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Iheringia. Série Zoologia

Print version ISSN 0073-4721

Iheringia, Sér. Zool. vol.96 no.4 Porto Alegre Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0073-47212006000400011 

Crescimento somático do caranguejo-uçá Ucides cordatus (Crustacea, Brachyura, Ocypodidae) em laboratório

 

Somatic growth of the mangrove crab Ucides cordatus (Crustacea, Brachyura, Ocypodidae) in laboratory

 

 

Giovana V. Lima; Lídia M. Y. Oshiro

Estação de Biologia Marinha, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rua Sereder s/nº, Itacuruçá, Mangaratiba, 23880-000 Rio de Janeiro, Brasil. (giovalverde@yahoo.com.br; oshiro@ufrrj.br)

 

 


RESUMO

Em crustáceos, o aumento de tamanho ocorre imediatamente após a muda, quando o animal está com a carapaça mole. O crescimento de Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) foi observado em laboratório, através da ocorrência de muda, incremento de muda e período de intermuda. O estudo foi realizado durante os meses de outubro/2000 a março/2002 e um total de 91 caranguejos (15 machos, 33 fêmeas e 43 juvenis) foi coletado no manguezal de Itacuruçá – Coroa Grande, Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Os animais foram mantidos em dois tipos de tanques: os caranguejos adultos foram mantidos em tanques de 1000 l, durante 18 meses, enquanto os juvenis foram mantidos em tanques plásticos de 20 l de capacidade durante oito meses. Os animais foram mantidos em sistema aberto de circulação de água do mar e alimentados duas vezes por semana com folhas de Rhizophora mangle (L.) (Rhizophoraceae) e Laguncularia racemosa (Gaertn.) (Combretaceae). A largura da carapaça variou entre 50,1 a 70,0 mm nos machos, 40,2 a 80,0 mm entre as fêmeas e 1,1 a 40,1 mm entre os juvenis. A sobrevivência dos espécimes estudados foi de 46,7% entre os machos, 39,4% entre as fêmeas após dezoito meses e 67,4% entre os juvenis, após oito meses de observação. Os machos e as fêmeas realizaram três mudas durante o experimento, enquanto os juvenis realizaram até duas mudas. As mudas ocorreram entre agosto e abril, mostrando maior freqüência durante a primavera e o verão. O incremento na largura da carapaça diminuiu com o tamanho do indivíduo, com média de 2,21 ± 1,39% para os machos, 1,28 ± 0,84% para as fêmeas e 2,89 ± 2,13% para os juvenis. A relação entre o incremento percentual e a largura da carapaça pode ser expresso pela equação IM = -0.0707LC + 4.645 (r2= 0.40). O período de intermuda foi de 191 ± 140 dias entre os machos, 216 ± 76,2 dias entre as fêmeas e 54 ± 1,41 dia entre os juvenis. O incremento de muda foi estatisticamente significativo (p<0,05) quando comparados machos e fêmeas, e adultos e juvenis.

Palavras-chave: Crescimento somático, caranguejo, muda, incremento, período de intermuda.


ABSTRACT

In crustaceans, size increase occurs only immediately after molting when the animal is in the soft-shelled condition. The growth of Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) was observed in laboratory, through its occurrence of molt, percentual increment of size and intermolt period. The study was realized from October/2000 to March/2002 and a total of 91 crabs (15 males, 33 females and 43 juveniles) were sampled in Itacuruçá – Coroa Grande mangrove, State of Rio de Janeiro, Brazil. The animals were maintained in two types of containers: adult crabs were kept in containers of 1000 l capacity, during eighteen months; while the juveniles were kept in plastic containers of 20 l capacity during eight months. The crabs were maintained in flowing seawater and fed on frozen leaves of Rhizophora mangle (L.) (Rhizophoraceae) and Laguncularia racemosa (Gaertn.) (Combretaceae), twice a week. The carapace width ranged from 50.1 to 70.0 mm in males, 40.2 to 80.0 mm to females and 1.1 to 40.1 mm to juveniles. The survival rate of the specimens studied was of 46.7% for males, 39.4% for females after eighteen months and 67.4% for juveniles after eight months. The males and females molted up to three times during the experiment, while the juveniles molted up twice. Molts occurred between August and April, showing more frequency during spring and summer. The increment of carapace width decreased with size, with mean was 2.21 ± 1.39% for males, 1.28 ± 0.84% for females and 2.89 ± 2.13% for juveniles. The relationship between the percentual increment and the carapace width can be expressed by the equation IM = -0.0707LC + 4.645 (r2= 0.40). The intermolt period was 191 ± 140 days for males, 216 ± 76.2 days for females and 54 ± 1.41 days for juveniles. The percentual increment of size was statistically significant (p<0,05) when compared males and females, and adults and juveniles.

Keywords: Somatic growth, crab, molting, increment, intermolt period.


 

 

Os crustáceos apresentam um padrão de crescimento diferente dos demais animais, por apresentarem vários estágios de desenvolvimento, verificando-se aumento de tamanho somente ao longo de mudas sucessivas e antes da fase de calcificação da carapaça (HANCOCK & EDWARDS, 1967).

Segundo LOBÃO et al. (1996), a muda entre os crustáceos pode ser descrita como o processo de eliminação da carapaça antiga ou exoesqueleto, por um novo tegumento. Este novo tegumento, no entanto, é formado durante a pré-muda, para substituir a velha carapaça durante o processo de muda ou ecdise, permitindo, imediatamente após a liberação, o aumento de tamanho, pelo crescimento somático e pela absorção de água (HARTNOLL, 1988).

De acordo com HARTNOLL (1988), o incremento de muda e o período de intermuda representam os parâmetros que determinam a taxa e o tempo de crescimento entre os crustáceos, sendo a porcentagem de aumento no tamanho do animal entre as fases de pré-muda e pós-muda caracterizada como o incremento de muda, e o tempo gasto entre duas mudas sucessivas a fase denominada período de intermuda.

Entre os diferentes crustáceos decápodos de interesse comercial, alguns estudos em relação ao processo de muda já foram realizados, como os experimentos de HARTNOLL (1982, 1988) com Carcinus maenas (Linnaeus,1758) e outros braquiúros; TRAVIS (1954), com Panulirus argus (Latreille, 1804); THOMAS (1958), HEPPER (1967) e HEWETT (1974), com Homarus vulgaris H. Milne-Edwards, 1896; AIKEN (1973), com Homarus americanus H. Milne-Edwards, 1837; SMITH (1990), com Callinectes sapidus, Rathbun, 1896; (SARDÁ, 1983, 1985, 1991), com Nephrops norvegicus (Linnaeus, 1758); REID et al. (1997) com C. maenas e SILVA & OSHIRO (2002), com Goniopsis cruentata (Latreille, 1803).

Ucides cordatus (Linnaeus, 1763) é um caranguejo semi-terrestre pertencente à família Ocypodidae, conhecido popularmente como caranguejo-uçá ou verdadeiro, que se distribui no Oceano Atlântico Ocidental, da Florida (EUA) até o Estado de Santa Catarina (Brasil) (MELO, 1996). O caranguejo-uçá representa uma importante fonte de renda para as populações tradicionais caiçaras (NORDI, 1994), sendo o mais importante caranguejo comercial dos manguezais brasileiros (ALCÂNTARA-FILHO, 1978). De acordo com RODRIGUES et al. (2000), U. cordatus se destaca ecologicamente no ecossistema devido seu importante papel no revolvimento do solo e na reciclagem de nutrientes.

Vários trabalhos têm sido realizados sobre diferentes aspectos da biologia da espécie, como o desenvolvimento larval (RODRIGUES & HEBLING, 1989), reprodução (MOTA ALVES, 1975; IVO & VASCONCELOS, 2000; HATTORI & PINHEIRO, 2003; PINHEIRO et al., 2003; DALABONA et al., 2005), fisiologia (MOTA ALVES & MADEIRA, 1980; HARRIS & SANTOS, 2000), ecologia (OLIVEIRA, 1946; MAIA & PENNA, 1982), bioecologia (ALCÂNTARA FILHO, 1978; COSTA, 1979; CASTRO, 1986; BRANCO, 1993; BLANKENSTEYN et al., 1995) e crescimento (PINHEIRO et al., 2005).

Este trabalho objetiva verificar o crescimento somático de U. cordatus em laboratório, averiguando o incremento de muda, período de intermuda, número de mudas e o caráter dimórfico entre os sexos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os espécimes adultos foram coletados manualmente no manguezal de Itacuruçá – Coroa Grande, Mangaratiba, litoral sul do Estado do Rio de Janeiro, Brasil, durante o período de maré baixa por caranguejeiros locais; os juvenis foram obtidos também manualmente, vasculhando-se troncos e galhos de vegetação em decomposição no apicum do manguezal, junto a várias espécies de Uca e de Cardisoma guanhumi (Latreille, 1825). Após a captura, os animais foram transportados à Estação de Biologia Marinha da UFRRJ, onde os adultos foram mantidos durante dezoito meses (outubro/2000 a março/2002), e os juvenis por oito (julho/2001 a março/2002). Esse diferencial em relação ao período de observação entre juvenis e adultos ocorreu devido à obtenção dos indivíduos em diferentes datas de captura.

