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Anais da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz

Print version ISSN 0071-1276

An. Esc. Super. Agric. Luiz de Queiroz vol.3  Piracicaba  1946

http://dx.doi.org/10.1590/S0071-12761946000100001 

Thomas Hunt Morgan

 

 

F. G. Brieger

Secção de Genética Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz"

 

 

Os jornais acabaram de trazer a noticia que faleceu ao fim de uma vida de árduo trabalho cientifico, o famoso biólogo THOMAS HUNT MORGAN, na idade de 79 anos. Assim, desapareceu mais um dos fundadores da ciência moderna de genésica, seguindo o inglês BATESON, o alemão CORRENS, o holandês DÊ VRIES, o sueco NILSSON EHLE e tantos outros que se tornaram imortais por seus trabalhos fundamentais. Entre todos estes cientistas de primeira categoria, MORGAN ocupa ainda um lugar de destaque excepcional.

Nascido em 1866 em Lexington, no Estado de Kentucky (U.S.A.), formou-se com 20 anos na Universidade deste Estado e colou grau de Doutor na famosa Universidade John Hopkins em Baltimore, quatro anos mais tarde. Depois de trabalhar em vários institutos científicos, foi nomeado em 1904, com 38 anos de idade, professor catedrático de Zoologia na Universidade de Columbia, em Nova York, onde lecionou durante 24 anos. Em 1928 transferiu-se com os seus principais colaboradores para a Califórnia, para os Laboratórios Kerkoff, em Pasadena, onde ficou até a sua aposentadoria, a qual porém não significou o fim dos trabalhos científicos, que ao contrário só se encerram agora com o seu falecimento.

Nos seus trabalhos científicos, podemos distinguir três fases, a primeira visita nitidamente separadas. Nos principais trabalhos da época de 1890 até 1910, MORGAN se ocupou com problemas sobre a embriología e a fisiología do desenvolvimento ontogenético dos animais, trabalhos que o tornaram já bem conhecido internacionalmente entre os seus colegas. De 1910 para a frente, o ponto de gravidade dos seus estudos mudou para o campo da genética mendeliana. Os estudos de MORGAN chegaram ao máximo do reconhecimento internacional quando foi distinguido em 19.33, com 67 anos de idade, com o prêmio Nobel. Nao existindo um prêmio Nobel de Biologia, MORGAN recebeu o prêmio de Medicina, reconhecendo-se assim a aplicação geral, a todos os seres, inclusive o homem, das leis descobertas por êle. Depois de 25 anos dedicados essencialmente aos trabalhos genéticos, MORGAN voltou-se novamente e ainda com a mesma energia, para os estudos de embriología, publicando nos últimos 10 anos da sua longa vida, um número bem respeitável de trabalhos experimentais.

Estudando as publicações de MORGAN uma por uma para descobrir o essencial que fez dele um dos mais famosos cientistas dos nossos tempos, chegámos a uma conclusão bastante interessante. É difícil de se achar uma publicação que possa ser chamada fulminante. O que impressiona é a mão segura com a qual MORGAN junta uma publicação sobre sólidos estudos experimentais a outra até que o conjunto forme um toda homogêneo, uma série imponente de pesquisas extremamente bem fundadas. Livre da vaidade que induz o cientista medíocre a deixar a sua imaginação andar à frente das provas experimentais para ganhar prioridade e com isso uma fama duvidosa, mesmo á custa de erros que depois terão que ser retraidos, MORGAN submeteu ao público cientifico apenas hipóteses e teorias fundadas e comprovadas por experimentos decisivos.

Um outro característico deste homem justo e modesto foi o modo com o qual tratou os seus colaboradores, que na maioria tornaram-se também famosos, como STURTEVANT, BRIDGES, E. G. ANDERSON, MULLER, WEINSTEIM, DOBZHANSKY e outros mais. Não havia no laboratório de MORGAN uma separação rígida entre o mestre e catedrático, de um lado, e seus assistentes ou discípulos, do outro lado; existia ali um grupo unido e coeso de colaboradores, todos respeitando livremente e sem restrições, neste convívio democrático, o mestre experimentado.

 

 

Devemos ainda pôr em evidência um ponto que nos mostrou claramente a mão segura deste cientista abalisado: a escolha do material de estudos. A pequena mosca da banana, a Drosophila, não foi descoberta por MORGAN como animal para trabalhos de laboratório, mas MORGAN compreendeu que ela representava um material único para estudos de genética, devido à sua pouca exigência em relação às condições de cultivo, o prazo curto de 10 dias necessário para cada geração, a grande fertilidade de cada casal e o pequeno espaço que uma garrafa comum de leite ocupa, na qual podem viver e desenvolver-se algumas centenas de moscas. A estas vantagens técnicas, já mais ou menos conhecidas e em parte já usadas por CASTLE, devemos acrescentar uma descoberta essencial, de MORGAN: a freqüência com a qual podem ser encontradas simples mutações gênicas, além de variações hereditarias mais complicadas. As vezes, especialmente no início destes trabalhos, ouvia-se a opinião que MORGAN achou um material muito "fácil" e os seus sucessos são em parte devidos a esta "sorte"; porém, não era sorte, mas escolha bem pensada que induziu MORGAN a usar a Drosophila. Além disso, sempre quando a natureza das pesquisas exigiu trabalho com material difícil, MORGAN mostrou ser o grande mestre e experimentador que sabe dominar todas as dificuldades técnicas. Visitantes ao seu laboratório em Nova York sempre ficaram impressionados com as suas instalações reduzidas e o seu aparelhamento modesto. Porém não se deve interpretar estas limitações como uma falta de organização, mas como uma conseqüência principal da modéstia de MORGAN, que nunca se tornou demais exagerado com prejuízos dos trabalhos. Êle concentrou nesta época toda a sua energia à solução de determinados problemas da genética e sabia perfeitamente que um aparelhamento complicado, quando desnecessário, torna-se um pesadelo para o cientista, causando apenas um dispendio inútil de energia. Êle tinha, porém, à sua disposição o que era necessário para os experimentos em andamento.

