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Iheringia. Série Zoologia

Print version ISSN 0073-4721

Iheringia, Sér. Zool. vol.103 no.4 Porto Alegre Dec. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0073-47212013000400005 

Didelphis albiventris como indutor de germinação de Rapanea ferruginea (Myrcinaceae) em área de Cerrado, Mato Grosso do Sul, Brasil

 

Didelphis albiventris as germination inductors of Rapanea ferruginea (Myrcinaceae) in Cerrado area in Mato Grosso do Sul, Brazil

 

 

Ademir K. M. OliveiraI; Frederico T. F. LemeII

IUniversidade Anhanguera-Uniderp, Programa de Pós Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional, Caixa Postal 2153, 79031-320, Campo Grande, MS. (akmorbeckoliveira@gmail.com)
IIRua 26 de agosto, 2480. 79005-030, Bairro Amanbaí, Campo Grande, MS. (fredericotormin@yahoo.com.br)

 

 


ABSTRACT

Endozoochorism is one of the most important processes of seed dispersal in tropical rainforests, mostly dependent on birds and mammals, whose digestive systems cause chemical scarification and germination of the seeds passing through. The opossum Didelphis albiventris Lund, a small a small omnivorous and noctivagous mammal that feeds, among other plants, on Rapanea ferruginea (Ruiz et Pav.) (Myrsinaceae), an evergreen tree, heliophile, pioneer and hygrophilous. Considering the acknowledged importance of mutualistic dispersive processes, the aim of this experiment was to evaluate seed germination that passes through the digestive system of D. albiventris. The seeds were submitted to 6 treatments: (1) Controlling Group - non-treated seeds; (2) Sandpaper Group - scarificated seeds; (3) Digestive System Group - seeds that passed through the animal's digestive system; (4) Group pH 2; (5) Group pH 3; (6) Group pH 4. The results indicate that the scarification process is necessary to obtain higher germination rates and velocity for the studied species. The sandpaper treatments reached significantly different results than the Controlling Group, although it was lower than the others treatments. The Digestive System Group had the higher germination rate and velocity. These results indicate that D. albiventris can be considered a frugivorous inductor of R. ferruginea's germination rates and velocity.

Keywords: Seed dispersal, frugivory, endozoochorism, white-eared opossum, copororoca.


RESUMO

A endozoocoria é um dos processos mais importantes na dispersão de sementes em florestas tropicais, dependente em grande parte de aves e mamíferos, onde a passagem dos frutos pelo sistema digestório permite a escarificação química das sementes e sua germinação. Entre as diversas espécies consumidas por animais está Rapanea ferruginea Ruiz et Pav. (Myrsinaceae), uma árvore perenifólia, heliófila, higrófila e pioneira, cujos frutos são ingeridos pelo marsupial Didelphis albiventris Lund, um pequeno mamífero onívoro de hábito noturno. Levando-se em consideração a importância do conhecimento sobre os processos de mutualismo dispersivo, o objetivo neste experimento foi avaliar a germinação de sementes de R. ferruginea que passaram pelo sistema digestório de D. albiventris. As sementes foram submetidas a seis tratamentos: (1) Grupo-Controle - sementes sem tratamento; (2) Grupo Lixa - sementes escarificadas; (3) Grupo Sistema Digestório - sementes que passaram pelo sistema digestório dos animais; (4) Grupo pH 2; (5) Grupo pH 3; (6) Grupo pH4. Os resultados indicaram que o processo de escarificação foi necessário para a obtenção de maiores taxas e velocidades de germinação da espécie estudada. O tratamento com lixa alcançou resultados significativamente diferentes do Grupo Controle, porém inferiores aos demais tratamentos. O tratamento Grupo Sistema Digestório apresentou a maior taxa e velocidade de germinação. Estes resultados indicam que D. albiventris pode ser considerado um frugívoro indutor da taxa e velocidade de germinação de R. ferruginea.

Palavras-chave: Dispersão de sementes, frugivoria, endozoocoria, gambá-de-orelha-branca, copororoca.


 

 

Em florestas tropicais a dispersão de sementes depende, em grande parte, de mamíferos e aves (JORDANO, 1992). Dispersão é um processo dinâmico que tem grande influência nos padrões de distribuição dos indivíduos vegetais na comunidade e consiste no transporte e distribuição dos diásporos, podendo proporcionar o encontro de um local adequado para a germinação e estabelecimento das plântulas (FENNER, 1985; JORDANO, 1992), contribuindo para a manutenção de florestas e a recuperação de áreas que sofreram ação antrópica (GALINDO-GONZÁLEZ et al., 2000; GARCIA et al., 2000).

