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Iheringia. Série Zoologia

versão impressa ISSN 0073-4721versão On-line ISSN 1678-4766

Iheringia, Sér. Zool. v.95 n.3 Porto Alegre set. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0073-47212005000300001 

Nova espécie de Mischonyx do estado do Rio de Janeiro, Brasil (Arachnida, Opiliones, Gonyleptidae)

 

A new species of Mischonyx of Rio de Janeiro State, Brazil (Arachnida, Opiliones, Gonyleptidae)

 

 

Eduardo G. Vasconcelos

Laboratório de Aracnologia, Departamento de Invertebrados, Museu Nacional-UFRJ, Quinta da Boa Vista s/n, São Cristóvão, 20940-040 Rio de Janeiro, RJ, Brasil. (e_vasconcelos@yahoo.com.br)

 

 


RESUMO

Mischonyx poeta sp. nov. (Gonyleptidae, Gonyleptinae) é descrita de Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro, Brasil. A nova espécie pode ser diagnosticada pela forma da apófise retrolateral do fêmur IV do macho, que possui faces anterior e posterior assimétricas. Mischonyx poeta sp. nov. é conhecida apenas da sua localidade tipo.

Palavras-chave: Mischonyx, Gonyleptidae, Mata Atlântica, Brasil, Mischonyx poeta sp. nov.


ABSTRACT

Mischonyx poeta sp. nov. (Gonyleptidae, Gonyleptinae) is described from Casimiro de Abreu, Rio de Janeiro state, Brazil. The new species can be diagnosed by the shape of retrolateral apophysis of femur IV of male, which has anterior and posterior faces asymmetric. Mischonyx poeta sp. nov. is known only from the type locality.

Keywords: Mischonyx, Gonyleptidae, Atlantic forest, Brazil, Mischonyx poeta sp. nov.


 

 

Gonyleptidae é a maior família de Laniatores, com quase 300 gêneros, a maioria dos quais com espécies que ocorrem na Mata Atlântica, como é o caso de Mischonyx Bertkau, 1880, composto por doze espécies distribuídas de Santa Catarina até o Rio de Janeiro (KURY, 2003).

As espécies de Mischonyx que ocorrem no estado do Rio de Janeiro são: M. cuspidatus (Roewer, 1913), M. fidelis (Mello-Leitão, 1931), M. holacanthus (Mello-Leitão, 1927), M. processigerus (Soares & Soares, 1970) e M. squalidus Bertkau, 1880. Mischonyx processigerus é conhecida apenas de Itatiaia. As outras espécies ocorrem na cidade do Rio de Janeiro e arredores, sendo que M. cuspidatus tem registros em toda a extensão da distribuição do gênero.

No presente trabalho, é descrita uma nova espécie de Mischonyx, baseada em exemplares coletados em Barra de São João, município de Casimiro de Abreu, no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, Brasil, pela equipe do Laboratório de Aracnologia do Museu Nacional.

O material estudado está depositado nas seguintes instituições: Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil (MNRJ); Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil (MZSP); Coleção Particular Hélia Soares, atualmente pertencente ao Museu Nacional (HEMS); Instituto Butantan, São Paulo, Brasil (IBSP) e Sektion Arachnologie, Naturmuseum Senckenberg, Frankfurt, Alemanha (SMF). Todas as medidas utilizadas se encontram em milímetros.

Mischonyx poeta sp. nov.

Etimologia. O nome refere-se ao poeta Casimiro de Abreu (1839-1860), nascido em Barra de São João, hoje município de Casimiro de Abreu. O poeta é um dos grandes nomes do movimento Romântico de segunda geração do Brasil.

Material tipo: Holótipo , Brasil, Rio de Janeiro: Casimiro de Abreu (Barra de São João, Fazendas Reunidas, 22º28'S 42º12'W, 17 m de altitude), 21-24.III.2003, E. G. Vasconcelos et al. col. (Expedição Arachné) (MNRJ 17460). Parátipos: , (IBSP 5162); 17 , 40 (MNRJ 17460); , (MZSP 23696); , , (SMF), todos com o mesmos dados do holótipo, 8 , 4 , mesmo local do holótipo, 21.III.1994, A. B. Kury, M. Khalil & A. Duran col. (MNRJ 6857).

