SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
 issue89Synopsis of the genus Lissonoschema (Coleoptera, Cerambycidae, Cerambycinae, Trachyderini)Feeding activity of juveniles of Loricariichthys anus (Siluriformes, Loricariidae) in the Quadros Lake, RS, Brasil author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Journal

Article

Indicators

Related links

Share


Iheringia. Série Zoologia

Print version ISSN 0073-4721

Iheringia, Sér. Zool.  no.89 Porto Alegre Nov. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0073-47212000000200005 

Descrição do girino de Odontophrynus Salvatori (Anura, Leptodactylidae)

 

Description of Odontophrynus Salvatori tadpole (Anura, Leptodactylidae)

 

 

Reuber Albuquerque BrandãoI; Cristiane Gomes BatistaII

IDepartamento de Ecologia, Universidade de Brasília, CEP 70910-900, Brasília, DF, Brasil (reuber@unb.br)
IILaboratório de Fisiologia Animal, Departamento de Ciências Fisiológicas, Instituto de Biologia, Universidade de Brasília, CEP 70910-900, Brasília, DF, Brasil (cbatista@unb.br)

 

 


ABSTRACT

The tadpole of Odontophrynus salvatori Caramaschi, 1996 is described from Chapada dos Veadeiros, State of Goiás, Brazil. The tadpole resembles those of the genus Proceratophrys Miranda-Ribeiro, 1920, mostly by depressive body in lateral view, small body size, and habitat use.

Keywords: Anura, Leptodactylidae, Odontophrynus salvatori, tadpole, Proceratophrys.


 

 

INTRODUÇÃO

A tribo Odontophrynini, da subfamília Telmatobiinae, engloba atualmente os gêneros Odontophrynus Reinhardt & Lütken, 1862 e Proceratophrys Miranda-Ribeiro, 1920, que são bastante relacionados entre si (PEIXOTO & CRUZ, 1980), e Macrogenioglottus Carvalho, 1946 (LYNCH, 1971). Embora o gênero monoespecífico Macrogenioglottus esteja bem definido na tribo, duas espécies atualmente alocadas em Odontophrynus apresentam algumas características comuns ao gênero Proceratophrys. Odontophrynus moratoi JIM & CARAMASCHI, 1980 e O. salvatori CARAMASCHI, 1996 possuem nasais sem contato com frontoparietais, ramo zigomático (embora alongado) sem sutura com o maxilar e frontoparietais não-exostosados, como as demais espécies desse gênero, mas apresentam tubérculos supranumerários nas superfícies tenares, superfície dorsal dos dedos e artelhos rugosa, ausência de glândulas paratóides e tibiais, de membranas interdigitais e de calosidades nupciais, como as demais espécies do gênero Proceratophrys (JIM & CARAMASCHI, 1980; CARAMASCHI, 1996). Ambas as espécies têm sido alocadas em um grupo distinto, pertencente a Odontophrynus (CARAMASCHI, 1996). A atual alocação genérica dessas espécies segue principalmente características osteológicas (LYNCH, 1971) que características de morfologia externa (SAVAGE & CEI, 1965). É necessário, portanto, o estudo da morfologia dos girinos, da ecologia, da genética e da vocalização (JIM & CARAMASCHI, 1980; CARAMASCHI, 1996; ROSSA-FERES & JIM, 1996), além de marcadores moleculares, para que seja possível definir satisfatoriamente o posicionamento taxonômico dessas duas espécies.

Os girinos de Odontophrynus e Proceratophrys compartilham várias características, como semelhanças nas estruturas bucais (fórmula dentária, formato e distribuição das papilas), formato do focinho e do corpo em vista dorsal (PEIXOTO & CRUZ, 1980; ROSSA-FERES & JIM, 1996). Os principais caracteres utilizados para diferenciar os girinos desses gêneros são o formato do corpo em vista lateral (mais deprimido em Proceratophrys e mais globular em Odontophrynus), a altura da nadadeira dorsal (mais baixa, aproximadamente da altura do corpo, em Proceratophrys e mais alta em Odontophrynus), o comprimento do corpo (menores em Proceratophrys e maiores em Odontophrynus), e o tipo de hábitat (girinos de Proceratophrys ocorrem principalmente em riachos e girinos de Odontophrynus ocorrem em poças) (ROSSA-FERES & JIM, 1996).