Entre os mecanismos de dispersão, a endozoocoria (dispersão com passagem pelo sistema digestório de animais), é um dos mais importantes e está incluída no processo ecológico conhecido como mutualismo dispersivo. Tal relação beneficia as espécies envolvidas, na qual os animais retiram dos frutos os nutrientes necessários à sua dieta e os vegetais tem seus propágulos dispersos e depositados a diferentes distâncias da planta genitora, o que diminui a competição com outros indivíduos estabelecidos e aumenta as taxas de germinação (PIJL, 1972; KUNZ, 1982; FENNER, 1985).

A passagem de alguns tipos de sementes pelo sistema digestório permite uma escarificação química sem danos à semente, propiciando trocas gasosas com o meio e/ou a eliminação de inibidores de germinação presentes, além de facilitar a penetração de água e a reativação dos processos metabólicos (METIVIER, 1986; TRAVESET & VERDÚ, 2002), podendo determinar a eficiência da germinação (KUNZ, 1982; KERBAUY, 2004).

Esta passagem pelo sistema digestório pode ou não aumentar a porcentagem de germinação, pois as diferentes espécies de plantas possuem respostas muito variáveis (BARNEA et al., 1991, 1992; LOMBARDI & MOTA JUNIOR, 1993), além das características do animal dispersor também poder interferir, pois sua estratégia de ingestão e digestão dos frutos e sementes pode ser diferente nas diferentes espécies (FENNER, 1985).

De acordo com FLEMING (1979) e HOWE & SMALLWOOD (1982), estima-se que 50 a 90% das espécies de árvores, entre pioneiras, secundárias e clímax encontradas em florestas tropicais, produzam frutos cujas sementes são dispersas por animais e a endozoocoria é a síndrome mais significativa (75% de ocorrência). A maior parte das pesquisas realizadas referem-se a aves e mamíferos, principalmente morcegos (e. g. ESTRADA & COATES-ESTRADA, 1991; BUSTAMANTE et al., 1992; FIGUEIREDO & PERIN, 1995; GRAHAM et al., 1995; BIZERRIL et al., 2005; BOCCHESE et al., 2007; FRANCISCO et al., 2007). Poucas informações tem sido registradas para síndromes de dispersão realizadas por pequenos mamíferos (CÁCERES & MONTEIRO-FILHO, 2007).

Entre as espécies arbóreas pioneiras encontradas em algumas regiões tropicais está Rapanea ferruginea (Ruiz et Pav.) (Myrcinaceae), conhecida popularmente como copororoca ou capororoca; é uma planta pereniforme, heliófita, seletiva higrófita principalmente em áreas ripárias, comum em formações secundárias, produzindo anualmente grande quantidade de frutos com baixas taxas de germinação, avidamente consumidos por várias espécies de animais, o que a torna importante em plantios mistos em áreas degradadas de preservação permanente (PINESCHI, 1990; LORENZI, 2008). ALMEIDA (2000) coloca que, quanto às condições ambientais, as espécies vegetais pioneiras em ambientes tropicais são menos exigentes à germinação em relação às espécies clímax, devido à sua capacidade de adaptação a ambientes variados.

O consumo de frutos e sementes por diferentes espécies de mamíferos, com posterior dispersão de sementes viáveis é relatada por diversos pesquisadores, como por exemplo, CÁCERES et al. (1999), que em pesquisa com o gambá-de-orelha-preta (Didelphis aurita Wied-Neuwied, 1826) consumindo frutos de cinco espécies de solanáceas, encontraram distâncias de dispersão entre 40 e 80 metros, com percentagens de germinação acima de 44% para todas as sementes que atravessaram seu sistema digestório. CÁCERES & MONTEIRO-FILHO (2000), ao trabalharem com a mesma espécie e 17 espécies de plantas, verificaram taxas de germinação de moderadas a elevadas, demonstrando que este marsupial geralmente não destrói as sementes encontradas nos frutos consumidos, podendo ser considerado um efetivo dispersor de sementes do Sul do Brasil.

Em outra contribuição, CÁCERES E MONTEIRO-FILHO (2007) registraram 28 tipos de frutos consumidos por D. aurita e D. albiventris Lund, 1840, revelando a importância destes marsupiais em programas de recuperação de áreas degradadas ou regeneração de áreas naturais.

Outras espécies de marsupiais, tais como Lutreolina crassicaudata (Desmarest, 1804) e Micoureus demerarae (Temminck, 1824), consideradas oportunistas, também consomem frutos de diferentes espécies, embora a maior parte de sua alimentação seja composta de artrópodes (CÁCERES et al., 2002). Da mesma maneira, CÁCERES (2004) demonstrou que Metachirus nudicaudatus (Desmarest, 1817) e Philander frenata (Olfers, 1818) são consumidores e dispersores ocasionais de sementes, enquanto D. aurita pode ser considerada como potencial consumidor e dispersor de sementes, mesmo que CÁCERES et al. (2009) e CEOTTO et al. (2009) afirmem que D. aurita seja uma espécie generalista que aproveita a maior oferta alimentar disponível naquele momento.

Porém existem poucas informações em relação à indução de germinação de algumas espécies vegetais pioneiras como R. ferruginea por mamíferos frugívoros, tais como D. albiventris, uma pequena espécie de hábito noturno, pesando usualmente entre 1 a 2 kg (CÁCERES & MONTEIRO-FILHO, 2007). É uma espécie generalista de hábitat (EISENBERG & REDFORD, 1999) e classificada como frugívora-onívora (FONSECA et al., 1996). Porém seu papel nos processos de dispersão e indução de germinação de sementes de florestas tropicais não é bem conhecido (CÁCERES & MONTEIRO-FILHO, 2007).

Levando-se em consideração as lacunas de informação sobre a interferência da endozoocoria nos processos de germinação de sementes de espécies pioneiras tropicais, este estudo teve como objetivo analisar a taxa e a velocidade de germinação de sementes de R. ferruginea, antes e após sua passagem pelo sistema digestório de indivíduos de D. albiventris, verificando a eficiência deste mamífero como possível indutor de germinação desta espécie vegetal.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Área de Estudo. Amostras fecais de D. albiventris foram coletadas na Área de Proteção Ambiental do Guariroba - Campo Grande, Mato Grosso do Sul, incluída no bioma Cerrado e composta por áreas de cerradão e cerrado, matas de várzea e ciliar e pastagens compostas predominantemente por Brachiaria spp. Entre as espécies vegetais nativas encontradas na região estão Aspidosperma discolor A. DC., Cedrela fissilis Vell., Chrysophyllum marginatum (Hook. & Arn.), Dimophandra mollis Benth., Lithrea molleoides (Vell.) Engl., Matayba guianensis Aubl., Tabebuia dura (Bur. & K. Schum.) Spreng. & Standl., Tapirira guianensis Aubl., Xylopia aromatica (Lam.) Mart., entre outras (OLIVEIRA et al., 2006).

O material fecal foi recolhido em área de mata ciliar (20°33'26"S e 54°23'54"W) em processo de sucessão secundária, com a ocorrência de espécies arbóreas vegetais pioneiras e secundárias (iniciais e tardias) tais como M. guianensis, Protium spruceanum (Benth.) Engl., T. guianensis, T. dura, Rapanea guianensis Aubl., Talauma ovata St. Hill., entre outras, ao final da estação chuvosa (abril/maio).

O clima da região é do tipo Aw, de acordo com a classificação de Koppen, com invernos secos e verões chuvosos. A precipitação pluvial média é em torno de 1.500 mm, com os meses de menor volume de chuvas entre junho e agosto (MATO GROSSO DO SUL, 1990).

Métodos de Amostragem. Fezes foram coletadas nas proximidades de árvores de R. ferruginea onde dois indivíduos de gambá de orelhas-brancas foram observados forrageando sobre seus frutos. As fezes foram guardadas em sacos de papel Kraft e encaminhadas para confirmação através da análise de pelos contidos, por meio de comparação com amostras recolhidas de animais da mesma espécie no Centro de Triagem de Animais Silvestres do Estado de Mato Grosso do Sul.

Após confirmação da espécie, foi feita a triagem das sementes, retiradas com o auxílio de pinça. As unidades fecais recolhidas (oito) foram reunidas e consideradas apenas uma amostra, pois não era possível identificar a qual animal pertenciam as amostras.

Os frutos maduros de R. ferruginea foram retirados de quatro árvores e também armazenados em sacos de papel Kraft, com um saco para cada árvore. O material coletado foi transportado para o Laboratório de Pesquisa em Sistemas Ambientais e Biodiversidade da Universidade Anhanguera - Uniderp, onde o experimento foi desenvolvido.

As sementes foram colocadas em placas de Petri forradas com duas folhas de papel filtro e umedecidas com uma solução aquosa do fungida Ranol a 0,1% e mantidas em câmara de germinação à temperatura de 26 °C, com períodos de doze horas de iluminação artificial (lâmpadas fluorescentes), divididas em grupos de 200 (quatro réplicas de 50 sementes cada) e submetidas a seis tratamentos: (1) Grupo-Controle (G.C.), com sementes sem tratamento; (2) Grupo Lixa (G.L.), com sementes escarificadas em lixa número 100; (3) Grupo Sistema Digestório (G.S.D), com sementes que passaram pelo sistema digestório dos animais; (4) Grupo Ácido Clorídrico a 0,01 N (G.A.0,01), com sementes tratadas com ácido (pH 2); (5) Grupo Ácido Clorídrico a 0,001 N (G.A.0,001), com sementes tratadas com ácido (pH 3); (6) Grupo Ácido Clorídrico a 0,0001 N (G.A.0,0001), com sementes tratadas com ácido (pH 4). Os tratamentos 0,01 N, 0,001 N e 0,0001 N com ácido (HCl) simularam uma possível concentração ácida do sistema digestório dos animais, com as sementes imersas em ácido por sete minutos e lavadas em água corrente por três minutos, seguindo procedimentos de BOCCHESE et al. (2007).

O experimento foi instalado em delineamento experimental inteiramente casualizado, com seis tratamentos e a contagem das sementes foi diária (tempo experimental de 51 dias), sendo consideradas germinadas quando ocorria a protrusão de 2,0 mm de raiz primária. Os dados foram analisados através do programa estatístico Bioestat 4.0 em nível de 5% de probabilidade e quando houve significância foi realizado o teste de média de Tukey, em nível de 5% (p<0,05).

Para verificar a velocidade de germinação das sementes, foi calculado o Índice de Velocidade de Germinação (IVG = G1/N1 + G2/N2+ ... + Gn/Nn) de cada grupo (MAGUIRE, 1962), onde G1, G2 e Gn = número de plântulas normais computadas na primeira, segunda e última contagem e N1, N2 e Nn = número de dias após a implantação do teste.

 

RESULTADOS

O Grupo Controle apresentou a menor taxa e velocidade de germinação, com os processos de escarificação sendo mais eficientes para induzir a germinação da espécie estudada (Tab. I).

 

 

O tratamento com lixa (G.L.) alcançou resultados melhores, significativamente diferentes do Grupo Controle (F = 326.2048; gl 5; p<0.01), porém inferiores aos demais tratamentos (Tab. I), indicando que a escarificação com lixa é menos eficaz para acelerar as taxas de germinação.

O Grupo Sistema Digestório apresentou as maiores taxas de germinação, seguido pelos tratamentos com HCl. O Grupo Sistema Digestório também apresentou a maior velocidade de germinação, significativamente diferentes (F = 1108.4500; gl 5; p<0,01) de todos os demais tratamentos (Tab. I).

A porcentagem acumulada de germinação (Fig. 1) demonstra que o tratamento G.S.D. iniciou o processo de germinação no primeiro dia do experimento, atingindo 25% das sementes germinadas no nono dia, enquanto os demais tratamentos iniciaram o processo de germinação entre o quinto e décimo dias.

 

 

DISCUSSÃO

Os dados obtidos indicam que em condições naturais a espécie deve possuir pequenos índices de germinação, sendo necessário algum tipo de escarificação para aumentar a taxa. LORENZI (2008) informa que em condições de casa telada, utilizando sementes sem tratamento, a taxa de germinação de R. ferruginea é baixa, ocorrendo entre 30 a 60 dias, resultados diferentes dos obtidos por este trabalho.

A utilização de lixa, a passagem pelo sistema digestório ou o tratamento com ácido resultaram em maiores taxas de germinação, embora a escarificação com lixa tenha resultado em menores taxas, provavelmente porque pode danificar partes vitais das sementes, inviabilizando a germinação.

A passagem pelo sistema digestório propiciou os melhores resultados, indicando a eficiência do marsupial como indutor de germinação. Os tratamentos com ácido, simulando a digestão, demonstraram a necessidade de escarificação química para a obtenção de maior germinabilidade para esta espécie.

Como a maioria dos vertebrados apresenta o estômago com um pH ótimo em torno de 2 a 3, devido à enzima pepsina, que, junto a células liberadoras de ácido clorídrico, promovem acidificação do estômago (SCHMIDT-NIELSEN, 1996), os tratamentos G.A.0,01, G.A.0,001 e G.A.0,0001 foram eficientes em quebrar a rigidez da testa das sementes, acelerando a germinação, embora a maior taxa de germinação e IVG tenham sido alcançados pelo G.S.D.