Foi capturado um total de 91 animais (48 adultos - 15 machos e 33 fêmeas - e 43 juvenis), os quais tiveram mensurada a largura da carapaça (LC= ao longo da extensão da região mesobranquial) com um paquímetro de 0,01 mm de precisão.

Os animais foram mantidos em dois tipos de tanques: os adultos, em tanques de cimento-amianto com 1000 litros de capacidade e os juvenis em tanques plásticos "caixas de peixe" de 20 litros, que permitiram melhor visualização e manuseio dos indivíduos menores. Todos os tanques apresentaram sistema aberto de circulação da água do mar, com nível aproximado de 5 a 10 cm de coluna d'água, suficiente para permitir a emersão completa dos animais em observação. Durante o experimento, não houve utilização de qualquer tipo de substrato nos tanques, apenas pedaços de tubos de PVC de diferentes diâmetros, utilizados como abrigos pelos espécimes.

Os caranguejos foram alimentados duas vezes por semana com folhas verdes e senescentes de Rhizophora mangle (L.) (Rhizophoraceae) e Laguncularia racemosa (Gaertn.) (Combretaceae). Nenhuma folha fornecida durante a alimentação foi retirada dos tanques de observação. Diariamente os tanques foram observados e os indivíduos que sofreram muda foram devidamente identificados, tomando-se a largura da carapaça após uma semana entre os animais adultos e dois dias entre os juvenis, depois de total calcificação do novo tegumento.

O incremento de muda foi expresso pela porcentagem do aumento da largura da carapaça após a muda [(LC pós-muda – LC pré-muda)/ LC pré-muda] x 100 e o período de intermuda determinado pelo tempo gasto, em dias, entre duas mudas consecutivas.

As relações entre o incremento de muda e o tamanho do animal e o período de intermuda e a largura da carapaça foram comparados em relação ao sexo e à maturidade, através do Teste "t" de Student, com 0,05% de significância.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A largura da carapaça do caranguejo no início do experimento variou entre 50,1 a 70,0 mm nos machos, 40,2 a 80,0 mm nas fêmeas e entre 1,1 a 40,1 mm nos juvenis (Fig. 1).

 

 

A sobrevivência da espécie em laboratório foi de 51,0%, embora os juvenis tenham apresentado maior sobrevivência durante os oito meses que ficaram sob observação (67,4%). Os machos sobreviveram numa taxa de 47,6%, enquanto nas fêmeas a sobrevivência foi de 39,4%. A mortalidade das fêmeas com relação aos machos foi maior ao longo dos quatro primeiros meses, verificando-se, em ambos os sexos, maior estabilidade na taxa de sobrevivência ao longo dos seis meses seguintes, voltando a reduzir nos meses finais de observação (Fig. 2). A alta mortalidade observada durante o período de confinamento provavelmente ocorreu devido às dificuldades durante a aquisição de cálcio e suplementos orgânicos para o endurecimento do novo tegumento (ADIYODI & ADIYODI, 1970), ou devido à quantidade insuficiente de alimento ou nutrientes na dieta do caranguejo durante o experimento (HARTNOLL, 1982).

 

 

OSTRENSKY et al. (1995) obtiveram durante 90 dias uma sobrevivência de 76% para exemplares de U. cordatus mantidos em diferentes ambientes, no laboratório e em cercos no manguezal. De acordo com esses autores, a mortalidade observada durante o estudo pode ter ocorrido devido à utilização de diferentes itens alimentares durante todo o experimento - folhas de mangue, alguns vegetais e peixes - lutas e até canibalismo durante o processo de muda. No presente estudo, em nenhum momento foi verificado canibalismo nos tanques de estudo, provavelmente devido à grande disponibilidade de abrigos compostos por pedaços de tubos de PVC, que serviram de esconderijos para os exemplares em confinamento, e à elevada quantidade de alimento fornecido.