Diagnose comparativa. A nova espécie diferencia-se de M. cuspidatus, M. fidelis, M. processigerus, Mischonyx insulanus (H. Soares, 1972) e Mischonyx kaisara Vasconcelos, 2004 por apresentar tergitos livres II e III sem espinhos. Mischonyx poeta sp. nov. diferencia-se de M. squalidus e M. holacanthus por apresentar tubérculos das bordas laterais de tamanho e distribuição não-uniformes e de Mischonyx anomalus (Mello-Leitão, 1936) e Mischonyx sulinus (Soares & Soares) pela ausência de esporão no fêmur III. De Mischonyx antiquus (Mello-Leitão, 1934) e Mischonyx intermedius (Mello-Leitão, 1935), a nova espécie se separa por possuir grandes tubérculos na área III. Mischonyx meridionalis (Mello-Leitão, 1927), conhecida apenas por uma fêmea, se diferencia da nova espécie por apresentar espinhos muito mais discretos nos ângulos anteriores da carapaça.

Medidas (n=11, ). Média (intervalo de variação). Comprimento 5,6 (5,0-5,9); comprimento da carapaça 1,9 (1,6- 2,1); largura da carapaça 2,5 (1,9-2,8); largura do abdome 5,1 (4,6-5,8); comprimento do fêmur IV 5,0 (4,4-5,6).

Medidas do holótipo. Comprimento 6,2; comprimento da carapaça 2,0; largura da carapaça 2,8; largura do abdome 5,6; pedipalpo: trocanter 0,5; fêmur 1,3; patela 0,6; tíbia 0,9; tarso 0,8; perna I: trocanter 0,5; fêmur 2,1; patela 0,9; tíbia 1,5; metatarso 2,6; tarso 1,6; perna II: trocanter 0,8; fêmur 4,8; patela 1,1; tíbia 3,4; metatarso 4,9; tarso 3,7; perna III: trocanter 0,8; fêmur 3,8; patela 1,1; tíbia 2,3; metatarso 4,2; tarso 1,7; perna IV: trocanter 1,0; fêmur 5,4; patela 1,4; tíbia 3,8; metatarso 6,8; tarso 1,9.

Fórmula tarsal: 6(3)/10-11(3)/7/8.

Dorso (Figs. 1, 2). Borda da carapaça com três pequenos espinhos nos ângulos anteriores. Elevação frontal com um par de espinhos. Cômoro ocular com dois espinhos. Áreas I e II com um par de tubérculos pequenos, os da área II pouco maiores. Área III com um par de grandes tubérculos ovais. Escudo abdominal com poucos grânulos, a maior parte concentrados na área III. Borda lateral do escudo abdominal com robustos tubérculos; os três últimos, mais robustos que os demais, algo fundidos entre si. Área posterior e tergitos livres com fileira de tubérculos.

 


 

Ventre. Coxas I e II com intensa granulação. Coxas III e IV com granulação menos intensa. Área estigmática em forma de T, estigmas bem visíveis. Opérculo anal com discreta granulação.

Quelícera (Fig. 3). Típica de Gonyleptinae.

Pedipalpos (Fig. 4). Fêmures inermes. Tíbias com dois espinhos retrolaterais (II) e dois prolaterais (II), tarsos com mesmo tipo de armação, os espinhos do tarso levemente menores que os da tíbia, os outros segmentos inermes.

Perna IV. Coxa muito granulosa, em vista dorsal, com robusta apófise externa e pequena apófise interna. Trocanter com uma pequena apófise prolateral romba. Fêmur IV (Figs. 5, 6) levemente sigmóide, com apófise dorso-basal discretamente procurva e apófise prolateral distal pontuda, de faces anterior e posterior assimétricas. Cinco fileiras de espinhos: prolateral, retrolateral, dorso-prolateral, dorso-retrolateral e ventral.

 



 

Coloração (em álcool 70%). Colorido geral castanho. Tubérculos das bordas laterais avermelhados.

Genitália do macho (Figs. 8, 9). O pênis segue o plano básico encontrado em Gonyleptinae (KURY, 1992). Placa ventral com depressão mediana pouco profunda em forma de um "U" aberto. Três setas nos lobos basais da placa ventral e três setas distais em cada lado da placa. Duas setas curtas látero-ventrais superiores em cada lado da placa e uma curta látero-ventral na altura dos lobos basais.

Descrição da fêmea (Fig. 7). Como ocorre na maioria dos gonileptíneos, a fêmea se caracteriza pela ausência da maioria das estruturas diagnósticas encontradas nos machos.

História natural. O local de coleta dos indivíduos é um pequeno fragmento de Mata Atlântica alterada. Os indivíduos foram coletados, durante o dia, debaixo de troncos caídos dentro da mata. Foram encontrados, em geral, em grupos de três a cinco indivíduos.

Discussão taxonômica. De acordo com a definição roeweriana (ROEWER, 1923), a qual foi seguida por MELLO-LEITÃO (1932) e SOARES & SOARES (1949), as espécies de Mischonyx (=Ilhaia Roewer, 1913) são caracterizadas principalmente por apresentarem cômoro ocular com dois espinhos, áreas opistossomáticas I, II e III com tubérculos, borda posterior com dois tubérculos ou espinhos ou um espinho mediano, tergito livre I com armação par ou ímpar e tergitos livres II e III com um espinho mediano. Tal definição não foi estritamente aplicada na inclusão de espécies no gênero. MELLO-LEITÃO (1935) descreveu Mischonyx intermedius (Mello-Leitão, 1935), espécie com tergitos livres I e II sem espinhos. SOARES & SOARES (1987) transferiram Geraecormobius parvus (Roewer, 1917), Xundarava holacantha Mello-Leitão, 1927 e Xundarava anomala Mello-Leitão, 1936, três espécies de tergitos livres inermes, para Ilhaia. Mischonyx poeta sp. nov. também não possui tergitos livres armados, entretanto apresenta tubérculos amarelo-avermelhados nas bordas laterais do abdome e um par de grandes tubérculos medianos na área III, características das espécies de Mischonyx, entre elas a espécie-tipo do gênero, M. squalidus, e possivelmente diagnósticos para Mischonyx.

Agradecimentos. Ao CNPq pela bolsa de mestrado. Ao M.Sc. Alessandro Giupponi e ao Dr. Adriano B. Kury pelas críticas ao manuscrito e ao Dr. Paulo Young (in memoriam) por possibilitar o uso de equipamento.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KURY, A. B. 1992. The false Cranainae of the Brazilian Atlantic Forest (Opiliones, Gonyleptidae). Tropical Zoology 5(2): 279-291.        [ Links ]

____ 2003. Annotated catalogue of the Laniatores of the New World (Arachnida, Opiliones). Revista Ibérica de Aracnologia, volumen especial monográfico 1:5-337.        [ Links ]

MELLO-LEITÃO, C. F. de 1932. Opiliões do Brasil. Revista do Museu Paulista 17(2):1-505.        [ Links ]

____ 1935. A propósito de alguns opiliões novos. Memórias do Instituto Butantan 9:369-411.        [ Links ]

ROEWER, C. F. 1923. Die Weberknechte der erde. Sistematische Bearbeitung der bisher bekannten Opiliones. Jena, Gustav Fisher. 1116 p.        [ Links ]

SOARES, B. A. M. & SOARES, H. E. M., 1949. Monografia dos gêneros de opiliões neotrópicos II. Arquivos de Zoologia do Estado de São Paulo 7(2):149-240.        [ Links ]

SOARES, H. E. M. & SOARES, B. A. M. 1987. Opera Opiliologica Varia. XVIII. (Opiliones, Cosmetidae e Gonyleptidae). Revista Brasileira de Entomologia 31(1):1-11.        [ Links ]

 

 

Recebido em agosto de 2004. Aceito em abril de 2005.

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