Em pesquisas realizadas analisando-se os processos de interação entre mamíferos e os frutos e sementes consumidos por estes, os resultados encontrados em relação à indução de germinação foram variados, indicando que as espécies animais possuem comportamentos distintos e nem todas podem ser consideradas como dispersoras eficazes.

Por exemplo, GALINDO-GONZALEZ et al. (2000) ao trabalharem com infrutescências de Cecropia peltata L. e C. obtusifolia Bertol. ingeridas por morcegos, PASSOS & PASSAMANI (2003) com Artibeus lituratus (Olfers, 1818) e infrutescências de Cecropia glaziovi Snethlage, BIZERRIL et al. (2005) com frutos Dimorphandra mollis Benth. e Tapirus terrestris (Linnaeus, 1758) e TANG et al. (2007), com sementes de duas espécies de Ficus ingeridas por morcegos, não encontraram diferenças significativas entre sementes germinadas de frutos frescos e após passagem pelo sistema digestório. Outros pesquisadores como BOCCHESE et al. (2007), ao abordarem infrutescências de Cecropia pachystachya Trécul ingeridas por A. lituratus e OLIVEIRA & LEMES (2010) com A. planirostris (Spix, 1823) e infrutescências de C. pachystachya e Ficus gomelleira Kth. et Bouché, registraram diferenças significativas nas taxas e velocidades de germinação, indicando que a ingestão das sementes aumenta a porcentagem e/ou velocidade da germinação.

Em pesquisas conduzidas com marsupiais, CÁCERES & MONTEIRO-FILHO (2000), com base em sementes de 17 espécies de plantas ingeridas por Didelphis aurita, indicaram que este é um efetivo dispersor de sementes; ainda, entre estas 17 espécies de sementes, 11 apresentaram taxas de germinação iguais ou superiores a 50%, após consumidas pelo marsupial. CÁCERES (2002), ao avaliar 11 diferentes tipos de sementes ingeridas por D. albiventris, verificou taxas de germinação superiores a 67% para seis espécies. Resultados similares foram apresentados por CÁCERES et al. (1999), ao abordarem D. aurita e sementes de seis espécies de solanáceas, das quais cinco germinaram com taxas acima de 56% após passagem pelo sistema digestório.

CÁCERES & MONTEIRO-FILHO (2007) estudaram D. albiventris e D. aurita e 14 espécies vegetais e obtiveram resultados significativos apenas para Rubus rosifolius, cujas sementes recolhidas das fezes tiveram maiores taxas de germinação que sementes controle.

O tratamento G.S.D. apresentou a maior velocidade de germinação (vigor), fator que pode ser importante para o estabelecimento da espécie em formações secundárias, facilitando o processo de sucessão ecológica. O período de seca na região de coleta se inicia em junho e por isso o rápido estabelecimento da plântula pode propiciar maiores taxas de sobrevivência para a espécie. De acordo com LORENZI (2008), a espécie possui um tempo de germinação longo e apresenta baixa taxa de germinação em campo, o que pode significar que, caso o vigor seja pequeno, com as sementes demorando muito tempo para germinar, as mesmas encontrarão condições desfavoráveis na seca para seu estabelecimento.

Este maior I.V.G. é resultado da soma dos efeitos da escarificação que permite trocas gasosas através do tegumento, eliminação de inibidores de germinação presentes e do material fecal ao redor da semente que age como fertilizante, propiciando maior velocidade de germinação (LISCI & PACINI, 1994; TRAVESET & VERDÚ, 2002; ROBERTSON et al., 2006).

Estes resultados estão de acordo com as colocações de CÁCERES et al. (1999), CÁCERES & MONTEIRO-FILHO (2000), CÁCERES (2002) e CÁCERES et al. (2002), entre outros, que afirmaram que diferentes espécies de marsupiais podem ser responsáveis pela manutenção do banco de sementes florestais ao dispersarem sementes a diferentes distâncias da planta-mãe, sendo considerados importantes instrumentos nos processos de regeneração de áreas - tanto naturais como antropizadas.

Desta maneira, Didelphis albiventris pode ser considerado um frugívoro dispersor de sementes de Rapanea ferruginea em áreas de formações ripárias de Cerrado, aumentando as porcentagens e velocidade de germinação de sementes ingeridas e excretadas.

Agradecimentos. À Universidade Anhanguera-Uniderp, pelo financiamento do projeto GIP (Grupo Interdisciplinar de Pesquisa) e à bolsa de Iniciação Científica (PIC) concedida e, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pela bolsa de produtividade.

 

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Recebido em 5 de agosto de 2013
Aceito em 26 de dezembro de 2013

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