Do total de caranguejos observados (15 machos, 33 fêmeas e 43 juvenis), 43 exemplares (47%) - 5 machos, 14 fêmeas e 24 juvenis - realizaram pelo menos uma muda em cativeiro. Os juvenis fizeram duas mudas durante os oito meses, enquanto os adultos realizaram até três mudas num período de mais dez meses. Apesar do curto período em laboratório, os caranguejos juvenis cresceram numa taxa maior que os animais adultos, provavelmente para desempenhar em curto prazo um importante papel no estoque reprodutivo da população ao atingirem a maturidade sexual (HARTNOLL, 1982; SASTRY, 1983). De acordo com LÓPEZ & RODRÍGUEZ (1998), Chasmagnathus granulata Dana, 1851 realiza mais de quatro mudas consecutivas, sendo mais freqüente três mudas no máximo, para atingir a maturidade sexual.

GERALDES & CALVENTI (1983) observaram que os exemplares menores de U. cordatus mantidos em condições de cativeiro podem mudar de carapaça até três vezes num período de seis meses, enquanto os animais maiores mudam apenas uma vez ao ano. Provavelmente a ocorrência de mudas sucessivas nos exemplares mantidos em laboratório pode ter sido favorecida pela disponibilidade e fluxo contínuo de água nos tanques de observação. De acordo com HARTNOLL (1988), a disponibilidade de água é mais importante do que a temperatura no processo de muda em caranguejos semi-terrestres, uma vez que há o risco de dessecação após a muda.

Ucides cordatus apresentou um padrão sazonal para realização do processo de muda, sugerindo uma preferência por meses mais quentes, principalmente naqueles correspondentes a primavera e verão, observando pico durante o mês de novembro. Durante os meses de baixa temperatura (maio, junho e julho), não foi observada a ocorrência de muda em cativeiro (Fig. 3). Os resultados obtidos corroboram as observações de PINHEIRO & FISCARELLI (2001), que mencionaram maior ocorrência de muda para a espécie durante os meses da primavera. Em todo o estudo, verificou-se que 88,3% das mudas foram realizadas ao longo do período matutino, sendo que 11,7% observadas entre os juvenis durante o período noturno. Estes resultados discordam das observações de BROEKHUYSEN (1941), HYATT (1948), GERALDES & CALVENTI (1983) e LÓPEZ & RODRÍGUEZ (1998), que estudaram, respectivamente, Cyclograpsus punctatus H. Milne-Edwards, 1837, Pachygrapsus crassipes Randall, 1839, U. cordatus e C. granulata. Tais trabalhos verificaram a ocorrência do processo de muda durante o período noturno, provavelmente para minimizar o efeito do canibalismo sobre indivíduos.

 

 

Por outro lado, a ausência de muda em temperaturas mais baixas é um processo conhecido entre os braquiúros (HYATT, 1948; BOSCHI et al., 1967; TSUCHIDA & WATANABE, 1997). BROEKHUYSEN (1941) relata, para C. punctatus observados na África do Sul, que a realização de mudas é rara entre os meses de maio e agosto, quando a temperatura é mais baixa. Em muitos crustáceos a freqüência de muda é influenciada por fatores sazonais, sendo que entre os organismos aquáticos a variação da temperatura é o principal fator estimulador de mudas (HARTNOLL, 1982).

Ao contrário do estudo de ADIYODI (1988), a muda é programada normalmente entre os machos a poucas semanas antes do processo de muda das fêmeas (Fig. 4). Este fato, provavelmente, não foi observado claramente devido ao dobro de exemplares fêmeas obtidos em relação aos indivíduos machos. Segundo HARTNOLL (1969), a cópula entre caranguejos geralmente envolve machos em estágio de intermuda e fêmeas em estágios de muda recente, sendo que os machos devem estar sexualmente maduros para garantir a transferência dos espermatóforos aos gonóporos das fêmeas (HARTNOLL, 1978; GONZÁLEZ-GURRIARÁN & FREIRE, 1985).

 

 

O percentual médio do incremento da carapaça foi de 2,09 ± 1,8%, verificando-se uma média de 2,9 ± 2,1% entre os juvenis, 2,2 ± 1,4% entre os machos e 1,3 ± 0,8% entre as fêmeas. Verificou-se, todavia, que o incremento de muda observado para U. cordatus apresentou diferença significativa (p<0,05) quando se compararam machos e fêmeas, bem como adultos e juvenis (Tab. I).