O girino de Odontophrynus moratoi, apresentado por ROSSA-FERES & JIM (1996), foi considerado mais próximo aos do gênero Proceratophrys, devido ao pequeno tamanho, formato do corpo deprimido/globular e ocorrência em riachos. Nesse trabalho é descrito o girino de O. salvatori, com base em exemplares coletados na localidade-tipo da espécie (Chapada dos Veadeiros, Goiás) e discutida a importância de caracteres dos girinos na alocação genérica destas espécies.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Quatro girinos, no estágio 37 (GOSNER, 1960) foram coletados em um riacho temporário, cerca de 5 km após a ponte sobre o rio dos Couros (aproximadamente 14°08'S, 47°32'W), na estrada que liga o município de Alto Paraíso de Goiás à vila de São Jorge, Estado de Goiás, em 21 de abril de 1998, e estão depositados na Coleção Antonio Sebben (AS-UnB lote 17), Departamento de Fisiologia Animal, Universidade de Brasília.

As características morfológicas utilizadas seguem ALTIG & JOHNSTON (1986) e JOHNSTON & ALTIG (1986). As comparações com girinos de Odontophrynus moratoi foram baseadas na descrição original (ROSSA-FERES & JIM, 1996) e em exemplares da Coleção Jorge Jim (JJ 6943 e JJ 6973), Departamento de Zoologia, Universidade Estadual Paulista, Botucatu, SP, Brasil. As medidas tomadas dos girinos de O. salvatori foram: comprimento total; altura, largura e comprimento do corpo; comprimento e altura da cauda; diâmetro do olho; distâncias: olho-narina, interocular, internasal, olho-focinho; largura do disco oral. As medidas foram tomadas com paquímetro digital (0,01 mm) e a identificação específica dos girinos foi feita a partir de jovens recém-metamorfoseados obtidos no campo e em laboratório. Também foram analisados 10 girinos de Proceratophrys goyana, coletados no rio São Miguel, Chapada dos Veadeiros, GO, em 19.Vll.1998 por R. A. Brandão (AS-UnB lote 22) e quatro de Odontophrynus cultripes coletados no córrego Mesquita, Município de Luziânia, GO, em 03.lX.1996 por R. A. Brandão e A. Sebben (AS-UnB lote 8).

Odontophrynus salvatori Caramaschi, 1996
(Figs. 1-3)

 



 

Descrição. Um girino em estágio 37 (GOSNER, 1960): corpo deprimido em vista lateral (fig. 1) e elíptico, em vista dorsal (fig. 2). Focinho arredondado; olhos grandes, dorsais e dirigidos lateralmente; narinas dorsais, reduzidas e redondas, com abertura na superfície do corpo; espiráculo sinistro, no terço médio do corpo, curto, sem margem livre; espiráculo fundido ao corpo com abertura elíptica dirigida dorso-posteriormente; tubo anal ventral dextro, fundido à cauda em toda sua extensão. Disco oral ântero-ventral, com única fileira de papilas marginais, interrompida na porção superior (fig. 3). Papilas largas, cônicas, arredondadas e bastante distintas. Fórmula dental 2(2)/3(1). A segunda fileira anterior de dentículos córneos com interrupção mediana, onde caberiam 6 dentículos. Primeira fileira posterior com interrupção onde caberiam 20 dentículos. Comprimento da terceira fileira posterior aproximadamente dois terços da segunda fileira posterior. Bico córneo intensamente pigmentado e finamente serrilhado. Peça superior levemente convexa; peça inferior em forma de U. Altura da cauda aproximadamente igual à altura do corpo (tab. I), com extremidade arredondada. Base da cauda larga, com musculatura evidente. Altura da nadadeira dorsal aproximadamente o dobro da nadadeira ventral, a qual é aproximadamente retilínea. A nadadeira dorsal estreita-se no terço final da cauda.

 

 

Em vida, coloração castanha uniforme, mais escura dorsalmente e mais clara ventralmente, sem manchas evidentes. Ventralmente, o intestino enovelado pode ser visto por transparência. Cauda castanho-translúcida com manchas arredondadas marrom-escuras nas nadadeiras dorsal, ventral e sobre o primeiro terço da musculatura. Fixado em formol, corpo castanho-escuro e cauda castanho-amarelada com manchas negras, arredondadas.

