da utilização da medicação de acordo com quadro clínico do paciente à admissão (24 horas).† Exceto AAS; * p < 0,05. Antiagregante: inibidores P2Y12.AAS: ácido acetilsalicílico; ECA: enzima conversora de angiotensina; IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; IAMCSST: infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST. 

Figura 3 Taxa da utilização da medicação de acordo com quadro clínico do paciente na alta hospitalar.† Exceto AAS; * p < 0,05. Antiagregante: inibidores P2Y12.AAS: ácido acetilsalicílico; ECA: enzima conversora de angiotensina; IAMSSST: infarto agudo do miocárdio sem supradesnivelamento do segmento ST; IAMCSST: infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST. 

A presença de cardiologista na sala de emergência não representou acréscimo significativo nas taxas de prescrição de medicamentos baseados em evidência, que foram as seguintes conforme a presença ou ausência daquele profissional, respectivamente: AAS: 97,9 vs. 98,3%; betabloqueador: 80,6 vs. 84,3%; IECA: 68,5 vs. 69,6%; estatina: 90,8 vs. 92,2%; inibidor P2Y12: 90,5 vs. 92,2%; presença de cardiologista vs. não respectivamente: sem significância estatística (Figura 4).

Figura 4 Taxa da utilização da medicação em locais onde há cardiologista de plantão à admissão.IECA: Inibidor enzima conversora da angiotensina; AAS: ácido acetilsalicílico. 

Dos 846 pacientes admitidos com IAMCSST, 705 receberam terapia de reperfusão (83,3%). Destes, 71 foram com trombolíticos e 634 com angioplastia primária. Dentre os pacientes submetidos à angioplastia primária, somente 35,96% (n = 288) tiveram tempo porta-balão < 90 minutos, enquanto que no grupo submetido a trombólise, no qual a taxa foi ainda menor 25,35% (n = 18) (Figura 5).

Figura 5 Pacientes admitidos com infarto agudo do miocárdio com supradesnivelamento do segmento ST que atingiram as metas preconizadas para reperfusão coronariana. min: minutos. 

Betabloqueadores, IECA/IAT1 e estatinas demonstraram ter impacto na taxa de eventos cardíacos maiores já na internação, com redução do risco relativo aos 12 meses de 46,3% (p = 0,016), 31,9% (p < 0,001) e 39,9% (p = 0,003) respectivamente (Tabela 2). O benefício do AAS tornou-se aparente somente no sexto mês, efeito que se manteve a longo prazo, com redução relativa de 38% aos 12 meses (p = 0,013). O inibidor de P2Y12 reduziu a taxa de eventos cardíacos, sem, no entanto, alcançar significância estatística (p = 0,305).

Tabela 2 Eventos clínicos combinados (morte, reinfarto, parada cardiorrespiratória, acidente vascular encefálico e sangramento grave) de acordo com o uso do medicamento 

  30 dias n (%) 6 meses n (%) 12 meses n (%)
AAS
Sim 140 (6,1) 225 (10,8) 269 (14,8)
Não 12 (9,4) 21 (18,4)* 27 (23,9)*
Clopidogrel
Sim 111 (5,9) 183 (10,7) 296 (14,8)
Não 41 (7,6) 63 (13) 75 (17)
Betabloqueador
Sim 92(4,7) 160 (9,1) 199 (12,9)
Não 58 (12,7)** 83 (39)** 94 (24,4) *
IECA/IAT1
Sim 79 (4,8) 136 (9,2) 169 (13,2)
Não 73 (9,3)** 110 (15,6)** 127 (19,4)**
Estatina
Sim 127 (5,7) 214 (10,5) 261 (14,6)
Não 25 (14,7)** 32 (21,1)** 35 (24,3)**

*p < 0,05

**p < 0,001.

AAS: Ácido acetilsalicílico; IECA/IAT1: Inibidores da Enzima Conversora de ngiotensina/Bloqueadores do Receptor de Angiotensina.