 

 

Dentre as espécies estudadas até então, o sexo parece não influenciar o percentual de incremento de muda, como em C. maenas (CROTHERS, 1967), Rhithropanopeus harrisii (Gould, 1841) (TUROBOYSKI, 1973), C. punctatus (BROEKHUYSEN, 1941) e G. cruentata (SILVA & OSHIRO, 2002). No entanto, o menor tamanho percentual em relação ao incremento de muda verificado para as fêmeas pode ser atribuído a uma reduzida longevidade desses indivíduos (HENNING, 1975), ou ainda devido ao menor crescimento somático atingido depois que o animal alcança a maturidade sexual (HARTNOLL, 1982).

OSTRENSKY et al. (1995) observaram um incremento médio de muda de 2,5% quando foi fornecida uma dieta à base de folhas de mangue aos indivíduos confinados, sendo este percentual similar ao obtido neste estudo. De acordo com MAUCHLINE (1976), o incremento de muda não depende somente da alimentação, mas da idade e do tamanho do exemplar analisado. Segundo HENNING (1975), C. guanhumi apresenta uma redução no incremento de muda de acordo com o tamanho do exemplar observado, sendo o incremento em torno de 10% para animais com largura da carapaça de 10 mm e de 5% para aqueles cuja largura excede 50 mm. Já para o grapsídeo Aratus pisonii (H. Milne-Edwards, 1837), o percentual de incremento para animais de 12 mm de largura encontra-se na faixa de 10%, enquanto os exemplares maiores crescem apenas 3% (WARNER, 1967).

A relação entre o incremento de muda (IM) e a largura da carapaça (LC) apresentou uma correlação negativa, diminuindo com o tamanho do animal (Fig. 5), podendo ser expressa pela equação: IM= -0,0707LC + 4,645 (r= 0,40). Essa diminuição no incremento de muda é comum entre os braquiúros, sendo igualmente observada em outras espécies como: P. crassipes, Hemigrapsus oregonensis (Dana, 1851) e H. nudus (Dana, 1851) por OLMSTED & BAUMBERGER (1923), A. pisonii por Warner (1967) e G. cruentata por Silva & Oshiro (2002).

 

 

PINHEIRO & FISCARELLI (2001) mencionam que U. cordatus tem apresentado uma extraordinária redução no crescimento, apesar do elevado tamanho apresentado pelos animais quando adultos. Em indivíduos mais jovens, a taxa de crescimento é mais rápida e diminui progressivamente com o alcance da maturidade sexual (TRAVIS, 1954; HANCOCK & EDWARDS, 1967; HARTNOLL, 1982).

A média do período de intermuda nos machos foi de 191 ± 140 dias (65 a 408 dias), 216 ± 76,2 dias (37 a 406 dias) entre as fêmeas e 54 ± 1,41 dias (22 a 227 dias) entre os juvenis, verificando-se uma diferença significativa entre os valores médios entre os indivíduos analisados (p<0,05) (Tab. I).

BOND & BUCKUP (1988), em estudos com Macrobrachium borelli (Nobili, 1896), bem como SILVA & OSHIRO (2002), com G. cruentata, constataram que o tamanho do animal interfere na duração do período de intermuda, observando-se um período menor entre os juvenis do que entre os animais de maior porte.

De acordo com CHITTLEBOROUGH (1975), outro fator que pode influenciar na duração do período de intermuda é a redução quali-quantitativa do alimento fornecido e ingerido pelos animais analisados. Durante observações com relação ao fornecimento de alimentos em Panulirus longipes (H. Milne-Edwards, 1868) em cativeiro, o autor verificou a ocorrência de muda em torno de 42 dias, quando manteve um fornecimento diário. No entanto, quando o alimento passou a ser fornecido durante duas vezes e/ou uma vez por semana, o crescimento somático observado passou a ocorrer num período maior de tempo, entre 51 e 79 dias, respectivamente.

Os resultados obtidos em laboratório para o caranguejo-uçá mostraram que o confinamento parece não inibir o crescimento, embora tenha ocorrido um reduzido crescimento somático ao longo de duas ou mais mudas sucessivas. A espécie apresentou crescimento lento, necessitando de maiores esforços para o manejo das populações naturais, uma vez que a manutenção em cativeiro é impraticável dado ao baixo incremento de muda e longo período para a ocorrência de mudas sucessivas.

Agradecimentos. À Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Processo E-26/172.013/1999), ao Sr. Casemiro Antônio Alves, pelo auxílio nas coletas de campo e nas atividades diárias e a Zilanda de Souza Silva, pela assistência durante a organização dos dados e alimentação dos animais.

 

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Recebido em abril de 2005. Aceito em agosto de 2006.