Jovens recém-metamorfoseados, obtidos em laboratório, mediam 13,59±0,84 mm (n=4) de comprimento rostro-cloacal e alguns exibiam fileiras de grânulos dorsais em forma de ampulheta (n=2) e colorido castanho-acinzentado.

O girino de Odontophrynus salvatori distingue-se do girino de O. moratoi pela coloração castanha uniforme do corpo, corpo mais elíptico em vista dorsal e deprimido em vista lateral, menor interrupção da segunda fileira anterior de dentículos, narinas reduzidas, além da distribuição geográfica distinta (Odontophrynus salvatori no Estado de Goiás e O. moratoi no Estado de São Paulo).

História Natural. Adultos de Odontophrynus salvatori foram observados vocalizando em área de cerrado sensu stricto (EITEN, 1994) próximos à sede do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, GO, durante noites chuvosas entre outubro e dezembro de 1996. Os indivíduos vocalizavam expostos, sobre litosolo. Os girinos foram encontrados em um pequeno riacho temporário com dimensões máximas de 100 cm de largura e 50 cm de profundidade, em cerrado sensu stricto com afloramentos de quartzito, próximo ao Parque. O riacho corria em local com cristas de afloramentos rochosos alternados com bacias de deposição de areia quartzosa. Em porções mais rasas, formava pequenas corredeiras sobre leito rochoso e nos locais mais profundos, onde os girinos foram encontrados, o leito era arenoso. Durante os meses de seca, o riacho desaparece, restando apenas a calha de drenagem. Na data de coleta dos exemplares, o riacho apresentava sinais de início de dessecação. Também foram observados adultos de barata d'água (Belostoma sp.), potenciais predadores dos girinos.

Distribuição. Além da localidade-tipo (Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, Município de Alto Paraíso de Goiás), Odontophrynus salvatori foi registrado também no Parque Estadual dos Pireneus (ca. 15º45'S, 48º50'W), Município de Pirenópolis, GO (AS-UnB 1388, AS-UnB 1410) e no Distrito Federal, na Estação Ecológica do Jardim Botânico de Brasília (ca. 15º55'S, 47º53'W) (AS-UnB 225), Estação Ecológica de Águas Emendadas (ca. 15º30'S, 47º35'W) (AS-UnB 379-380) e APA do Cafuringa, Poço Azul (ca. 15°35'S, 48°03'W) (AS-UnB 407-408; AS-UnB 1386-1387; AS-UnB 2099-2102). Todas estas localidades estão acima de 900 metros de altitude.

Discussão. O girino de Odontophrynus salvatori, devido ao seu corpo deprimido, pequeno tamanho e presença conhecida em riachos, se aproximaria mais dos girinos do gênero Proceratophrys, concordando com as informações de ROSSA-FERRES & JIM (1996) para o girino de O. moratoi, sugerindo que essas duas espécies estariam mais próximas do gênero Proceratophrys que do gênero Odontophrynus. No entanto, existem exceções nestas caracterísitcas (tab. II, modificada de ROSSA-FERES & JIM, 1996). O girino de Odontophrynus lavillai CEI, 1985 possui corpo deprimido/globuloso, como a maior parte das espécies de Proceratophrys, e é encontrado em riachos e poças. Girinos de O. lavillai, P. boiei (Wied-Neuwied, 1825), P. cururu ETEROVICK & SAZIMA, 1998 e P. goyana (Miranda-Ribeiro, 1937), se assemelham no formato do corpo e uso de habitat e o girino de P. palustris Giaretta & SAZIMA, 1993 possui corpo globuloso. Em relação ao menor tamanho dos girinos de Proceratophrys quando comparados aos de Odontophrynus, observa-se que os de P. goyana e P. cururu são semelhantes em tamanho aos de O. cultripes Reinhardt & Lütken, 1862. Adultos de O. cultripes vocalizando e girinos em diversos estágios já foram observados em riachos no Distrito Federal (A. Sebben e R. A. Brandão, obs. pess.).