Discussão

Os achados mais importantes no nosso registro foram: alta prescrição de antiplaquetários e estatina nas primeiras 24 horas; menores taxas de prescrição de betabloqueadores e de IECA/IAT1; após 6 meses do evento, houve importante redução no número de pacientes usando a medicação, em especial os inibidores P2Y12, IECA/IAT1 e betabloqueadores; menos da metade dos pacientes teve reperfusão coronariana dentro dos limites de tempo estabelecidos nas diretrizes.

Comparados com os registros GRACE12 e CRUSADE9, as taxas de prescrição dos cinco principais medicamentos foram maiores neste registro. No entanto, deve-se considerar o período em que esses dados foram coletados, além dos programas de divulgação e implementação das diretrizes durante esse período1 , 13. O registro ACCESS realizado em países em desenvolvimento, para o qual o Brasil também contribuiu, apresenta perfil epidemiológico parecido com registro ACCEPT. Eles registraram também menores taxas de prescrição de betabloqueadores e tienopiridínicos14. Quando comparado com dois registros nacionais2 , 3 recentemente publicados, observa-se que a taxa de prescrição das medicações foi mais alta neste registro, o que pode ser explicado pelo método de seleção dos centros e o perfil dos pacientes3.

Fermann e cols.15 observaram que pacientes que receberam a medicação à admissão teriam maior chance de ter alta em uso dela. No entanto, nesta amostra, a presença de um especialista (cardiologista) na sala de emergência não representou aumento da taxa de prescrição de medicamentos que modificam a história natural da síndrome coronariana aguda.

O uso do AAS é, em geral, alto em todos os registros nacionais2 , 3 e internacionais14 , 16; nesta amostra, observou se alta taxa de prescrição inicial dos inibidores P2Y12. Em comparação aos registros previamente publicados, observou se maior prescrição desses, em detrimento dos inibidores da Glicoproteína (GP) IIb/IIIa. Tal resultado contrasta com o registro americano ACTION, que observou taxas inversas de prescrição, apesar da indicação classe I do clopidogrel, esse foi prescrito somente em 59% dos casos, e o mais alarmante, 28% não receberam nenhuma antiagregação plaquetária dupla17. É provável que a baixa utilização de inibidores de GPIIb/IIIa em nosso meio seja decorrente da redução do grau de indicação, associado ao seu elevado custo. Observa-se ainda que o uso de novos antiplaquetários, como prasugrel e ticagrelor, é baixo neste registro, possivelmente devido ao início recente da comercialização no Brasil, que aconteceu inclusive durante a condução do registro.

IECA e IAT1 são uma classe de medicação bem estabelecida em pacientes portadores de IC. No estudo HOPE18, foi demonstrado que o benefício clínico do IECA se estende para pacientes de alto risco cardiovascular, como pacientes portadores de diabetes melito pós-IAM, sem necessariamente apresentar disfunção ventricular sistólica. Para Bagnall e cols.19, o grande motivo para não prescrever essa classe é o fato de os médicos considerarem que o paciente não tem gravidade suficiente para sua indicação.

O dado alarmante é que os pacientes que teriam maior benefício são os menos medicados20 (paradoxo do risco-tratamento)19. No presente registro, tal paradoxo foi observado. Considerando a ordem decrescente de gravidade do IAMCSST, seguida do IAMSSST e da angina instável, a taxa de tratamento com IECA e betabloqueadores não foi proporcional à gravidade do quadro clínico. Em relação aos betabloqueadores, as contraindicações como asma brônquica, doença pulmonar obstrutiva crônica, bradicardias e choque são causas da não prescrição daqueles19, porém, na maioria das vezes, o motivo não é aparente20.

O atraso da realização da reperfusão em pacientes com IAMCSST é também observado em outros registros21. No National Registry of Myocardial Infarction (NRMI), a taxa de pacientes que obtiveram o tempo porta-balão abaixo de 90 minutos foi somente de 29,3%22, e o tempo médio para porta-agulha de 32 minutos21. Esses tempos têm caído ao longo do tempo, muito em função da criação dos registros, que servem como forma de retorno para avaliação da performance dos serviços participantes21.

No registro CRUSADE, os hospitais com maior aderência às diretrizes, dentre os parâmetros avaliados, incluíam a prescrição de antiplaquetários, betabloqueadores, IECA/IAT1 e estatinas na alta, além de apresentarem menor mortalidade, com redução de 6,31% para 4,15%9. Os estudos clínicos controlados, em geral, avaliam efeito isolado de uma droga. Mukherjee e cols.23 demostraram o efeito sinérgico do uso combinado das quatro classes de medicamento acima na síndrome coronariana aguda, com odds ratio de 0,36 para uma droga e de 0,10 para quatro drogas.

No período hospitalar, a responsabilidade da prescrição da medicação fica a cargo do médico. Este, além de avaliar critérios para seu uso, tem de levar em consideração contraindicações e efeitos adversos da medicação. A não aderência às diretrizes pelos médicos é multifatorial, indo desde sentir que as diretrizes interferem em sua autonomia e reconhecer a dificuldade de adquirir novos métodos de tratamento15, até subestimar a gravidade da doença19. Além do fator médico, após a alta hospitalar, adiciona-se a variável paciente, que não toma a medicação devido a custos da medicação, percepção subjetiva que a droga não melhora sintomas, não entendimento do benefício do tratamento, medo e dificuldade em usar várias medicações19. Todos esses fatores associados resultam em baixa aderência, que já começa desde o primeiro contato.

Limitações

A grande limitação do registro é o fato de ser um estudo observacional, não randomizado, não podendo ser inferida causalidade entre os fatos observados e os desfechos clínicos. Outra limitação foi o perfil dos centros que contribuíram com o banco de dados: 90% deles são hospitais terciários que contam com serviço de hemodinâmica11 e sabe-se que esses hospitais têm maior aderência às diretrizes19 , 23. A contribuição para o registro ACCEPT de centros com menores recursos é importante para a fotografia real da qualidade assistencial para população brasileira, mas temos que considerar também a implantação de novos modelos assistenciais, com sistemas de drenagens de centros primários para centros de maior complexidade em implantação em várias cidades brasileiras24 , 25.

Os motivos pelos quais os médicos não prescreveram a medicação e a aderência a longo prazo não foram avaliados no registro. Além disso, não foi avaliado o número de pacientes que alcançou as metas da prevenção secundária.

Conclusão

A qualidade do atendimento do paciente com síndrome coronariana aguda no registro ACCEPT, avaliada pela porcentagem de pacientes em uso de medicamentos que comprovadamente melhoram a sobrevida na Síndrome Coronária Aguda, está acima dos registros mundiais prévios. No entanto, se considerarmos a taxa ideal de prescrição da medicação próxima dos 95%, ainda há muito a melhorar4. A iniciativa da SBC em promover a criação de registros em várias áreas na cardiologia, demostrando a situação do atendimento ao paciente portador de doença cardiovascular, permitirá uma política de melhoria na qualidade assistencial, tanto pela SBC como pela instância governamental.

Contribuição dos autores

Concepção e desenho da pesquisa: Santos ES, Piva e Mattos LA, Berwanger O, Andrade JP; Obtenção de dados: Neuenschwander FC, Moreira CM, Santos ES, Reis HJL, Romano ER, Piva e Mattos LA, Berwanger O, Andrade JP; Análise estatística e Análise e interpretação dos dados: Wang R, Piva e Mattos LA, Berwanger O; Obtenção de financiamento: Piva e Mattos LA, Berwanger O, Andrade JP; Redação do manuscrito: Wang R, Neuenschwander FC, Lima Filho A, Moreira CM; Revisão crítica do manuscrito quanto ao conteúdo intelectual: Wang R, Neuenschwander FC, Lima Filho A, Moreira CM, Berwanger O.

Fontes de Financiamento

O presente estudo foi financiado pela Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Vinculação Acadêmica

Não há vinculação desse estudo a programas de pós graduação.

Referências

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Recebido: 17 de Julho de 2013; Revisado: 23 de Setembro de 2013; Aceito: 11 de Outubro de 2013

Correspondência: Ricardo Wang. Avenida Francisco Sales 1111, Santa Efigênia. CEP: 30.150-221, Belo Horizonte, MG − Brasil. E-mail: rwang@cardiol.br, rwang@terra.com.br.

Potencial Conflito de Interesses

Declaro não haver conflito de interesses pertinentes

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