É difícil fazer justiça num curto resumo aos resultados dos numerosos estudos experimentais de MORGAN, executados durante mais de cincoenta anos. Os seus primeiros trabalhos sobre a embriología estão resumidos no seu livro "Experimental Embriology" publicado em 1927. Os seus mais recentes estudos, de 1935 a 1945, se ocuparam principalmente com as questões da determinação da assimetria no desenvolvimento de vários animais marítimos em dependêencia das primeiras divisões dos núcleos. Uma outra série de trabalhos importantíssimos publicados entre 1905 e 1942 é dedicada à fisiología, histología e genética da auto-esterilidade em certos animais hermafroditos do grupo dos Ascidios. Ê de natureza fundamental o trabalho sobre a determinação do sexo nos Aphideos. Mas naturalmente os experimentos sobre a genética da Drosophila foram coroados de um êxito mais espetacular, resultando deles, além de outros pontos de grande importância, a teoria da ordem linear dos gens, dentro dos cromossômios, teoria esta que se aplica igualmente às plantas e animais inferiores, desde protozoários, algas e fungos, até os seres mais evoluídos, inclusive o homem. Estes estudos contribuíram ainda grandemente para estender e aprofundar os nossos conceitos sobre a natureza do gen e a sua fisiología, como também sobre os processos da evolução.

O progresso que esta hipótese significava, talvez seja hoje muito difícil de ser corretamente apreciado. Durante o século passado várias hipóteses e especulações foram publicadas e discutidas, que talvez pudessem esclarecer os fenômenos da hereditariedade. Todas estas hipóteses, porém, continham sempre um elemento especulativo ou filosófico. A redescoberta das leis de MENDEL em 1900 mudou a situação profundamente, mas sem eliminar este elemento abstrato e filosófico das discussões. Foi grande o mérito do dinamarquês JOHAMNSEN de dar definição clara aos princípios da ciência nova e esclaracer as bases teóricas da experimentação genética. Nesta mesma época MORGAN iniciou os seus experimentos com Drosophila. JOHAMNSEN achou necessário primeiramente definir o gen como um principio fisiológico, o "modo de reagir" e separá-lo assim da sua base morfológica, ainda completamente desconhecida. MORGAN e os seus discípulos demonstraram não somente que esta separação entre base morfológica e ação fisiológica não podia ser mantida e que podiam ser feitas afirmações decisivas sobre estas bases morfológicas dos gens, comprovando que eles são localizados dentro dos cromossômios numa ordem linear e fixa. É especialmente notável que MORGAN não formulou primeiro uma hipótese a ser comprovada mais tarde e na medida do possível. Cada passo na elaboração da sua teoria foi comprovado experimentalmente. Quando o mundo cientifico voltou à normalidade, depois da primeira guerra mundial, nos anos de 1920 a 1925, MORGAN já dispunha, em conjunto com os seus colaboradores, de experimentos baseados em cerca de dez milhões de moscas, pertencentes a mais ou menos 100 gerações. Os críticos se calaram dentro de pouco tempo e se tornaram adeptos da nova teoria, em vista do grande volume de material experimental que já antecipou as objeções. Mais e mais geneticistas se convenceram que muitos problemas somente podiam ser resolvidos por experimentos com a Drosophila e num pais após do outro se formaram novos núcleos de estudos com esta mosca.

Ao mesmo tempo, MORGAN nunca perdeu de vista o outro lado do problema do gen: da sua ação fisiológica, da variabilidade da ação fenotipica, e também da sua mutabilidade, isto é, da inconstância rara dos gens. Assim êle voltou-se no fim de sua vida, de novo, aos estudos sobre as relações entre a hereditariedade e evolução, de um lado e a autogenía de outro lado.

Para terminar este breve resumo devemos ainda mencionar o grande serviço que este cientista prestou ao seu pais com os seus trabalhos científicos. Há uns 40 a 50 anos, cientistas de renome se aperfeiçoavam em instituições européias e o próprio MORGAN esteve trabalhando durante dois anos (1904-05) na famosa Estação Biológica de Nápoles, dirigida pelo cientista alemão DOORN e que era um centro de pesquisas da embriología. Os resultados experimentais de THOMAS HUNT MORGAN e seus discípulos contribuíram para uma profunda mudança entre os biólogos e desde 1920 são poucos os geneticistas de todo mundo que nao procuraram os Estados Unidos para o seu aperfeiçoamento.

As suas obras fundamentais demonstram que o progresso cientifico não se basea em idéias fulminantes que de repente iluminam o céu científico para depois deixar às vezes uma escuridão mais profunda ainda. O progresso depende ao contrário do trabalho experimental laborioso e muitas vezes tedioso, pelo qual se obtém as bases seguras e as provas irrefutáveis das descobertas científicas.

 

 

Entregue para publicação em 29-1-46.

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