 

 

Desta forma, os caracteres dos girinos utilizados para diferenciar os gêneros Proceratophrys e Odontophrynus são pouco conclusivos. Características morfológicas e ecológicas (uso de hábitat) podem estar relacionadas a outros fatores além da filogenia destas espécies. É necessária a construção da filogenia dos gêneros Proceratophrys e Odontophrynus com base em parâmetros como vocalização, ecologia e biologia molecular, além dos caracteres diagnósticos (osteologia e morfologia), para ser estabelecida uma satisfatória alocação genérica das espécies do grupo O. moratoi (O. moratoi e O. salvatori).

Agradecimentos. À Denise Rossa-Feres (Departamento de Zoologia, UNESP, São José do Rio Preto), Guarino R. Colli (Departamento de Zoologia, Universidade de Brasília), José Peres Pombal Jr. (Museu Nacional, Rio de Janeiro), Célio Haddad (Departamento de Zoologia, UNESP, Rio Claro) e Rogério Bastos (Universidade Federal de Goiás, Goiânia) pela leitura crítica do manuscrito. A Simone Carolina e Franciane Jordão pela confecção e montagem dos desenhos. Ao professor Antonio Sebben (Departamento de Ciências Fisiológicas, Universidade de Brasília) pelas sugestões e informações sobre a história natural de Odontophrynus cultripes. A Ulisses Caramaschi (Museu Nacional, Rio de Janeiro), pela verificação na identificação dos adultos de O. salvatori coletados fora da localidade-tipo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALTIG, R. & JOHNSTON, G. F. 1986. Major characteristics of free-living anuran tadpoles. Smithsonian Herp. Infor. Service, Washington, 67:1-75.         [ Links ]

CARAMASCHI, U. 1996. Nova espécie de Odontophrynus Reinhardt & Lutken 1862, do Brasil Central (Amphibia: Anura: Leptodactylidae). Bolm Mus. Nac., Nova Série, Zool., Rio de Janeiro, 367:1-8.         [ Links ]

CARAMASCHI, U. & VELOSA, A. 1997. Stombus precrenulatus Miranda-Ribeiro, 1937, a junior synonym of Proceratophrys schirchi (Miranda-Ribeiro, 1937) (Anura, Leptodactylidae). Copeia, Lawrence, 1997 (3): 629-631.         [ Links ]

EITEN, G. 1994. Vegetação. In: PINTO, M. N. ed. Cerrado - Caracterização, Ocupação e Perspectivas. Brasília, Editora Universidade de Brasília. p. 17-74.         [ Links ]

ETEROVICK, P. C. & SAZIMA, I. 1998. New species of Proceratophrys (Anura: Leptodactylidae) from Southeastern Brazil. Copeia, Lawrence, 1998 (1):159-164.         [ Links ]

GOSNER, K. L. 1960. A simplified table for staging anuran embryos and larvae with notes on identification. Herpetologica, Chicago, 16:183-190.         [ Links ]

JIM, J. & CARAMASCHI, U. 1980. Uma nova espécie de Odontophrynus da região de Botucatu, São Paulo, Brasil (Amphibia, Anura). Revta bras. Biol., Rio de Janeiro, 40(2):357-360.         [ Links ]

JOHNSTON, G. F. & ALTIG, R. 1986. Identification characteristics of anuran tadpoles. Herp. Review, Cincinnati, 17:36-37.         [ Links ]

LYNCH, J. D. 1971. Evolutionary relationships, osteology, and zoogeography of leptodactyloid frogs. Mus. Nat. Hist., Univ. Kansas, Misc. Publ., Lawrence, 53:3-283.         [ Links ]

PEIXOTO, O. L. & CRUZ, C. A. G. 1980. Observações sobre a larva de Proceratophrys appendiculata (Günther, 1873) (Amphibia, Anura, Leptodactylidae). Revta bras. Biol., Rio de Janeiro, 40(3):491-493.         [ Links ]

ROSSA-FERES, D. C. & JIM. J. 1996. Tadpole of Odontophrynus moratoi (Anura: Leptodactylidae). J. Herpetol., Cincinnati, 30(4):536-539.         [ Links ]

SAVAGE, J. M. & CEI, J. M. 1965. A review of the leptodactylid frog genus Odontophrynus. Herpetologica, Chicago, 21(3): 178-195.         [ Links ]

 

 

Recebido em 08.03.1999; aceito em 23.12.1999.

Creative Commons License All the contents of this journal, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution License